Valha-me Deus, achas que aquilo é homem?! Um erro da natureza, só pode ser! Não é possível que a Gala veja com quem quer casar! Baixo, franzino, com um ar… enfim, que Deus me perdoe!
Também não exageres. Lá alto não é, isso é verdade. Mas olha que não se bebe água da cara! E a nossa Gala também nunca foi propriamente uma beleza.
É verdade… mas imagina os filhos dos dois! Que horror.
No banco em frente ao prédio, quatro mães jovens entretinham-se a conversar por entre olhares de ternura para os bebés adormecidos nos carrinhos. Os filhos que ainda nem existiam da Gala nem se comparavam aos delas!
A Gala, depois de descarregar do carro o noivo os sacos do supermercado para a mãe, acenou sorridente às vizinhas e apressou-se:
Dinis, querido, não te custa? Dá-me que levo algum! tentou retirar-lhe um saco, mas ele não deixou.
Gala, segura só a porta do prédio! O que pesa não é para mulher. Isso não te convém!
As vizinhas trocaram olhares rápidos.
Olha a lata! Não é para mulher, vejam só. Antes de casar são todos assim atentinhos… depois, coitadinha da Gala… vai ver!
A Gala e o Dinis já tinham desaparecido dentro do prédio e as senhoras continuavam a falar do aspeto deles, do carro novo do noivo, da maneira de andar da Gala. Bem, falar mal nunca cansa…
Mas a Gala nem ouvia. Ia ansiosa para o lado da mãe, que não via há mais de duas semanas. Primeiro tinha sido a viagem de trabalho, depois as obras na casa nova que ela e o Dinis queriam acabar antes do casamento. A mãe já lhe tinha dito para ter juízo, que estava tudo bem e para não gastar tempo em preocupações, que o frigorífico estava cheio, que o telefone funcionava, faltava pouco para o grande dia e havia tanto para fazer…
Só que a Gala já não aguentava mais aquela distância. Nunca tinha passado tanto tempo longe da mãe. Não estava ainda habituada a domar a ansiedade.
A Gala nasceu já a mãe, Mariana, tinha trinta e cinco anos. Sempre de nariz grande, um jeito desengonçado e uma feiura que não lhe facilitava a vida, Mariana trabalhava como empregada de balcão numa mercearia da Graça, em Lisboa. Amigos e família já tinham perdido a esperança. “Encalhada”, diziam. Casamento e filhos, só por milagre.
Mas Mariana calou todos. Foi de férias para as praias do Algarve e voltou com um noivo, não qualquer um, mas um daqueles homens que nem a televisão mostra: alto, robusto, olhos claros. Ao pé dele, ela parecia um pardalito ao lado de um leão. Não eram par, diziam.
Mas foi depois do aparecimento do Alexandre na vida de Mariana que tudo mudou: era ela que agora vestia os casacos de lã inglesa.
O Alexandre era esperto e trabalhador. Sabia ganhar dinheiro e ainda o multiplicava. E nunca poupava quando se tratava da mulher que adorava. A Mariana abriu, floresceu, cortou o cabelo à moda e afastou todas as “amigas” interesseiras.
De verdadeiras amigas, nunca teve. Sempre posta de lado pelas outras miúdas, feia demais para companhia e para os bailes. Ninguém queria perder a disposição a olhar para ela.
Por isso, com as poucas que ainda apareciam só para pedir favores e garantir que não se esquecia delas quando chegava peixe ou café à loja, deixou de conviver sem olhar para trás.
Sempre teve medo da bisbilhotice. Falatório em bairro é veneno que não avisa. Sabia bem que muita gente achava que o Alexandre era demais para ela e faziam questão de ir dizendo que ele tinha mais onde escolher. Não queria perder o pouco de felicidade que tinha erguido.
Mas o receio era à toa. O Alexandre, para além de tudo, nunca quis saber de outra mulher. Ele sabia bem que a beleza não é tudo. Foram-lhe dizendo desde pequeno, sem pais e criado com uma avó que só queria saber do vinho.
Perdeu os pais tão cedo que nem chegou a fazer três anos. O pai, depois de um jantar de casamento, perdeu o controlo do carro numa estrada à chuva.
O Alexandre ficou com a avó materna, que nunca ultrapassou a perda do filho e se refugiou no álcool. Aos oito anos, ele já fazia a própria comida, passava as camisas para não ouvir bocas da professora, estudava sempre muito. A beleza só lhe dava problemas: destacava-se de todos e atraía olhares inconvenientes.
