A amante do meu marido era deslumbrante. Se eu fosse homem, teria escolhido alguém exatamente assim. Sabe aquelas mulheres que conhecem o próprio valor? Caminham com dignidade, olham de frente, ouvem com atenção. Não fazem movimentos apressados, não precisam mostrar o corpo para chamar atenção, são serenas, quase majestosas, e nunca se desesperam. Eu mesma a teria escolhido – tão diferente de mim. Porque eu? Sempre apressada, ralhando com os filhos e o marido, tudo me cai das mãos, não dou conta do trabalho, o chefe não está satisfeito. Ando sempre de calças e t-shirt ou camisola, porque passar um vestido ou blusa dá uma trabalheira. Já nem me lembro da última vez que passei uns folhos. Felizmente a minha máquina de secar resolve quase tudo, o ferro já quase não serve para nada. E a amante – maravilhosa. Que corpo, postura, pernas, cabelo, olhos, rosto… até perdi o fôlego! E para dizer a verdade, desde que descobri, nunca mais voltei a respirar fundo. Ou melhor, desde que vi. Foi por acaso: estava a trabalhar num bairro afastado da cidade, entrei num café qualquer para almoçar. O trabalho estava feito, a fome não esperava. Num canto, sento-me, escolho o menu, levanto o olhar. Não, não era ilusão. Reconheci logo o meu marido, mesmo de costas. E vi-a. Ele segurava as mãos dela dentro das dele e beijava-lhe os dedos. Que cena ridícula, pensei eu. “Os teus dedos cheiram a incenso”… Mas, honestamente, a mulher era mesmo bonita. Fiquei num estado estranho. Como quando se vê uma queimadura: sabes que a dor está para vir, mas ainda só sentes aquela antecipação sufocante. Para aliviar o futuro sofrimento, tentas soprar para a pele vermelha… Devia doer. Mas por dentro estava vazia. Nem dor. O marido voltou a tempo. Sempre bem-disposto, equilibrado. Eu é que perco logo a calma, estou sempre a correr, a apressar os outros. Ele sempre foi um sanguíneo, calmo, com sentido de humor. Até dava jeito aquele humor agora. O meu não serve nesta situação. Deu-me vontade de perguntar durante o jantar, num tom neutro: “Então, e a tua amante? Vi-vos naquele café novo, em Benfica, ela é mesmo bonita, percebo-te… eu próprio/ia não resistiria!” Perguntar e saborear enquanto ele suava, ficava vermelho e tentava disfarçar. E ainda continuar: “E agora, o que sugeres? Vais apresentar os miúdos à nova ‘mãe’, ou eu conto? Ela tem onde morar ou vem morar connosco?” Nada disto aconteceu. O meu marido fez o habitual: abraçou-me na cama, puxou-me para junto de si e adormeceu em segundos. Talvez ainda não tenham chegado lá, pensei eu, afastando-me na cama. Talvez esteja só na fase da atração, dos sorrisos cúmplices e do mesmo ritmo na respiração. Ele sempre foi cuidadoso – um verdadeiro mestre da dissimulação, não denuncia um músculo! Revirei-me, dormi aos bocados, sonhei com flores vivas e amantes em vestidos vermelhos. Acordei de cabeça pesada, mais lenta do que o costume, preparei as crianças para a escola. O tempo todo a pensar: o que faço? O que uma mulher faz quando apanha o marido com outra? Pesquisar no Google? O Google não ajudou. E eu também não tinha respostas. Experimento seguir com a vida? Mas já é isso que faço. O de sempre: marido a chegar a horas, sem batom na camisa nem cheiro de perfume estranho, miúdos animados, cinema ao domingo. Nenhum comportamento mudou. O mesmo sexo duas vezes por semana. Às vezes três, detalhes contam. Talvez me tenha enganado no café? Não me enganei. Liguei-lhe na hora do almoço, ele não atendeu. Fui de táxi ao mesmo café. Inventei ao taxista que ia buscar um ‘envelope importante do trabalho’. O carro do marido estava lá, do outro lado da rua. Ele e a amante saíram juntos, entraram no carro e partiram. Fiquei branca, pedi água ao taxista, fingi ligar a alguém: “Olhem, deixo o vosso pacote, tenho de voltar para o trabalho!” Afinal ainda me importa o que um desconhecido acha de mim. Saber de uma amante muda tudo. Divórcio? Talvez seja o caminho. Como viver assim? Suportar? Para quê? Lembrei-me de um casal amigo, há uns anos. O marido teve uma amante, tentou esconder, mas a mulher descobriu. Escândalo, ele negou até ao fim, mesmo com provas no telemóvel. Dizia que tinham sido hackers invejosos. Nessa altura, o meu marido afirmou: “Eu nunca mentiria. É cobarde. Se fizeste, tens de assumir. Ou cortas com a amante ou segues com ela, mas assegura a família.” Na altura, até me orgulhei dele. Fácil resolver a situação dos outros. À distância. Quando não és tu o protagonista. Mas depois vês a mulher e a amante à tua frente, coragem e tom firme evaporam. No mesmo café, sentei-me à mesa deles. A amante olhou, surpresa. O marido ficou estático. Silêncio. Até achei graça à cena. A amante percebeu logo quem eu era. Ou talvez já soubesse. O marido quis dizer qualquer coisa, mas eu fiz sinal para parar: “Isto não é o que parece, não é? Sabe, nem sequer me surpreende. Acontece. Agora pensem como vão resolver – temos filhos, casa em comum, pais idosos. Vocês são inteligentes, hão-de dar um jeito.” Levantei-me com calma e saí. O vestido bem passado ficava-me mesmo bem. Não sei porque deixei de o usar.

