Não Te Atrevas a Cantar

Não te atrevas a cantar
O teu sorriso não está certo.

Benedita não percebeu logo que falavam com ela. Olhava para as mãos, pousadas sobre o vestido azul-escuro, um vestido que nunca teria escolhido para si. Aperta-lhe os ombros. Brilha demais. Não lhe pertence.

Benedita. Já te disse, esse sorriso não é natural. Estás tensa. As pessoas notam.

Hermínio disse isto num sussurro, nem sequer girando a cabeça. Observava o salão, onde os convidados de aniversário da sua firma já se acomodavam. Vinte anos da empresa. Uma festa grande. Noite importante. O papel dela estava previamente combinado, tal como uma cláusula de contrato: sentar-se ao lado dele, mostrar boa presença, não falar muito, beber só um copo, não puxar conversa com os parceiros sem permissão dele.

Desculpa. disse ela.

Não peças desculpa, corrige.

O restaurante era dos que fazem sentir o dinheiro fisicamente. Não se exibe, sente-se. No peso das toalhas, na luz dourada dos candeeiros, na maneira como os empregados deslizam, quase sem fazer ruído, flutuando pelo ar. Benedita já lá tinha ido várias vezes e sempre lhe voltava a mesma certeza: era intrusa. Não como mulher de empresário bem-sucedido, mas como pessoa. Como mulher com nome, com história, com qualquer coisa que em tempos havia dentro dela.

Tinha cinquenta e seis anos feitos. Vinte e oito deles passados ao lado de Hermínio Vale. Conheceram-se quando ela acabava o conservatório. Nessa altura, era vibrante, cheia de voz, apaixonada por Carlos Seixas e Amália Rodrigues. Ele era jovem negociador de olhos inflamados e certeza total de que o mundo inteiro está à venda, pronto a ser moldado. Olhava para ela como se ela fosse o próprio mundo. Depois tornou-se evidente: queria apenas redesenhar o seu mundo.

Hermínio, posso ir ter com Filomena? Está ali sentada sozinha.

A Filomena espera. Não tens nada que fazer à mesa dos Caetanos.

Conheço-a há vinte anos.

Benedita. Não havia zanga na voz dele. Apenas aquele cansaço de quem repete lições a uma criança. Hoje é noite séria. Limita-te a estar sentada e a sorrir.

Ela sorriu, conforme o manual.

O salão enchia-se lentamente. Parceiros, clientes, figuras públicas, esposas compenetradas. Todos arranjados, todos animados no tom certo, a falar das coisas apropriadas nestas noites. Benedita apanhava pedaços de conversa e pensava há quanto tempo não falava de algo importante para si. Música. Estrutura da fuga. Por que razão o segundo concerto de Seixas ainda lhe ferve por dentro, mesmo quando o ouve pela rádio.

A rádio quase não toca lá em casa. Hermínio não gosta de clássica. Irrita-lhe os nervos, diz ele.

Ao lado, uma mulher de vestido vermelho ria alto de uma piada. Um riso genuíno, ligeiramente rouco, cheio de vida. Benedita olhou-a com algo próximo da inveja. Não pela idade ou beleza. Mas por rir assim, como se tivesse pleno direito, sem pedir licença.

O jantar continuava. Brindes, aplausos, discursos de sucesso e futuro brilhante. Hermínio fez seu brinde de forma sóbria e poderosa, como sempre. A sala aplaudiu. Ele tinha o dom de dominar o espaço, isso não lhe tiravam. Benedita bateu palmas com todos, pensando que, talvez, sabia fazer o mesmo há muito tempo; manter o público, cantar com o peito tão aberto que se fazia silêncio.

A última vez que cantou em público foi há vinte e quatro anos. Num serão do conservatório, de onde Hermínio a levou mais cedo, porque tinha uma chamada “urgente”.

O apresentador anunciou o concurso de talentos já depois das sobremesas, quando os convidados relaxavam e a sala se tornava barulhenta. Diversão final: qualquer um podia subir ao palco improvisado e mostrar-seuma anedota, um truque, um fado. Hermínio torceu o nariz.

Que palhaçada, murmurou.

Benedita calou-se. Fitava o palco. Lá estava o microfone. Ao lado, um pianista jovem com cara simpática, que já tocara algumas peças durante o jantar. Benedita notou-lhe as mãos longas e o balançar de cabeça no ritmo até nos pianíssimos.

