Esposa Descobre Tarde Demais: O Segredo da Sogra Prisoneira, as Mentiras do Marido e a Decisão Que Mudou Tudo

É isso que estás à procura? ela estendeu-lhe a carta.
O Nuno ficou lívido.
Rita, tu não penses O Zé Isto
O que é que não devo pensar, Nuno? Que a mãe do meu marido está viva e presa? Que vocês os dois me acham uma inocente margarida?!
Como assim um mês? Rita, combinámos claramente que ficavam cá até ao fim do verão!

O meu miúdo acabou de entrar na creche, eu consegui um trabalho aqui ao lado…

O que aconteceu?

Nós sempre pagámos a renda a horas, nunca demos problemas

Não tem nada a ver convosco hesitou a Rita, fugindo ao olhar. Preciso mesmo de voltar ao meu apartamento.

Porquê? Chateaste-te com o teu marido?

Não perguntes mais nada, se fazes favor.

Têm um mês exatamente, a partir de hoje!

Faço a conta certa, devolvo o depósito.

Desculpa…

Rita carregou no botão de terminar a chamada e sentiu um arrepio. Só queria acabar com aquele assunto de uma vez…

***

Rita não conseguia arrancar os olhos do envelope pousado na mesa da cozinha.

Era um envelope banal, que ela mesma tinha tirado do marco de correio há cinco minutos, enfiado entre folhetos do supermercado e a fatura da MEO.

O Zé normalmente ia buscar a correspondência, mas hoje foi ela que se lembrou.

O carimbo. A morada de retorno. EP Vale do Sousa.

E o nome do remetente: Lídia Monteiro.

A Rita reconheceu logo: ouvira falar desta mulher pelas palavras do marido. Era a mãe dele; sogra que ela desconhecia até de vista.

Nunca suspeitou que a mulher que trouxe o marido ao mundo ainda respirasse.

Eu não tenho ninguém, Rita disse-lhe o Zé no terceiro encontro, os dois num café de bairro a fugir da chuva. O meu pai foi-se embora antes de eu nascer, nem cheguei a conhecê-lo.

E a minha mãe morreu quando eu tinha vinte anos. O coração. Por isso eu sou assim meio nómada. Por minha conta.

Completamente sozinho? Rita quase se comoveu na altura. Nem tias, nem primos?

Assim uma parentela longínqua, mas nem lhes sei o nome.

Sabes, até é mais simples. Nada de famílias complicadas, nem almoços forçados aos domingos. Só tu e eu.

E ela pensou:

Que força. Passou por tanto e não azedou

Encheu-o de carinho, a ver se conseguia tapar o buraco de amor de mãe dele.

Depois casaram, cerimónia pequena, só para os mais conhecidos.

Do lado dela: pais e duas ou três amigas. Do dele: só o amigo de infância, Nuno, que passou o copo dágua caladíssimo, sem nunca a encarar.

Na altura achou que era timidez. Agora via: o Nuno só tinha medo de se descoser.

Olha, onde é que ela está sepultada? perguntou Rita meses depois do casamento. Se calhar devíamos ir lá, limpar a campa Afinal, é a tua mãe

O Zé encolheu-se, mexendo no colarinho.

É longe, Rita. Lá para o interior. O cemitério é antigo, quase desativado.

Eu passo por lá um dia destes, não te preocupes. Não vale a pena ires, o ambiente é pesado.

Pensa nos vivos, sim?

E ela acreditou. Pateta!

***

A porta de casa abriu-se, Rita escondeu o envelope lá no fundo da gaveta, por baixo dos talões do Pingo Doce.

Olá, meu amor! a voz do Zé continuava feliz e entusiasmada. Como está o nosso campeão? Fez muitas tropelias?

Entrou na cozinha, foi beijá-la na testa, mas ela afastou-se sem pensar.

O que foi? Estás cansada? ele franziu o sobrolho. O Martim não te deixou dormir?

Vai lá deitar-te, que eu fico com ele e faço o jantar depois.

Não, deixa. Nem fome tenho. Olha, o carteiro passou hoje

Ele parou por um segundo nada de mais, mas notou-se.

Ah sim? E o que veio? As contas ao costume?

Sim, contas. Uns anúncios… E pronto.

Ele respirou de alívio.

Ótimo! Vou lavar as mãos e já vou ter com o miúdo. Tanta saudade dele.

Rita viu-o de costas. O homem com quem partilhava tudo rotina, vida e cama estava ali, a mentir-lhe na cara.

Mentia com uma naturalidade tal que a deixava nauseada.

Pensa que sou órfão, dissera ele.

Mas a Lídia Monteiro escrevia da cadeia de Paços de Ferreira.

Porquê? Matou alguém? Roubou? Fraude? E quanto tempo ainda faltava?

Rita conseguiu imaginar, num futuro próximo, a campainha a tocar e uma mulher de olhar pesado, com passado feito nas prisões, à porta deles.

A dizer:

Olá, filho. Olá, nora. O meu neto onde está? Vou viver aqui agora, contigo, ouvi?

Rita não tinha medo por si, só pelo Martim.

Crescer ao lado de uma avó saída da pildra?

Mas quem deixa uma criança perto de alguém assim?

Rita, queres chá? gritou o Zé da sala. Estão promoções nas fraldas do Continente, apanha o folheto que estava ali na gaveta. Amanhã temos que ir lá.

Ela já não respondeu. E já abria a app do banco no telemóvel para ver quanto tinha guardado à parte.

Devia chegar para um arranque. Apartamento noutro bairro melhor.

