Hoje escrevo este diário com o coração apertado, tentando organizar os meus pensamentos sobre a situação vivida com o meu irmão. Sempre tivemos uma diferença de idade de seis anos, sendo ele o mais velho. Há três anos, ele casou-se e acabou por ir viver no apartamento da esposa, preferindo isso a ficar com os nossos pais. Entre os preços absurdos da renda em Lisboa, foi a única alternativa viável para eles.
Por meu lado, já estou casado há seis anos com a minha Ana Luísa, que é de Lisboa, e temos dois filhos: o nosso Tomás, com 6 anos, e a Matilde, com 4. Como o meu trabalho também está na capital, decidimos viver aqui, onde nos conhecemos e começamos a nossa família. Com esforço e muitos meses a contar cada cêntimo, conseguimos comprar um pequeno apartamento com recurso ao crédito bancário.
Dias atrás, os meus pais enviaram-me uma mensagem, a avisar que o meu irmão e a sua família vinham de visita durante uma semana. Esperavam que eu os recebesse na minha casa. A verdade é que fiquei feliz por rever o meu irmão depois de tanto tempo, mas infelizmente o nosso apartamento, apesar de ser nosso, tem só um quarto e mal dá para nós, os quatro.
Encontrámo-nos na estação de comboios e passámos o dia a passear pela cidade, como turistas em Lisboa. Durante o jantar, os meus pais voltaram a sugerir que eu devia acolher o meu irmão, a esposa e o filho deles, alegando que era demasiado caro arranjar alojamento na capital. Senti que não tinha condições, e expliquei isso com todo o respeito. Propus levá-los a um hotel, mas o meu irmão não gostou da ideia achava que eu tinha a obrigação de os receber em casa.
Procurei outras soluções: sugeri hotéis mais acessíveis, hostels ou até apartamentos que amigos pudessem emprestar por uns dias, mas recusaram todas as opções. Parecia que queriam que eu assumisse todas as despesas. No entanto, sinto que trabalhei muito para conquistar este espaço para a minha família, com o suor do nosso esforço, e não creio que tenha a obrigação de abrir mão da nossa casa, ainda mais quando o espaço é tão exíguo.
Hoje, no silêncio do meu quarto, tento perceber se estou a ser egoísta ou simplesmente a defender o bem-estar dos meus filhos e da Ana Luísa. A vida em Lisboa não é fácil, e são pequenas coisas, como a nossa casa, que dou valor todos os dias. Talvez um dia entenda melhor a posição do meu irmão, mas por agora sinto que fiz o que era justo para a minha família.