Entraram dois. Um contou uma piada, outro soprou uma música numa harmónica. Palmas mornas, amigáveis. Depois de novo o convite a quem quisesse tentar.

Benedita sentiu-se diferente por dentro. Não num rompante, mas como uma porta pouco usada que finalmente cede à pressão leve. Pousou o guardanapo, ergueu-se.

Para onde vais? perguntou Hermínio.

À casa de banho.

Não foi. Caminhou até ao apresentador e murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Ele ergueu as sobrancelhas, depois assentiu. Depois falou ao pianista, numa conversa sussurrada e breve. Ele acenou também, olhos despertos.

Quando o apresentador disse o seu nome, Hermínio demorou a perceber. Depois sim. Benedita viu-lhe a cara pelo canto do olho, mas não olhou. Concentrava-se no microfone.

Três degraus subiam ao palco. Ela subiu e parou de frente ao salão. Cheio de estranhos em fatos caros e vestidos resplandecentes. Muitos distraídos, a conversar ainda. Alguns olhavam-na com expectativa educada: que mais poderia vir?

Benedita acenou ao pianista.

Ele começou uns acordes, e a sala acalmou-se um pouco. Não era fado de mesa, nem música ligeira. Era Seixas. Vocalize. Uma das peças mais exigentes e belas do repertório, que ela cantara no exame final do conservatório. Sem palavras. Só voz e música.

Começou a cantar. E nos primeiros momentos, custou-lhe acreditar: a voz estava lá. Não morrera em anos de silêncio, não secou, não virou pó. Existia. Um pouco mais escura pelo tempo, com outras ressonâncias, mas viva. Verdadeira.

A sala calou-se por completo talvez à terceira frase. Não foi gradual: era como se o tempo tivesse paradoos copos fixos no ar, conversas suspensas, cabeças a girar. Benedita só pensava em não perder o fôlego, em manter a frase, ignorar Hermínio, o seu rosto, e o que viria depois.

O depois era indiferente. Esse agora era tudo.

Quando terminou, houve um segundo de quietude. Depois aplausos. De pé. Não todos ao mesmo tempo, mas muitos. A mulher do vestido vermelho gritava bravo!. O pianista olhava para ela com olhos redondos de espanto, como se visse criatura extinta.

Desceu do palco. As pernas meio bambas, o coração acelerado mas regular. Caminhou para a mesa, já vendo o rosto de Hermínio.

Ele não aplaudia.

Senta-te, disse.

Obedeceu.

Sabes o que acabaste de fazer?

Cantei.

Poupa-me. A voz era gelada, baixa. Exibiste-te na minha festa. Sem permissão minha. Percebes como isso fica visto?

Como fica visto?

Como se a minha mulher andasse faminta de atenção. Como se não lhe bastasse. Levantou o copo, pousou-o devagar. Vamos para casa. Em dez minutos.

Hermínio, mas ainda não

Daqui a dez minutos, Benedita.

Chegaram a ela três pessoas. A mulher do vestido vermelho, que se apresentou como Carminda, apertou-lhe a mão e disse: És fantástica, de onde és?. Um senhor idoso de barbicha parou e murmurou com gravidade: Magnífico. Tiveste bons mestres?. A Filomenavelha amigasaltou do outro lado, abraçou-a, cheirando a perfume cálido e café caseiro. Benedita quase chorou ali.

Benedita, estiveste onde este tempo todo? Meu Deus, tu cantaste como

Filomena, vamos, disse Hermínio, aparecendo ao lado, tomando-lhe o braço. Não bruto, até parecia carinho, mas sentiu a pressão mesmo sobre o vestido. Desculpem-nos, a Benedita está com dor de cabeça desde manhã. Temos de ir embora.

No carro, não falou. Silêncio toda a viagem, pior que qualquer insulto. Benedita olhava as ruas de Lisboa, as lojas, os candeeiros. E estranho: sentia dentro dela uma calma absurda. Nem alegria nem medo; algo terceiro. Como se, finalmente, lembrasse o próprio nome.

Em casa, Hermínio tirou o casaco, pendurou e virou-se.

Então é isto, disse. Percebo que estás entediada. Percebo que queres “realizar-te”. Mas há limites. Há o que convém e o que não convém. Hoje expuseste-me a pessoas de quem depende tudo o que temos.

Eu cantei. Aplaudiram.

Fizeste de ti artista num jantar de negócios. Sabes distinguir?

Não, respondeu Benedita, surpreendida por quão calma a voz lhe saía. Explica.

