Uma vida de conto de fadas
Naquela manhã, Mariana acordou com a sensação de que algo importante aconteceria. O sol brilhava com uma intensidade especial, os passarinhos faziam uma algazarra no jardim, e o marido, ao sair para o trabalho, deu-lhe um beijo na bochecha e murmurou: És a melhor que há. Tudo estava, como de costume, perfeito.
Perfeito era o termo com que Mariana media a sua vida. Tinha um marido perfeito, empresário de sucesso, carinhoso e atento. Dois filhos perfeitos um rapagão universitário e uma filha no secundário, ambos excelentes alunos, sem problemas de maior. A casa espaçosa no centro de Lisboa, a casa de campo no Alentejo, o carro novo na garagem. E ela própria perfeita: elegante, cuidada, com quarenta e cinco mas aparentando dez anos menos.
As amigas suspiravam: Mari, tiveste sorte! Vives mesmo um conto de fadas. Mariana sorria modestamente, pensando que, sim, teve sorte. Embora, no fundo, não acreditasse em sorte. Sempre soube o que era preciso fazer: como se apresentar, como falar, como gerir a casa, como apoiar o marido, como educar os filhos. Dedicou-se por inteiro a essa perfeição, sem se poupar.
O marido, João, era o centro do seu universo. Conheceram-se no quarto ano da faculdade bonito, inteligente, de uma boa família da Foz do Douro. Todas as raparigas suspiravam por ele, mas a escolhida foi Mariana. Sentia-se a mais feliz das mulheres.
Casaram-se ao fim de um ano. Depois, o sucesso dele nos negócios, a progressão dela até chefe do departamento financeiro numa grande empresa, depois os filhos. Tudo encaixava na perfeição.
Por vezes, Mariana reparava nalgumas estranhezas. O João, sem motivo aparente, ficava a olhar pela janela com ar distante, alheado do que ela lhe dizia. Em viagens de negócios a Paris ou Milão, ligava menos do que o habitual. E, às vezes, havia na expressão dele uma tristeza estranha, como se a mente vagasse por sítios longínquos.
O que tens? perguntava ela.
Nada, só estou cansado respondia ele, evasivo.
Ela não dava importância. O trabalho é stressante, pensava. Quem nunca?
***
Naquela terça-feira, Mariana foi ao escritório do marido tratar de uns papéis. Ele próprio pedira, precisava da assinatura dela numa procuração. A secretária, uma rapariga nova, ficou sem jeito: O senhor João está ocupado, pode aguardar?. Mariana sorriu: Não te preocupes, sou de casa.
Entrou sem bater.
João estava sentado à secretária, a olhar para o monitor. No ecrã, uma fotografia de uma mulher jovem, bonita, loira, de olhar triste. Mariana surpreendeu-se era estranho ver aquilo, ainda por cima com a secretária ali fora.
Jo, vim só assinar os papéis anunciou, fingindo descontracção.
O marido sobressaltou-se, fechou o ecrã depressa demais, mas Mariana percebeu. E sentiu um aperto estranho no peito.
Sim, claro remexeu nervoso nas gavetas . Está tudo aqui. Assina, deixa aí, depois levo eu.
Quem é? perguntou Mariana, num tom calmo, frio, que só mulheres em perigo sabem usar.
Quem? Ah, ninguém, uma colega. É trabalho.
Trabalho é ver fotografias assim, em ecrã inteiro?
Mariana, não exageres. Estás a imaginar coisas.
Ela nada disse. Ficou com os papéis e saiu. Mas o verme da dúvida já tinha criado raízes.
***
Mariana começou o seu próprio inquérito. Não o planeou, as mãos agiam por instinto. Enquanto João tomava banho, pegou-lhe no telemóvel. Mexeu no que era preciso. Encontrou a conversa. Escondida, numa aplicação de mensagens com password, mas Mariana sabia: era a data de nascimento da filha. João nunca trocava códigos.
Tenho saudades, lia-se.
Também eu. Em breve estaremos juntos, respondia o marido.
