Vim Devolver Uns Pertences da Minha Ex-Namorada… E Quem Abriu a Porta Foi a Mãe Dela, Quase Sem Roupa

Fui devolver umas coisas que eram da minha ex-namorada… e foi a mãe dela que abriu a porta quase sem nada vestido.

Não planeava demorar. Nem queria trocar palavra. Era só eu, uma caixa de cartão, e a ideia de sair dali rapidamente tudo limpo, sem complicações. Mas a vida, como sempre, não quer saber dos nossos planos. O meu nome é Rui Caldeira. Tenho 31 anos. Trabalho em gestão de obras, nada de especial. E há três semanas acabei tudo com a Mariana Cardoso.

Não houve drama. Não foi barulhento. Foi mais como um pneu a perder ar devagar. Vais dando por ti e já não há mais. Estivemos juntos 4 meses. Parece pouco, mas quando as pessoas não combinam, quatro meses podem pesar. Não ficou mágoa, apenas uma caixa com as coisas dela encostada a um canto do meu apartamento, a ocupar espaço e a lembrar-me todos os dias que tinha de tratar daquilo.

Mandei mensagem à Mariana três vezes em duas semanas para ela vir buscar as coisas. Foi sempre a adiar. Nunca aparecia. Por isso, naquela quinta-feira ao final do trabalho, com as botas sujas nos pés e uma t-shirt cinzenta cheia de pó, meti a caixa no carro e fui dali quarenta minutos até ao Lumiar onde a mãe dela mora. Marina voltou para lá depois de o apartamento não lhe ter renovado o contrato. Sempre disse que a mãe tinha uma casa grande, bairro tranquilo, jardim bonito.

Imaginei uma senhora de óculos, por volta dos 50, talvez a preparar um bacalhau no forno. Bati à porta uma vez, ouvi passos calmos e ritmados do lado de dentro. Quando a porta se abriu, fiquei sem saber o que dizer. Dona Teresa Cardoso estava no vão da porta com apenas um robe curto de seda e só isso. O cabelo castanho-ruivo dela caía nos ombros, ainda húmido das pontas, parecia ter acabado o banho pouco antes.

Não mostrou embaraço. Nem um gesto aflito. Olhou-me nos olhos, serena, e disse apenas: Bem, deve ser o Rui, não é? Balbuciei um Sim, pelo menos acho que foi isso que saiu da boca. Sorriu, abriu mais a porta e avisou-me que a Mariana tinha ido ao supermercado e só chegava lá a cerca de uma hora. Perguntou-me se não queria esperar.

Olhei para a caixa, olhei para ela. Era óbvio o que devia fazer: deixar a caixa no chão, agradecer, e ir-me embora. Mas entrei. Ela fechou a porta numa calma desconcertante, como quem está habituada a receber estranhos de robe às quintas-feiras. Fiquei ali meio parado no hall, a olhar à volta. A casa estava quente, não só de temperatura, mas daquele calor de casa habitada, cuidada.

Havia vasos de plantas verdadeiras no parapeito das janelas, não era plástico. Sobre a mesinha ao pé do sofá, um puzzle por acabar. Prateleiras cheias de livros, uns até empilhados na horizontal por falta de espaço. Quando Dona Teresa voltou, já vinha de jeans e uma camisola de linho clara, as mangas arregaçadas. O cabelo ainda húmido, mas já puxado para trás.

Tinha aquela confiança fácil de quem não se anda a desculpar. Trazia dois copos de chá gelado (não era o típico português, mas sabe bem no verão), passou-me um sem perguntar se eu queria e apontou para a mesa da cozinha: Senta-te. Direta, sem ser indelicada. Sentei-me. Perguntou-me há quanto tempo estava com a Mariana. Respondi, quatro meses. Ela assentiu devagar, como quem confirma aquilo que já suspeitava.

Perguntei o que a filha tinha contado de mim. Olhou para o copo: O suficiente para saber que acabaram de acordo mútuo e que tu não és má pessoa. Depois olhou-me e disse: O resto vou percebendo. Fiquei sem saber que dizer, por isso mudei de assunto e perguntei sobre o puzzle em cima da mesa. Disse-me que era um de mil peças, um mapa de parques naturais, que andava há três semanas à luta com ele porque perdia peças nos sofás.