Muito tempo olhou-a, sério. Depois:

Tens tudo. Casa, conforto, respeito. Não entendo o que te falta. E honestamente, desisti de tentar.

Eu digo. Faltava-me eu.

O quê?

Tu sabes.

Foi para o quarto. Fechou a porta. Deitou-se vestida, a fitar o tecto, liso e branco como a fachada da vida. Ouviu-lhe o andar, portas e gavetas. Depois, só silêncio.

Não pregou olho. Pensou. Recordou-se de há quinze anos, quando aceitou sair do conservatório onde ensinava canto. Hermínio dizia que era pouco digno para mulher dele, pagava mal, não valia a pena trabalhar. Cedeu. Imaginou outras alternativasmas sempre que tentava, Hermínio encontrava um motivo para ser “inadequado, inconveniente ou supérfluo”.

Nunca lhe bateu. Nunca gritou. Só explicava, sempre com serenidade, o que estava certo e errado. E ao fim de vinte e oito anos, Benedita ouvia já tão só as regras dele, tinha deixado de ouvir a própria voz. Literalmente. Nem na cabeça.

Até àquela noite.

Cedinho, com ele no banho, tirou a mala velha do armário alto. Enfiou lá documentos. Passaporte, diploma do conservatório (que encontrou num fundo da gaveta), umas tantas fotografias. Telemóvel. Uns trocos em euros poupados lentamente nos últimos três anos, “para qualquer eventualidade”. Agora sabia para quê.

Vestiu-se de modo simples. Calças de ganga, camisola, casaco. Quando Hermínio saiu da casa de banho, ela já estava à porta de mala ao ombro.

Para onde vais?

Vou-me embora.

Longa pausa.

Não sejas tola.

Não sou tola. Vou mesmo.

Benedita, limpando as mãos na toalha, aquele ar de quem já ouviu histerias demais calma-te. Descansa. Conversamos à noite.

Já conversámos.

Não tens dinheiro. Não tens trabalho. Para onde vais?

Haverei de arranjar.

Benedita, que disparate. Tens cinquenta e cinco anos. Vais

Ela abriu a porta. Ouvia-lhe a voz atrás, mas já não distinguia palavras. O elevador desceu devagar e Benedita fitou-se nas portas metálicas. O reflexo desfocado. Quase sorriu ao ver-se.

Saiu a andar. Caminhou por Lisboa, sentindo o ar de outono seco e frio, cheiro a folhas e café de alguma pastelaria. Entrou, pediu um galão, ficou à janela e ligou à única pessoa a quem conseguia naquele momento.

Filomena, preciso de ajuda.

Meu Deus, o que aconteceu?

Saí de casa. Saí do Hermínio.

Silêncio. Depois:

Onde estás?

A Filomena vivia só num T2 na Amadora. Os filhos cresceram e partiram, o marido morrera há uns anos. Abriu a porta, deu-lhe espaço para entrar e não fez perguntas. Apenas disse:

Entra. O chá está quase pronto.

Passaram o dia na cozinha. Benedita falou e Filomena escutou, sem interromper, sem gestos de impaciência; só ia servindo chá. Quando Benedita calou, Filomena disse:

Partiste. Isso é o mais importante. O resto tem solução.

Ele vai bloquear as contas. Aposto que já bloqueou.

Já bloqueou?

Sim. Avisou-me no ano passado: Sai e vais ver.

Vamos ver o que ele faz, murmurou Filomena, lábios cerrados.

Hermínio não se fez esperar. Mal o Outono escureceu, o telemóvel de Benedita disparou: primeiro era ele, depois o secretário, depois até a mãe de Benedita, já claramente manipulada. A mãe chorava do outro lado, dizendo que Hermínio lhe contara do “colapso nervoso” de Benedita durante o evento corporativo, saíra de casa em estado estranho, precisava de assistência.

Mãe, não tive colapso.

Benedita, ele está preocupado. Disse que ontem estiveste estranha, que devias ver um médico

Mãe, só cantei. Subi ao palco e cantei. Não foi nenhum surto.

Ele diz que isso foi muito despropositado, que o envergonhaste

Estou bem, mãe. Estou com a Filomena. Ligo-te amanhã.

As contas estavam mesmo bloqueadas: viu-o no multibanco, cartão recusado. Pouco a pouco o montante da mala esvaía-se; Filomena recusava cobrar renda, mas isso não podia durar.