A amante do marido era um espanto, juro-te. Se eu fosse homem, também a teria escolhido, a sério. Sabes aquelas mulheres que, mal entram numa sala, já toda a gente percebe que elas se conhecem bem e não andam ali a pedinchar atenção? Caminham de cabeça erguida, olham-nos nos olhos sem medo, ouvem-nos sem pressa. Não se agitam para nada, não precisam de decotes ou costas à mostra, mantêm uma calma quase nobre, nunca as vês aflitas ou em stress.

Olha, eu a compreendo, até porque ela era o meu completo oposto. Se fosse eu, também teria fugido de uma como eu. Eu ando sempre num corre-corre, a ralhar ora com os miúdos ora com o marido, vazo tudo das mãos, nunca dou conta de tudo, é o trabalho a rebentar pelas costuras, os chefes sempre com cara de poucos amigos. Ando sempre com as mesmas calças e uma t-shirt ou camisola qualquer. Passar um vestido ou uma blusa já era olha, nem me lembro da última vez que me meti nisso, graças à secadora nova que deixa tudo passadinho, já nem preciso do ferro.

E a amante era deslumbrante. Figura, postura, pernas, cabelo, olhos, rosto… tirava o fôlego! Desde que soube quer dizer, desde que a vi que não respiro direito. E foi mesmo por acaso. Estava a fazer um trabalho num bairro ali de Lisboa, já para o lado de Alvalade, e fui a um café qualquer encher o estômago. O trabalho já estava feito e a fome é que não espera, não é? O café estava cheio mas ainda consegui um cantinho livre. Sentei-me, peguei no menu, levantei os olhos e zás não era engano! Vi logo o meu marido, mesmo de costas. E vi-a a ela.

Ele segurava-lhe as mãos, beijava-lhe os dedos. Achei uma pirosice, tipo os teus dedos cheiram a alecrim, mas não te vou mentir: ela era mesmo gira. Daquelas mulheres bonitas, de verdade.

Fiquei num estado estranho, como quando te queimam: ainda não dói, mas sabes que vai doer em segundos, e até lá sopras para ver se passa. Só que ali, nem uma dor, nem nada, só um vazio enorme cá dentro.

O marido chegou a casa à hora do costume. Sempre foi tranquilo, bem-disposto. Quem se passava com tudo era eu, ele era sereno, com aquele humor bom que toda a gente adora.

Enfim, se calhar era desta que precisava do sentido de humor dele, mas naquele momento só me apetecia era mandá-lo às urtigas. Passei o serão tentada a perguntar-lhe assim, sem expressão: então, e a tua amante? Vi-vos outro dia no café da Avenida, está bem arranjada, olha, percebo-te, também não resistia…

Queria ver o suor na testa dele, ficar ali a ver-lhe o pânico na cara. Se calhar ainda lhe mandava: então e agora? Vais apresentar os miúdos? Eles têm de gostar da nova mamã, e eu? Vou para onde? Ou ela já tem casa ou vêm cá para casa os dois?

