— Gala elogia a sua casa, quero ver em que gastou tanto dinheiro, — disse Lurdes Pereira com um sorriso presunçosoEntão, ela empurrou a porta, revelando um interior ainda mais extravagante que ele jamais ousara imaginar.

Gisela elogia a casa de vocês, quero ver quanto gastaram disse Lurdes, com um sorriso pomposo.

Durante quatro longos anos eu e a minha esposa Madalena dedicámosnos ao projeto de uma moradia de dois pisos na zona rural de Sintra. Cada instante livre era gasto na obra, e, finalmente, depois de tanto esforço, mudámosnos para o novo lar.

Juntos, com os três filhos Tiago, João e Ana instalámonos na casa recémconstruída, ansiosos por uma vida familiar feliz. Tudo corria bem, até que a minha sogra, que antes achava que construir uma casa era um grande disparate e um desperdício de dinheiro, resolveu interferir.

Assim que a mudança terminou, parentes foram chamados a visitar e a observar a casa. Em dois meses, quase todos já tinham estado lá, exceto a própria Lurdes, mãe de Vítor ou seja, eu.

Os familiares e conhecidos ficaram encantados com a residência, e a notícia chegou rapidamente à sogra.

Vítor e Madalena têm uma casa de conto de fadas! exclamou a irmã da Lurdes, Ana Clara. Já viste?

Ainda não, ainda não chegou a hora respondeu a mulher, fingindo indiferença.

Na mesma noite, incapaz de esperar, a sogra mandou mensagem ao filho pedindo fotos.

Gisela elogia a casa de vocês, quero ver quanto gastaram escreveu Lurdes, com aquele sorriso de quem se acha superior.

Sem papasnas, envieilhe várias fotografias. Recebidas as imagens, a Lurdes mostrou logo a sua insatisfação:

Por que ninguém me convida para a visita? Toda a família já esteve lá, menos eu

Talvez porque acreditaste que estávamos a brincar de construir e não a fazer obra? lembroume Vítor, o filho.

Ah, deixa! Quem mexe com o passado tem o olho cego, respondeu, sorrindo nervosamente.

E quem esquece, acaba por perder duas coisas, completou eu, com um tom severo.

Para desviar o assunto, Lurdes insistiu:

Enviame por mensagem o endereço, quero ir visitar exigiu, numa ordem.

Cumpri o pedido e, no dia seguinte, Lurdes chegou à casa.

Madalena, que não fora informada de que a sogra tinha ligado e exigido visita, ficou bastante surpresa.

Vítor, por que eu não sabia? perguntou, olhandome com espanto.

Não pensei que ela se arranjaria tão depressa respondi, espalhando as mãos, também surpreso por a mãe não ter demorado a chegar.

Lurdes trouxe guloseimas para os netos e, no caminho, comprou três barras de chocolate, o que não passou despercebido a Madalena.

Mas nada na conduta da mãe de Vítor a surpreendeu, pois ela nunca foi muito afetuosa com as crianças.

A sogra fez um exame meticuloso da casa, por dentro e por fora, e ficou evidente que não estava satisfeita com o que via.

Demorei a perceber o que a desagradava, mas o esclarecimento veio quando a convidamos à mesa e ela tomou dois copos de espumante.

Por que devo viver num apartamento como mendiga, enquanto esta senhora vive numa mansão como rainha? lançou Lurdes, chocada.

E o que há de errado com o apartamento? Lembras que vendemos o teu antigo estúdio, comprámos um T2 e, ainda por cima, eu enviote todos os meses setecentos euros. De onde tiras a ideia de mendiga? refleti, indignado.

Achas que não sou grata? Sou! Mas também quero viver numa casa! replicou Lurdes, ainda a protestar.

Mãe, toda a família sonhou em erguer a casa dos nossos desejos, construímola. Que tens a ver tu nisso? perguntei.

Que tens a ver? Sou quem te deu a vida, crieite, mereço esse luxo! Por que não me convidas aqui? contestou ela, obstinada.

