Quando é que vamos mudar para a vossa nova casa? perguntaram os sogros, sem rodeios.
Ainda não percebeste? apertouse Lurdes, a testa a subir.
Já terminaram tudo, então achamos que logo nos convidarão a viver convosco completou Óscar, a brincar.
Nuno, percebes que isso ultrapassa todos os limites? Lurdes já não continha a irritação, sobretudo porque o marido fingia não perceber por que ela se exaltava.
Talvez tenham tudo planeado para que ela investisse alguns anos da sua vida nessa obra, metesse todo o dinheiro que poupara e agora ficasse com nada em troca?
Os jovens não seguiram o exemplo dos colegas, comprando miúdas casas a preços absurdos. Quando Nuno e Lurdes começaram a namorar, decidiram que, no futuro, construiriam a própria casa. Era mais barato, mais rápido e muito mais vantajoso. Em vez de 30m², conseguiam 130m² pelo mesmo preço.
Vai ter espaço para os miúdos crescerem e ainda dá para ter animais de estimação, exultava Lurdes.
Por sorte, já tinham um terreno. Pertencia à tia da Lurdes, que o transferiu para a sobrinha após perceber a seriedade dos planos do casal.
Não vos dei nada no casamento, por isso este é o meu presente: um sítio para os pequeninos crescerem disse a tia, entregandolhe o documento. O terreno estava parado há vinte anos; melhor que sirva a alguém.
Mesmo assim, não foi nada fácil. Para economizar, o casal fez várias etapas da obra por conta própria, trabalhando à noite depois do emprego, nos fins de semana e até quando chovia.
Lurdes ainda teve de abrir a herança. Recebeu o dinheiro da venda do apartamento da avó e investiu tudo na construção.
Quando, finalmente, a casa ficou pronta, eles perceberam que cada minuto de esforço tinha valido a pena.
Claro que o prédio ainda não estava totalmente acabado. Restavam muitos detalhes de construção e de acabamento, mas já era possível viver nele, o que deixou o casal nas nuvens.
Começaram a pernoitar na nova casa e a receber visitas. Lurdes só lamentava uma coisa: os pais de Nuno nunca lhe tinham dado uma mão, apesar de terem pedido ajuda repetidas vezes.
Os sogros sempre tinham assuntos muito importantes e não puderam ajudar nem a erguer a cerca, nem a plantar a árvore de Natal, nem sequer a entregar o frigorífico. Eles ainda tinham um grande e espaçoso 4×4 com reboque exatamente o carro que se precisa fora da cidade. No fim, o casal acabou por pagar a entrega.
Será que estão sempre ocupados? Mas com o que? São pensionistas, afinal espantouse Lurdes.
Não vão mentir, encolheu os ombros Nuno.
Lurdes achava que, provavelmente, os sogros realmente estavam ocupados e simplesmente não conseguiam encaixar os pedidos no horário, mas um pequeno verme de dúvida rosnavia na sua cabeça.
Lurdes, hoje chega a televisão nova. Vais receber? Nuno, a caminho do trabalho, mastigava um sanduíche na cozinha recémpintada.
Claro. A que horas chegam?
Disseram que à tarde, entre as 15h e as 20h. Dei o teu número, prometeram telefonar uma hora antes.
Obrigada. Aqui está o teu almoço para levar ao trabalho.
Vale, já vou deu um beijo na bochecha de Lurdes e saiu a correr para a porta.
Por volta das quatro, ouviuse um bater à porta.
Lurdes achou que era a entrega, embora fosse estranho não terem chamado como tinham prometido.
Abriua a porta. Na soleira estavam os pais de Nuno Lília e Óscar.
Ah, Lurdes ficou sem saber o que dizer e só soltou um ah.
Olá, Lurdes! Não nos reconheces? Vamos ficar ricos! sorriu Lília.
Desculpem, reconheçovos, só não esperava que viessem.
Podemos entrar? piscou Óscar.
Ah, Lurdes respondeu outra vez, ainda tonta, entrem, claro.
Os sogros adentraram a espaçosa sala, que se fundia com a cozinha, e olharamse em volta.
Que beleza! exclamou Lília, balançando a cabeça. Ainda bem que construíram uma casa e não compraram um apartamento. Uma casa tem dignidade, espaço para todos!
