Cão parceiroEle e o fiel cão desvendaram o mistério que ameaçava o vilarejo, trazendo paz e esperança para todos.

Na empresa onde trabalho, nada é de falta de carinho; a gente simplesmente fica à parte. Sou um homem de palavra, motorista experiente e trabalhador dedicado, porém, não sou nada sociável.

Ninguém quer ser meu parceiro de carga, e isso me agrada. Um colega acabou se cansando, então me dispensou de vez. Os outros caminhoneiros começaram a me chamar de Sombrio. O apelido pegou, até passaram a me chamar assim nos olhos. O nome verdadeiro às vezes se perde, mas o sobrenome fica na memória.

Esta viagem não prometia nada de extraordinário. Rota conhecida, carga comum. Eu seguia o volante, de olho na estrada

Na margem da pista, algo parecia rastejar na relva. Quis passar ao lado, afinal poderia ser um animal, mas algo no peito me impeliu a frear o carro e investigar quem ali estava desamparado.

Um enorme gato listrado siseu ameaçador, como se quisesse vender a própria vida. Dizem que os gatos têm nove vidas; parecia que já tinha perdido várias, respirava com dificuldade. A pata estava ferida, o corpo coberto de sangue e sujeira.

Que azar lhe deu, gatinho? indaguei, abaixando-me sobre o animal.

O gato arregalou os dentes e miou rouco, indicando que não precisava de ajuda e que eu deveria seguir meu caminho.

Entendo, orgulhoso, reconheci nele o espírito do gato de estimação da avó, com quem eu, quando era pequeno, partilhava o calor do fogão à lenha. Lembro-me de me aninhar sob o ronronar da Vascas. Agora não há gato nem avó mas a lembrança permanece.

Não sou especialista em traumas felinos, mas vejo que não dá para deixar assim. Não há alojamento por aqui, então, que tal leválo ao hospital veterinário?

Apoiei o felino com cuidado e coloqueio atrás do assento. Ele se contorceu, depois se aquietou, parecendo aceitar que nada pior poderia acontecer.

Desviando da rota, entrei numa pequena vila do interior, em Viseu, e procurei a clínica veterinária. Ao ver um homem carrancudo com um gato nos braços, o veterinário, já idoso, deixounos passar à frente dos poucos pacientes que aguardavam.

Vai ficar melhor, gatinho disse o doutor. Vamos limpar, colocar gesso e depois você pode continuar a viagem.

E eu, onde vou deixálo? protestei. Tenho entrega a cumprir!

Não temos abrigo para animais; não dá para encaminhar, não é um filhote, está saudável! respondeu o veterinário.

O gato fitou-nos silencioso, como se entendesse tudo. Seus olhos verdes cravaramse na minha alma e, inexplicavelmente, senti uma pontada de culpa. Devo salválo ou deixálo?

Está bem, rosnei e dirigime ao corredor.

Do outro lado, duas senhoras convergiam em fofocas:

A Lurdes apareceu de novo ontem, fugindo do marido dizia a primeira.

Pobre mulher! replicou a outra, com compaixão. Ela é ouro puro, mas o marido que Deus a ajude! Dizem que a maltrata!

Não é à toa que ela não sai de casa, sempre com hematomas completou a primeira. O Nicolau está a dar um baile na audiência hoje!

Não quis me aprofundar nas desventuras de Lurdes. Cada um tem os seus percalços. Eu, por exemplo

A noiva jurava esperar, amar até o túmulo. E o que aconteceu? Ele nem deu tempo de cumprir um mês de casamento, e a amada já se foi. Assim são as coisas.

Leveo, entregou o veterinário o gato que ainda se mexia timidamente. Espero que cicatrize como um cão. Em três semanas retiram o gesso.

Obrigado, peguei o felino e segui para a porta.

Confesso que não sabia o que fazer com aquele presente caído nos meus joelhos. O tempo apertava; eu já estava fora do cronograma. Primeiro, preciso entregar a carga, depois veremos.