Madalena, que não acreditou que a sogra ousasse iniciar tal discussão, advertiu:

Vítor, as tuas explicações são inúteis. Ela apenas inveja a nossa felicidade e a nossa casa. O que lhe interessa é sentirse superior

Olhei para a minha esposa, percebendo a validade das palavras dela, mas ainda assim senti culpa perante a mãe.

É difícil ouvir isso, mãe, mas esta casa foi feita para nós. Tens um bom apartamento T2 onde vives bem

Vivo bem? Então deixa que a tua mulher viva lá, boa sorte, e eu ficarei a reiná aqui! retrucou Lurdes, irônica.

O comportamento da sogra não se encaixava em nenhum padrão; as suas palavras irritavam e afastavam Madalena:

Vês como Lurdes agradece a nossa ajuda? Está sempre a exigir, a ofender, a criticar, a menosprezar o meu papel na família

Sem resposta, Lurdes exclamou, fez um gesto de desdém e, revirando os olhos, agarrou outra taça de espumante.

Para conversar seriamente com a mãe, convideia para a varanda.

Mãe, serei franco: é difícil suportar a tua pressão constante e o teu descontentamento. Não és uma avó carinhosa, e o teu temperamento torna impossível conviver contigo. A Oúria (Madalena) sofre, as crianças evitamte, e não há possibilidade de viver juntos ou de te entregar a casa.

Ah, sou uma avó má? Talvez não saibas colocar a tua avó no seu devido lugar? respondeu, mordaz.

Ouveme bem, mãe. A minha casa simboliza a nossa felicidade conjugal; não deixarei que a destruas!

Por que devo eu destruir tudo? É ideia da tua mulher, não? Já percebi que os meus sentimentos não interessam a ninguém! Todos são inocentes, só eu sou culpada! Lurdes, com ódio aberto, fitoume e mordeu o lábio. Ouvi-me, não te preocupes! acrescentou, soluçando alto, e chamou um táxi.

Meia hora depois, a mulher irritada e ofendida saiu da moradia de dois pisos sem dizer adeus a ninguém.

Desde então, a relação entre eu e Lurdes ficou tensa; ela não pretende perdoar o fato de eu ter colocado os interesses da minha família acima dos dela.

Passouse um mês até que, inesperadamente, Lurdes telefonou e arranjou uma enorme confusão.

Descobriuse que ela planeava vender o seu apartamento T2 e, com o dinheiro, comprar uma casa. Já tinha encontrado compradores, mas ao chegar ao momento da venda, revelouse que o proprietário do apartamento era eu, Vítor.

Enganasteme! Vendeste o velho apartamento e o guardaste para ti! desabafou Lurdes. Deixasteme sem nada!

Porque eu investi tanto para comprar o T2? Achas que tinha o direito ou não? contraperguntei.

Tudo é tua culpa! Tudo! exclamou, irritada, e desligou o telefone.

Desde então, não deu mais notícias; todas as minhas tentativas de contactara foram ignoradas.

Se quiseres ficar a par das nossas novidades, segue a página! Deixa o teu comentário, dá um like e partilha o teu sentimento. concluí, ainda a olhar para a varanda onde a brisa do Tejo levava embora as últimas palavras de discórdia.