Mas não disse nada. Ele aninhou-se ao meu lado na cama, abraçou-me, e adormeceu em três tempos.

Vai-se a ver, ainda nem chegaram aos lençóis, pensei eu, enquanto me afastava devagarito para o meu lado da cama. E acaba-se a rir para dentro, imagina! Já estou a pensar como aquelas mulheres traídas que dizem que não foi nada mas têm a certeza que foi mesmo à frente delas.

Se calhar ainda era tudo inocente, só complicidade, uma fase nova, respiração ao mesmo ritmo, olhares cúmplices. Lá que ele disfarça bem, disfarça.

Passei a noite às voltas, acordei cansada, fiz tudo em câmara lenta: levei os miúdos à escola, preparei os lanches, sempre a pensar no que fazer. O que fazem as mulheres que apanham os maridos com amantes? Procurei no Google e não me adiantou nada. Não tinha respostas nenhumas. Continuar a vida? Mas continuar ainda mais como? Se já é isto que estou a fazer! O costume de sempre marido a chegar a horas, sem batons estranhos ou perfumes diferentes, os miúdos sempre a correr pela casa, cinema ao domingo, vida normal. O sexo é igual duas vezes por semana, vá, três se for uma semana generosa.

E se afinal estivesse enganada no tal café? Bah, não estava, não… Liguei-lhe na pausa do almoço, não atendeu. Entrei num taxi e fui directa ao mesmo café. Inventei ao taxista que estava à espera de um encomenda do escritório, só para o justificar. O carro dele estava do outro lado da rua. Vi-os sair juntos, entrarem no carro, irem embora.

Fiquei branca, pedi água ao taxista, fiz de conta que estava a ligar para a tal encomenda: Olhem, fiquem lá vocês com o pacote, que eu não espero mais, tenho de ir trabalhar!

Repara, até ali já me preocupava com o que pensava o taxista!

Saber que há uma amante muda tudo, não é? Separar? Se calhar sim. E viver assim? Suportar? Mas para quê? Vale mesmo a pena? Há anos aconteceu com amigos nossos ele traiu, ela descobriu, houve escândalo, ele negou tudo até ao último segundo, mesmo com mensagens a provar. Dizia que foi alguém que lhe roubou o telemóvel… O meu marido, na altura, saiu-se: Eu, nunca mentia, fazia asneira, assumia logo. Ou acabava, se fosse preciso, mas punha a família em primeiro. Eu até fiquei orgulhosa.

É fácil julgar de fora, sabes? Quando não tens de viver aquele drama. Mas quando és tu ali no meio do furacão, esqueces logo as certezas todas.

Acabei por ir ter com eles no café, sentei-me ali naquela mesa com toda a calma. A amante ficou com um ar de espanto. O marido congelou, parecia que estava num interrogatório. Ninguém dizia nada, eu só a observar os dois. Ela percebeu logo quem eu era. Ou então já sabia.

Ele tentou dizer qualquer coisa, mas eu só levantei a mão, disse: Não é aquilo que eu penso, pois não? E continuei: Olhem, nada disto me surpreende. A vida tem destas. Mas agora desenrasquem-se vocês há os miúdos, a casa, os pais dele já de idade. Vocês vão saber dar conta, de certeza.

Levantei-me devagar e saí. O vestido todo passadinho ficava-me mesmo bem. Não sei porque não o vestia há tanto tempoFui andando pela rua, sentindo o tecido a deslizar suave pela pele, o sol a bater-me nas costas. Só quando dei por mim é que percebi que estava a sorrir daqueles sorrisos que vêm de dentro, sem explicação.

Parei numa papelaria e comprei um gelado de morango, como fazia em miúda, e fui andando devagar enquanto deixava derreter na boca tudo aquilo que já não me pertencia. Olhei o telemóvel, duas chamadas não atendidas do marido. Apaguei as notificações. Pela primeira vez em anos, não me apeteceu correr para lado nenhum.

Naquele instante, vi o meu reflexo na montra de uma loja. O cabelo um pouco desfeito, o vestido alinhado, o gelado na mão, e um brilho nos olhos que quase não me lembrava de ter. E pensei: que se lixe se ele volta, se não volta, se aquilo era amor, paixão, ou só fuga. A verdade é que, seja com amante ou sem amante, eu existo. E isso, ninguém me tira.

