Yolanda estava deitada no sofá a chorar amargamente. O marido, há poucos meses, confessou que tinha …

Júlia estava estendida no sofá, chorando amargamente. O marido, há poucos meses, tinha confessado que havia outra mulher na sua vida. E ela estava grávida.
Júlia, desculpa, mas já passaram dois anos e não tivemos filhos. Já é tempo. Comecei a duvidar de mim, murmurava o Henrique e agora bem, a minha está grávida
Amante, sussurrou Júlia.
Chama como quiseres. Daqui a dois meses já teremos um filho. Desculpa.

Júlia nem sequer discutiu por que razão Henrique esperou tanto tempo. E só dois meses antes do parto, mesmo na véspera de Ano Novo, ele abandonou-a.
A pobre mulher, sem sequer se despir da noite anterior, perdida de forças e lágrimas, jazia no sofá. Por algum motivo, um distante Ano Novo da infância acorreu-lhe à memória.

Naqueles tempos, a Julinha andava no quinto ano. Depois das aulas, ela e as amigas iam sempre espreitar a loja de usados. Aquela loja parecia uma caverna de tesouros.
A roupa e o calçado não as entusiasmavam, mas os bibelots, brinquedos e bijuterias faziam-nas sonhar.
Nesse dia, Julinha viu logo a caixinha maravilhosa. Era azul celeste, com incrustações douradas. Ela ficou completamente hipnotizada, presa ao vidro.

Quando o vendedor abriu a tampa, e a melodia suave saiu de dentro, saltando do veludo azul apareceu uma bailarina de tutu branco a dançar. Julinha ficou sem fôlego, totalmente encantada. Para lá disso, o vendedor ainda revelou uma gavetinha secreta onde se podia guardar segredos e pequenas jóias.

As amigas, Mariana e Isaura, logo se atropelaram aos elogios:
Tão lindo! Que maravilha!
A Mariana perguntou logo:
Quanto custa?
O vendedor, sorridente, disse-lhes um valor impossível para jovens: duzentos escudos.

«Nunca vou conseguir juntar tanto dinheiro», pensou Julinha.
E tinha razão. Nessa altura, para a escola davam-lhes umas poucas moedas talvez vinte escudos e era suficiente para um bom almoço. Se dissesse que ia ao cinema, a mãe dava-lhe trinta escudos.
O pai estava em viagem de negócios e só voltava dali a uma semana. Ele é que lhe compraria a caixinha, a mãe era impossível de convencer.

Julinha imaginou logo a voz aguda da mãe:
«Lá estás tu! Queres uma bailarina por duzentos escudos? Com esse dinheiro faço o almoço da semana!»

Nada feito. Não podia sequer pedir à mãe. Tinha de esperar pelo pai.
Assim, todos os dias Julinha passava na loja para ver a bailarina. O vendedor, boa pessoa, mal a via entrar, dava corda à caixinha, e a bailarina rodopiava.

Em seis dias, Julinha já sabia cada detalhe da caixinha viu um canto gasto, uma beirinha rachada, a bailarina tinha só um sapatinho, e o vestido estava manchado, um pontinho pequenino mas Julinha reparava em tudo.

Logo que o pai voltou, Julinha levou-o direto à loja.
Já foi vendida, disse o vendedor, resignado. Mesmo há poucas horas. Não chegaram a tempo, suspirou.

As lágrimas saltaram e Julinha não se conteve.
Ó filha, disse o pai, tentando consolar não chores, vá, compro-te já um bolo! Aquele trufado que tu gostas, cheio de cogumelos de chocolate.
Julinha assentiu. Adorava aquele bolo, principalmente os cogumelos por cima, feitos só de chocolate.
Mas chorou na mesma. A bailarina fazia-lhe falta.

No dia seguinte, Isaura trouxe para a escola aquela caixinha tão desejada.
Quando Julinha percebeu que era a amiga quem tinha o seu tesouro, ficou desolada. Isaura deu corda à música, e a bailarina dançou no meio do silêncio maravilhado dos colegas.
Foi a minha avó quem me comprou, disse Isaura, orgulhosa. Veio da aldeia para passar o Ano Novo connosco e levei-a logo à loja.

Eu também namorei essa caixa toda a semana confessou Mariana, magoada.

Julinha não aguentou e chorou outra vez.
Então, Julinha, por que choras? perguntou Pedro Ramalho.
Não é nada! gritou e saiu a correr da sala, empurrando o rapaz.