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— Gala elogia a sua casa, quero ver em que gastou tanto dinheiro, — disse Lurdes Pereira com um sorriso presunçosoEntão, ela empurrou a porta, revelando um interior ainda mais extravagante que ele jamais ousara imaginar.
Antes Que Seja Tarde Natália segurava, numa mão, o saco dos medicamentos e, na outra, a pasta com os exames, enquanto tentava não deixar cair as chaves ao fechar a porta do apartamento da mãe. A mãe, teimosa, insistia em não se sentar no banco do corredor, apesar das pernas a tremerem. — Eu consigo, — disse a mãe, esticando-se para agarrar o saco. Natália afastou-a de leve com o ombro, suave mas firme, como quem afasta uma criança do fogão. — Vais sentar-te agora. E não discutas. Reconhecia aquele tom em si própria. Surgia quando tudo parecia fugir-lhe das mãos e era preciso agarrar, nem que fosse só o essencial: saber onde estavam os documentos, quando tomar os comprimidos, a quem ligar. A mãe aborrecia-se com esse tom, mas calava-se. Hoje o silêncio pesava mais. Na sala, o pai estava sentado junto à janela, de camisa, com o comando da televisão fechado na mão. Mas a televisão estava desligada. Não olhava para a rua, mas para o vidro, como se lá dentro estivesse a passar outro canal. — Pai, — aproximou-se Natália. — Trouxe o que o médico receitou. E aqui está o pedido para a TAC. Amanhã de manhã vamos. O pai acenou a cabeça. O gesto foi discreto, como uma assinatura ao fundo de uma folha. — Não vale a pena andares para aí comigo, — disse. — Eu vou sozinho. — Vais, pois, — atalhou a mãe, suavizando logo a voz, como se se assustasse com a própria firmeza. — Eu vou contigo. Natália quis dizer que a mãe não aguentava esperas nem filas, que lhe subia a tensão, que ia passar mal e ainda se calava. Mas ficou em silêncio. Sentiu crescer aquela irritação antiga: porque é sempre tudo ao colo dela, porque ninguém parece capaz de simplesmente ceder e fazer como é preciso. Arrumou os papéis em cima da mesa, conferiu as datas, prendeu com um clip os resultados das análises da semana anterior e voltou a sentir o cansaço habitual de ser “a responsável”. Tinha quarenta e sete anos, família, trabalho, o empréstimo da casa do filho, e mesmo assim, quando algo acontecia aos pais, voltava a ser ela a tomar as rédeas, mesmo quando ninguém lhas pedia. O telefone tocou, e Natália viu no visor o número do centro de saúde. Foi para a cozinha, fechou a porta com cuidado. — Dona Natália? — a voz soava jovem, cortês, distante. — Falo da Oncologia do Hospital. Sobre o resultado da biópsia… O termo já não lhe era estranho, mas continuava a soar fora da sua vida. — …há suspeita de processo maligno. Precisa de exames complementares, com urgência. Sei que é duro ouvir isto, mas o tempo conta muito. Natália segurou-se à mesa para não se sentar. Imagens subiram-lhe à cabeça, sem pedir: corredores de hospital, soros, rostos anónimos, as costas da mãe, de lenço. Ouviu o pai tossir na sala, e de repente aquela tosse foi uma confirmação. — Suspeita… — repetiu — Então não é certo, mas… — Falamos de probabilidade elevada. Recomendo não perder tempo, — disse o médico. — Amanhã cedo apareça com os documentos, faço questão de a receber sem marcação. Agradeceu, desligou, e ficou uns segundos a olhar para o bico do fogão, como se ali encontrasse instruções para o que fazer a seguir. Quando regressou, a mãe já a fitava. — O quê? — perguntou. — Diz lá. Natália abriu a boca. As palavras saíram secas. — Suspeitam de cancro. Pediram urgência. A mãe sentou-se. O pai não mudou de expressão, mas apertou tanto o comando que os nós dos dedos ficaram brancos. — Pois, — murmurou ele. — Até onde chegámos. Natália quis protestar, dizer “não digas isso”, “ainda