Instalei o gato no assento traseiro e retomei a estrada

Depois de alguns quilómetros, avistei duas figuras à margem da pista. Uma mulher acenava desesperada, e uma menina, de cabelos encaracolados, agarravase a ela.

Desculpem, não aceito passageiros! resmunguei, fiel ao meu princípio.

Miau! ouvi do fundo.

Acordou? perguntei. O que quer?

Miau! o gato insistiu.

Será que precisa de ajuda? pensei. Melhor avisar antes que me agradeça com um bom sono.

Estacionei, retirei o gato da cabine e coloqueio na relva. Ele imediatamente levantou a cauda, confirmando a minha suspeita.

Ei! Aonde vão? vi a mulher e a menina correrem para mim.

Nem tive tempo de fugir; em menos de cinco minutos, a mulher, ofegante, arrastando a filha, chegou ao meu carro.

Por favor, levenos! Fica a cerca de trinta quilómetros daqui! implorou.

A menina olhavame com olhos úmidos, claramente exausta de tanto chorar.

Senhora, não sou cocheiro, sou motorista de carga! tentei explicar. Use o autocarro!

Só temos um carregamento, já estamos atrasados! justificouse. Se nos ajudar, rezaremos por si todos os dias!

O gato, ainda mancando, aproximouse da menina, esfregouse na perna dela. Ela sentou, acariciouo e ele ronronou.

Que tal eu leválas e vocês ficam com o gato? propus. Ele está a brincar de saltar.

Lágrimas escorriam pelo rosto da mulher.

Eu aceitaria, adoro animais, trabalho numa clínica veterinária! Só que ainda não sabemos onde ficar! Tenho uma tia na cidade vizinha, vamos pedirlhe abrigo.

O que aconteceu? resmunguei, observando a menina ajeitar o gato.

A menina, de cachinhos claros, ainda tremia de medo. O gato, porém, recebia afeto sem hesitar.

A mulher suspirou, baixou a cabeça, e lembreime da conversa na veterinária. Parecia ser a mesma Helena, cuja vida conjugal era um caos. Não quis me intrometer, apenas acenei:

Tudo bem, levoas.

Vamos, Verónica! exultou a menina.

Pus o gato no colo e a caravana avançou. A menina acomodouse atrás, a mulher ocupou o assento do passageiro.

Pago tudo, prometo! protestou, mas eu apenas suspirei:

Então vamos. Você gostou do gato, então são gente boa. Diga obrigado a ele!

Obrigada, gatinho! exclamou a mulher. Como se chama?

Gato, gato respondi, encolhendo os ombros. Não cheguei a saber o nome, pegueio na estrada hoje.

Que pessoa amável! disse a mulher, calorosamente. E o senhor, como se chama? Por quem devo rezar?

Fábio, resmunguei.

Eu sou Helena, a filha chamase Verónica respondeu ela.

A tia vai aceitar? perguntei, surpreso a mim mesmo. Que responsabilidade é essa?

Espero que sim suspirou Helena.

Ligue para ela, pergunte , disse eu, mudando o você para tu.

Helena vermilhou e murmurou:

Não tenho telefone O marido partiu

Lembra o número? abri a caixa de fendas e entregueilhe o telemóvel.

Ela sussurrou ao ouvido da tia, e só consegui ouvir as palavras marido, fugiram e gato.

Ela nos recebe, mas o gato disse Helena, desculpandose.

Verónica soluçou.

Gatinho, venha aqui ouviramnos. És o melhor!

Já está tudo acertado resmunguei.

Ela é bem carinhosa justificouse a mulher.

Aceitei que não fosse possível arranjar um lar para o felino, então deixeias no endereço indicado e entregueio à tia que estava a esperar, toda abatida.

Verónica não queria largar o gato; abraçavao, beijavao na focinho. De repente, correu até mim e abraçoume com as duas mãos.

Verónica, não pode! assustouse Helena.

Faltalhe pai, por isso se apega resmungou a tia.

O meu coração apertou. Eu tinha decidido que não queria pensar em família, em esposa e filhos, mas aquela menina de cachos fezme mudar de ideia.

