Recordo-me como se fosse ontem, embora tudo tenha acontecido há muitos anos. Naquele verão distante, a Maria Antónia apanhou o autocarro na paragem habitual, tal como fazia sempre que precisava de ir visitar os pais no interior. Naquele dia, o destino reservou-lhe apenas um lugar livre, ao lado de um homem que parecia ter mais uns anos que ela. Maria Antónia não deu grande importância ao seu companheiro de viagem levava a cabeça cheia de assuntos prementes a resolver e, afinal, teria pela frente sete horas de caminho até chegar à aldeia da família.
Quando se acomodou e o autocarro arrancou, começou a sentir no ar um leve aroma a almíscar e café torrado forte, envolvente e amargo. Aquele cheiro trouxe-lhe, de imediato, recordações vívidas de outros tempos.
Verão, calor abrasador, ela com 17 anos, o seu namorado predileto, o Afonso, ao lado com aquele mesmo cheiro inconfundível. Estendidos sobre a relva junto ao rio Tejo, entre beijos e juras eternas sob o céu estrelado, ele repetia-lhe baixinho que jamais a deixaria, que ficariam juntos para sempre. O primeiro amor. Quanta paixão. Maria Antónia sentia naquela altura que seria capaz de abdicar de tudo, até dos estudos, só para continuar com Afonso por perto.
Mas o destino, tantas vezes traiçoeiro, tratou de os separar. O Afonso foi cumprir o serviço militar e, muitos meses depois, acabou por conhecer uma rapariga na cidade para onde foi colocado. Casou-se lá, e Maria Antónia ficou com o coração em pedaços, incapaz de se entregar a outro rapaz, ainda que os anos fossem passando. Mesmo traída, guardava dentro dela um amor adiado, uma nostalgia teimosa.
Instintivamente, Maria Antónia voltou-se e fitou o homem que tinha ao lado. Não podia ser verdade! Cabelos escuros, olhos claros, nariz elegante, lábios desenhados o jovem era tão semelhante ao Afonso que o seu coração quase lhe saltou do peito.
Peço desculpa, o seu nome não é Afonso, pois não? perguntou ela, com uma timidez quase infantil.
Não, chamo-me Duarte respondeu ele, com um sorriso aberto e simpático que deixou Maria Antónia desconcertada. Era a imagem viva do rapaz que nunca conseguira esquecer.
E a menina, como se chama?
Eu… eu sou Maria Antónia, muito prazer respondeu, recomposta depois de um breve silêncio.
O prazer é todo meu, Maria Antónia. Sabe, faz-me recordar imenso uma rapariga muito especial.
Ah sim? Qual?
O Duarte suspirou e replicou, com uma honestidade transparente:
O meu primeiro grande amor também não terminámos bem. Ela escolheu outro rapaz e, passados dez anos, não consigo esquecê-la. E, de repente, encontro uma rapariga tão parecida com ela. Parece impossível.
É extraordinário murmurou Maria Antónia. Tenho uma história igualzinha, sabia? Também não esqueço o meu primeiro amor, já lá vão dez anos. Isto acontece mesmo?
Rindo, com um ar cúmplice, Duarte sugeriu:
Que tal trocarmos números e irmos falando?
Parece-me uma boa ideia assentiu Maria Antónia, sentindo uma velha esperança a renascer no peito.
Enquanto conversavam durante a viagem, começaram a notar como a vida é capaz de dar voltas surpreendentes. Ficarão juntos? Talvez aquele acaso não fosse apenas coincidência, mas sim uma segunda oportunidade, oferecida ao ritmo secreto do destino. Afinal, em Portugal, diz-se que não há coincidências e quem somos nós para duvidar disso?