não se sabe”, mas sentiu um nó na garganta. Percebeu quão sustentadas eram as suas rotinas familiares no velho pacto de não dizer o que assusta em voz alta. Agora a palavra soara, e as paredes tinham ficado mais finas. Nessa noite, em casa, não conseguiu deitar-se. O marido dormia, o filho escrevia no telemóvel no quarto, e ela sentada na cozinha, fazia listas: que papéis levar, que análises repetir, a quem ligar. Ligou ao irmão. — Ó Alexandre, — esforçou-se por manter a voz firme. — O pai tem uma suspeita. Amanhã vamos ao hospital. — Suspeita de quê? — o irmão parecia não ouvir bem. — Cancro. A pausa foi longa, demasiado. — Não posso amanhã, — disse ele afinal. — Estou de serviço. Natália fechou os olhos. Sabia que o irmão tinha de trabalhar, que não podia simplesmente largar tudo. Mas sentiu aquela velha onda: ele “não pode” sempre, ela “pode” sempre. — Alexandre, — chamou, e a voz vacilou. — Não é só um turno. É o pai. — Vou ao fim do dia, — respondeu ele depressa. — Sabes que eu… — Eu sei, — atalhou Natália. — Sei que foges sempre que tens medo. Arrependeu-se logo a seguir, mas já tinha dito. O irmão calou-se, depois suspirou. — Não comeces, — disse. — Sempre gostaste de mandar, depois cobras. Ela desligou, sentindo-se vazia por dentro. Sentou-se, a ouvir o frigorífico ressonar, pensando que não era altura de discutir quem tinha razão. Mas era quando o medo apertava que tudo saía cá para fora. No dia seguinte, foram os três juntos ao hospital: Natália ao volante, mãe ao lado, pai atrás. Este levava a pasta, como se não fosse papel mas algo que se pode perder para sempre. Na recepção, preencheu formulários, entregou cartão, pedidos médicos. A mãe tentava ajudar mas baralhava datas. O pai esperava de lado; Natália cruzou o seu olhar, e percebeu que ele não olhava as outras pessoas com pena, mas com um lento reconhecimento. — Dona Natália, — chamou a enfermeira. — Pode entrar. No gabinete, o médico folheava rapidamente papéis. Natália tentava decifrar as notícias pelo rosto dele. O tom era calmo, mas os termos diziam muito: “agressividade”, “estadiamento”, “é preciso confirmar”. O pai sentava-se direito, como em reunião. — Vamos repetir algumas análises — explicou o médico. — E uma nova biópsia. Por vezes o material não chega. — Mas então não têm a certeza? — perguntou Natália. — Em medicina raramente há certezas sem confirmação, — respondeu. — Mas temos obrigação de agir como se fosse muito sério. Essa frase doeu mais do que a palavra “suspeita”. Aja como se o tempo estivesse a acabar. Natália sentiu-se no modo avanço rápido. O resto — trabalho, cansaço, planos — ficou em segundo plano. Os dias seguintes passaram num só bloco: manhãs de telefonemas, receitas, idas e voltas; tardes de filas e papeladas; noites na cozinha dos pais, a fingir que só estavam a discutir logística. — Vou tirar férias, — anunciou Natália à segunda noite, servindo sopa. — No trabalho desenrascam-se. — Não é preciso, — respondeu o pai. — Tens tua vida. — Pai, — pousou-lhe a tigela à frente. — Agora não é tempo para orgulhos. A mãe olhava-os, com o lábio a tremer. Sempre foi forte, quando o pai ficou sem emprego, quando Natália se separou, quando o irmão se meteu em chatices. Aguentava tanto que depois ninguém perguntava como estava. — Não quero que vocês… — começou a mãe, mas calou-se. — Que não o quê? — Natália olhou para ela. — Que depois fiquem sem se perdoar. Natália podia dizer que havia muito que não se perdoavam, só nunca diziam. Mas calou-se. Nessa noite, sem sono, deitada ao lado do marido adormecido, pensou na velhice do pai. Lembrou-se de como ele a ensinara a andar de bicicleta, a segurava pela sela até ela conseguir ir sozinha. Não tinha medo de cair, porque ele estava perto. Agora