Pedro era um rapaz simples, sem vícios nem extravagâncias. Quando completou 25 anos, os pais deram-lhe um apartamento. Mas não foi exatamente um presente: ajudaram-no a conseguir dinheiro para o pagamento inicial do crédito habitacional, em Lisboa. Assim, Pedro passou a viver sozinho num bairro sossegado.
A solidão começou a desvendar-se e, para combater o tédio, Pedro decidiu adotar uma gatinha. A pequena felina tinha um problema nas patas dianteiras as pessoas que tinham a mãe da gatinha queriam sacrificá-la, mas Pedro, cheio de compaixão, resolveu acolhê-la. Chamou-a de Linda. Entre eles nasceu uma ligação forte; Pedro corria do trabalho na Avenida da Liberdade para chegar a casa e encontrar Linda, que o esperava junto ao tapete da entrada, ronronando.
Com o tempo, Pedro começou a namorar uma colega do escritório. Chamava-se Constança, uma mulher determinada. A relação evoluiu depressa e, em menos de um mês, já viviam juntos.
Desde o primeiro instante, Constança não gostou de Linda e pediu a Pedro para se desfazer da gata. Ele recusou, explicando que Linda era demasiado importante para si. Constança, porém, insistiu, repetindo o pedido. Pedro manteve-se firme e disse que Linda ficaria. Constança argumentou que a presença da gata prejudicava a imagem do casal alegava que, sempre que recebiam visitas, as pessoas ficavam desconfortáveis com as patinhas deformadas da gata. Pedro sentia-se dividido: amava Linda, mas também valorizava Constança.
Os pais de Pedro não aprovavam a escolha do filho. Achavam Constança arrogante e grosseira, aconselhando Pedro a não precipitar-se em casar, para melhor conhecer a namorada.
Certa tarde, os pais de Constança foram até ao apartamento do casal. Mal cruzou a porta, o pai da jovem viu Linda, soltando uma gargalhada e chamando-a de “esquisita”. Pedro defendeu imediatamente a gata, mas durante toda a noite Constança e o pai continuaram a gozar da aparência de Linda, sugerindo mil ideias de onde poderiam descartar o animal. Até a mãe de Constança se juntou à risada.
No dia seguinte, Pedro regressou do trabalho. Linda não estava em casa. Perguntou a Constança pelo paradeiro da gata, e ela respondeu, sem emoção, que a deixara numa clínica veterinária ali em Campo de Ourique. Pedro saiu de imediato, desesperado, e procurou Linda por cinco horas… Finalmente, encontrou-a: Linda, abraçada ao dono, ronronava suavemente, feliz por ter sido reencontrada.
Pedro voltou ao apartamento e, com a voz carregada de mágoa, pediu a Constança para empacotar as coisas e sair. Não queria vê-la nunca mais. Ela tornara-se insuportável para ele.
Na manhã seguinte, Constança arrumou as malas em silêncio e partiu, resignada. Jamais imaginara que uma gata seria mais preciosa para Pedro do que ela própria.
Agora, Pedro e Linda vivem juntos, em paz. Linda espera todos os dias pelo regresso de Pedro, feliz por ter um lar e um amigo fiel.






