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Pronto, Maria Inês, já vou! Não venhas atrás. Vou chegar tarde! Para amanhã deixa preparada a camisa e as calças azuis, não te esqueças! Tens de as ir buscar à lavandaria! gritou do hall o Manuel António, pôs o casaco às pressas, parou em frente ao espelho, passou um olhar crítico, pegou no chapéu e saiu, batendo a porta.
Bateu de tal forma que até o vidro da janela entreaberta tilintou.
Corre um vento, vai-se partir pensou Maria Inês, desligou a água, limpou as mãos ao avental e espreitou para fora da cozinha. Tudo igual ao costume: o corredor inundado de sol, acabando no hall, as fotografias das férias na parede, o papel de parede alegre, às riscas duas largas, duas estreitas, num azul bebé; o casaquinho de Maria Inês no cabide. E
Franziu o sobrolho.
O embrulho! O Manuel esqueceu-se do embrulho, e lá dentro vão os pastéis! Foi a Inês que, ainda nem havia amanhecido, se levantou para os fazer, recheou-os de ovo e salsa, como o Manuel tanto gosta. Fez questão para este dia, porque o Manuel ia ao estaleiro e lá não há onde comer em condições, e comida de casa tem outro sabor!
Num ápice despiu o avental, ajeitou o cabelo, e sem tirar o vestido simples de algodão, de mangas curtas e já com uma nódoa de café ao fundo, agarrou o aconchegante embrulho, apertou-o contra o peito como se fosse um bebé, e disparou porta fora ainda bem que lembrou de pegar nas chaves! , tomando as escadas de três em três, apoiando-se no varandim envernizado que serpenteava do terceiro ao rés-do-chão.
Podia, como outras mulheres do prédio, simplesmente gritar pela janela ao marido, mas não, berrar não tinha classe. Preferia entregar-lhe ela mesma o embrulho, despedir-se como deve ser, encostar-lhe a bochecha e receber um beijo seco dos seus lábios, um aceno: é hora
Chegou ao átrio, ofegante, e correu pelo pátio do prédio, deixando a porta bater na parede, pouco lhe importando os seus quarenta e tal anos e a falta de jeito que já tem para correr.
Olhou à pressa por entre as vizinhas idosas, de camisolas grossas nas costas dos bancos, todas atentas à correria da Maria Inês, abanando a cabeça num comprazido olha que amor, aquilo é que é casamento feliz.
Que se passa, rapariga? perguntou a Dona Graça às costas franzinas de Maria Inês.
O almoço! O Manuel esqueceu-se, são pastéis! gritou ela, já ao longe.
Dona Graça sorriu, satisfeita: pastéis são sempre boa coisa, e alimentar com amor é ainda melhor.
A Inês saiu do portão, ia gritar, mas parou de súbito. Ficou a olhar para o marido, os ombros caíram, como se de repente o sol se tivesse apagado. O peito ficou-lhe apertado, teve de se agarrar ao tubo de esgoto para não cair.
O Manuel estava já na paragem do autocarro, de braço dado com uma jovem, vistosa, de peito cheio. Ela ria, encolhia os ombros de forma afetada, e o Manuel olhava-a de cima, também a rir. Depois ela virou-se para ele, lançou-lhe um olhar de desdém, ele inclinou-se numa vénia, apanhou-lhe a mão para beijar, mas a jovem libertou-se e ainda lhe deu uma palmada O Manuel endireitou-se, enraivecido, a Inês parecia que viu tudo ao pormenor. Logo a seguir, o Manuel amansou, fez-lhe uma festa nas costas, deu-lhe um rebuçado do bolso. A rapariga riu e abriu a boca: Dá cá o rebuçado então.
À Maria Inês deu-lhe uma volta ao estômago. Meu Deus! O Manuel, já um homem sério, quase com idade para ser avô, a bajular uma miúda Que vergonha!
Ela estava num vestido de verão azul com bolinhas brancas, uma fita a condizer no cabelo, sandálias elegantes. Maria Inês sentiu uma raiva e uma tristeza: o que fazer com aquele embrulho de pastéis, com estes disparates, e com a vida toda?