Continuei a andar. Talvez fosse só isto a liberdade: não era deixar ou ficar, era sentir-me dona do passo seguinte. O resto, logo se vê.

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A amante do meu marido era deslumbrante. Se eu fosse homem, teria escolhido alguém exatamente assim. Sabe aquelas mulheres que conhecem o próprio valor? Caminham com dignidade, olham de frente, ouvem com atenção. Não fazem movimentos apressados, não precisam mostrar o corpo para chamar atenção, são serenas, quase majestosas, e nunca se desesperam. Eu mesma a teria escolhido – tão diferente de mim. Porque eu? Sempre apressada, ralhando com os filhos e o marido, tudo me cai das mãos, não dou conta do trabalho, o chefe não está satisfeito. Ando sempre de calças e t-shirt ou camisola, porque passar um vestido ou blusa dá uma trabalheira. Já nem me lembro da última vez que passei uns folhos. Felizmente a minha máquina de secar resolve quase tudo, o ferro já quase não serve para nada. E a amante – maravilhosa. Que corpo, postura, pernas, cabelo, olhos, rosto… até perdi o fôlego! E para dizer a verdade, desde que descobri, nunca mais voltei a respirar fundo. Ou melhor, desde que vi. Foi por acaso: estava a trabalhar num bairro afastado da cidade, entrei num café qualquer para almoçar. O trabalho estava feito, a fome não esperava. Num canto, sento-me, escolho o menu, levanto o olhar. Não, não era ilusão. Reconheci logo o meu marido, mesmo de costas. E vi-a. Ele segurava as mãos dela dentro das dele e beijava-lhe os dedos. Que cena ridícula, pensei eu. “Os teus dedos cheiram a incenso”… Mas, honestamente, a mulher era mesmo bonita. Fiquei num estado estranho. Como quando se vê uma queimadura: sabes que a dor está para vir, mas ainda só sentes aquela antecipação sufocante. Para aliviar o futuro sofrimento, tentas soprar para a pele vermelha… Devia doer. Mas por dentro estava vazia. Nem dor. O marido voltou a tempo. Sempre bem-disposto, equilibrado. Eu é que perco logo a calma, estou sempre a correr, a apressar os outros. Ele sempre foi um sanguíneo, calmo, com sentido de humor. Até dava jeito aquele humor agora. O meu não serve nesta situação. Deu-me vontade de perguntar durante o jantar, num tom neutro: “Então, e a tua amante? Vi-vos naquele café novo, em Benfica, ela é mesmo bonita, percebo-te… eu próprio/ia não resistiria!” Perguntar e saborear enquanto ele suava, ficava vermelho e tentava disfarçar. E ainda continuar: “E agora, o que sugeres? Vais apresentar os miúdos à nova ‘mãe’, ou eu conto? Ela tem onde morar ou vem morar connosco?” Nada disto aconteceu. O meu marido fez o habitual: abraçou-me na cama, puxou-me para junto de si e adormeceu em segundos. Talvez ainda não tenham chegado lá, pensei eu, afastando-me na cama. Talvez esteja só na fase da atração, dos sorrisos cúmplices e do mesmo ritmo na respiração. Ele sempre foi cuidadoso – um verdadeiro mestre da dissimulação, não denuncia um músculo! Revirei-me, dormi aos bocados, sonhei com flores vivas e amantes em vestidos vermelhos. Acordei de cabeça pesada, mais lenta do que o costume, preparei as crianças para a escola. O tempo todo a pensar: o que faço? O que uma mulher faz quando apanha o marido com outra? Pesquisar no Google? O Google não ajudou. E eu também não tinha respostas. Experimento seguir com a vida? Mas já é isso que faço. O de sempre: marido a chegar a horas, sem batom na camisa nem cheiro de perfume estranho, miúdos animados, cinema ao domingo. Nenhum comportamento mudou. O mesmo sexo duas vezes por semana. Às vezes três, detalhes contam. Talvez me tenha enganado no café? Não me enganei. Liguei-lhe na hora do almoço, ele não atendeu. Fui de táxi ao mesmo café. Inventei ao taxista que ia buscar um ‘envelope importante do trabalho’. O carro do marido estava lá, do outro lado da rua. Ele e a amante saíram juntos, entraram no carro e partiram. Fiquei branca, pedi água ao