Disse-lhe que era bom com puzzles. Levantou uma sobrancelha, Duvido. Perguntei porquê. Homens que realmente sabem fazer puzzles nunca dizem logo. Esperam que lhes perguntem. Rimo-nos os dois. Daqueles risos de verdade, que escapam antes de pensares se estão fora de lugar. Ela baixou os olhos para o copo com um sorriso. Ficámos ali à conversa uns 45 minutos. Descobri que Dona Teresa tinha 53 anos (disse a idade como quem pede um café na pastelaria, como se não fosse mais do que um facto). Tinha-se divorciado dois anos antes, depois de um casamento de 20 que simplesmente chegou ao fim. Sem azedume, só como algo que já passou. Tinha ficado com a casa. Abrira uma pequena empresa de consultoria em jardinagem. Gostava de discos de jazz antigos e filmes de ação maus, e tinha opiniões fortes sobre o ponto correto do pão de ló.

Falei-lhe do meu trabalho, de crescer em Viseu, de como tinha ido parar às obras por acidente quando aos 17 arranjei um trabalho de verão que acabou por virar carreira. Ouviu-me sem aquele ar distante das pessoas a cumprirem tempo em conversas. Voltou a temas, lembrava-se do que eu dissera há minutos atrás. A Mariana ligou ao fim de 47 minutos dizendo que ainda demorava mais uma hora e meia porque o supermercado estava impossível.

A mãe olhou para mim e, sem dramatismo, perguntou se eu tinha fome, que podia aquecer comida. Disse-lhe que não queria incomodar. Ela abriu o frigorífico, sem ligar ao protesto: Estás a beber o meu chá à minha mesa. Já perdeste esse direito Rui. Fiquei. Fez frango com arroz, simples, e comemos àquela mesa pequena enquanto o céu escurecia pela janela da cozinha e o bairro se calava.

A certa altura, deixei de pensar na Mariana, na caixa ou no caminho de regresso. Era só eu, naquela cozinha, com uma mulher que tinha conhecido há uma hora e sentia-me inexplicavelmente tranquilo. Quando por fim ouvi o carro da Mariana estacionar, os faróis atravessando a janela, falávamos sobre qual era mais stressante, conduzir em autoestrada ou em Lisboa. Teresa disse, sem hesitar, cidade pelo menos na autoestrada vão todos para o mesmo lado.

Ainda estava a pensar nisso quando ouvi a chave na porta. Mariana entrou, viu a caixa no chão do corredor, depois a mim sentado à mesa com a mãe, e ficou ali, parada. Olhou para a mãe, olhou para mim, olhou para os pratos vazios ao lavatório. Jantaram juntos? perguntou, quase sem acreditar. Teresa respondeu apenas sim, com calma, e se tinha fome. Mariana pousou os sacos devagar. Rui, há quanto tempo estás aqui? Olhei para o relógio. Duas horas e onze minutos. Não disse em voz alta. Disse, Um bocadinho.

Ela olhou para mim um instante, depois para a mãe. Houve um silêncio entre elas que só quem se conhece há uma vida entende. Olhou para mim outra vez e por um instante, vi-lhe algo no olhar, não era raiva nem ciúme, era mais calmo. Puxou dos sacos e entrou na cozinha sem dizer mais nada. Levantei-me, agradeci o jantar à Dona Teresa. Ela acompanhou-me à porta, encostada ao caixilho com os braços cruzados e disse que não tinha dado trabalho nenhum.

Saí para a rua. O ar da noite fresco, parado. O candeeiro do alpendre piscou duas vezes. Notei o fio mal isolado do casquilho, guardei isso mentalmente e continuei caminho. Olhei para trás uma vez. Teresa ainda estava à porta, sem dar muito nas vistas. Conduz com cuidado, Rui. Acenei e atravessei o jardim para o carro. O caminho para casa foi passado a pensar numa mulher em quem não devia pensar. E o pior, ou talvez o mais sincero, é que não queria mesmo deixar de pensar.

Disse a mim próprio que não ia voltar lá. Não porque tivesse acontecido algo impróprio não aconteceu. Comemos arroz, falámos de condução, fui para casa e deitei-me. Mas aquela cozinha, a maneira como Teresa se encostava ao balcão, como me passou o copo sem perguntar, como ouvia não me saía da cabeça de manhã. Fiquei a olhar o teto a pensar na frase dela: Na autoestrada, vai tudo no mesmo sentido. Coisa pequena, mas ficou ali cravada.