Três dias depois, Hermínio enviou-lhe roupas. Nem sequer foi: mandou dois estranhos com sacos. Benedita abriu-os no hall: escolhas aleatóriasvestidos de verão em outubro, sapatos altos, bibelôs. Nenhuma peça quente. Nenhum livro útil. Também isso era mensagem.

Um dia a mãe chamou-lhe, nervosa: Hermínio fora visitá-la. Bebeu chá e contou como Benedita sempre fora instável, como se esforçava, como já não aguentava, como ela precisava era de tratamento a sério. A mãe ouvia-lhe certezas. Sabia ouvir homens de discurso calmo.

Benedita, não queres voltar e conversar?

Mãe, bloqueia-me as contas e anda a espalhar que estou doida. Sabes o que isso significa?

Silêncio.

Ele é homem, filha. Eles são assim, quando ficam feridos.

Benedita desligou, a olhar a janela. Depois retirou o diploma da mala, colocando-o sobre a mesa. Capa azul petróleo, letras douradas. Benedita Dias Mendes. Egressa do Conservatório de Lisboa. Especialidade: canto lírico. Nem o via há mais de quinze anos.

No dia seguinte ligou ao conservatório. Perguntou pelo professor Manuel Brandão, aquele que em tempos lhe ensinara tudo. Já de idade, mas ainda a dar aulas. Deram-lhe o número.

Professor Brandão? É a Benedita Mendes. Lembra-se de mim?

Longa pausa.

Mendes? Do quarto ano?

Sim.

Pois claro. Mas onde andaste, rapariga? Nunca mais te ouvi.

Desapareci, tem razão. Preciso da sua ajuda.

É no conservatório que se encontram dois dias depois, numa sala alta do terceiro piso. Brandão igual: pequeno, magro, olhos de aço, mãos quietas no colo. Olhou-a de cima a baixo:

Envelheceste.

O professor também.

É normal. Sorriu de lado Canta.

Agora?

Está-se à espera de quê?

Ela cantou. Nervosa, sentindo os pulmões fracos, a voz trémula nas notas altas, mas Brandão só escutava. No fim, silêncio algum tempo.

Tens voz, disse. Técnica está enferrujada. Respiração pobre. Mas voz não falta. Isso é o essencial, Benedita. O resto conquista-se.

Em quanto tempo?

Depende de ti. Se levares isto a sério, dois meses e meio e podes pensar em actuar. Olhou-a fixamente. Porque paraste?

Casei-me.

E o marido proibiu de cantar?

Não proibiu, só… foi acontecendo. De mansinho.

O professor suspirou.

Foi acontecendo, pois. Então vamos trabalhar.

Todos os dias. Benedita entrava às nove, saia às duas, por vezes mais. Voz voltava devagar, uns dias fluía, noutros era como começar do zero. Brandão era duro: Voz não tem idade. Só técnica e vontade. O resto são desculpas.

Filomena arranjou-lhe trabalho animar um grupo de canto sénior no centro cultural. Pagava pouco, mas era seu. Três vezes por semana, ela ensinava senhoras octogenárias que cantavam porque sim, sem pressa, só pela alma. Observar aquilo era curativo.

Hermínio, por sua vez, não largou. Amigas comuns transmitiam-lhe recados: diziam que andava a espalhar que ela fugira “por causa de um professor”; que era instável, ele sofrera anos, agora soltava-a. Mudava detalhes conforme o público, mas o teor era fixo: ela era louca, ele a vítima. Uns acreditavam. Outros, limitavam-se a não contrariar. A mãe ligava pouco, sempre com palavras escolhidas a dedo.

Pensas no futuro, filha? E a casa?

Já pensei.

Ele diz que se estiveres calma, tudo se pode tratar. Volta, conversam…

Não volto.

Pelo menos negociem. Divórcios, bens…

Mãe, ele bloqueou-me as contas e diz que estou a ter um surto. Com gente assim, termina-se, não se negoceia. Fica bem estabelecido.

A mãe suspirava e mudava de assunto. Benedita não lhe tinha raiva. A mãe era de outros tempos, com ideias muito claras sobre casamento e paciência. Julgá-la seria como culpar alguém por não falar uma língua nunca aprendida.

Um mês depois, Brandão foi directo no final de uma aula, fechando partituras sem olhar:

Dentro de dois meses há um concerto solidário na cidade. Programa clássico, procuram solistas. Eu recomendava-te.

Mas, professor, já não subo a palco há vinte e quatro anos.

Eu sei.

Vai lá estar muita gente importante?