Todos sabiam que Pedro gostava da Julinha. Havia quem invejasse, mas ela ignorava-o.
Júlia foi encostar a testa à vidraça gelada da janela.
Julinha, eu compro-te uma igual, não chores, disse Pedro, aparecendo por trás.

Onde é que vais encontrar uma dessas? respondeu ela, a gozar. És burro… e fugiu.
«Coitado, nem devia ter sido assim» lamentou-se ainda mais, assim que saiu para o frio do pátio.

Estava um frio de rachar. E Julinha ficou lá fora, de casaco fino, muito tempo, até adoecer.

Pedro foi visitá-la nesse dia, quando percebeu que Julinha não viera à escola.
Ainda não encontrei a bailarina, Julinha, mas prometo que vou procurar.
És tolo, Pedro. Não consegues encontrar! É estrangeira. Lá em baixo está escrito: “Made in DDR”. Onde vais tu achar uma dessas? choramingou ainda.

DDR é Alemanha de Leste, não é? perguntou Pedro.
É, respondeu tristemente Julinha.
Pois quando lá for, trago-te uma, prometo.

Desde esse dia, ficaram amigos de verdade. Primeiro, crianças unidas. No oitavo ano, Pedro teve coragem de beijar Julinha, e ela não recusou e a amizade transformou-se noutra coisa, mais serena, cheia de abraços e beijos.

Depois do décimo ano, Pedro foi incorporado no exército ao destino, calhou-lhe ir para a Alemanha.

Pedro escrevia cartas e, em tom de brincadeira, dizia que ainda não tinha encontrado a bailarina.
Mas Julinha não resistiu à espera; seis meses antes de Pedro terminar a tropa, conheceu Henrique. A sedução dele foi imediata uma canção improvisada, a guitarra nas mãos. O coração cedeu, e em dois meses casaram.

Pedro voltou da tropa e, ao saber que Julinha era esposa de outro, embarcou num navio norueguês. Raramente foi visto na cidade depois disso.

***
Júlia levantou-se lentamente do sofá. Preparou um café. Estranhamente, nesses dias perdidos, voltava-lhe sempre à memória Pedro e notava que chorava não só por Henrique, mas também pelo que nunca aconteceu com Ramalho.
Onde andaria ele? Seria casado?

No calendário, 31 de dezembro. Teria de enfrentar a passagem de ano. As amigas, todas com as famílias, seria estranho aparecer sozinha.

Foi ao mercado e ao super, comprou uns petiscos para amenizar a solidão daquele Ano Novo.

Ao regressar, com os sacos nas mãos, deparou-se no átrio com um Pai Natal saindo do elevador.
Comovida, as lágrimas voltaram-lhe aos olhos.
Então, menina, por que choras? disse o disfarçado, com voz de avô. Hoje é festa! Ora toma lá isto. E tirou uma caixa do saco, desaparecendo no escuro das escadas.

Júlia nem teve tempo de agradecer. A caixa era pesada.
Entrou na cozinha e abriu cuidadosamente o presente.

Lá dentro estava uma nova caixinha azul celeste, com dourados. Júlia ergueu a tampa, deu corda à música. Do fundo do veludo, apareceu uma bailarina, agora com ambos os sapatinhos.

Abriu a gavetinha secreta lá dentro estava uma aliança de ouro.
Correu à janela. No pátio, o Pai Natal afastava-se. Júlia, descalça, desceu os degraus num instante.
Hesitou, mas no momento em que Pai Natal se virou, os dois correram um para o outro.

Abraçada ao casaco quente, Júlia murmurou:
Tolo Conseguiste mesmo
Pois, respondeu Pedro consegui encontrá-la, na Alemanha, como prometiPor instantes, Júlia não ousou acreditar. Mas, perante o olhar sorridente de Pedro não escondido já pelo gorro vermelho, nem pela barba de algodão soube, sem palavras, que todas as partes do passado vinham, por fim, encaixar-se no coração dela.

Há muitos anos que trago esta caixinha comigo, murmurou ele, com os olhos húmidos. A promessa não tinha prazo de validade.

E ali, sob a noite gelada e o céu pontilhado de fogo-de-artifício, Júlia sorriu como há muito não sorria. Aceitou a mão de Pedro. Sentiu, de novo, a criança cheia de esperança, de olhos postos na vitrine. Agora, a esperança era ela.

O ano novo começou assim: com música no peito e a certeza de que é nos pequenos milagres e nos reencontros que pareciam perdidos que a vida verdadeiramente dança.

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Yolanda estava deitada no sofá a chorar amargamente. O marido, há poucos meses, confessou que tinha …
Влюбих се на 62 години… после чух разговора му с сестра му.