Fui trabalhar. Concentrei-me. Analisei plantas para uma obra comercial para começar em Oeiras. Tratei de duas chamadas de empreiteiros. Almocei na secretária. Não pensei nela. Quer dizer, pensei umas quatro vezes, mas forcei-me a desviar o pensamento como se controlasse o que sentia.

No sábado de manhã, estava na loja de ferragens a comprar material para arranjar o terraço do meu amigo Paulo e, quando passei pela secção dos candeeiros de exterior, lembrei-me do fio mal parado no alpendre da Dona Teresa. Foi mesmo razão de segurança, disse para mim próprio (e até disse alto no corredor). Uma senhora dois metros ao lado, com um carrinho cheio de terra para vasos, olhou-me e avançou no seu caminho.

Comprei as peças para o terraço do Paulo, mas também as do candeeiro. Não avisei ninguém. Sei que é essa parte que parece escolha e é. Mas não fui totalmente honesto comigo sobre o motivo.

Cheguei lá a meio da manhã, com a mala das ferramentas e dois cafés da pastelaria do bairro. Dois, sim. Já não havia fingimentos. Teresa abriu a porta de jeans manchados de tinta e uma camisa de flanela larga. Tinha uma pincelada azul-clara no antebraço e outra na cara que, aposto, não sabia. Cabelo solto. Tinha o pincel na mão ainda húmido.

Olhou para as ferramentas e para o café e ficou um momento calada: O fio do candeeiro no alpendre. Eu: Notei na quinta, com a chuva, isso pode piorar. Olhou-me nos olhos. E o café é porque? Não expliquei. Fez-me sinal para entrar.

Estava a pintar o quarto de hóspedes, tudo forrado, móveis puxados, fazia os cantos com o pincel, devagar. Perguntei porque agora. Às vezes, cansa-se de adiar o que está por fazer. Arranjei o candeeiro em vinte minutos.

Ela trouxe-me o café e sentou-se nos degraus do alpendre enquanto eu tratava do trabalho. Não encheu o ar de conversa de encher, nem do tipo educado. Apenas ficou ali, a beber café no ar da manhã, em silêncio. Dei por mim a demorar mais do que o necessário. Quando fui lavar as mãos, já estava no quarto a pintar de novo. Perguntei se queria ajuda. Ela: Não preciso de ajuda. Eu: Já sabia. Ela: O outro lado ainda precisa de segunda demão, se vais ficar aí a fazer de inútil. Peguei no rolo suplente e pusemo-nos ao trabalho.

Pintámos ao mesmo ritmo confortável da outra noite. O tipo de sintonia que achas que demora muito a ganhar com alguém. A certa altura ela pergunta como estão verdadeiramente as coisas não como estás, que ninguém quer a resposta verdadeira. Perguntou como estavam as coisas mesmo. Continuei a passar o rolo, pensei em dar a resposta fácil, mas saiu-me a real: que há quase um ano parecia que andava, mas não ia a lado nenhum, que a relação com a Mariana nem me doeu como devia e isso incomodou-me mais, porque fez-me pensar se alguma vez estive mesmo presente.

Ela calou-se um pouco depois. Sabes o que isso é? Perguntou. Eu: Diz lá. Ela: É o que se sente quando se faz o que faz sentido durante tanto tempo que se esquece de perguntar se ainda sentes alguma coisa. Parei. Olhei aquela parede azul-clara e deixei essas palavras assentarem dentro do peito, como se sempre lá tivessem morado. Perguntei como sabia isso. Ela: Vivi lá dentro doze anos. E demorei mais três a perceber que isso tinha nome.

Acabámos a pintura antes do almoço. Ela lavou os pincéis no tanque, eu arrumei tudo. Quando olhámos o quarto, ela disse, baixinho: Está melhor. Eu ao lado: Muito melhor. Foi até à cozinha fazer sopa de tomate (daquelas de lata, mas boa) e pão torrado com queijo tipo ilha derretido por cima. Contou-me episódios do negócio da jardinagem, os clientes complicados, como começou aquilo só para provar a si própria que conseguia construir algo do zero.

