A minha nora está sempre a ter filhos. Sinto pena pelos meus netos. Vou explicar-vos porquê.

O meu filho casou-se já com trinta e três anos. Agora isso até é habitual, mas noutros tempos era tido como tardio. Uniuse à namorada porque ela engravidou; todos ficámos radiantes era o nosso primeiro neto, e nasceu uma menina. Senti uma felicidade tamanha, como um eco a prolongar-se em sonhos repetidos.

A minha nora, Matilde, não é nada má antes pelo contrário, sempre hospitaleira, casa impecável, jovem, cheia de graça e um jeito de tricotar que me surpreendeu, pois nunca me dei bem com agulhas. No fundo, uma rapariga mesmo portuguesa: generosa, simples, com aquela doçura das feiras de província, e o meu filho, Duarte, sente-se feliz com ela. Não peço mais nada à vida.

Quando a minha neta, Beatriz, fez três anos, anunciaram uma nova gravidez. Veio ao mundo o segundo filho, um rapaz. Começaram a reerguer a moradia velha, aquela que foi da minha avó, ali para os lados de Santarém. Ficámos felizes de novo. Passados pouco mais de dois anos, Matilde contou que ia ter o terceiro. E, depois de outros dois, voltou a engravidar, como se os filhos nascessem dos sonhos e da terra, salpicados de maravilha.

Vivo à custa do salário do Duarte. Ele lá arranja trocos, sabe de tudo um pouco, mexe em tijolos e canalizações, é como se a casa crescesse das suas mãos. Mas é só motorista de pesados, não é homem de grandes luxos. Para quê tanto filho? Quase nunca para mais que algumas horas em casa, sempre correndo entre trabalhos de ocasião.

Na véspera do Ano Novo, Matilde passou-me uma lista para os miúdos. Pensava que aparecessem bombons e brinquedos nem uma coisa, nem outra. Lá estava: meias grossas, calças de licra, óleo para massagens, cuecas, tudo coisas práticas, daquelas que os anúncios não vendem nos intervalos da novela.

Perguntei ao Duarte: onde é que iam dar à luz o quarto filho? Ele encolheu os ombros, como se nem fosse real.

Consegui criar um filho responsável, trabalhador, nunca ronceiro. A mulher tem quase trinta e cinco, nunca trabalhou, não tem caderneta nem descontos. Daqui a uns anos faz quarenta; não seria de estranhar que viesse um quinto. Mas eu não vou durar para sempre, ou chego velho e já não poderei ajudar. A mãe da Matilde já não está entre nós, por isso sou eu que seguro tudo, mesmo que entretanto tenham conseguido reconstruir finalmente a casa herdada. Acontece que, mesmo assim, quatro filhos encaixados entre as paredes não fazem uma casa maior.

Perguntei-lhe: E quando terminarem os subsídios, como é? O que será de ti aos quarenta, sem nunca teres trabalhado fora de casa? Ela disse-me, num daqueles tons sonhadores: Logo se vê, isto há-de correr bem. Mas se, Deus me livre, algum dia acontece alguma coisa ao Duarte? Que será de mim, que faço eu a tantos netos pequenos e dependentes?

Tenho ainda outro filho, o Henrique, que me acusa de nunca ter tempo para o neto dele, porque esgoto as horas a ajudar o irmão mais velho. E eu sinto que todo este enredo de família me escorre pelos dedos, como uma tarde quente de verão em terras ribatejanas, na qual, ao acordar, tudo se dissipa, mas o peso fica, como se fosse um antigo fado a rodar em surdina.

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A minha nora está sempre a ter filhos. Sinto pena pelos meus netos. Vou explicar-vos porquê.
“Mãe, somos nós, os teus filhos… Mãe…” Ela olhou para eles. Ana e Roberto viveram na pobreza durante toda a vida. Ana já tinha perdido as esperanças numa vida feliz e desafogada. Em tempos fora jovem, apaixonada e sonhava com um futuro brilhante para ambos. Mas a vida não correu como imaginava. Roberto trabalhou arduamente, mas o dinheiro mal chegava para as despesas. Depois, Ana engravidou. Nasceram-lhes três filhos, quase de seguida. Ana já não trabalhava há muito. Só o salário do marido não chegava. As crianças cresciam, precisavam de roupa e calçado. Todo o ordenado ia para comida, contas e mais nada. Doze anos assim deixaram marcas na família. Roberto começou a beber. Sempre trazia o ordenado para casa, mas voltava bêbedo todos os dias. Ana perdeu o ânimo com essa vida. Um dia, o marido chegou a casa com uma garrafa de aguardente. Farta, Ana tirou-lha das mãos e bebeu. E foi a partir daí que começou a beber. Passado algum tempo, sentiu-se melhor. Os problemas pareciam desaparecer. Até se animava. Depois disso, quase todos os dias esperava que o marido trouxesse a bebida. Começaram a beber juntos. Ana esqueceu os filhos. No aldeamento todos se perguntavam como é que a aguardente mudou aquela mulher. Depois, os rapazes andavam pela aldeia a pedir comida. Um dia, um vizinho não aguentou mais e disse: – Ana, é melhor entregá-los ao orfanato do que deixá-los morrer à fome. Até quando vais beber e ignorar os teus filhos? Ana ficou com aquelas palavras gravadas na memória. Pensava nelas constantemente. Talvez fosse melhor que os filhos nem lhe andassem a chatear. Passado algum tempo, Ana e Roberto acabaram por abandonar os filhos. Os rapazes foram para um orfanato. Choravam à espera dos pais, mas ninguém lá ia. Ana e Roberto já nem se lembravam deles. Passaram-se alguns anos. Um a um, os rapazes saíram do orfanato. Receberam cada um um pequeno apartamento de renda social. Mas pelo menos tinham onde viver. Todos arranjaram trabalho e sempre se apoiaram. Não falavam dos pais, mas queriam vê-los, perguntar porque é que aquilo lhes aconteceu. Um dia, juntaram-se e foram de carro até à casa onde tinham vivido. Pelo caminho, cruzaram-se com a mãe, que ia com dificuldades pelo passeio. Ela passou por eles sem os reconhecer. – Mãe, somos nós, os teus filhos… Mãe… Ela olhou para eles com um olhar vazio. E depois reconheceu-os. Começou a chorar e pediu-lhes perdão. Mas como podia ser perdoada? Os filhos ficaram parados, sem saber o que dizer. Depois decidiram: fosse quem fosse, ela era a mãe deles. E perdoaram-na.