taxista, fingi ligar a alguém: “Olhem, deixo o vosso pacote, tenho de voltar para o trabalho!” Afinal ainda me importa o que um desconhecido acha de mim. Saber de uma amante muda tudo. Divórcio? Talvez seja o caminho. Como viver assim? Suportar? Para quê? Lembrei-me de um casal amigo, há uns anos. O marido teve uma amante, tentou esconder, mas a mulher descobriu. Escândalo, ele negou até ao fim, mesmo com provas no telemóvel. Dizia que tinham sido hackers invejosos. Nessa altura, o meu marido afirmou: “Eu nunca mentiria. É cobarde. Se fizeste, tens de assumir. Ou cortas com a amante ou segues com ela, mas assegura a família.” Na altura, até me orgulhei dele. Fácil resolver a situação dos outros. À distância. Quando não és tu o protagonista. Mas depois vês a mulher e a amante à tua frente, coragem e tom firme evaporam. No mesmo café, sentei-me à mesa deles. A amante olhou, surpresa. O marido ficou estático. Silêncio. Até achei graça à cena. A amante percebeu logo quem eu era. Ou talvez já soubesse. O marido quis dizer qualquer coisa, mas eu fiz sinal para parar: “Isto não é o que parece, não é? Sabe, nem sequer me surpreende. Acontece. Agora pensem como vão resolver – temos filhos, casa em comum, pais idosos. Vocês são inteligentes, hão-de dar um jeito.” Levantei-me com calma e saí. O vestido bem passado ficava-me mesmo bem. Não sei porque deixei de o usar.
– Vai-te embora! – Gritou Boris. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou a mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte a pôr os pés aqui! – Vai-te embora! – Gritou Boris. Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, o tinha ouvido falar assim. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou na mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte aqui! …A Aninhas dormia, de braços abertos como uma pequena estrela-do-mar. Maria ajeitou-lhe o cobertor. Gostava de ficar assim, só a olhar para a filha. Sonhou com ela durante tantos anos, lutou tanto para ser mãe. O marido chegou do turno da noite – percebeu pelo ruído no hall de entrada. Maria saiu do quarto da menina, fechando a porta suavemente. Boris descalçava-se. Exausto, nitidamente mais magro. Trabalhou como um boi para pagar os empréstimos que tinham contraído para os tratamentos de fertilidade. – Está a dormir? – Perguntou ele em voz baixa. – Está. Comeu e adormeceu logo. Boris puxou Maria para junto de si, encostou o rosto ao pescoço dela. Raramente falava sobre amor, mas Maria sabia que ele lhe era grato até à loucura. Por não o ter abandonado, por não o ter trocado por alguém saudável, por tê-lo feito feliz. Aos dezasseis anos, Boris teve papeira “em pé” – teve vergonha de contar à mãe que estava inchado e que doía. Quando contou, já era tarde. As complicações trouxeram-lhe quase esterilidade total. – A mãe telefonou, – disse Boris baixo, sem largar Maria. Maria ficou tensa. – O que quer a dona Alice? – Vem aí. Ao almoço está cá. Diz que trouxe uns bolos, que tem saudades. Maria suspirou, soltando-se do abraço. – Boris, achas mesmo que é boa ideia? Da última vez deixou-me em lágrimas com os conselhos para lavar com bicarbonato. – Maria, é a mãe… Quer ver a neta. Passou um ano e só viu a Aninhas em fotografia. É avó, afinal. – Avó… – sorriu Maria, com amargura. – Que considera a nossa filha uma “intrusa”. Adotaram a Aninhas há um ano. As listas de espera por recém-nascidos saudáveis na região eram tão longas que só dava para desesperar. Ajudaram contactos, um envelope generoso “para a maternidade” e a sensatez de uma amiga enfermeira. A menina nasceu de uma adolescente de dezasseis anos, assustada, desamparada, para quem um filho significaria o fim da vida. Maria lembrava aquele dia: um pequeno embrulho de três quilos e duzentos, e uns olhos azuis a fitá-la. – Está bem, – disse Maria. – Que venha. Sobrevivemos. Mas se ela começar outra vez… – Não vai começar, prometo – disse