Disse-lhe que parecia estar a funcionar. Ela disse que nuns dias sim, noutros não. Somos dois, disse eu. Sorriu, verdadeiro, surpreendida de se sentir compreendida. O telefone voltou a acender-se, ela virou-o para baixo. Disse cuidadosamente: Há coisas que ainda estou a arrumar na minha vida. Quero que saibas antes que isto, seja o que for, avance. Pousei a colher. Disse: Não tenho pressa. Ela olhou-me. Encontrou o que procurava, porque assentiu e voltou à sopa.

Fui-me embora pintado, mas com a sensação de ter entrado em algo muito maior que uma reparação de candeeiro. Ela ligou-me primeiro. Não esperava. Era terça à noite, passava pouco das sete, eu sentado no carro à espera de um hambúrguer no drive-in porque não me apetecia cozinhar nem fazer grande coisa. Vi o nome dela no telemóvel.

Demorei a atender. Depois disse: O portão das traseiras está preso. Amanhã tenho visita de clientes cedo e preciso de ir ao jardim esta noite. Pausa. Tentei destrancar aquilo de três maneiras. Nada. Perguntei se já tinha tentado levantar e empurrar ao mesmo tempo. Sim. A madeira parecia inchada pela chuva? Pausa. Não tinha pensado nisso. Fui lá. Não é trabalho. Estava de jaqueta leve e botas, junto aos vasos. O portão era mesmo madeira inchada. Fui buscar a plaina ao carro, planei a base. Vinte minutos de volta daquilo.

Ela ia arrumando vasos, com aquela precisão paciente. A meio, olhava para ela. Reposicionava os vasos, sem hesitar. O portão abriu-se às oito e meia. Testou-o duas vezes, sorriu: Mais rápido do que esperava. Eu disse: A chuva fez o trabalho, eu só discuti com a madeira. Sentámo-nos atrás no alpendre. Ela comentou que eu dizia muitas vezes está tudo bem para evitar falar de mim. Eu disse: O que é que gostavas de ouvir em vez disso? Ela: A verdade.

Pensei bem. Disse finalmente: Não estou bem. Mas sou melhor quando estou aqui. Foi mesmo verdade. Ela ficou em silêncio um pouco. Depois: Eu também. Tão simples, mas tão cheio. E ficámos ali calados, sem apressar.

Uns faróis iluminaram o quintal lateral. Homem nos finais dos 50, camisa, ar de quem veio sem ser convidado. Teresa endireitou-se logo. Era o ex-marido, António. Nem precisava de dizer. Veio falar de uma conta conjunta do divórcio, tema polido na voz, mas era poder que ele queria mostrar. Teresa disse que ele devia ligar antes de aparecer. Ele riu-se: Vou tentar lembrar-me. Depois de dez minutos, foi-se embora.

Ela sentou-se de novo, soltando um suspiro longo. É o meu ex-marido. Percebi. Faz isto, sempre que pode aparecer só para mostrar que ainda consegue. Ainda resulta? Ela: Menos do que antes. Acenei, sentei-me com ela. Não aconselhei, não julguei. Fiquei ali, naquele jardim a cheirar a terra húmida já com a chuva passada.

Não tinhas de ter ficado. Eu: Eu sei. Ela assentiu, ficámos mais um pouco, e a noite assentou connosco como se tivesse esperado por isto. Quando me levantei, acompanhou-me à porta, de braços cruzados como da primeira vez, mas no olhar já havia qualquer coisa de decidido. Ele vai ser uma complicação. Consigo lidar com complicado. Olhou-me, por muito tempo. Volta sábado. Desta vez faço mesmo jantar. Eu: Cá estarei.

No sábado, lá estava às seis, com uma garrafa de vinho tinto das caves do Dão, perdida à escolha na prateleira. Bata em cima, roupa arranjada. Teresa abriu a porta com um vestido verde-escuro, simples, elegante. Fiquei uns bons 15 segundos parado. Ela olhou para o vinho: Até vieste arranjado. Baixei os olhos, É só uma camisa. Ela: Fica-te bem. Deixou-me entrar. Cheirava a assado, daqueles a sério alho, ervas, acolhedor. Mesa posta a preceito, guardanapos de pano, vela curta no centro. Tinha um vinil a tocar jazz suave.

Ficámos na cozinha a conversar, enquanto ela deitava olho ao forno. Falei-lhe da obra em Oeiras, ela dos clientes novos que tinha conseguido por causa daquela visita. Devias estar orgulhosa, disse eu. Aos poucos chego lá.

