SÓ TENS DE CHAMAR
Declaro-vos marido e mulher! proclamou solenemente a funcionária do Registo Civil, mas de repente engasgou-se e começou a tossir descontroladamente.
Pronto… Isso não augura nada de bom comentou a minha mãe, desaprovando o que considerou um sinal estranho.
Os convidados começaram a murmurar e a cochichar. Eu e a Lurdes, noivos, trocámos olhares assustados. Tínhamos ambos apenas 18 anos. Eramos praticamente crianças. O casamento foi apressado. Lurdes casava-se já com dote:
Dentro de dois meses nasceria a nossa filha inesperada. Foi preciso alugar à pressa o vestido de casamento, os sapatos de Lurdes seriam emprestados pela melhor amiga. Curiosamente, anos depois, acabaria por ter um breve caso com essa mesma amiga.
Por agora, éramos jovens e felizes.
…Num dia qualquer, eu e a Lurdes passeávamos pela avenida. Eu segurava a minha jovem esposa pela cintura. Um homem estranho aproximou-se de mim e murmurou:
Segura bem a tua mulher, senão ainda te a levam…
Disse aquilo e seguiu o seu caminho. Rimo-nos e esquecemos o aviso inesperado. Toda a vida estava pela frente! Quem conseguiria separar-nos? Podem tentar…
O meu amigo Ricardo, meu padrinho de casamento, algum tempo depois criticou-me:
Ó Joaquim, não encontraste esposa melhor? Vê lá quantas raparigas bonitas por aí andam!
Respondi com desdém:
Elas estão à tua espera, de certeza…
E de facto estavam. Ricardo casou quatro vezes, sempre com mulheres de inteligência e beleza.
…Nasceu a nossa filha Sofia.
Depois tive de cumprir serviço militar, longe de casa. Sentia saudades da mulher e da filha. Lurdes enviou-me uma foto sua. Durante muito tempo mantive-a debaixo da almofada, desejando vê-la nos meus sonhos.
Um dia, ao chegar ao quartel, a foto da Lurdes estava sobre a minha mesinha, exposta. Alguém tinha rabiscado e escrito obscenidades sobre a imagem. Enfurecido, atirei-me ao meu colega de camarata, deixei-o meio morto. Acabei castigado na cela militar. A fotografia rasguei-a e deitei fora. O colega foi justamente punido.
Voltei do serviço militar endurecido. Estranhamente, sentia raiva da minha esposa. Convenci-me de que uma mulher tão jovem teria, com certeza, um amante. Imaginava que Lurdes me teria traído nestes dois anos.
Quando a vi depois da longa ausência, parecia outra mulher. Antes era uma rapariga apagada, insegura. Agora estava diante de mim uma mulher elegante, cheia de energia e sensualidade.
És mesmo tu, Lurdes? Não te reconheço! sussurrei-lhe ao ouvido.
Fiquei orgulhoso dela, mas entrou-me uma dúvida corrosiva na cabeça. “Será que não sou o único na vida da Lurdes?” Tantos interessados…
Por precaução, arranjei uma amante, para não me sentir humilhado caso fosse traído…
Os rumores das minhas “aventuras” chegaram aos ouvidos de Lurdes três meses depois. Quase tive de implorar para que ela adiasse o divórcio. Ela foi clara:
Agora não te podes queixar, Joaquim…
Lurdes queimou todas as minhas cartas enviadas do quartel, guardadas com carinho numa caixa. Da cama fui afastado por tempo indeterminado. À mesa, deixei de ser convidado. Só falávamos de assuntos práticos.
Resumindo, passei um dia a lamentar-me, um ano a chorar. Levei a esposa e a filha ao Algarve fora da época, para além das férias de verão. Vinhos, frutas, mar, sol, bom ar… Aí reconciliámo-nos.
Ao regressar, deixei a amante.
Por uns sete anos, eu e Lurdes tivemos uma vida serena, de família. Uma verdadeira morada de tranquilidade. Mas talvez à minha mulher faltasse algo… talvez paixão à italiana?
