— Quem é você?!

Quem é você?!
Lurdes ficou paralisada na porta do seu apartamento, sem acreditar no que via.

Em pé diante dela, uma mulher de uns trinta anos, com um rabo de cavalo discreto, e atrás da sua cintura duas crianças um menino e uma menina observavam a inesperada visita com curiosidade.

No corredor jaziam chinelos alheios, penduradas na cômoda casacas que não lhe pertenciam, e da cozinha vinha o aroma característico de caldo verde.

E vocês quem são? a mulher franziu a testa, apertando instintivamente a criança mais nova contra o peito. Nós moramos aqui. O José nos deixou entrar. Ele disse que a dona não se opunha.

ESTA É MINHA APARTAMENTO! a voz de Lurdes tremia de indignação. E eu nunca autorizei ninguém a viver aqui!

A mulher piscou, confusa, vasculhando os brinquedos espalhados no chão, a cozinha onde ainda secava roupa infantil, como se procurasse alguma prova do direito dela sobre o imóvel.

Mas o José da Silva disse Nós somos parentes Ele garantiu que a senhora não se importava Que a senhora é boa e compreensiva

Lurdes sentiu um misto de revolta e choque, como se lhe derramassem um balde de água fria na cabeça.

Fechou a porta devagar e recostouse contra ela, tentando organizar os pensamentos. O seu lar, o seu espaço, a sua vida e, de repente, ela se sentia estranha naquele próprio cantinho

Um ano antes tudo era bem diferente. Lurdes desfrutava de umas férias merecidas nas praias do Algarve, depois de concluir um projeto complicado de reabilitação de um edifício histórico no centro de Lisboa.

Aos trinta e quatro anos, era uma arquiteta de sucesso, acostumada a contar apenas consigo mesma.

A carreira absorvia a maior parte dos seus dias, e não se queixava o trabalho dava prazer e um salário estável e confortável.

Conhecera José numa noite quente de agosto, à beira do rio Tejo. Era um homem encantador, um pouco mais velho, com um sorriso caloroso e olhos castanhos atentos.

Divorciado há três anos, pai de duas crianças um menino de dez e uma menina de sete trabalhava como encarregado numa grande empresa de construção.

José cortejava à moda antiga: flores diárias, jantares à beira do mar, longas caminhadas à luz das estrelas.

Tu és especial, dizia ele, beijando-lhe delicadamente a mão. Inteligente, independente, bonita. Não encontrava mulher tão completa assim. Sabes bem o que queres da vida.

Lurdes derretia ao ouvir aquelas palavras e a atenção dele. Depois de várias desventuras amorosas com homens que temiam o seu sucesso ou tentavam competir com ela, José parecia um presente do destino.

Respeitava o seu trabalho, questionava os projetos com interesse, apoiavaa nos momentos difíceis, quando os clientes exigiam o impossível.

Gosto de ver-te forte, dizia ele. Mas ainda assim feminina, dócil e sensível.

As férias terminaram, mas o romance continuou. José vinha a Lisboa; Lurdes ia ao Porto. Chamadas de vídeo, mensagens, planos para o futuro.

Oito meses depois, ele fez o pedido de casamento exatamente no mesmo local onde se conheceram.

O casamento foi simples, mas caloroso. Lurdes mudouse para o Porto, juntouse ao marido e passou a trabalhar numa oficina de arquitetura local, deixando o apartamento de Lisboa vazio.

Agora somos uma família, dizia ele, abraçandoa forte. Os meus filhos são também os teus, os meus problemas são os teus. Vamos ultrapassar tudo juntos.

No início Lurdes sentiase feliz. Gostava da sensação de família verdadeira, do calor do lar, das vozes das crianças a ecoarem na casa.

Ajudava José com os filhos, comprava presentes, pagava aulas de música e natação, levavaos ao médico.

Mas, aos poucos, as coisas começaram a mudar.

Primeiro foram pequenos detalhes José tirava dinheiro do cartão dela sem avisar. Esqueci de pedir, desculpa, dizia quando Lurdes via a fatura.

Depois passou a pedir ajuda com a pensão da exesposa.

Tu percebes, dizia ele, abanando as mãos com um sorriso culpado. As crianças não são responsáveis por o salário não ter sido suficiente neste mês.

E eu estou a ter problemas no trabalho, o pagamento atrasou, ele acrescentava.

Lurdes compreendia e queria ajudar. Amava José e era afeiçoada às crianças.

Mas os pedidos tornaramse frequentes e cada vez maiores

Pagar a viagem das crianças à avó em Coimbra, comprar roupas de inverno, pagar o campismo de verão, contratar um tutor de matemática.

O pior foi quando José começou a transferir dinheiro para a exesposa diretamente do cartão de Lurdes, sem nenhum aviso.

São os nossos filhos agora, justificava ele quando Lurdes se irritava ao descobrir mais uma transferência. Tu os adoras.

