— Aguenta, filha! Agora estás numa outra família e deves respeitar as regras deles.

Aguenta, filha! Agora fazes parte de outra família e tens de respeitar as regras deles. Casastete, não vieste só de passagem.
Que regras, mãe? Aqui tudo é maluquice! Especialmente a sogra! Ela odeiame, isso não tem mistério!
Já alguma vez ouveste falar de sogras bondosas?

Sai à farra! Sai à farra! Só porque ficou entediada! exclamou Dona Leonor, no meio da cozinha, o rosto rubro de fúria, os olhos incendiados. Se o marido anda à toa, a esposa tem a culpa. Que mais eu tenho de te explicar?

A sogra estava em frenesim, berrou contra a nora Inês como quem tem um lobo dentro do peito. Tudo porque Inês suspeitara o filho, Pedro, de traição.

Inês, jovem, frágil, com olhos grandes e inocentes, encostouse à parede, tentando acalmar a mulher enfurecida.

Dona Leonor, mas isso é irracional. Ele tem família, filhos começou a dizer Inês, mas a sogra a interrompeu de um gesto, como quem afasta uma mosca irritante.

Essa é a tua família? Ou será a tua criancinha que nem deixa eu e o avô chegar perto? retrucou a sogra, desdenhando. Que educação é essa, Inês?

Que educação? Só tem um anjinho, o Tiago, que ainda tem um ano. Ele é pequeno ainda, protestou Inês, a voz trêmula.

Pequeno? fez a mulher uma careta. Nos Yamaguti (nome inventado para a aldeia) o neto é ainda menor. Vai aos braços e já não repete, como este o teu fez um gesto para o quarto da criança.

Na verdade, ele é vosso neto, respondeu Inês, embora o coração batesse como tambor. As crianças sentem a energia das pessoas más. Talvez seja por isso que ele não se aproxima de vós.

Somos nós os maus? Danos de cabra! a sogra gritava, subindo a voz à altura dos telhados. E tu, minha cara, vive a viver à custa dos outros? De quem são os mantimentos que comes? De quem são os euros que gastas? Ingrata!

Inês cansouse de discutir com a sogra tempestiva. Já tinha dito mil vezes a Pedro que queria viver separado dos pais, mas Pedro, filho mimado, não via necessidade alguma.

A ele agradava ficar na casa dos pais, sentiase como criança no colo da mãe terra. Trabalhava tranquilamente, enquanto os velhos resolviam tudo: lavar roupa, limpar, cozinhar. Não era vida, era conto de fadas!

Por outro lado, a sogra de Inês, Dona Leonor, era como um programa de rádio constante. No início Inês tentou de tudo para criar contato: ajudava em casa, apoiavaa, escutava as queixas intermináveis sobre vizinhos e o fumo da rua. Depois percebeu que tudo era infrutífero.

Por mais que quisesse ser boa e útil, Inês odiavaa, e nem tentava esconder essa aversão.

Trouxe ao lar essa desgraça, como se não existissem meninas normais dizia Dona Leonor à vizinha, enquanto Inês recolhia os brinquedos espalhados por Pedro no quintal, escutando tudo.

Foi ao outro vilarejo atrás dela! Era tudo por causa disso! As nossas avós são muito melhores, mais trabalhadoras, mais sábias.

Não digo! concordou a vizinha, a fofoqueira Dona Rosa, que já tinha lavado os talheres de todo o bairro.

Eu sei o que faço, mas tu, Leonor, sempre disseste que as mãos não são da mesma madeira. Não consegues colocar nada em ordem.

Nem imaginas o tamanho! Não lhe dás confiança. Ou perde tudo, ou quebra. E a criança dela não é como a nossa.

O neto dos Yamaguti é outra história. Calmo, inteligente. Este aqui só faz birras, repete tudo. Os genes não são bons.

Quando a vida se tornava insuportável, Inês telefonava à mãe no vilarejo vizinho, chorava, desabafava, e a mãe respondia:

Aguenta, filha! Agora estás numa outra família e deves respeitar as regras deles. Casastete, não vieste de visita.

Que regras, mãe? Aqui tudo é loucura! A sogra… ela odeiame!

Já ouviste alguma sogra ser boa? Passámos por isso todas e tu também terás que passar. O importante é não mostrar que estás a sofrer. Aguenta.

Sabendo que a mãe, tremula e indecisa, não conseguiria mudar nada, Inês ameaçoua de ligar ao pai.

Tem medo do pai! exclamou a mãe. Sabes que ele tem um prazo condicional. Um passo em falso e prenderão o teu pai!

Inês compreendia tudo. Sabia que o pai amava a única filha. Recebera pena condicional por um furto que cometeu quando alguém ofendeu Inês na mercearia da aldeia.

E sabia que ele não ficaria calado se soubesse das humilhações que a filha sofria na casa dos sogros. Era um homem de temperamento quente.

Tudo bem, não direi ao pai respondeu Inês. Mas se continuarem assim, se a sogra agir desse jeito não sei o que farei.

Tudo vai se resolver, minha filha repetia a mãe, tentando acalmar. Em algumas semanas nem te lembrarás desta conversa.

Inês queria esquecer, mas a relação com a sogra só piorava. Dona Leonor parecia cada vez mais amarga, como se Inês fosse a causadora de todas as suas desgraças. Até o marido, Manuel, velho e cansado, não aguentava mais.

