Quando Vera foi buscar o filho ao jardim de infância, ele atirou-se-lhe ao pescoço e sussurrou-lhe apaixonadamente ao ouvido:

Quando cheguei para buscar o Rui ao infantário, ele atirou-se ao meu pescoço e sussurrou-me ao ouvido com entusiasmo:
Mãe, mãe, vamos levar a avó do Tiaguinho para casa?
O quê? Que avó? De que é que estás a falar, Rui? não percebi nada e apressei-o: Vá, despacha-te, que o pai está à nossa espera no carro.
Aquela avó ali! Rui apontava para uma senhora idosa que, devagarinho, conduzia o Tiaguinho para fora do infantário. A do Tiago, mãe! Eu disse!
Não digas disparates, isso é a avó do Tiago.
E então? começou a queixar-se. Pede-lhe, mãe, para ser também minha avó. Por favor!
Tu já tens avós. Duas, até. Para quê mais uma? E chega de imaginação, veste as calças, anda lá.
Oh mãe Rui fez uma cara de infeliz, enquanto enfiava a roupa de inverno. As minhas avós não são avós a sério. A do Tiago é que é. Uma verdadeira.
Então porquê que dizes isso? As tuas avós são verdadeiras, sim! Elas criaram-nos a mim e ao teu pai, não foi a avó do Tiago, tentei sorrir, sem grande convicção.
Isso não interessa, mãe Elas podem ter-nos tido, mas nunca se tornaram avós.
Como assim não se tornaram? Tu és nosso filho e elas automaticamente ficaram avós.
Eu não quero que sejam autómaticas, mãe! Quero que sejam verdadeiras, como a avó do Tiago.
O que é que queres dizer com isso de avós verdadeiras?
Olha, a avó do Tiago deixa-o chamar-lhe avó alto e bom som, começou ele a explicar. Uma das minhas avós obriga-me a chamar-lhe só Teresa, a outra fica sempre zangada se grito avó! no jardim.
Mas diz-te alguma coisa por chamá-la avó?!
Sim! Diz sempre: Eu, avó? Ainda sou nova, não me envergonhes, Rui!. É a tua mãe que me diz isso
A minha mãe? A sério?
Sim. E ainda diz que tu só queres é livrar-te de mim e deixas-me com ela. A avó do Tiago, não. Ela diz sempre que o Tiago é a melhor coisa da vida dela. Eu também queria ser o melhor da vida de alguém, mãe
Não acredito que a minha mãe diga essas coisas olhei para o Rui, já sem vontade de ralhar. Vá, despacha-te, filho, o pai está à espera. E a avó Teresa, ela também te ralha, se lhe chamas avó?
Não ralha, abanou a cabeça tristemente. Simplesmente não responde se lhe chamo avó. Só se digo Teresa é que ela me elogia. E mãe, porque é que as minhas avós nunca aprenderam a fazer comida como deve ser?
O quê? olhei para ele, completamente baralhada. Estás a dizer que as avós te deixam com fome?
Sim, respondeu sem hesitar. Fico sempre.
Não digas asneiras! Elas cozinham para ti como nunca cozinharam para nós! Eu vejo o que comes quando ficas por lá!
Sim torceu o nariz Rui. Sempre fiambre, rissóis, saladas Isso não é comida de avó, pois não?
Então o que é que tu querias?
Panquecas.
Panquecas? repeti, surpreendida.
Sim, ou filhoses. A avó do Tiago disse-lhe hoje: Vais ver, quando chegarmos a casa faço-te umas panquecas acabadinhas de sair da frigideira, com compota e natas. E estavam todos contentes a relembrar como, no verão, fizeram juntos a compota Eu com as minhas avós nunca faço nada disso.
Ai, Rui olhei-o com pena. Olha, que dizes de hoje irmos ao supermercado comprar compota e fazer chá com torradinhas ao jantar?
Não quero A compota da loja não tem graça
Como sabes tu?
Já pedi às minhas avós Elas já compraram antes
E panquecas, já lhes pediste?
Já Rui terminou de vestir o casaco com ar triste. Dizem sempre que dá muito trabalho. E levam-me à pastelaria comer panquecas frias com doce demasiado doce A avó do Tiago diz sempre que panquecas quentinhas são as melhores do mundo.
Pois é sonhei alto, peguei-lhe na mão e fomos andando para o carro. Eu lembro-me da minha avó também me dar assim
A caminhar para o estacionamento onde o pai esperava, peguei no telemóvel e liguei à minha amiga.
Olá, Sílvia, estás em casa? perguntei com voz envergonhada.
Estou, sim. Que se passa?
Preciso de te pedir um favor mas promete que não te ris.
Diz lá
Andavas sempre a dizer que fazes as melhores panquecas, que o teu miúdo devora Dá-me a receita da massa
A Sílvia desatou-se a rir.
Eu bem te disse para não te rires! protestei. Preciso mesmo.
Mais vale vires cá, ensino-te a fazer. Assim o teu Rui também brinca com o meu. Venham todos e pronto, espero-vos. E desligou.
No dia seguinte, pedi folga no trabalho de propósito. Fui ter com a minha mãe e comecei a aprender com ela como se fazem panquecas. A mãe ainda bufou e fez cara de poucos amigos, a reclamar de como a vida das avós de hoje é diferente, mas eu cortei-lhe a palavra:
Mãe, se te incomodamos assim tanto, nunca mais cá deixo o Rui! Sabes qual é a diferença entre uma avó verdadeira e uma avó a fingir? E porquê que tu nunca fazes compotas no verão? Agora tens neto!
Ela ainda quis responder à letra, mas vendo o meu olhar decidido, ficou calada.
Só por precaução.

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