Boris. A sogra chegou para o almoço. Alice entrou na casa ocupando todo o espaço. Era uma mulher corpulenta e barulhenta, com aquele jeito aldeão capaz de parar um cavalo, apagar um incêndio e dar cabo do juízo de quem estivesse à volta. – Ai, meu Deus! – Queixou-se ela à porta, pousando a mala quadriculada no chão do hall. – O transporte é um horror! Comboios abafados, no metro só empurrões. – Por que razão vivem tão alto? O elevador rangia, achei que ia morrer! – Bom dia, mamã, – Boris deu-lhe um beijo na face e levou-lhe a mala pesada. – Venha, lave as mãos. Alice tirou o casaco, exibindo um vestido com padrões florais que moldava as formas robustas, e olhou logo de cima a baixo para Maria. Olhou-a como se fosse um cavalo à venda. – Olá, Dona Alice, – sorriu Maria. – Olá, olá, – a sogra crispou os lábios. – Estás tão mirrada, Maria. Só ossos. O marido vai agarrar-se a quê? Boris está magro, noto eu. Não o alimentas bem? Só comes relva e deixas o homem à fome? – O Boris come bem, – cortou Maria, corando. – Venha para a mesa. Na cozinha, Alice começou logo a abrir a mala – de lá tirou recipientes com empadas, um frasco de pepinos em conserva, um pedaço de toucinho. – Comam. Nesta cidade só há comida artificial. Mastigam plástico. Sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos pesados. – Então, contem-me. Como vai a vida? Já pagaram esses… experimentos? Maria apertou o garfo. “Experimentos!” Assim chamava a seis anos de dor, esperança e desespero. – Quase pagámos, mamã, – resmungou Boris, servindo-se de salada. – Não falemos de dinheiro. – E falamos de quê? – estranhou a sogra, mordendo uma empada. – Do tempo? O irmão do Boris, lá na aldeia, já tem terceiro filho. A menina saudável, linda! Quatro quilos! E a Tânia, a irmã, está grávida de gémeos. Isso é que é saúde! A nossa linhagem, Boris, é forte. Somos férteis. Olhou Maria com significado. – Se não se estragarem os genes, claro… Maria pousou o garfo devagar. – Dona Alice, já falámos disto cem vezes. O problema não é meu. Temos relatórios médicos. – Ora, deixa-te disso! – sacudiu a mão Alice. – Papéis esses os médicos só para sacar dinheiro. Papeira! Deixa-me rir! – Os rapazes lá na aldeia tiveram todos, e têm filhos às carradas. – Isso é a tua esposa a contar-te histórias para tapar as doenças dela. – Mãe! – Boris bateu com a mão na mesa. – Chega! Alice agarrou teatralmente no peito. – Não me fales assim! Criei cinco filhos, conheço a vida. Vejo que ela é estreita, magra, de quadris miúdos. Onde é que hão-de estar os filhos? Vazio. – Somos felizes, mamã, – murmurou Boris. – Temos a nossa filha, Aninhas. – Filha… – bufou Alice. – Mostra-me ao menos. Foram ao quarto das crianças. A Aninhas estava acordada, sentada na cama, a brincar com um ursinho de peluche. Ao ver a senhora, franziu o sobrolho, mas não chorou. Era de feitio calmo. Alice aproximou-se da cama. Maria ficou por perto, pronta para agarrar a filha – da sogra tudo se esperava. A mulher olhou a menina demoradamente, semicerrando os olhos. Tocou-lhe na face rechonchuda. Aninhas virou-se de lado. – Então, a quem saiu esta? – perguntou a sogra, irritada. – Que olhos pretos! Os meus são todos claros. – Tem olhos azuis escuros, – corrigiu Maria. – E o nariz? Batata. Tu, Maria, tens o nariz fino, o Boris direito. E esta? Endireitou-se, sacudiu as mãos como se estivessem sujas. – Sangue estranho, isso é! Voltaram para a cozinha. Boris encheu-se de água, com as mãos a tremer. – Mamã, escuta, – começou ele, com voz calma. – Amamos a Aninhas! Ela é nossa! Legal, de coração, de tudo! – E ainda vamos tentar ter filhos biológicos. Os médicos dizem que há hipóteses, mesmo que pequenas. Mas mesmo se não der – já temos uma família. Alice estava de lábios apertados. Estava aflita. Ela, mãe de cinco, avó de doze, doía-lhe ver o filho “gastar-se com criança alheia”. – És um tolo, Boris, – suspirou ela, por fim. – Mas que