Vai dar na RTP Madeira. Recolhe-se fundos para o hospital de crianças. Sim, muita gente exigente.

Ela hesitou.

Eu penso nisso.

Decide-te rápido.

Deu o sim passados dois dias. Brandão assentiu, satisfeito.

Seis semanas que se seguiram foram o mais intenso que Benedita tivera desde aluna: trabalharam o repertório: árias de ópera, alguns lieder; e no final, por insistência dele, de novo Carlos Seixas, agora uma peça mais longa e exigente. O cansaço era doce, não aquela cinza dos últimos anos. Este era vivo.

Filomena velava-a, ralhava quando Benedita comia mal ou se esgotava. Benedita ria, dizia que era assim. Nestes meses, eram mais próximas do que em todos os anos anteriores a intimidade sincera das vidas nuas, sem cenários.

Três semanas antes do concerto, começaram os problemas. O administrador do espectáculo ligou, hesitante: “há questões sobre a sua participação”. Benedita foi directa:

Foram instruídos pelo Hermínio Vale?

Longo silêncio.

Não posso comentar.

Percebo.

Chamou o professor. Brandão tratou disso. Não quis contar como, mas Benedita ficou no programa. Mas não acabou aí. Uma semana antes do concerto, Filomena telefonou nervosa:

Benedita, vieram dois cá à porta. Dizem que vêm do Hermínio. Perguntaram se vives aqui.

O que respondeste?

Disse que não te conhecia. Mas acho que vão ficar por perto. Tem cuidado.

Benedita sentiu um frio fundo no estômago. Não medo, só a certeza: não ia largar. Era um homem habituado a que tudo lhe pertencesse, habituado a decidir. O gesto dela acabava com a ordem natural dele; era isso que não lhe perdoava.

Contou isto a Brandão. Ele tirou os óculos, limpou, tornou a pôr.

Vai tentar sabotar o concerto.

Suponho que sim.

Estás com medo?

Pensou.

Não. Estou cansada de ter medo.

Bem. Breve pausa. No concerto vai estar o Victor Stern, produtor. Trouxe-o de propósito. Ouviu falar de ti desde aquela noite no restaurante. Um dos seus olheiros assistiu. Quer ouvir-te. Dá o teu melhor.

Olharam-se. Ele:

Ando nisto há quarenta anos. Só tive três alunas de voz a sério. Uma foi para Paris, é famosa. Outra morreu cedo. A terceira casou e desapareceu. Pensei sempre na terceira. Ainda bem que voltou.

O dia do concerto amanheceu cinzento. Benedita chegou cedo à Gulbenkian, percorreu o palco vazio, escutou o silêncio. Uma sala enorme, quase mil pessoas. Cadeiras num mar escuro. Gostava destes momentos: palco à espera, sala a respirar silêncio.

Uma hora antes, o gerente avisou-a, envergonhado:

Dona Benedita, estão lá fora dois indivíduos. Dizem ser enviados do seu ex-marido. Querem que vá lá.

Não é meu marido. É passado.

Dizem que têm um relatório médico a pedir internamento.

Ela respirou fundo.

Podem inventar o que quiserem. Eu vou cantar. Entrem, se quiserem ouvir.

Gerente hesita. Benedita olha-o nos olhos.

Ninguém me tira daqui. Está percebido?

Perfeitamente… Mas…

Chame o professor Brandão.

Brandão geriu as coisas não lhe perguntou como, mas os “enviados” ficaram à porta. Antes de começar, no átrio, Benedita viu um homem alto de sobretudo, estranho. Brandão falava-lhe, o outro ouvia e acenava. Devia ser Stern.

Benedita actuou como terceira. Sala cheia. Câmera da RTP ao lado. Trazia um vestido escuro, simples, escolhido por si. Aceitou o silêncio antes de abrir a boca.

Cantou primeiro algo leve, quase feliz. A segunda canção pediu tudo: quase perdeu o fôlego, agarrou-o. Na terceira, já não via plateia, câmeras, ameaças. Só música. Era ali o seu lugar. Era dali. Era ela.

Com Seixas, fez-se silêncio imenso. O tipo de silêncio de quem não ouve, escuta. Benedicta sentiu algo que não sabia definir: como quem, após doença longa, descobre que o céu se manteve azul todo o tempo, à espera.

Já ia na última frase, quando, da porta lateral, avistou Hermínio.

Apanhou-lhe um recorte de expressão: apressado, a gesticular com um segurança. Vermelho, crispado. Atrás, outro homem.