Tio, virá nos visitar? perguntou Verónica, olhandome de baixo para cima com olhos enormes. E o gatinho?

Vou tentar não consegui dizer não.

Verónica suspirou, correu para a casa, e eu voltei ao caminhão, seguindo a estrada. As imagens da menina e da mãe assustada permaneceram na minha mente.

De onde vêm esses homens que abusam dos mais fracos? perguntei ao gato. Ele respondeu com um miado desdenhoso.

Eu explicaria a eles por que não se deve levantar a mão contra mulheres e crianças! não conseguia calmarme.

Miau! confirmou o felino, como se quisesse acrescentar dentes e garras ao argumento.

Sentia que a presença do gato me acalmava; era a primeira vez na estrada que tinha alguém com quem conversar.

conteilhe sobre os meus pais, o serviço militar, a política. O gato ouvia, miava assentindo, parecendo concordar.

Olha ali avistei, à beira da pista, um carro com dois homens a discutir. Um saiu correndo, acenando.

Preciso de ajuda? perguntei ao homem que surgiu, abrindo a porta.

Dois eventos aconteceram simultaneamente. Um dos homens apontou uma arma para mim, e, no mesmo instante, uma cometa de cauda se lançou na direção dele!

O gato agarrouo com as garras, rugindo ferozmente. Enquanto o bandido tentava se libertar, eu agarrei a pistola, apontei para o agressor:

Mãos ao alto!

Larga o gato! gritou o bandido. Vai rachar meus olhos!

É o que merece! eu, vendo o segundo bandido aproximarse, atingio na mandíbula, segurei o gato e, sem largar a arma, voltei ao caminhão.

Vamos! gritei.

Liguei rapidamente para a esquadra da GNR; em meia hora prenderam os ladrões, como me informaram os policiais que passavam ao longe.

Os caras eram conhecidos, já tinham histórico. Um deles disparou contra mim e o gato, dizendo:

O país tem de conhecer os seus heróis!

Herói? perguntei, incrédulo. Eu só tentava salvar o gato.

O outro tem vários caminhoneiros na mira, é perigoso comentou o policial. Não vale a pena sujar as mãos, mas você ainda levava um ferido, o seu gato?

Olhei para o felino. O gato olhoume.

É meu, afirmei. Chamame de parceiro.

Sorte sua ter um bom parceiro, sorriu o policial, ainda sangrando levemente. Arranquei a cara do bandido, salvandote!

Ainda bem! respondi, sério.

A história do caminhoneiro e do seu gato valente espalhouse na internet; era reconhecido, as pessoas acenavam ao vênos, agradecendo. Eu sentia que, com o gato ao meu lado, algo mudava em mim. Era como se o gelo do inverno derretesse, e eu respirasse mais leve.

Três semanas depois, quando o gesso foi retirado, voltei à vila onde deixara Helena e Verónica.

Entrei na clínica veterinária e encontreia à porta.

Ah, é você exclamou Helena, sem desviar o olhar. Sonhei que viria hoje!

Parece que o destino sorriu respondi, sem saber o que dizer. Não se preocuparam com a Verónica?

Não balançou a cabeça. A tia nos acolhe, e eu já iniciei o processo de divórcio murmurou, baixando a cabeça.

Então comecei, mas as palavras saíram sozinhas: Vai comigo?

Os olhos de Helena se abriram de surpresa, a boca ficou entreaberta. O gato, vendo a cena, miou exigente.

Tenho uma filha balbuciou Helena.

E eu um gato! respondi, acrescentando: Lúcia, não sei dizer frases bonitas, mas sei que o nosso encontro não foi por acaso. Pense bem, eu cuidarei de vocês.

Miau! confirmou o gato.

Vou pensar prometeu Helena.

Um mês depois casaramse, eu trouxeos para casa e passei a trabalhar como motorista de ambulância veterinária.

O gato, agora chamado Viajante, ainda vive connosco, vigia a Verónica e, de vez em quando, suspira lembrando as estradas longínquas, recostado num sofá enorme.

Mas a romance tem a sua magia, e onde estaria tudo sem ele? Ainda bem que existam gatos sábios!

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