era ela que ficava perto, e parecia-lhe segurar não a bicicleta, mas a casa toda. No terceiro dia, o irmão apareceu. Entrou no apartamento com um saco de fruta e um sorriso envergonhado. — Olá, — disse, e Natália sentiu vontade de zangar-se, porque aquele sorriso era completamente fora de lugar. — Olá, — respondeu ela, seca. Na cozinha, a mãe cortava maçãs, o pai calado. O irmão começou a falar do trabalho, enchendo o silêncio com banalidades. — Alexandre, — perdeu a paciência. — Percebeste o que se está a passar? — Percebi, — cortou ele. — Não sou parvo. — Então por que não vieste ontem? Porque só fazes o que te convém? Branco como a cal, o irmão rebateu. — Alguém tem de trabalhar, não achas? O dinheiro aparece do ar agora? Tu tens sempre tudo planeado. Eu… — Tu o quê? — Natália inclinou-se. — Já és homem, Alexandre. Não és um miúdo. O pai levantou a mão. — Chega, — disse baixo. Mas ela já não conseguia parar. Misturava-se o medo pelo pai e a mágoa de anos, pelo irmão e por si. — Sempre desapareceste quando ficava difícil, — disse. — Quando a mãe estava doente, quando o pai… quando o pai bebia, lembras-te? Quem ficou? Eu. A mãe pousou a faca. — Não vás por aí, — pediu. — Isso já foi há muito. — Foi, — disse Natália. — Mas não desapareceu. O irmão bateu na mesa. — Achas que foi fácil para mim? — gritou. — Tu gostas de ser a chefe! Depois acusas os outros de dependerem de ti. E aquelas palavras acertaram fundo. Natália via-se dependente de ser necessária. Havia nisso qualquer coisa de doce e pesado. Ser precisa — ter direito. — Não odeio, — murmurou. E nem ela acreditou. O pai levantou-se. Fê-lo devagar, como se cada movimento tivesse de ser pensado. — Acham que não vejo? Pensam que não percebo que me dividem? Como se já não estivesse cá… Não acabou a frase. A mãe foi ter com ele e tomou-lhe a mão. — Não digas, — sussurrou. Natália viu de repente não o “pai”, mas a pessoa sentada na espera, ouvindo diagnósticos sem mostrar medo. Ficou-lhe um nó na garganta, de vergonha. O telefone vibrou. Era do laboratório onde tinham feito exames. — Sim? — respondeu. — Dona Natália? — a voz soava cansada, não era médica. — Falo do laboratório. Houve um erro na identificação das amostras. Estamos a rever tudo, é possível que os resultados do seu pai tenham sido trocados. Demorou a perceber. “Erro” e “trocados” pareciam irreais. — Desculpe? O que quer dizer trocaram? — Encontrámos inconsistências nos códigos de barra, — explicou. — Precisamos que venham amanhã de manhã repetir as análises, sem custo. E vamos rever a biópsia também. Pedimos desculpa. Natália pousou o telemóvel e ficou a olhar para o visor, à espera de confirmação. — Então? — perguntou o irmão. Ela levantou os olhos. O silêncio era inteiro. — Eles… — murmurou. — Dizem que podem ter trocado as análises. A mãe cobriu a boca. O pai sentou-se devagar, como se já não conseguisse ficar de pé. — Então… — o irmão perguntou, hesitante. — Então afinal pode não ser… Natália acenou. Sentiu não alegria, mas um vazio estranho. Como se alguém desligasse o alarme — e finalmente se ouvisse tudo o que tinham dito. No outro dia, voltaram ao laboratório. Ela levou os pais, o irmão foi de autocarro. Ninguém fez piadas nem comentou o tempo. Esperaram na fila, os papéis nas mãos, ouvindo a enfermeira chamar nomes. O pai deu sangue sem uma palavra. Natália via a agulha entrar, a cor escura a encher o tubo, e pensava que nada daquilo era filme, era simplesmente a vida deles, onde um erro num código basta para virar dias ao contrário. Deu-se prazo de dois dias para o novo resultado. Esses dois dias foram diferentes. Não havia pânico, mas sim uma estranheza. A mãe simulava normalidade, mexia com chávenas, perguntava-lhe se estava cansada. O pai falava