Por que gritas sempre com a rapariga? disse uma manhã, quando o conflito atingiu o ápice, e Manuel tentou intervir. Ela vai sair de nós! E isso seria o melhor!

Eu vou embora! disparou Dona Leonor, lançando sua ira ao marido. Levo tudo ao tribunal, devolvo cada euro que gastámos nesses anos! E levarei a criança dela para que não cresça nesta família miserável!

Inês percebia a insanidade da sogra, mas o medo ainda a apertava. Ainda amava o marido Pedro.

Os rumores de que Pedro, às escondidas, saía com a exnamorada Olga eram apenas fofocas de aldeia, espalhadas por velhas como Dona Leonor.

Não se sabe quanto tempo durariam os abusos da sogra se não fosse sua língua afiada. Certa vez, após uma vitória sobre a nora, ela contou às amigas, numa pintura de cores, suas conquistas. Cada história era ampliada, decorada, repassada ao marido, a outra amiga e assim a lenda da nora tosca chegava ao pai de Inês.

O pai de Inês, um homem robusto, quase dois metros, ombros largos, não se intimidava. Pegou o machado que usava para cortar lenha, não tirou o casaco de trabalho, subiu na sua velha motocicleta Royal Enfield, e, sem dizer palavra à esposa, partiu para o vilarejo vizinho libertar a filha do aprisionamento humilhante.

Enquanto isso, na casa de Dona Leonor, explodia um escândalo real. A jovem mãe, num instante, deixou o pequeno Tiago no sofá amarelolaranja novinho para buscar fraldas novas. Quando voltou, encontrou uma mancha marrom sob o bebê. Para os olhos da sogra, aquela mancha cresceu como um buraco negro pronto a devorar o lar inteiro.

Como um trovão, a mulher apareceu, gritando contra a nora:

Estragaste o sofá! O meu preferido! Sabes quanto custou? Vou arrancarte as mãos e costurálas de volta se for preciso!

Eu consertarei. Limparei tudo implorou Inês, tremendo ao pegar o pano.

O que vais limpar? Ele é novo! Como sabes? Nunca compraste nada com o teu próprio dinheiro!

E vocês gastam o que? explodiu Inês, e naquele instante ousou criticar a sogra por viver a vida à custa do marido.

O rosto de Dona Leonor ficou vermelho como fogo.

Agora limpa a mancha e depois vamos ao portão com o teu filho! Viverás aqui, sujando tudo, até aprenderes boas maneiras!

Inês, em lágrimas, tentava esfregar a mancha. O borrão marrom na capa amarelolaranja recusavase a sair, como se zombasse da sua impotência. O pequeno Tiago, sentindo a ansiedade da mãe, chorava em alta voz, aumentando a tensão no ambiente.

Dona Leonor permanecia sobre Inês, despejando xingamentos como chuva de louça suja. Nem percebeu que, na porta, surgira alguém estranho: o pai de Inês, Miguel. Ele estava ali, como um monumento, a mão segurando firme o cabo do machado.

Num instante, Dona Leonor, como se sentisse uma presença, virouse. O olhar pousou no machado.

Ela sabia o quão temperamental Miguel era, conhecia o seu passado e o prazo condicional. O medo atravessou a pele de Leonor num instante.

Ao perceber que o genro tinha ouvido o suficiente, e que a situação se tornava séria, Dona Leonor tentou salvar a dignidade, ainda que a voz tremesse.

Oh, Miguel! Eu estou a criar a tua filha

Ouvi o que fazes à tua filha, disse o genro, voz grave, entrado apenas de pantufas.

Levantou o machado sobre a cabeça, fez Leonor fechar os olhos, mas ao invés de golpear, deixouo sobre o ombro e estendeu a mão à filha.

Vamos, Inês, não há mais nada aqui para ti, falou ele, conduzindoa para a porta.

Espera, genro! recobrou Dona Leonor, recuperando o choque. E o que direi ao meu filho?

Deixa que o teu filho venha até mim, pela esposa dele. Falarei com ele como homem de verdade, respondeu Miguel, lançando-lhe um olhar gelado que dizia mais que mil palavras.

Miguel levou Inês e o pequeno Tiago para fora. Pedro hesitou em vir buscar a esposa e o filho, temendo o teste do sogro. Mas acabou por chegar.

Miguel conversou longamente com o genro. Não ameaçou, não gritou; porém a sua voz firme e o machado sobre a mesa davam peso às palavras.

Pedro prometeu que viveriam separados, que a mãe dele não interferiria mais e que ele protegeria Inês e o filho, sem jamais lhes fazer mal.

Quando Miguel apertou a mão de Pedro com firmeza, o genro sentiu que as brincadeiras com aquele homem eram perigosas e que todas as promessas teriam de ser cumpridas.

Desde então, Dona Leonor evitava a nora e o neto. Não mais trocava palavras, nem os saudava ao cruzarem a rua.

Pedro e Inês viveram separados, em harmonia e compreensão. Se fosse a lição do sogro ou o verdadeiro amor, ninguém sabia.

E assim se encerra o sonho estranho, onde as sombras das casas mudam de forma, os machados cantam e os corações batem ao ritmo de uma rua de paralelepípedos que se estende ao infinito.

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— Aguenta, filha! Agora estás numa outra família e deves respeitar as regras deles.
Не те мразя, въпреки всичко