…No meu trabalho havia um colega animado, alma da empresa. O António era bom conversador e ouvinte. Os colegas desabafavam com ele sobre problemas, esposas difíceis, sogras complicadas, o mundo inquieto. António ouvia-os e dava conselhos sensatos.
Pensei: E se convidar o António para o aniversário da Lurdes? Ele anima qualquer festa.
Mal sabia eu como tudo acabaria…
António aceitou e veio ao nosso jantar, trazendo a mulher. Nessa noite, António brilhou: espalhou piadas, inventou brindes, trouxe risos à mesa. Lurdes irradiava alegria e generosidade, sorria, servia pratos, tagarelava como uma ave. O aniversário foi um sucesso.
Um mês depois, começou o inferno para as nossas famílias.
…Ligou-me a esposa do António, abrupta:
Joaquim, já sabe? Os nossos cônjuges andam juntos. Diga à sua esposa que não se ponha a cobiçar o que é meu! Temos duas crianças pequenas.
Eu, completamente apanhado, não suspeitava de nada! Será que Lurdes se vingava dos meus erros passados?
Não narro todo o sofrimento que se seguiu. A mulher do António perseguia Lurdes por todo o lado. Prometia tomar comprimidos e morrer à vista de todos, se não recuperasse o marido. Cheguei a trancar Lurdes em casa, desligar o telefone, ameaçar com divórcio. Nada resultou. Dizem bem: O amor, o fogo e a tosse não se escondem das pessoas.
Fui buscar ajuda à melhor amiga de Lurdes.
Ela respondeu, sem rodeios:
Joaquim, é amor verdadeiro. Lurdes não voltará. O caminho para ela está fechado para ti.
Pois é, fui apanhado de frente e de lado. Acabei por ficar com essa amiga durante meio ano ela trouxe-me algum alívio momentâneo.
Lurdes e António casaram. Viviam num mundo só deles. Parecia que respiravam juntos. Na altura, odiei e amaldiçoei aquele casal. Quis gritar, arrancar os cabelos! Nunca imaginei perder a mulher assim!
Às vezes, felicidade e desgraça viajam na mesma carruagem.
…Dizem que o tempo cura tudo. Não acredito. A minha ferida só ficou coberta com uma película fina, mas continuava a doer. Os amigos procuraram por mim uma segunda esposa. Encontraram… Uma bela mulher. Casei depressa, para não desistir. Já há dezassete anos juntos. Nunca me apaixonei verdadeiramente pela beleza dela. Tento parecer feliz… Espero sem esperança. Mas se alguém descesse aos armazéns da minha alma atormentada, ali vive para sempre a minha Lurdes!
Na vida, aprendemos nem sempre conseguimos controlar o destino. O coração não obedece à razão nem ao tempo. Aceitar o passado e preservar a esperança é a melhor forma de seguir em frente, mesmo quando a nostalgia nunca parte completamente. Só tens de chamarNunca consegui esquecer a sensação daquele primeiro abraço, a promessa inocente feita no altar. Por vezes, em noites silenciosas, escuto o riso distante de Lurdes, ecoando nos corredores da memória. Sofia tornou-se uma mulher independente, e já não pergunta pelo passado. Eu olho para os meus netos, que riem sem saber da história que lhes corre no sangue. De vez em quando, cruzo-me com Lurdes e António um aceno tímido, um sorriso discreto. O tempo desgastou as mágoas e apagou as paixões, mas nunca apagou o que um dia foi só nosso.
Hoje, sentado no banco do jardim, olho para o céu e penso: talvez a felicidade não seja feita de finais felizes, mas de fragmentos momentos que sobrevivem às mudanças, pedaços de amor que resistem à erosão do tempo. O coração aprende a aceitar, a lembrar e a reinventar-se. E se a vida me pedisse para chamar por alguém, apenas diria o nome que nunca deixei de guardar: Lurdes. Porque às vezes, só tens de chamar mesmo que seja apenas em silêncio, dentro de ti, para saberes que um dia amaste, e isso basta.







