Vera fritava almôndegas quando Jorge entrou na cozinha – “Vera, precisamos conversar”, declarou ele resolutamente. “Fala”, respondeu a mulher. “Talvez te sentes, escutas melhor?”, a voz de Jorge soou impaciente. “Eu nunca preciso vigiar as almôndegas”, replicou a esposa. “O que queres dizer?”, ele começou, tropeçando nas palavras. “Conheci outra mulher… Vou embora!” “Parabéns, fico muito feliz por ti!”, disse Vera calmamente. “Parabéns? Feliz por mim?”, o homem ficou surpreso, sem imaginar o que Vera planejava naquele instante.

Inês estava a fritar almôndegas na cozinha quando o marido, Carlos, entrou, com o olhar decidido.
Inês, precisamos conversar disse ele, firme.
Fala, respondeu a mulher, sem parar de mexer nas almôndegas.
Senta aí, escuta-me bem a voz de Carlos tremia de impaciência.
Eu não posso ficar parada a vigiar as almôndegas, respondeu Inês.
O que é que queres dizer? começou ele, mas engasou, procurando as palavras.
Eu Carlos parou, a garganta apertada. Conheci outra mulher estou a deixar-te!
Parabéns, disse Inês, tão calma quanto se estivesse a receber uma saudação.
Como assim? Parabéns? Está a dizer que está feliz por mim? Carlos arregalou os olhos, surpreendido. Ele nem imaginava o que Inês tinha planeado naquele instante.

Se és sincera a amiga de Inês, Mariana, ficou em silêncio por um segundo, como quem tem medo de dizer algo fora de hora. Não consigo entender como te atrevestes a fazer isto. Vais além dos limites, Inês!

Limites de quê? De bem ou de mal?

Sabes, é como olhar para o futuro.

Olhar ou não olhar, sorriu Inês. O que importa é o resultado. E o meu resultado é excelente: consegui o que queria!

Ainda assim, advergiu a vizinha, com o tom sombrio. Haverá consequências negativas

Não te queixes! interrompeu Inês. Quando surgirem, vamos tratar delas. Agora é tempo de alegria e de vitória! Não estragues a minha festa!

Mariana encolheu os ombros, ofendida, e virou-se fingindo que o cenário da janela a interessava.

***

Tudo começou naquela noite, quando Carlos, a voltar do trabalho, disse, tentando esconder o embaraço:
Temos de conversar

Inês apertou o peito. Já esperava há muito tempo o momento em que Carlos se decidisse. E então começou.

Fala, disse ela, virando as almôndegas que preparava para o jantar.

Podes sentar e ouvir-me com atenção? a impaciência ainda na voz de Carlos. Ou fala-me de costas?

Senta-te, querido respondeu Inês, serenamente. Agora o Tiago vai lembrarse de mim e começaremos: mãe, aquilo, mãe, aqui. Não percas tempo. O que queres dizer?

Eu Carlos engasgouse, quase sem palavras, conheci outra mulher

E? Inês não se virou, continuava a mexer nas almôndegas. O que vem a seguir?

Desliga essa frigideira! exclamou Carlos, irritado. Ouvis o que estou a dizer? Eu amo outra mulher!

Ouço, Inês finalmente se virou. Parabéns.

O quê? Carlos ficou estupefacto. Não esperava aquela indiferença nem aqueles parabéns.

Fala mais baixo, por favor; as crianças vão assustarse, disse Inês, ainda calma, como se nada a tivesse surpreendido.

Sabias? exalou Carlos.

Não, não sabia, balançou levemente a cabeça Inês. Mas suspeitava.

Suspeitava?

Claro. E não terias adivinhado se eu chegasse atrasada ao trabalho por algumas horas? Se eu falasse ao telemóvel e o escondese sempre no bolso? Se eu fosse dormir noutro quarto por uma boa razão? E depois Carlos, todo o mundo sente se é amado ou não.

Então por que te calaste quando percebeste tudo? perguntou Carlos, tentando ficar mais calmo.

Olha, Inês franziu o sobrolho com astúcia. Foi tu quem me fez a proposta, e desfazer a família também é da tua conta.

Porquê?

Se quiseres só passear, divertirte, vais esconderte das tuas aventuras. Mas já começaste a conversa, então já tomaste uma decisão. Não te preocupes, diz tudo que quiseres

Carlos olhava para Inês e não a reconhecia. Tanta tranquilidade, autocontrole. Pensava que o que o esperava eram lágrimas de mulher.

