A sogra trouxe o seu “presente” para o nosso quarto: como um retrato dourado quase destruiu o nosso refúgio e me fez perceber que, às vezes, é preciso devolver na mesma moeda para recuperar o nosso espaço — Quem tem razão: a nora que impõe limites ou a sogra que insiste em deixar a sua marca? E deve o marido tomar partido numa situação destas?

A sogra trouxe o seu presente para o nosso quarto. O quarto ficou exatamente como sempre sonhei. Paredes claras, cor de céu ao amanhecer, uma janela larga com vista para um pequeno jardim, cama de madeira clara com cabeceira de carvalho e uma cómoda baixa. Nada em excesso. Silêncio. Ar puro. Tranquilidade. Era finalmente o nosso espaço o primeiro de verdade depois de anos a viver de aluguer. Cheirava a tinta fresca, a novos tecidos, a conforto.

A sogra, Dona Leonor, veio cá pela primeira vez depois da remodelação, fitando cada divisão com ar de inspetora. Fez uns elogios apressados, acenou com aprovação, mas os seus olhos mostravam outra coisa uma espécie de insatisfação. Sentia-se, como se faltasse o seu toque.

Está giro, tem luz disse ela na sala. Mas falta qualquer coisa. Falta alma. Parece tudo demasiado impessoal.

Fiquei calada. Sabia que alma, para ela, queria dizer móveis pesados, tapetes sumptuosos, muitos bibelôs tudo o que nós evitámos propositadamente.

Uma semana depois, apareceu novamente com um grande embrulho
Sete dias depois, ali estava ela de novo, com um imenso pacote embrulhado num cobertor. O seu rosto iluminava-se de triunfo, como se viesse celebrar uma vitória.

Trouxe-vos algo muito importante anunciou, solene. Principalmente para o quarto. Aquela parede por cima da cama está muito vazia! Falta-lhe finalização!

Abriu o embrulho e vi um enorme retrato emoldurado em dourado. Era ela, de há uns anos, o meu marido como adolescente e o falecido pai dele. Uma imagem imponente, numa moldura pesada de luz dourada. Os olhares do quadro pareciam observar a divisão.

Para dar sorte explicou. Por cima da cama do casal tem de estar a família. Para proteger. Para lembrar as raízes.

Fiquei com tudo apertado dentro de mim. Olhei para o meu marido, Afonso. Ele riu, embaraçado, olhando para a sua versão juvenil na pintura.

Mãe obrigado, mas é tão grande e o estilo não é bem o nosso tentou ele explicar, hesitante.

Que estilo?! interrompeu ela. É a família! Família não se discute!

O Afonso calou-se de imediato. Olhou para mim os meus olhos pediam ajuda. Olhou para a mãe os seus olhos davam ordens. E, como sempre, preferiu o silêncio.

Querida a mãe faz isto com boa intenção. Vamos pendurá-lo se não gostarmos, depois tiramos.

Mas esse depois nunca chegou
O retrato ficou pendurado por cima da cama. E ali ficou.

Sempre que Dona Leonor vinha, espreitava logo o quarto, sorria satisfeita:

Agora sim, está com ambiente de família.

O Afonso depressa se habituou. As pessoas habituam-se a tudo. Ele deixou de notar o quadro.

Mas para mim, não era só uma pintura.
Era um sinal. Uma mensagem. Um lembrete de que nem o nosso quarto era totalmente nosso. Todas as manhãs, ao abrir os olhos, lá estava o retrato a olhar para mim.

A gota de água
Num jantar em casa dela, no seu aniversário, Dona Leonor voltou ao tema dos verdadeiros valores familiares. Diante de todos, disse:

Fico feliz por o meu filho e a nora terem finalmente casa. E eu também ajudei dei o meu contributo. O retrato da família está no quarto deles, como deve ser! Para nunca esquecerem o que importa!

Todos acenaram e sorriram. O Afonso também.

Esse aceno dele disse-me tudo.
Percebi que se esperasse que ele impusesse limites, nunca aconteceria. Ele preferia a paz, mesmo que à custa do meu espaço.

No dia seguinte, tomei uma decisão
Tinha uma amiga fotógrafa, Maria Inês, que fotografou o nosso casamento. Havia uma foto específica quase por acaso, mas reveladora: eu e o Afonso, a abraçarmo-nos e a beijar-nos, e a Dona Leonor, meio de fora, tentando entrar na imagem, mas ficando sempre à margem.

Levei a fotografia ao atelier.
Pedi para a ampliarem exatamente ao tamanho do retrato
E pedi a mesma moldura dourada, imponente, chamativa.

Quando ela voltou cá devolvi-lhe o gesto
Na próxima visita, enquanto Dona Leonor discursava na sala sobre o que devia haver numa casa, interrompi-a com toda a delicadeza:

Sogra, queria também lhe oferecer um presente. Em agradecimento pelo carinho e envolvimento no nosso lar.

Trouxe o grande embrulho e coloquei-o à frente dela.

O que é isto? perguntou ela logo, desconfiada.

Abra, vai perceber.

Ela desembrulhou e viu a enorme fotografia do nosso casamento. Eu e o Afonso à frente, felizes. Ela de lado, quase fora da imagem. Por baixo, mandei escrever:
Com amor, 12 de julho.

O silêncio tomou conta da sala.
A sogra ficou pálida, depois corou.

O que é isto?! disparou, tensa.

É a minha foto favorita do nosso casamento respondi com calma. Percebi que retratos têm importância. Se o seu está lá a lembrar-nos a família, este fica consigo a lembrar-lhe o nosso casamento. O filho tem a sua família.

Aí coloquei a escolha
Ela disse que não queria aquela foto em casa.

Acenei:

Compreendo. Então, por justiça se isso não é apropriado para o seu lar, também não creio que o seu retrato seja apropriado para o nosso quarto.

Entrei no quarto, subi ao banco e tirei o retrato da parede.
Virei-me:

Escolha. Ou ambos ficam. Ou ambos saem. Não pode haver regras diferentes para os mesmos limites.

Dona Leonor ficou uns segundos calada. Depois só disse, entre dentes:

Pronto tira.

Entreguei o retrato ao Afonso:

Ajuda a tua mãe a guardar isto. No sótão.

Epílogo
Na manhã seguinte, a parede sobre a cama estava vazia.
E, pela primeira vez em muito tempo, o quarto voltou a ser só nosso.

Por vezes, a justiça não é feita aos gritos. Por vezes surge apenas ao mostrarmos ao outro as suas próprias atitudes vistas do lado de cá.

E você, o que faria no meu lugar?
Aceitaria o presente e a intromissão para manter a paz
ou traçaria o seu limite logo mesmo arriscando o conflito?
Quem tem razão a mulher ou a sogra?
E será que um marido deve proteger a sua mulher nestas situações?

Talvez, na vida em família, respeitar o espaço do outro seja o maior presente que podemos dar.

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A sogra trouxe o seu “presente” para o nosso quarto: como um retrato dourado quase destruiu o nosso refúgio e me fez perceber que, às vezes, é preciso devolver na mesma moeda para recuperar o nosso espaço — Quem tem razão: a nora que impõe limites ou a sogra que insiste em deixar a sua marca? E deve o marido tomar partido numa situação destas?
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