O autocarro chegou, o Manuel ajudou a rapariga a entrar, a multidão engoliu-os. Maria Inês jurava que, por um instante, o Manuel olhou para ela. Sentiu uma vergonha intensa pelo seu vestido caseiro, os chinelos gastos e o saco dos pastéis.
Virou as costas, atravessou o pátio com as vizinhas nas cadeiras a gozar o sol, quase esbarrou na Dona Graça.
Então e o almoço, não chegaste a tempo? perguntou Dona Graça, piscando o olho para o saco.
Não cheguei respondeu Maria Inês, encolhendo os ombros.
Que desperdício, menina. Olha, mando cá o Artur. Fica por casa hoje?
A Inês abanou a cabeça, indecisa.
Pronto, está dito. Ele vem, gosta de pastéis. Eu não os faço, detesto meter as mãos na massa. Espera por ele.
Dona Graça largou-se aos gritos para um trator que entrava no pátio, mas Maria Inês já não ouvia.
Subiu devagar as escadas, entrou no frescor do prédio, o som dos passos pequenos ecoou nas escadas de pedra, o soluço misturou-se com o ranger da porta, tudo ficou em silêncio dentro de casa.
Acabou. Era o fim. Fim do lar, da paz caseira, da certeza, da confiança. O fim da fé nas pessoas Aliás, não em pessoas, conceito vago, mas no marido. Era o marido, aquele a quem o pai e a mãe a tinham confiado um dia, aquele para quem ela devia ser porto seguro. E agora?
Sentou-se desajeitada no banco do corredor, os pastéis caíram do papel. O gato Manelito veio roçar-lhe as pernas, miando por comida, mas ela nem deu por nada. Continuava ali fora, presa à imagem daquela rapariga do vestido azul às bolinhas. E ao Manuel. E lágrimas corriam-lhe pela cara, quentes e amargas, e até gostou, por momentos, de não manter as costas direitas, de não ser a mulher perfeita. Sentou-se e deixou-se levar pela tristeza.
Quanto tempo ficou assim, não soube. Mas alguém empurrou de mansinho a porta, o Manelito fugiu.
Abriu-se a porta, e espreitou o senhor Artur, marido da Dona Graça. Nariz batatudo, bochechas sarapintadas, lábios grossos, caracóis oleosos, pescoço inchado tudo, no Artur, parecia a destoar naquela casa de classe média. Mas era dos seus, como dizia o Manuel, apesar de um tanto estranho.
Um artista, Maria Inês dizia o Manuel. Galeria e tudo! Mas são todos um bocadinho malucos
Maria Inês limpou os olhos e olhou o vizinho de baixo para cima. Pensou que, noutra vida, bem podia ser padre, aqueles olhos claros diziam tudo.
Senhor Artur? O senhor? balbuciou ela.
Quem havia de ser? admirou-se ele. A Graça disse que sobrou aí doçaria? Lá em casa andamos em obras, ela trocou tudo na cozinha suspirou. Não há cá pastéis, ela manda-me almoçar fora. Já não aguento!
Sentou-se no quadradinho de sol no hall, ocupado a tirar os sapatos molhei-os na poça, e as meias também! e enfiou os pés nus no chão. Maria Inês levou os sapatos ao varandim para secar, Artur resmungou, mas ela não arredou pé.
Entretanto, ele já estava na cozinha, agarrado à chaleira.
Inês, faz-me um chá, sim? Forte e preto, como mel de urze, com limão. Que saudades de um chá a sério
Esticou as pernas, barrando-lhe o caminho, quase tropeçava.
Agora faço sussurrou, pôs a chaleira ao lume, mas sentia-se gélida por dentro.
O Manuel como podia? Mal vira a esquina, já andava de braço dado com outra
Não, não, isto é só um mal-entendido! Encontraram-se sem querer, calhou! dizia a voz da mãe dentro dela. Quando ele voltar, não mostres nada, faz como sempre, mostra o teu carinho!
O Artur franziu o sobrolho.
