Precisei instalar um frigorífico separado para que a minha mãe não mexesse nas minhas compras.

Epá, deixa-me contar-te a história da Matilde, uma amiga minha cá de Lisboa. Ela teve que arranjar um frigorífico só para si sim, mesmo dentro do próprio apartamento! Parece uma coisa de loucos, mas não havia alternativa. Ela até está disposta a vender o apartamento e dividir o dinheiro, mas a mãe não quer ouvir falar disso.

A Matilde fez agora 24 anos. Acabou a licenciatura, já está a trabalhar, mas ainda não se casou. A vida dela no apartamento não é nada fácil, acredita. Ela tem metade do apartamento, sabes? Antigamente era do pai ele deixou à Matilde e à mãe, a Leonor, cada uma com uma parte igual, quando morreu. Ela só tinha 14 anos nessa altura.

Há dez anos, a coisa estava mesmo complicada, porque ficaram sem o homenzinho da casa, como ela diz. A mãe da Matilde deixou de trabalhar quando ela era miúda, nem chegou a tirar licença de maternidade o marido ganhava bem, havia dinheiro suficiente. A Leonor dedicou-se a tratar do lar. Depois, quando o pai morreu, ela andava sempre a lamentar-se: Para onde é que vou eu trabalhar aos quarenta anos? Para uma limpeza, é?

Então a Matilde começa a contar recebiam a pensão de sobrevivência, mas a Leonor não conseguia evitar ir aos salões de beleza, comprar roupa nova E dinheiro era coisa pouca. Ao início, foi o irmão da Leonor, o tio Mário, que ia ajudando, até que se cansou.

O tio Mário sempre dizia à Leonor: Olha que precisas mesmo de arranjar um emprego. Tens dois filhos e não consegues manter tudo sozinha. E ao fim de um ano, Leonor apareceu com um homem lá em casa: era o António. Explicou que ele ia passar a morar com elas. A solução dela para a falta de dinheiro era casar outra vez. O António até ganhava bem, mas nunca se deu com a Matilde.

Pensa nas coisas que o António dizia: Só comes, não fazes mais nada! Era melhor que lavasses a roupa ou limpares a casa Para quê fazer trabalhos de casa? Vais à universidade para quê? Esses estudos, só te servem se fores trabalhar. Ou achas que vou sustentar-te eternamente?

Matilde nem sabia o que responder. A pensão ia toda para a mãe. Leonor nunca quis defender a filha do António. Ela só queria manter o provedor da casa: Então, como vivemos sem ele? Não protestes e faz o que ele diz, é o provedor!

A Matilde lá foi para a universidade, arranjou emprego, mas sempre foi vista como um peso extra à conta do António. Ele nem parava de comparar despesas, a ver quanto lhe custava a filha postiça.

Seis meses depois de arranjar emprego, comprei um frigorífico, diz-me ela. Foi para o meu quarto. O António trancou o da cozinha, acredita?

Já tens trabalho? Então alimenta-te sozinha, dizia o António. E a Leonor, calada. Mesmo quando ele punha contas à frente da Matilde, pedia-lhe devolver tudo o que gastou nela, durante anos. A Matilde, ao início, até pagava. Mas o António ficou desempregado, quase um ano sem trabalhar. Eles começaram a usar o frigorífico da Matilde para vender coisas, e todas as acusações caíam sobre ela. Ela fartou-se pôs cadeado no frigorífico. A Leonor ficou furiosa, dizia que o António a tinha sustentado todo aquele tempo.

A Matilde respondeu: Se queres mesmo, então ajuda-me. Não fui eu quem começou a dividir tudo aqui em casa. Vai trabalhar também.

Agora o António já saiu do apartamento. A Leonor finalmente percebeu que sem dinheiro não aguentava aquele homem. Mas a Matilde ainda não tirou o cadeado do frigorífico. Ela acha que a mãe também devia encontrar trabalho. Diz lá tu: não achas que ela tem razão?

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

seventeen − eight =

Precisei instalar um frigorífico separado para que a minha mãe não mexesse nas minhas compras.
„Zostaneš na starobu sám!“ – Počula som od muža.