Ela não desconfia?
Não, tudo normal.
Mariana leu sem querer acreditar. Cinco anos. Cinco anos de uma relação paralela. Enquanto ela cozinhava, criava os filhos, recebia João com sorrisos, ele estava com outra.
Folheou a conversa até ao início. Fotografias, palavras doces, planos para encontros. E então viu a frase que lhe gelou o sangue:
Sabes que és a minha única. Desde a faculdade. Se não fossem as circunstâncias, nunca nos tínhamos separado. A Mariana é uma boa mulher… apenas… aconteceu assim.
Relia, sem acreditar.
A única. Desde a faculdade. As circunstâncias.
Afinal, ela nunca fora a amada. Apenas a opção conveniente. A que apareceu na altura em que a verdadeira paixão desapareceu.
Ao jantar, esperou-o na cozinha. Olhava o pôr do sol, em silêncio, a pensar: como recomeçar? O que explicar aos filhos? O que fazer com uma vida que era mentira?
João entrou, viu-lhe o rosto e compreendeu tudo.
Sabes de tudo disse, sem perguntas.
Sei. Quem é ela?
João demorou. Sentou-se e cobriu o rosto com as mãos.
Desculpa, Mariana. Nunca quis que soubesses assim.
E como querias? Que nunca soubesse? Que continuasses aqui, mas a pensar nela?
Eu não penso nela sempre protestou, fraco.
Não mintas. Li tudo. Minha única. Desde a faculdade. Conta-me, quero saber a verdade.
E ele contou.
Ela chamava-se Catarina. Conheceram-se no primeiro ano, apaixonaram-se perdidamente. Iam casar, até que os pais dela se opuseram João era de outra classe, sem posses nem nome. Mandaram-na para o Porto, apresentaram-lhe um noivo adequado. Catarina chorava, escrevia cartas, mas não pôde resistir.
João esperou dois anos. Depois conheceu Mariana. Bonita, inteligente, de boas origens. Pensou: Porque não? A vida segue.
Casaram-se, nasceram os filhos. O João montou o próprio negócio, querendo mostrar do que era capaz ao mundo e a si mesmo. Catarina ficou atrás, guardada num canto da memória.
Há cinco anos encontrámo-nos por acaso disse ele, baixo . Ela divorciou-se, está sozinha, sem filhos. E não consegui resistir. Tudo voltou.
E comigo, resististe quase vinte anos? perguntou Mariana.
Eu respeito-te começou ele. Foste uma esposa exemplar, uma mãe dedicada. Deste-me tudo.
Menos amor interrompeu. O amor não recebeste de mim. Nem sequer quiseste. Procuraste uma mulher conveniente para uma vida de conveniência. E a paixão ficou lá atrás, na faculdade.
Ele calou-se. Porque era verdade.
***
Mariana fez as malas depressa. Ela sempre soube: quando se vai, vai-se de vez. Sem discussões, sem cenas, sem podemos tentar. Tinha amor-próprio de sobra para não ser moeda de troca de romances dos outros.
Contou aos filhos com calma, sem lágrimas. O filho, o Miguel, quis falar com o pai, mas Mariana cortou: Miguel, isto é entre mim e o vosso pai. Vocês ficam de fora.
A filha chorava: Mãe, vais ficar sozinha?.
Tenho-me a mim respondeu Mariana. E isso, acredita, não é pouco.
Arrendou um apartamento noutra zona da cidade.
Os primeiros meses foram infernais. Passava as noites acordada a olhar o tecto. De dia, trabalhava, sorria, cumpria tarefas. Mas à noite pensava. Revivia os anos, os amo-te, os beijos, os natais em família. E sentia: tudo mentira. Bonita, conveniente, confortável mentira.
O pior não era a traição em si. O pior era ver que se julgava tão esperta, tão forte, tão perfeita e nunca percebeu. Porque não quis perceber. A preciosa imagem de família perfeita era demasiado confortável.
***
Passado um ano, já a ferida começava a fechar, Mariana cruzou-se com uma conhecida.