Terminou o canto. A nota final não vacilou.

A sala ergueu-se em aplausos.

Hermínio estacou no meio da nave. O produtor Stern já estava com ele, falava-lhe baixo, calmo. Benedita viu os rostos, o de Hermínio a ceder, a converter-se em pedra. Não à maneira cinematográfica, mas de mansinho: como quem percebe, de repente, que já não detém nada.

Hermínio virou costas, saiu.

Nos bastidores, Stern deu-lhe um aperto de mão firme.

Ouvi falar de si. Agora ouvi. Temos assunto.

Qual?

Contrato. Concertos. Aqui, depois fora. Tenho salas na Europa a precisar de voz assim. Sorriso ligeiro E ninguém mais irá baralhar-lhe o caminho. Palavra de honra.

Brandão ficou a um canto, a vê-la. Ela captou-lhe o olhar: assentiu só uma vez. Bastou.

A mãe de Benedita viu na TV. Dias depois foi visitá-la; sentaram-se na cozinha. Mãos da mãe a ruminar a toalha, silêncio comprido.

Vi-te na televisão. No concerto.

Viste?

A Filomena obrigou-me a ligar. E tu ali, a cantar… A mãe demorou-se, começou a arrumar e desarrumar a toalha. Nunca soube que cantavas assim.

Ouviste-me no conservatório.

Isso foi no tempo da tua mãe, e eu ficava um farrapo de nervos. No televisor fui só público. Ergueu os olhos Perdoa-me.

Porquê?

Por acreditar nele mais do que em ti. Era tão convincente. Tu calavas, pensei que estavas bem. Não compreendi.

Benedita segurou-lhe a mão.

Está tudo correcto, mãe. Só demoraste um pouco mais. É normal.

Não ficas zangada?

Não.

As lágrimas da mãe corriam-nos rosto mudo. Benedita ficou ao seu lado, e pensou que perdoar nunca é fingir que nada aconteceu. É só guardar o que vale a pena levar. O resto deixa-se.

Passou um ano.

Nos bastidores de uma sala de Lisboa, Benedita ouvia o rumor do público. Sonoridades indiferenciadas mas universaistecidos roçando, vozes baixas, tosses tímidas. A sala pequena, antiga, ornamentada, janelas do tamanho da infância. Lá fora, chovia.

A vida dela era isto agora: aluguer modesto em Alfama, do qual gostava. Contrato com Stern, suficiente para viver e cantar. Mala na mão, de cidade em cidade. Brandão ligava-lhe uma vez por semana, corrigiam repertório via vídeo. A mãe ia visitá-la de vez em quando, sempre incrédula pelo ritmo de vida da filha.

De Hermínio raros ecos. Diziam amigos que, desde aquela noite, os negócios vacilaram, perdeu sócios. Seis meses depois, casou-se outra vez: rapariga nova, calada, quase anónima. Benedita ao ouvir isto só sentiu compreensão cansadanem raiva, nem triunfo. Há pessoas assim: nunca mudam, só arranjam outra companhia útil.

Pena por aquela mulher. Mas já não era da sua história.

A sua, agora, era diferente. Havia cansaço de viagens, discussões com maestros sobre ritmos, tropeções com línguas estrangeiras, solidão em hotéis frios ao fim do dia. E mais: manhãs em cidades desconhecidas, a janela aberta para ruas inéditas. Palmas tão suas e de mais ninguém. O direito de comprar o vestido que quisesse. O direito de ligar para quem lhe apetecesse. De fechar a porta, sabendo que nenhum juízo a espera do outro lado.

Às vezes pensava nos anos gastos. Não com mágoa, só com lucidez. Vinte e oito anos. Muita coisa. Poderia ter cantado durante todo esse tempo. Ter sido outra. Ou talvez a mesma. Antes.

Mas pensar poderia ter sido é inútil. O que conta é o agora.

Ela existe agora. A voz existe agora. O palco existe agora.

Uma assistente apareceu entre as cortinas:

Dona Benedita, faltam três minutos.

Já vou.

Ajeitou o vestido simples, escuro, escolhido por si. Fez uns exercícios respiratórios. De olhos fechados, veio-lhe a imagem de Hermínio naquele restaurante um ano atrás: Não sabes sorrir. E ela, desculpa. O silêncio como juiz. A ausência de qualquer eco do seu próprio som.

Agora, sorriu. Não como se deve. Só porque apetecia.

Entrou em palco.

A sala calou-se.

E ela cantou.

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