Cresceu orgulhoso e desconfiado, sem festas nem carinho. A avó queria era vinho e a vizinhança só lhe elogiava os olhos, mas nunca perguntou como era a vida dele.
Exceto a dona Emília, a padeira do bairro, que criava dois filhos sozinha. Essa, sim, sabia o que era não ter mãe. Viera do orfanato, mas deu sempre casa e comida aos filhos, mesmo com pouco dinheiro.
Oh menina Emília, quanto é?
Vai lá, deixa que é oferta! Estás sempre de cara para as pessoas, também mereces algo! Olha, toma!
Todos os dias a Emília oferecia ao Alexandre, além do pão, um bolo.
Para comer no recreio! dizia, passando-lhe a mão nos caracóis.
Este pequeno mimo aqueceu-lhe tanto o coração que conseguia aguentar o resto do dia. No início ele recusava, mas percebeu que a mágoa era maior na dona Emília do que a fome nele. Acabou por ir ajudar na padaria depois da escola e foi-se apegando àquela mulher, até sentir que era como mãe.
Quando a avó morreu, não hesitou: dona Emília oficializou a adopção.
Já eras meu filho há muito, agora fica tudo em ordem.
Assim, Alexandre ganhou uma família mãe e irmãos. E a mágoa evaporou-se. Se algum ressentimento quisesse entrar, ali havia amor que bastasse para o varrer.
Depois do curso técnico, Alexandre arranjou emprego, renovou a casa da avó, mas tudo na vida sentimental falhava. Conhecia muitas raparigas, mas nenhum namoro vingava. Uma delas, sem rodeios, disse-lhe na cara:
És bonito demais para compromisso, Alexandre. Vais acabar a partir-me o coração. Sai tudo errado com homens assim, rodeados de raparigas… Nem pensar.
A velha solidão ameaçou voltar, mas a mãe adotiva sabia como consolar.
Não era para ti. Fica calmo, a tua está por aparecer. Acredita! Sem esperança nada acontece. Só esperar.
Ouvindo sempre a Emília, Alexandre acalmou-se. Esperar era uma arte em que já era mestre.
Os anos passaram e nada de grandes paixões. Começou a perder a fé. Até que a mãe insistiu para ir ao mar pela primeira vez.
Vais adorar, Alexandre! O Atlântico é imenso… calmo, medonho, é tudo! Amor à primeira vista.
Foi lá que conheceu Mariana. Incrível como ninguém dava pela rapariga ao lado do paredão, cabelos ao vento. Alexandre, ao vê-la, ficou sem fala; Maria parecia-se tanto com a adoptiva que ele achou um sinal do destino. Ao conversar, viu que era meiga, doce e tão necessitada de carinho quanto ele. Tinha encontrado o que tanto procurara.
Casaram e nasceu a Gala uma filha tanto amada que até tinham medo de mimar demais.
Não vamos estragá-la com tanto mimo? preocupava-se Mariana.
Temos uma filha espetacular! garantia Alexandre, enchendo-a de beijos.
Sai à mãe! dizia a avó em família. Boa menina, como a tua mãe era! Alexandre, protege as tuas mulheres, que não há segredo maior para se ser feliz.
Os irmãos de Alexandre sempre prontos e unidos. Quando adoeceu, foi a eles que recorreu primeiro.
Foste certíssimo, Alexandre! Vamos tratar disso.
Em poucos dias, já tinha médico. Ao saberem do diagnóstico, não o deixaram perder a esperança.
Nem penses em desistir! Tens uma filha que precisa de ti. Estamos aqui. E a medicina não para.
A batalha contra a doença durou dez anos. Alexandre nunca fraquejava, mesmo ouvindo dos médicos:
Outro já tinha desistido há muito tempo. És um lutador.
Ele sorria, mesmo com tonturas; toda a força vinha da Mariana e da Gala, que não faltava um dia ao hospital para cuidar do pai.
Não me cheira, filha… tentava recusar o almoço que levava.
Come, pai! Até está salgado, porque a mãe chorou a cozinhar… Disse-lhe que não chorasse, que tinhas de regressar a casa, que ainda ias sarar. Disse bem, não disse?
Disseste muito bem, Gala… Vai correr tudo bem.
E Alexandre, apesar dos prognósticos, regressava sempre. Era impossível não voltar sabendo que era esperado.
Partiu em casa, no colo da Mariana, numa noite tranquila. Ela ali ficou, abraçada a ele, recordando a vida partilhada, sem queixumes:
Não tenho do que me lamentar. Fui tão feliz contigo! Obrigada, meu amor…
De manhã, Gala, ainda pequena, entrou no quarto e ao ver o pai, soltou um grito miudinho como um passarinho preso.
