Conhecidos fizeram questão de ir connosco numa viagem de carro, prometendo ajudar nas despesas. Chegados ao destino, largam: Vocês iam de qualquer maneira.
Tudo começou como aquele típico planeamento de férias de verão. Eu, a minha esposa, o nosso honesto crossover, mais de mil quilómetros de estrada até ao Algarve, e o delicioso sabor da liberdade parar onde bem nos apetecesse, entrar por estradas secundárias, sem horários de comboios, bebés a chorar nas carruagens, ou atrasos de voos para nos infernizarem a vida.
Desta vez foi a língua que nos tramou escapou-se-nos o destino e a viagem, numa dessas jantaradas onde se junta toda a tralha de amigos, quase por acaso.
Num dos jantares lá em casa do Pedro, depois de uns quantos copos de vinho do Dão, deixei, sem pensar, escapar que, dali a duas semanas, íamos descer até ao Algarve, e de carro.
Ah é? Em que dias? saltou logo a Marisa, sentada com o namorado à frente.
Chamavam-se Hugo e Marisa Ferreira. Não éramos propriamente compinchas apenas conhecidos ocasionais de jantares de grupo.
Arrancamos dia quinze atirei eu, inocente, sem saber do paraíso que aquilo ia abrir.
Até calha mesmo bem! animou-se logo o Hugo, largando a garfada de arroz de pato. Nós também temos férias dia dezasseis, e íamos de comboio, mas só há lugares ao lado do WC. Dava para irmos convosco? Metade das despesas, viagem divertida, e somos pacíficos nem vamos dar por nós!
Olhei para a minha esposa, e aqueles olhos diziam tudo: NÃO! Mas, claro, lá fui eu explicar que o carro já ia cheio, que gostamos de viajar devagar, com paragens quando apetece…
Não sejas assim, levamos só uma mala! o Hugo insistia, já em modo vendedor da Feira da Ladra. E poupamos todos! A gasolina está a preço de ouro, isto é uma pechincha. Vá lá, somos conhecidos!
E… cedemos. O argumento da poupança venceu, mas mais que isso, foi aquela típica falta de coragem para dizer não. Pela fraqueza pagámos caro durante as duas semanas seguintes.
Queres sossego? Não faças favores!
Marcámos o encontro à porta do nosso prédio, às cinco da manhã. Saímos à hora certa, o porta-malas impecável malas, garrafas de água, ferramentas, mantinhas. O Hugo e a Marisa apareceram quarenta minutos atrasados.
Epá, o Uber demorou uma eternidade disse a Marisa, arrastando uma mala digna de uma semana de passagens de moda, mais uns tantos sacos de Tupperwares para o café da manhã.
Combinámos viajar com poucas tralhas não aguentei e soltei.
Olha que é uma mulher, precisa de roupa! ria-se o Hugo.
Lá ficámos a jogar tetris até tudo caber.
Nem uma hora depois, começou o circo. A Marisa tinha calor ligámos o ar condicionado no máximo, e dez minutos depois o Hugo já estava com os dentes a bater. A minha playlist era muito alternativa, disseram. Vieram logo os pedidos de paragens: para esticar as pernas, para ir à casa de banho, para café, para fumar…
O meu plano era contornar Lisboa antes do trânsito, mas soçobrou. Em vez de fazermos poucas, boas paragens, íamos com uma expressão de comboio suburbano: Próxima paragem
O auge foi numa bomba de gasolina.
Encho o depósito, 80 euros lá foram. Volto para o carro, o Hugo a trincar um croquete.
Então, dividimos? insinuei eu, falando do pagamento.
Vá, deixamos isso para depois, no fim acertamos tudo, para não andar aí a fazer contas à pressa despachou-me ele.
Pouco me agradou, mas a minha mulher sussurrou: Deixa, não armes confusão, acertam depois.
E fui eu que paguei as portagens, nem perguntaram quanto foi.
Durante a viagem, engoliam sandes atrás de sandes, o carro ficou um campo de migalhas. Pedi para terem cuidado:
Vá lá, o carro limpa-se num instante sorriam, como se nada fosse.
Chegámos ao Algarve às três da manhã, mas desfeitos não pela viagem pela companhia.
Só partilhámos a viagem convosco!
De manhã, já recompostos, encontrámo-los na copa da casa onde ficámos. Saquei do meu caderninho de contas.
Então, comecei com calma. Gasolina foram 320 euros, portagens 70. Dá 390 euros. Metade são 195 euros de cada lado.
O Hugo engasgou-se no galão, a Marisa ficou de olhos em bico.
Quê? Duzentos euros? Estás a gozar? perguntou ela.
Não gozo nada. Falámos em dividir despesas.
O Hugo pousou a caneca.
Oh pá, mas tu ias fazer esta viagem de qualquer maneira! Se estivéssemos ou não, ias gastar o mesmo. O carro é teu, a gasolina sempre ias pôr. Nós só ocupámos lugares que já cá estavam.
Espera lá comecei a ferver. Combinámos tudo à partida. Aguentei o vosso circo, levei tralha extra, andei a parar quando vos apeteceu, e só estou a pedir o que é justo.
Que exagero! bufou a Marisa. Até foi divertido, fomos todos na galhofa. Se tivéssemos sabido, apanhávamos um BlaBlaCar mais em conta.
Outro condutor já vos tinha deixado na berma por causa das sandes e das queixinhas disparou a minha mulher, farta.
Olha, concluiu o Hugo. Damos aí cinquenta euritos, só para não dizerem. Mas metade? Isso é um disparate a nossa conta está feita ao cêntimo.
Levantei-me.
Guardem o dinheiro. Considerem uma prenda. Mas para Lisboa, voltam por conta própria.
Como assim?! O Hugo saltou.
Acordo era dividir. Quebraram o acordo. Tenham boas férias.
Férias separados & regresso feliz
Os restantes dez dias nem nos cruzámos, apesar de ficarmos no mesmo aldeamento. Só uma vez na praia, e viraram-nos a cara.
Na véspera do regresso, mensagem do Hugo: Oh pá, não sejas teimoso. Damos 100 euros, ida e volta. Vamos todos, a Marisa enjoa nos autocarros.
Ignorei.
Nós, tranquilos, arrumámos as malas, verificámos o óleo, e arrancámos ao nascer do sol. A viagem de regresso: só nós, boas músicas, poucas e boas paragens, silêncio finalmente.
Soube entretanto, pelos amigos em comum, que fiquei o mau da fita porque abandonei amigos em dificuldades por causa de umas centenas de euros. O Hugo e a Marisa andaram de autocarro e gastaram mais ainda, e agora adoram contar a todos a minha injustiça.
Mas a lição fica: hoje, quando alguém insinua Ah, vais ao Norte? Levas-me? respondo com um sorriso: Desculpa, gostamos de viajar só os dois.Agora só nos rimos, eu e a minha mulher, cada vez que ouvimos alguém reclamar do descaramento dos outros. Se nos perguntarem pela aventura, encolhemos os ombros e dizemos: Aprendemos a lição. Não ficou fotografia de grupo, nem convite para café ao regresso. No álbum de memórias, só guardámos as fotos a dois, as paisagens vazias e sorridentes, o céu a escurecer na Nacional 125 e os pequenos silêncios que, juntos, fazem doer de saudades daqueles quilómetros em que ninguém precisa de mais companhia do que a nossa. E, no fundo, soubemos que, na estrada e na vida, nem todo o lugar vago precisa de ser ocupado.