Então vais-me dar chá requentado de ontem? Faz fresquinho, mulher, como a um convidado de jeito! cheirou o bule de porcelana, fez cara feia. Isso na minha aldeia era para o lixo!
Mas está bom, fiz de manhã protestou Inês, mas, com um suspiro, anuiu.
Preparar outro bule de chá custa pouco. Já a vida como será com o Manuel, agora?
A chaleira apitou, o aroma de chá do Ceilão, com elefante no rótulo encheu a cozinha.
Agora sim! E quero a chávena do serviço bonito, aquela azul com ouro. Traz também pastéis, e um prato bonito. E enquanto como, dás um jeito às meias. Tenho lá uma bela buraco no dedo. A Graça não quer saber, mexe só em móveis!
Apanhou as meias, devagar, quase com asco, mas já com a mão no trabalho, nem se deu conta.
Mas o Artur, depois de um instante, bateu com o punho na mesa, cresceu de tamanho.
Então mas que é isto, Maria Inês? Nem te dás ao respeito! Eu sou visita e tu deixas-me mandar em ti como se fosses uma miúda! Que se passa contigo? Dizem-me que eras uma senhora, elegante, tão cheia de graça! Vi-te tantas vezes passar pela rua, que até os pardais caíam em reverência. E agora andas de embrulho em riste atrás do teu marido, a mimá-lo como se fosse um bebé? Manelinho isto, Manelinho aquilo, não vás lá que eu vou por ti! imitou, abanando os caracóis.
Maria Inês ficou magoada, mas depois sorriu. Realmente, era o que ela fazia.
Uma galinha a chocar! murmurou, tristemente, Sim, é verdade. Mas gosto de cuidar, de proteger os meus, de me dar aos outros
Pois é, mas assim o teu Manuel até se esquece que é homem feito. Nós, Inês, somos caçadores, precisamos de aventura, não de mimos e cobertores! Claro que um caldo e umas meias têm o seu lugar, mas não exageres. O teu filho saiu de casa, e tu despejaste todo o teu instinto maternal para cima do Manuel. E ele deixa-se levar por outras, mais espevitadas. Ao lado delas sente-se novo, percebes?
Maria Inês não percebia. Ou não queria. Como assim? Dedicou a vida à família, e era isto o resultado?
Deixou a escola há década, para apoiar o marido, abandonou as explicações privadas por causa dele: barulho, desarrumação. Até deixou de cantarolando enquanto limpava, porque o Manuel não suportava ouvir música de rádio. O óleo e as telas foram para o sótão; os pincéis, guardados a sete chaves, atirados para o lixo.
E assim deixaste de ser mulher! ironizou para o espelho do aparador.
Manicura? Nem pensar, há sempre panelas para lavar. Roupas novas? Não vale a pena, nem saem. Sapatos? Então vais pôr tacão?! Olha lá as varizes! dizia ele, e acabaram por ir morar ao lado das telas.
Amigas ligavam pouco, o filho Miguel vinha sempre a despachar, enchia a barriga, levava uns tupperwares e não telefonava mais.
É isto. Era o fim.
Anda lá, Inês! Ergue-te, renasce enquanto és jovem! Ainda tens tanto para dar! clamou Artur, batendo na mesa. Os teus pastéis são uma maravilha ai, se eu tivesse dezoito anos! Não te largava!
E saiu. Maria Inês ficou só
O Manuel chegou tarde, meio bêbedo e desalinhado. Cheirava a perfume e a vinho.
A reunião arrastou-se atirou a pasta a Maria Inês, torceu as costas de dor. Faz-me um cházinho. E um prato cheio, com um copinho. Maria, não fazes nada? Estou a pedir!
Ela não pegou na pasta, mandou-o sair dali para passar com a mala.
Vais sair? O que se passa, estás a arranjar as malas? arregalou os olhos o Manuel, ao ver a Maria Inês, cabelo arranjado, brincos, vestido de linho bege e sandálias novas.
Vou de viagem. Ficas tu por tua conta Chora ou não chores, ficas como bem entenderes. encolheu os ombros ela.
E as batatas? E a camisa para amanhã? abanou ele o dedo.