Perguntei pelo António. Ela ficou imóvel ao ouvir o nome do ex, depois direita de novo. O advogado tratava do assunto, ele aparecia de vez em quando para lembrar que já não é ele que manda. Perguntei se fora sempre assim. Sim. E eu deixei. Isso é o que ainda trabalho em mim. Não a interrompi, não disse que já passou, nem que tinha de se perdoar. Ela percebeu o silêncio confortável.

Jantámos frango assado com legumes e pão da padaria ali ao lado. À mesa, ficámos lado a lado, perto mas com espaço opção dos dois. Falámos dos nossos dias, das dúvidas, sem fugir dos temas. Já na sobremesa, o telefone dela acendeu. É o António. Faz isto. Liga à noite, a ver se estou sozinha. Mas não estou. E pegou no garfo, voltou-se para mim. Tive vontade de rir de alívio.

Fomos para o alpendre com o resto do vinho. Tinha posto umas luzes amarelas, simples, só por si. Ficámos no banco de madeira, perto mas sem nos tocarmos. Contou-me mais do casamento: a maneira como se foi tornando pequena, como deixou de dizer as coisas em voz alta, como um dia olhou o espelho e já não sabia quando fizera algo só por prazer. Eu ouvi, sem receitas ou conselhos.

Disse baixinho: És fácil de falar. Até é inconveniente. Eu disse: Queres que faça por ser mais complicado? Ela riu-se, aquele riso sincero. Depois ficou calada, mas de uma calma boa. Olhou o jardim, os vasos postos desde terça. Tenho evitado querer coisas. Parecia mais seguro. E agora? Ela virou-se para mim, olhos claros naquela luz: Agora cansei-me de seguro.

Estendi-lhe a mão. Devagar, como se faz bem feito. Olhou as nossas mãos, depois para mim, e não largou. Encostei-me e beijei-a. Foi um beijo sem pressas, silencioso, seguro, como se já tivesse de ser há muito. Ficámos assim. A Mariana vai ter opiniões sobre isto. Eu: Provavelmente. O meu ex-marido, mais ainda. Eu: Deixa-o. Não te afasta nada disto? Olhei para ela para a mulher que abriu uma porta de robe, que consertou sozinha o portão, que reconstruiu a vida e se foi reinventando. Nem um pouco.

Ela entrelaçou os dedos nos meus e encostou a cabeça no meu ombro. Ficámos ali, enquanto o jazz saía pela janela da cozinha, o ar da noite a envolver-nos.

Meses depois, o portão nunca mais prendeu porque troquei tudo num domingo de manhã, ela a dirigir de cadeirão de jardim com café na mão e aquele ar meio mandão que até dá vontade de obedecer. A Mariana, pois, teve opiniões, várias, mas reconheceu à mãe uma calma que nunca lhe vira. O António ligou duas vezes, não atendeu nenhuma. O resto foi-se resolvendo.

E numa quinta-feira qualquer, passado aquele robe, aquela caixa de cartão, aquele chá, estava eu na cozinha dela a vê-la queimar uma tosta porque se estava a rir de mais comigo. Praguejou, abriu a janela, peguei eu na espátula e acabei o serviço. Ficou ao meu lado e disse: Não és tão inútil como parecia. E eu: Ainda bem que deixaste mostrar.

Bateu-me com o ombro, de perto: Também eu. Lá fora, o candeeiro arranjado brilhava limpo em cima dos degraus. Sem tremelicar, sem fio solto, só a cumprir o propósito: dar luz certa quando faz falta.

É curioso como há coisas, depois de bem consertadas, que já não voltam a falhar. Tal como o resto.

O que aprendi nisto tudo? Às vezes, o que parecia só mais uma devolução de memórias é o início de reparar o que dentro de nós ficou muito tempo esquecido. E nunca é tarde para começar de novo com uma boa mão, uma luz calma na varanda e a certeza de que, desta vez, é mesmo para ser.

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Vim Devolver Uns Pertences da Minha Ex-Namorada… E Quem Abriu a Porta Foi a Mãe Dela, Quase Sem Roupa
Priviedol svoju milenku na pohreb svojej tehotnej manželky… a potom právnik otvoril závet a odhalil pravdu