No fim, tenho uma proposta

Interessante Inês sentouse num banco e fitou Carlos com atenção.

Estou a pensar Temos uma hipoteca mal conseguirás pagara, mesmo com as pensões alimentícias

E o divórcio? Não vamos falar disso? a voz de Inês ficou metálica, algo que Carlos não percebeu.

Do que falar? respondeu ele, despreocupado. Claro que não me perdoarás.

Pois Inês sorriu. Sabes que me conheces bem.

Olha, Carlos não percebeu a ironia. Será melhor se te mudas para o teu apartamento de um quarto e eu fico aqui.

E os filhos?

Que filhos? Vão contigo, claro respondeu ele.

Então eu fico com os dois filhos num apartamento de dezeoito metros quadrados, e tu, com o teu novo amor, na nossa casa de três quartos?

Sim. Não consegues pagar a hipoteca. É óbvio. Eu já a pagava sozinho, explicou Carlos, confiante.

Entendo, disse Inês levantandose. Preciso de pensar.

Foi para a varanda.

Então vamos lá, disse Carlos, com sarcasmo, enquanto pensava: Vai pensar Ah, essas mulheres!

Enquanto Inês estava na varanda, Carlos serviuse duas almôndegas, puré de batata da slowcooker, e atirouse à comida. Não conseguiu acabar.

Concordo, anunciou Inês, a entrar na cozinha. Mas com uma condição.

Que condição? riu Carlos, complacente.

Vais ficar neste apartamento com a tua paixão e com o nosso filho. Eu e a filha mudamosnos.

O quê? o rosto de Carlos esticouse de surpresa, os olhos a subir. Queres dividir os filhos?

Sim. O que há de errado? respondeu Inês serenamente. Os filhos são nossos, a responsabilidade é a mesma. O filho que tanto desejaste pode ficar contigo, a filha comigo. Para mim é justo.

És louca? Como podes dividir os filhos? Não são móveis!

Claro que são, Inês mantinhase firme. Eu terei de os criar até ao fim da minha vida, e tu não mais.

Vou pagar a pensão! E ajudar, se puder

Certo. Tu pagasme, eu pagaste. Criámos os filhos juntos, vamos criálos juntos. Não queres o filho? Fica com a filha. Ela é mais velha, será mais fácil. Vês, estou disposta a chegar ao teu lado.

Não, eu sabia que és estranha, mas a esse ponto! exclamou Carlos. Queres usar os filhos para te vingar de mim?

Não inventes, Carlos. Não mereces que eu me vingue. Só quero justiça. Tu ficarás na casa de três quartos com a hipoteca e o filho. Eu ficarei no apartamento de um quarto com a filha. E pensões mútuas. Só assim nos separamos, como dizem, de comum acordo. Caso contrário, luto. Não cedo nada. Pensa nisto noutro sítio.

Carlos saiu. Consultouse com a amiga, a mãe, a irmã. Todos lhe disseram, num só tom, que Inês estava a blefar. Que nenhuma mãe normal entregaria o filho por metros quadrados. Que ele poderia aceitar sem medo. Três dias depois, Inês levaria a criança.

Quanto à nova mulher de Carlos, Sofia, estava radiante. Três quartos no centro de Lisboa! Um presente que nunca sonhara! O facto de também receber um menino de quatro anos, Sofia fez vista grossa.

Em poucos dias, Carlos disse a Inês que concordava com a condição dela.

Perfeito respondeu Inês, insistindo que ele fosse ao tribunal já no dia seguinte.

Porquê eu? tentou resistir ele.

Porque és o marido. E porque assim te será mais fácil pagar tudo.

O argumento pareceu lógico a Carlos, e ele entrou com o pedido de divórcio.

***

Três meses depois, conforme o acordo, Carlos mudouse para a casa de Sofia. Inês preparava a mudança e respondia com firmeza a todos os comentários da família e dos amigos.

Carlos corria o mundo a dizer que Inês queria dividir os filhos e entregavalhe o filho.

Como ousas?

Que mãe és tu?

Não tens vergonha, nem consciência!

Como pode dividir os filhos? Não tens alma!

Essas foram as palavras mais brandas que Inês ouviu. Às vezes respondia, às vezes calavase, às vezes saía para não ter que ouvir. Até a filha de doze anos, Lia, lançou-lhe um tiro:

Pensava que nos amavas

Inês, impassível, esperava o divórcio.

Finalmente chegou ao tribunal.

Querem deixar o filho com o pai? indagou a juíza.