Maria Inês hesitou, estava a pensar ir passar a ferro, mas mudou de ideias.
Faz tu. Ou que venha ela, se preferires. Adeus, Manuel. Já chega.
E saiu leve, tropeçou na alça da mala, mas logo os tacões soaram escada abaixo, o vestido novo sumiu no lusco-fusco da noite, um táxi gemeu ao fundo e fez-se silêncio.
O Manuel correu à escada, quis gritar mas apenas gemeu, levara uma apunhalada nas costas, lágrimas nos olhos.
Maria foi tudo o que conseguiu murmurar
Onde estás, Maria Inês? Massageavas-me agora, punhas a pomada, enrolavas-me com o xaile, depois aninhavas-te a mim, como sempre.
Ana Isabel? É você? murmurou ao telefone, gemendo. Sim Sim, eu sei que não devia ligar, mas as minhas costas, Ana! Não consigo ir à cozinha, Ana! Somos velhos amigos, ao menos O quê?…
A voz do outro lado falou de chamar o médico, e depois desligou. Ana não vem, não vai cuidar de mim, nem passar as camisas. Ela não é como a Maria. Nem será nunca. Que miséria
Arrastou-se até à cozinha, viu os pastéis no prato, frios, gemeu. Era uma tragédia, e ele fizera tudo sozinho!
Maria Inês voltou a meio do dia seguinte, acompanhada pelo médico e por um ramo de rosas que ela mesma comprou e estava a pôr num jarro bonito. Cheirava a perfume e vagamente a cigarro. Sim, ela fumava, às vezes, quando a vida pesava.
Espere, doutor, não pique já! travou a mão com a seringa.
O Manuel, desesperado, suplicou por alívio.
Que foi agora? perguntou o médico.
Um minuto. Manuel, o que lhe prometeste? Essas miúdas não aparecem do nada, tu para ela já és velho demais inclinando-se sobre a cara suada do marido.
Não sou velho! Estou em forma
Reforma? atirou o médico. Diz lá o que prometeste senão vou-me embora!
Uma vaga e o doutoramento. Mas não vai ter nada! Eu só tu, Maria, perdoa-me!
Vai ter. Homem que é homem cumpre a palavra. E tu, Manuel, sais da tua repartição. Vais para onde quiseres. E, olha, para a semana volto a dar aulas. Ferro está no armário, camisas por lavar. Se não gostas, divorcia-te. Percebeste?
Ele bufou, secou o suor, acenou. A dor nas costas era feroz, a Maria Inês a mandar, o médico do lado dela, o Artur à porta, só faltava a Dona Graça Que vergonha!
Percebi, já chega, dêem-me a injeção, torturadores! choramingou.
A Maria Inês acenou. O médico tratou do resto.
A Ana Isabel andava feliz, voava. O doutoramento, a colocação, tudo fácil à conta daquele totó do Manuel.
Agora ignorava-o, baixava os olhos. A mulher tinha dado a entender que podia perder tudo com um estalar de dedos. Ana Isabel arranjaria outro que a ajudasse.
O Manuel despediu-se do emprego. Todos estranharam, era lugar garantido, emprego de mel. Ele só disse que dera a palavra. Fez um jantar de despedida, levou a mulher com os brincos de brilhantes, dançou um tango com ela como nunca dançara, nem com Ana Isabel. E olharam-no, intrigados: que raio tinha a Maria Inês de especial?
Simples, tinha tudo. Ela era o ar que o Manuel respirava. Só quando ficou sem ele percebeu. Não era das costas ou do calor dela. Descobriu que a Maria Inês era ainda aquele livro por ler, enigmática, intensa e doce, como morangos cheios de sol, que dava a sua mulher nos verões da Figueira da Foz. E nunca lemos esse livro até ao fim. Deus permita que assim seja.
A Ana não tinha capacidade para tanto. Ou talvez não encontrou ainda o leitor certo. A vida dirá
Li tudo isto, naquela noite, depois de arrumar finalmente aquele serviço de chá bonito, e compreendi que, às vezes, precisamos perder, para perceber aquilo que é verdadeiramente nosso.