Sim concordou Lurdes.
Quando é que podemos mudar para a vossa nova casa? repetiram os sogros, direto ao ponto.
Não percebeste? tirouse Lurdes, irritada.
Já terminaram tudo, então achamos que logo nos chamarão, arguiu Óscar.
Não tínhamos pensado numa casa para quatro, gaguejou Lurdes, confusa com as perguntas dos sogros.
E quem somos, príncipes? Uma só quarto nos basta! riuse Óscar.
Nós, Lurdes, vamos pedir um aumento à pensão e alugar o nosso apartamento, agora que temos onde viver explicou Lília.
Já falaram disso com o Nuno? Lurdes não gostava da ideia dos pais dele.
Ainda não, mas ele não vai recusar, tenho a certeza.
Lurdes ficou pasma com tamanha falta de cerimônia. Os pais nunca tinham atendido a um pedido de ajuda e agora queriam morar na casa e ainda ganhar algum dinheiro a mais.
Ela não encontrou forças para confrontar os sogros, mas depositou toda a esperança em Nuno.
Não somos invasores! exclamou Óscar, indignado. Ao menos ofereçamnos um chá!
Claro, respondeu submissa Lurdes.
Os sogros foram tomando chá lentamente, espalhados à mesa de jantar, quando o telefone tocou.
O motorista da entrega desculpouse por não ter chamado a hora antes e avisou que já estava ali.
Lurdes foi abrir a porta e os carrinhos ajudaram a levar a caixa enorme para dentro, despedindose educadamente.
Nossa, que tamanho! exclamou Óscar. Onde vamos pendurálo?
Aqui apontou Lurdes para a parede vazia.
Perfeito! À noite vamos sentar no sofá a ver as notícias.
Na verdade não íamos instalar antena.
Ah, que engraçado! E o que vão ver então? Um ecrã vazio?
Nada. Filmes, séries, apps. Hoje em dia já não se vê televisão; só os mais velhos. encolheu os ombros Lurdes.
Então somos nós! riu Lília. Vou falar com o Nuno para colocarem antena.
Lurdes contava os minutos para Nuno chegar, rezando para que não se atrasasse no trabalho. Por sorte, ele chegou a tempo.
Olha quem vem! exclamou Lurdes ao ouvir o motor.
Lurdes correu ao hall para o encontrar.
Os teus pais chegaram e querem mudarse para cá, sussurrou a Lurdes, abraçandoo ao pescoço.
O quê? gritou ele.
Calma, eles mesmos vão explicar tudo.
De onde vieram esses? perguntou Nuno.
Ah, vieram só para ver como está. Gostounos tudo! disse Óscar.
Se vierem, ainda nasce um bebé e não haverá espaço, previu Nuno.
Mas têm duas quartos no andar de cima! interveio Lília.
Uma habitación de crianças e outra de hóspedes. Temos amigos que ficam à noite, festas somos jovens! sorriu Nuno.
Não gostamos de barulho, comentou Lília, olhando para o marido.
Então terão de ser mais silenciosos, concordou ele.
Porquê? surpreendeuse Nuno.
Já lhe contamos, queremos mudarnos, alugar o nosso apartamento e ganhar um bocadinho, afirmou Óscar.
Não temos espaço para vocês, retrucou Nuno.
Filho, como assim? Não há lugar para os pais? lamentouse Lília.
E os pais encontraram tempo para nos ajudar? Nem o frigorífico entregaram! Estão aqui nunca, e agora querem ganhar dinheiro com a nossa casa? Não, pais, não vai ser assim. Querovos bem, mas não há espaço. respondeu Nuno.
Óscar e Lília trocaramse um olhar.
Vamos, Lili, temos de ir, disse o pai, de modo seco.
Vamos.
Silenciosos, levantaramse e marcharam orgulhosamente para o hall.
Quando a carruagem partiu, Lurdes correu ao Nuno e abraçouo apertado.
Obrigada, amor! Tinha medo de que ficasse do lado deles confessou, ainda tremendo.
Porquê? Vite triste sempre que eles se recusavam a ajudar. Não devo aceitar que venham só por lucro. respondeu Nuno.
Obrigada! Lurdes abraçouse ainda mais ao marido.
De nada, sorriu ele, mas agora contame o jantar de aniversário.
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