Sim respondeu Inês, tranquila. A responsabilidade pelos filhos é a mesma. E o pai nem se opõe. Não é, Carlos?

Carlos assentiu. A decisão foi tomada exatamente como Inês propôs.

Carlos exalou aliviado

Mas nada tinha acabado.

***

Inês organizou tudo para a sua partida. Embalou as suas coisas e as da filha, levou o indispensável e até preparou um dossiê para Carlos.

Escreveu:

O que o Tiago gosta, o que não gosta, a creche que frequenta, o nome da professora, os alimentos que não tolera, os desenhos que vê, onde fica a clínica, etc.

Carlos leu o papel e bufou:

Mas que é isto! Para que serve? Vamos dar-nos bem sozinhos, não é, Tiago? pegou o filho nos braços e lançouo ao ar.

Tiago riu, feliz.

Está bem, temos tempo, interrompeu Inês, se precisarem, chamemme.

Quando saíram, Carlos telefonou a Sofia:

Está tudo pronto! Vem!

Na mesma noite, Sofia postou nas redes: Novo começo! e anexou uma foto dela e de Carlos curvados sobre o berço do filho adormecido.

***

Depois começou o verdadeiro pesadelo para Carlos e a paciência de Inês.

A realidade estava longe da ilusão.

Tiago, no dia seguinte, recusouse a comer o que Sofia preparava, pediu a mãe, não queria ficar com ela, chorava ao ir para a creche, fazia birra, atrasavaa no trabalho. Depois o menino adoeceu. Carlos não sabia o que fazer; cuidar dele era mais difícil do que imaginava. A creche exigia que chegasse a tempo, Tiago não queria vestirse, chorava e resistia quando a professora o levava. Carlos chegava sempre atrasado ao escritório.

Sofia partiu num deslocamento de trabalho e desapareceu, enviando uma mensagem: Não estou disposta a colocar a minha vida aos pés do teu filho.

A mãe de Carlos recusouse a ajudar, alegando problemas de saúde. Inês vinha uma vez por semana, duas horas, e, ao sair, Tiago ficava a fazer birras. As finanças da hipoteca davamse bem, mas Carlos não esperava gastar tanto com o filho. Esqueceuse do descanso. O cansaço e a irritação dominaramo; temia estar a afastarse do menino.

Cerca de três meses depois, Carlos ligou à exesposa:

Inês, precisamos conversar. Urgente.

Inês chegou.

O que se passa? perguntou, com um leve tom de compaixão, notando o aspecto abatido de Carlos.

Por favor, levao embora, disse Carlos, quase a sussurrar. Não aguento mais.

O que é que se passou?

Estou cansado, Inês. Sofia abandonoume.

Entendo, Inês tentou esconder um sorriso, mas

Por favor, nada de mas.

O quê?

Mudemse para a minha casa, vivam todos juntos. Eu vou embora.

E depois vais cobrarme?

Não, Inês. Vamos colocar o apartamento ao teu nome.

Será que é tão difícil cuidar de um garoto de quatro anos? sorriu Inês. Tu dizias que eu não fazia nada.

Desculpa. Não pensei Então, aceitas?

Desde que tudo fique legalmente arranjado.

Carlos fitoua longamente.

Não sabia que eras tão mercenária.

Os professores foram ótimos respondeu Inês, com ironia.

***

Carlos cumpriu a palavra. Transferiu o apartamento para Inês. Passou a pagar a hipoteca. As pensões alimentícias foram divididas entre os dois filhos. Aos finsdesemana, raramente, ele visitaos, levando um ramo de flores à exesposa como agradecimento por ter aceitado viver no apartamento de um quarto e pagar só as contas.

Agora todos os amigos e parentes compadecemse de Carlos e consideram Inês uma vilã, dizendo que não se importou com o filho pequeno, que foi cruel. Contudo, Inês desfruta da sua vitória, sem arrependimentos, e não acredita em quaisquer consequências negativas.

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Vera fritava almôndegas quando Jorge entrou na cozinha – “Vera, precisamos conversar”, declarou ele resolutamente. “Fala”, respondeu a mulher. “Talvez te sentes, escutas melhor?”, a voz de Jorge soou impaciente. “Eu nunca preciso vigiar as almôndegas”, replicou a esposa. “O que queres dizer?”, ele começou, tropeçando nas palavras. “Conheci outra mulher… Vou embora!” “Parabéns, fico muito feliz por ti!”, disse Vera calmamente. “Parabéns? Feliz por mim?”, o homem ficou surpreso, sem imaginar o que Vera planejava naquele instante.
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