tolo! Trinta e cinco anos. Homem feito. E andas a criar uma enjeitada! – Não digas isso! – gritou Maria. – E que hei-de chamar-lhe? Princesa? – Tu bem calavas! Tu não consegues parir, baralhaste o homem. Até pagaram… Compraram-na como um gato no mercado! – É nossa filha! – Filha é quando é nossa! Quando não dormes à noite, quando há dores e sufocos, quando a pariste! – E esta… – acenou em direção ao quarto. – Faz-de-conta de mãe e filha. Pegaram numa pronta. De uma rapariga desacertada. – Acham que os genes se escapam, é? Ela vai mostrar-vos! Vai dar problemas! Como a mãe! Entreguem-na a tempo! Maria viu os olhos de Boris arregalarem-se. Ele levantou-se devagar. – Rua, – disse ele, baixinho. Alice ficou espantada. – O quê? – Vai-te embora daqui! – gritou Boris. Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, o tinha ouvido assim. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou a mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte aqui! Entregar? Entregar a filha?! Confundes gente com coisa? É minha filha! Minha! E tu… tu… Ficou ofegante. – É horrível ser mãe assim! Vai para a aldeia contar os teus “puras”. Mas não voltes mais aqui! Nunca mais! Do quarto ouviu-se o choro da menina. Maria correu à porta, mas parou ao ver a cara mudada da sogra. O vermelho foi ficando cinzento. Alice abriu a boca, sem apanhar ar, como peixe fora d’água. A mão apertou o vestido. – Boris… dói… como dói… Foi caindo. Pesada como um saco de trigo, virou a cadeira. O estrondo misturou-se ao choro da criança. Maria chamou o INEM. Boris ajoelhou-se ao lado da mãe, com mãos a tremer, a desabotoar-lhe a gola. – Mãe, o que tens? Respira, mãe! Alice arfava. Os médicos chegaram depressa. Logo da porta o enfermeiro gritou: – Enfarte! Grande! Maca, rápido! Quando a porta se fechou atrás dos médicos, Boris sentou-se no chão do hall, encostado à parede. Olhou para o lenço esquecido da mãe, em cima da cómoda. – Fui eu que lhe fiz isto? – perguntou. Maria sentou-se ao seu lado e segurou-lhe a mão gelada. – Não. Foi ela mesma. Com tanto veneno. – Era mãe, Maria. – Ela quis que deitássemos fora a nossa filha como produto com defeito. Boris, acorda. Defendeste a tua família. Uma hora depois, o telemóvel vibrou. Chamava a irmã, Tânia. Depois o irmão, Nicolau. Boris não atendeu. Veio uma mensagem de uma tia: – A mãe está nos cuidados intensivos. Os médicos dizem que não tem hipótese. És um monstro? Que te faça falta. A família toda te amaldiçoa! Não apareças, nunca! – Pronto. Fiquei sem família. Maria abraçou-o pelos ombros, sentindo o corpo dele tremer. – Tens sim, – disse ela firme. – Tens-me a mim. Tens a Aninhas. Somos a tua família! De verdade! A que não te abandona. Levantou-se e puxou-o pela mão. – Anda, a Aninhas precisa de comer. Assustou-se. À noite, estavam na cozinha. A filha, depois de se acalmar, brincava com cubos no tapete. Boris olhava-a como se a visse pela primeira vez. – Sabes, – disse ele de repente, – a mãe tinha razão numa coisa. Maria ficou alerta. – Em quê? – Os genes não se apagam com um dedo. Só que genes não são só olhos ou nariz. São também saber amar. A minha mãe tem cinco filhos e amor… como uma pedra. Será que sou adotado? Porque amar eu sei… não é, minha pequena? Pegou na filha ao colo. A menina agarrou-lhe o nariz e riu. – Papá, – disse ela com clareza. Foi a primeira vez. Até aí só “ba-ba” ou “ma-ma”. O Boris parou. As lágrimas que segurou todo o dia rolaram pelas faces, caindo no macacão cor-de-rosa. – Papá, – repetiu ele. – Sim, minha pequena. Sou teu pai. E nunca te vou deixar. A mãe recuperou, mas Boris nunca mais lhe falou. Para a família agora foi banido. Maria até tem vergonha de admitir, mas está feliz por assim ser. Sem rancores, sem torturas, vive-se melhor. Para quê família assim? Só fazem falta os que nos querem bem… E vocês, o que acham do desabafo desta mãe? Escrevam nos comentários e deixem o vosso “gosto”!