Os inquilinos saíam em um mês. Só precisava aguentar esse tempo sem dar nas vistas.

***

O Zé saiu cedo para o trabalho, não sem antes encher o Martim de beijos, prometendo voltar antes da hora.

Rita via aquela cena cheia de repulsa. Como é que podia mentir-lhe assim, friamente? Há coisas que se escondam dessa forma?!

Com ele fora, tirou a carta do esconderijo. Morria de curiosidade, mas tinha receio.

E se a lia e não conseguia ir embora? E se era alguma coisa arrebatadora

Não, disse a si própria. Não interessa. Ele mentiu-me dois anos!

Alguém tocou à porta. Rita estremeceu.

Os pais davam sempre sinal. Amigas? Espreitou pelo óculo era o Nuno.

Pernas inquietas, mãos nos bolsos, olhar na direção do elevador.

Abriu a porta.

Nuno? O Zé está a trabalhar.

Pois, eu sei… fez um sorriso amarelo. Só ia a passar Pensei se o Zé não teria deixado as chaves da garagem por aí.

Disse-me que estavam na cómoda.

Chaves? Rita levantou a sobrancelha. Aqui não vi nada, e na entrada também não. Tens certeza que deixou?

Que sim, que sim Olha, Rita, ele pediu-me para ir buscar, na correspondência, um aviso. Fui lá mas não vi nada. Tu não apanhaste o correio hoje?

Apanhei. Porquê?

Nuno engoliu em seco.

Só por causa duma encomenda, umas peças que ele mandou vir. Pediu-me para ver se havia algum aviso.

Rita foi à cozinha, pegou o envelope cinzento e voltou à porta.

É isto que procuras? entregou-lhe a carta.

Nuno ficou branco.

Rita, não penses mal O Zé Isto

O que é que eu não devo pensar, Nuno? Que a mãe do meu marido está viva e presa? Que me acham loura de Farmácia, é?

Que tive um filho de um homem cuja família é segredo de Estado?

Rita, ele só queria poupar-te! Nuno engasgou-se nas palavras, tentando sussurrar. Ele só queria paz.

A mãe dele é uma peça complicada, o Zé sofreu horrores com ela, nem imaginas.

Não era com maldade, acredita Cortou relações para não te assustar, só isso.

Cortou? Rita ironizou. Nuno, mas como se apaga uma mãe assim da memória? Ainda por cima à socapa.

Tirou-me o direito de escolher! Eu devia saber a família onde me metia.

Qual família?! Nuno abanou os braços. Aquilo nem família é. É ela e as trapalhadas dela.

Rita, dá-me a carta. Ainda nem a abriste, pois não? Eu levo-lha, ele explica-te.

Vai-te embora, Nuno disse ela baixinho. A carta não te dou, é para o Zé Monteiro. Quando vier, recebe das minhas mãos.

Rita fechou a porta, mesmo em cima do pasmo do Nuno.

***

O dia foi um nevoeiro. Rita tratou do Martim, passeou, deu papas, mas o pensamento era sempre aquele.

O que levar primeiro? Carrinho do bebé, documentos, o essencial. Móveis que fiquem lá.

No apartamento dela, no Lumiar, ainda havia um sofá e um roupeiro. Chega.

Às seis sentia-se tranquila.

Pôs a mesa, fez o jantar, deitou o filho e esperou o marido.

Hmm, cheira bem! disse o Zé ao entrar, fingindo que tudo estava normal. Olha, trouxe um móbil novo ao Martim! Tem músicas de embalar.

Rita ficou calada à mesa, com o envelope à frente. O Zé espiou pela porta e largou o teatro.

O Nuno passou por cá? perguntou num tom grave.

Fui eu que encontrei. O Nuno tentou levar, mas não deixei…

O marido afundou-se na cadeira.

Porquê, Zé? Porque disseste que ela tinha morrido?

Porque morreu para mim há doze anos ergueu os olhos, marejados. Primeira vez presa, Rita. Depois saiu, ficou uns meses em liberdade e voltou para dentro.

Tu és de família certinha, pai engenheiro, mãe professora. Nem compreendes a língua que ela fala. É uma burlona. Profissional.

E, portanto, achaste que tinhas direito a mentir-me? Ano e meio? Rita levantou a voz. Sabes que assim destruíste a minha confiança toda em ti?

Tive medo de te perder! gritou também. Tu ias fugir! Ias achar: Ui, mãe criminosa, o que será do filho?

Eu só queria que o Martim crescesse sem esse peso. Achei que marido-órfão era melhor que marido-filho-de-burlona!

Agora vai ter pai divorciado gelou Rita.

O Zé ficou petrificado.

O que? Rita por causa da carta? Do segredo?

Porque já não sei quem és, Zé. Se inventaste até a morte da tua mãe, o que mais escondes?

Quem é o teu pai? Está cá fora ou também na cadeia ao lado?

Agora estás a exagerar

Não estou nada. Já avisei os inquilinos. Mudamo-nos daqui a um mês. Amanhã meto os papéis do divórcio.

O Zé suplicou. Chegou a ajoelhar-se, desculpou-se, garantiou que foi uma mentira piedosa.

Mas Rita já estava decidida. Para ela, fim da linha.

***
Os inquilinos saíram, Rita e Martim mudaram-se. O casal divorciou-se mas o Zé, esperança desmedida, acha sempre que ela um dia o perdoa. Não entende onde errou. Sempre quis proteger a família

Vê o filho com regularidade, paga tudo direitinho. Mas reconquistar Rita? Nem com toda a sorte do mundo. Ela não planeia voltar atrás.

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