Sabias? O João casou com a Catarina. Dizem que sempre se amaram, que os pais dela os separaram. Parece um filme, não achas?
Mariana sorriu, cortês, como só as ex-mulheres perfeitas conseguem.
Imagino disse. Deve ser muito romântico.
Em casa ficou à mesa da cozinha, a olhar para a parede. E chorou, pela primeira vez em doze meses.
Mas não de dor. Não. Só magoada. Por perceber que toda a vida fora apenas… pano de fundo. Um cenário ideal para um homem à espera de outra mulher.
Mariana deu-lhe dois filhos. Montou casa. Ajudou-lhe os pais. Recebeu-lhe os amigos. Criou um lar. E ele, ao longo de tudo, levava outra no coração. O mais duro: não havia nada que ela pudesse fazer. Não se força o amor. Não se conquista o protagonismo quando já se entra de suplente.
***
Mais dois anos passaram.
Mariana aprendeu a viver sozinha. E, surpresa, gostou. Ninguém reclamava se jantava tarde. Ninguém se aborrecia se ela trabalhava até tarde. Ninguém olhava pela janela, com saudade de outro tempo. Os filhos estavam crescidos: o Miguel casou-se, a Ana entrou no mestrado. Davam-se muito bem, e Mariana era mais amiga do que mãe.
Às vezes as amigas perguntavam: Mari, e homens? Estás nova, gira, cheia de vida. Porque não voltas a tentar?. Mariana dava de ombros: Não me apetece. Sabe bem esta liberdade.
A verdade era mais funda. Tinha medo de voltar a ser conveniente. Que atrás das palavras bonitas estivesse outra indiferença. Que a usassem, enquanto esperavam por outra paixão.
Mais vale sozinha do que mal acompanhada dizia. Prefiro ser a principal da minha própria vida.
Numa noite, a arrumar coisas antigas, Mariana pegou no álbum de casamento. Ficou ali, a ver as fotografias, os olhos de menina, o sorriso de João. Pensava que aquela felicidade era para sempre.
E agora?
Agora fechou o álbum e guardou-o no fundo do armário. Não deitou fora as memórias são o que são mas preferiu não deixar à vista.
O sol entrava pela janela. Ouviam-se martelos do vizinho em obras. A vida continuava.
Mariana olhou-se ao espelho: magra, cuidada, olhos límpidos, sorriso tranquilo.
Foste forte disse à imagem refletida. Conseguiste dar a volta.
E era verdade. Ela conseguiu. Não porque encontrou alguém melhor. Mas porque se reencontrou.
Aquela que quase perdera a correr atrás de uma vida que não era dela. Que, afinal, sabia estar só sem ser solitária. Que sabia o seu valor.
E isso não tem preço.
João, às vezes, ainda lhe liga. Pergunta se está tudo bem, dá os parabéns nos anos. Mariana responde com educação e termina logo a conversa.
Não guarda rancor. A zanga passou há muito. Sabe, no fundo, que sempre foi uma boa mulher. E que ele nunca foi realmente o seu homem. Só tiveram ambos a coragem de o perceber tarde demais.
A Catarina? Parece feliz, a viver na casa que era dela, com o homem que foi o seu. Mariana ouviu dizer que está tudo bem entre eles. E, no fundo, ficou contente. Ao menos ali há um final feliz. Mesmo que não tenha sido para si.
Hoje, Mariana vai à aula de yoga. Encontra-se com uma amiga no Chiado para lanchar. À noite, jantar com os filhos, num restaurante novo na avenida.
A vida é cheia. E preencheu-a ela mesma.
Às vezes, antes de dormir, pensa: e se tudo tivesse sido diferente? Se João a tivesse amado de verdade, se crescessem juntos, se vissem netos, se fossem à casa do Alentejo…
Mas vira-se e adormece. Para quê pensar no que não existiu? Viveu-se o que se viveu. E saiu dali vencedora.
Não porque venceu alguém, mas porque não se perdeu a si própria.