menos. O irmão ligou-lhe duas vezes: “Como estão?” “Vai andando.” Ela respondia igual. Deu por si à espera que alguém dissesse “Desculpa.” Mas ninguém disse. Nem ela, porque não sabia por onde começar. Quando o hospital ligou a dizer que, revisto o material, não havia sinais de malignidade, Natália estava presa no trânsito do Eixo Norte-Sul. Ouviu o médico explicar que o erro residia na identificação e na amostra insuficiente, que agora era diferente, e era preciso apenas vigilância e controlo ao fim de seis meses. — Ou seja, não há cancro? — a voz falhou-lhe. — Não existem dados que confirmem cancro neste momento, — respondeu. — Mas exige-se acompanhamento. Desligou e ficou agarrada ao volante, carros a buzinar à volta, mas sentiu as lágrimas correrem. Não de alegria, mas pelo peso a que finalmente se permitia largar. Nessa noite, juntaram-se em casa dos pais. Natália levou uma tarte da pastelaria, porque não tinha mãos para fazer ela mesma. O irmão levou flores para a mãe. O pai no sofá, a olhar para eles como se voltassem de uma longa viagem. — Pronto, — disse o irmão, forçando o sorriso. — Podemos respirar. — Respirar, sim, — respondeu o pai. — Agora, como é que se volta a encher o peito? Natália fitou-o. Não havia mágoa na voz, só cansaço. — Pai, — começou. — Eu… Engasgou-se nas palavras. Percebeu que se começasse a justificar, voltava tudo ao mesmo: “eu só quis ajudar”, “foi o nervosismo”. Precisava dizer de outra forma. — Eu assustei-me, — confessou. — E comecei a mandar, como sempre. E despejei no Alexandre. Desculpa. O irmão baixou os olhos. — Também eu — admitiu. — Assustei-me e escondi-me no trabalho. Desculpa. A mãe suspirou, mas não chorou. Sentou-se ao lado do pai, deu-lhe a mão. — Quanto a mim, — olhou-os, — passei o tempo a fingir que estava tudo bem, para não discutirem. E para não me assustar tanto. Mas só vos afastou de mim. O pai apertou-lhe a mão. — Não preciso que sejam perfeitos, — disse. — Só quero que estejam perto. E que não me usem de desculpa. Natália acenou. Doía-lhe por dentro — a certeza de que a marca daqueles dias ficava. As frases sobre “desapareceres” e “gostas de mandar” não se apagam com um “desculpa”. Mas algo se mexia. Tinham dito em voz alta o que era sempre calado. — Olha, — propôs, serenamente. — Eu não vou decidir tudo. Ajudo, mas preciso que assumam parte também. Alexandre, podes tratar de vir pelo menos uma vez por semana controlar o pai nas revisões? Não é “se conseguires”: quero datas. O irmão assentiu, devagar. — Posso. Às quartas tenho folga. Venho. — E eu, — disse a mãe, — vou deixar de fingir que aguento tudo. Se estiver em baixo, digo. E não vou descarregar depois. O pai olhou para todos, e esboçou um pequeno sorriso. — E as consultas agora são em família: para não haver mais segredos. Natália sentiu nascer um calor delicado por dentro. Não uma festa, mas algo parecido com esperança. Depois do jantar, ajudou a mãe a arrumar. Os pratos tilintavam, a água corria. Secou as mãos e ficou uns segundos à porta da cozinha. — Mãe, — disse baixinho. — Não quero ser chefe. Só tenho medo que, se largar, tudo se desfaça. A mãe olhou-a nos olhos. — Tenta largar aos bocadinhos — respondeu. — Não tens de fazer tudo de uma vez. Também estamos a aprender. Natália acenou. Vestiu o casaco, confirmou as luzes, fechou a porta. No patamar, escutou a casa: nenhum grito, nada partido, só vozes sumidas. Desceu e seguiu para o carro, entendendo enfim: “antes que seja tarde” não é sobre um susto apenas. É sobre o direito de dizer e ouvir antes do medo, antes de se tornarem estranhos. E isso agora tem de ser confirmado não em palavras, mas em quartas-feiras, visitas, pequenos “preciso de ajuda” — que sustentam, afinal, bem mais do que o controlo.