Sossega, filha… Agora o pai está bem, não lhe dói nada. Não chores. Estou contigo.
Mariana não tentava conter as lágrimas, mas sabia que tinha de ser forte para a filha.
Nunca ficaram sozinhas. Os tios e a avó Emília vinham muitas vezes, rodeando-as de cuidado. Quando a dor é enorme, só a família amortece.
Gala cresceu. E, ano após ano, gostava cada vez menos de se ver ao espelho. Sabia-se sem beleza. Não havia remédio.
Ia à procura de truques: nariz menor, olhos maiores… até comer cenoura, porque lera que podia crescer um bocadinho mais, mas nada.
Na escola gozavam com ela. Mariana acudia-lhe às lágrimas dizendo:
Vais ver, filha, quem vai ser a felizarda. Só dêem tempo ao tempo.
Concluiu os estudos com distinção, mas a timidez e a bondade não lhe granjearam admiradores. Os rapazes olhavam para outras, só lhe pediam os apontamentos nas vésperas de exame. Os cadernos impecáveis faziam dela útil, mas invisível.
E agora, mãe? lamentou-se Mariana. Gala, apesar de excelente profissional, não sabia o que fazer da vida amorosa.
Está visto! Vai à praia! sugeriu Emília, sorrindo. Uma vez funcionou, pode ser que repita!
Nem penses! Gala sozinha não vai, é teimosa…
Então vamos todos! A família inteira: irmãos, cunhadas, crianças. Depois ela foge de casa às escondidas como fazia na quinta…
Todos riram das partidas antigas. Decidiram em família. Só que a vida tinha outros planos.
Gala foi ao Algarve, mas recusou afastar-se da família. Não queria ir sozinha a lado nenhum, por mais pedidos que lhe fizessem.
O destino, porém, não desiste. Voltando a Lisboa, apanhou uma chuvada monumental quando estacionava o carro junto ao prédio. Acabou a correr descalça pelas poças, largando os sapatos de verniz novos, a rir da loucura do tempo.
Foi então que um carro, apressado, lhe atirou água suja das rodas. Gala, encharcada, só conseguiu exclamar:
Valeu-me Deus!
Depois, largou a rir tão alto que o condutor, envergonhado, abrandou para se desculpar mas ficou a olhar, fascinado, para aquela rapariga que ria de si própria.
O destino assinalou mais uma tarefa cumprida: Gala e Dinis estavam destinados um ao outro, com ou sem praia.
E assim foi.
Anos depois, as vizinhas continuavam na conversa à porta enquanto os filhos já crescidos brincavam por ali. Quando o carro do Dinis parava, segredavam:
Viste bem o casaco de peles daquela tola? Eu nem lenço de seda arranjo e ela anda assim!
Que chatice! Nem lhe fica bem! Mas ela é feliz… o marido é feio, mas basta olhares: adora-a, mima os filhos, não há quem diga!
E a ti, morres de inveja!
Morria! Nunca percebi como a vida é tão injusta. Eles feios, os miúdos lindos… de onde vêm essas belezas?
Da mãe camelo! O pai da Gala era um autêntico galã. Isto é tudo genética, minha filha.
Mas porquê que ela é assim tão generosa, sem nunca se queixar, sempre um sorriso para toda a gente? Devia detestar o mundo pela sorte que teve…
Devia, mas não tem obrigação! Menos inveja talvez fazia de ti uma beleza também!
Sim, está bem! Como faço para que o meu homem me adore assim, como o Dinis a ela? Será segredo?
Pergunta-lhe, pode ser que te conte!
Eu a aprender com aquela? Nunca na vida…
E cada uma seguiu a sua, roendo-se de inveja, mas incapazes de destruir a alegria da Gala.
A Gala não tinha tempo para mexericos. A mãe começava a fraquejar, a avó Emília planeava mudar-se para mais perto para ajudar com os bisnetos, os tios vinham para as obras e Dinis prometera ajudar. Os filhos exigiam olho sempre aberto.
Alexandre, Mariana, venham! A avó já tirou o bolo do forno! Não se faz esperar quem cozinha para nós!
Mais um serão em família, canções, histórias e sorrisos. Vida, em suma.
E, ao escrever isto no meu diário, vejo agora: a beleza não faz a felicidade, é a bondade, o amor e a coragem de rir de si próprio que nos tornam grandes. O resto é conversa de vizinha.