E o teu salário é maior que o meu. Não faz diferença? ele dizia.

Não é questão de quem paga mais, respondeu Lurdes, firme. São os meus recursos, e tu deverias ao menos discutir comigo antes.

Claro, claro. Na próxima eu pergunto.

Mas a próxima foi idêntica à anterior.

Lurdes começou a sentirse mais um cofre ambulante do que esposa e parceira. Não lhe pediam opinião; simplesmente lhe impunham fatos.

Sempre que tentava contestar o orçamento familiar, José acusavaa de mesquinha, egoísta e de não querer ser uma verdadeira família.

Eu pensei que eras diferente, dizia ele, amargurado. Pensei que o dinheiro não fosse importante para ti

Num dia de maio, quando decidiu visitar a mãe enferma no Alentejo e, ao mesmo tempo, passar pelo seu antigo apartamento em Lisboa para verificar o imóvel, Lurdes ainda esperava que as coisas se resolvessem.

Talvez um pequeno afastamento ajudasse ambos a repensar a relação e encontrar um compromisso.

Mas o que encontrou no apartamento superou até as suas piores expectativas.

O espaço era um caos habitado. Na cozinha, louça empilhada; no banheiro, roupa de outra família a secar; no quarto, um berço infantil.

Sobre a mesa havia contas de água, luz e gás, ainda não pagas, somando cerca de 300.

Há quanto tempo vivem aqui? perguntou Lurdes, tentando manter a calma.

Já há três meses, respondeu a mulher, ainda sem perceber a gravidade. O José da Silva disse que podiam ficar até encontrarem outro lugar.

Pagamos, claro. 150 por mês. Ele disse que a senhora tem um coração enorme.

Lurdes pegou o telemóvel, os dedos tremendo de raiva, e disparou para o marido.

José, não me perguntaste nada antes de colocar uma família na minha casa?! soltou antes mesmo de cumprimentar. E onde está o dinheiro do aluguer? 500 pelos três meses!

Lurdes, calma a voz de José soava culpada e justificativa. São parentes distantes, a Sílvia e os miúdos. As crianças são pequenas, não tinham onde ficar.

Você nem mora aqui. Não vai ajudar alguém? O dinheiro que eu guardava era para as nossas férias na Turquia, queria surpreender-te.

Nesse instante algo dentro de Lurdes quebrou de vez. Não por raiva, mas por uma compreensão fria e clara.

Entendeu que, para José, ela era apenas um recurso conveniente.

O apartamento, o dinheiro, a vida tudo ao seu dispor, sem que ele considerasse a opinião dela.

José, disse, a voz baixa mas com firmeza de ferro. Dá-lhes uma semana para desocupar o meu apartamento.

Lurdes, estás a perder a cabeça? a voz dele ficou aguda. As crianças! Onde vão? És cruel?

Não são os meus problemas. Uma semana. E quero todo o dinheiro do aluguer.

Como ousas! És a minha esposa, somos família!

Não comeces! Numa família normal, todos dão a sua opinião, não impõem fatos.

Desligou o telefone e voltouse para a mulher, que ainda ouvira a conversa em choque.

Lamento muito, disse Lurdes, com verdadeira compaixão. Mas têm de sair. Ninguém pediu a minha permissão.

Os dias seguintes foram de ação. Lurdes chamou um serralheiro e trocou as fechaduras.

Recorreu a um advogado para regularizar o divórcio e dividir as finanças.

Bloqueou o acesso de José às suas contas e cartões.

Ele ligava todos os dias, implorando, acusando, tentando apelar à piedade.

Eu acreditava que éramos uma família de verdade, dizia, a voz quase a desfalecer. Uma equipa, que me amavas de verdade.

Pensaste que podias usar o meu património sem consentimento, respondeu Lurdes serenamente. Mas não era assim.

És uma mulher sem coração! Quebraste a família por dinheiro!

A família a que te referes foste tu quem destruiu ao ignorar a minha opinião.

O divórcio foi rápido quase não havia bens a partilhar, nem as crianças a dividir.

José devolveu parte do dinheiro que tinha gasto com os parentes, mas não tudo.

Lurdes não arrastou o processo nos tribunais queria fechar esse capítulo doloroso o quanto antes.

Vais arrependerte, disse José no último encontro no cartório. Vais ficar sozinha, ninguém te quer. Quem quer uma mulher tão dura?

Eu sou a única que me preciso, respondeu Lurdes, tranquila. E isso basta.

Com as formalidades concluídas, juntou as suas coisas e partiu, deixando para trás o marido, o mar e os problemas.

No comboio, observando as paisagens que passavam pela janela, não pensava no amor perdido, mas na importância de não se perder a si própria dentro de um romance.

E, sobretudo, lembrava que o amor verdadeiro não exige sacrifícios nem autonegações.

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— Quem é você?!
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