Arrenda-se o meu apartamento

Estou a alugar o meu apartamento

Leonor Gabriela Nogueira, de seu nome de solteira, e agora, pelo casamento, Leonor Gabriela Martins, sempre achou que o mais assustador na vida era quando as coisas boas começavam de mansinho, quase sem se dar por elas, e depois terminavam da mesma forma, discretamente, mas sem retorno. Era o que acontecia com as plantas à janela: regava-se, cuidava-se, tudo parecia bem. Um dia, sem se perceber como, as folhas estavam amarelas e já não havia salvação.

Aquele cheiro sentiu-o logo na escada do prédio.

Intenso, adocicado, um perfume pesado de pó-de-arroz. Tabu. O tal perfume que Leonor nunca confundiria, porque era exatamente esse aroma que pairava no ar sempre que entrava em casa de Amélia, a sogra. O cheiro entranhava-se na roupa, no cabelo, na memória.

Pareio diante da porta, com a chave na mão.

Quatro da tarde. Saí do trabalho mais cedo a Dona Célia, da contabilidade, olhou para mim e disse, Estás muito pálida, filha, vai para casa descansar. A cabeça latejava desde manhã, como se tivesse um aro apertado nas têmporas. Queria só tomar um comprimido, deitar-me, tapar-me com a manta.

O cheiro, porém, gritava outra coisa.

Abri a porta.

No hall esperavam-me três grandes caixas de cartão, daquelas de frigorífico, com a inscrição SIEMENS de lado. Uma já estava selada com fita. Nas outras, espalhados, uns objetos cobertos com jornal.

Da cozinha vinha o tilintar de loiça, barulhos baixos de arrumação e um murmúrio abafado.

***

Dona Amélia chamei, sem sair do lugar. O que é isto?

O barulho cessou. Logo a seguir, vi a sogra debruçada à porta da cozinha. Era uma mulher robusta, bem composta, de cinquenta e sete anos, com o avental sobre o fato cinzento claro. Cabelos presos, luvas de borracha, ar compenetrado, quase solene.

Leonor! exclamou Dona Amélia, naquele tom de quem informa algo desagradável mas é para teu bem. Chegaste cedo. Sentes-te bem?

O que é que se passa aqui? insisti sem sair do hall.

Calma, não te exaltes. Tirou uma luva, depois a outra, e pousou-as lado a lado. Isto é por vocês. Por ti e pelo Diogo. Senta-te, explico tudo já.

Prefiro ficar de pé. Então diga.

Ela semicerrrou os olhos, gesto de quem está habituada a mandar. Era chefe de enfermagem num centro de saúde em Benfica, vinte e três anos de serviço, o seu dizer era ordem.

Pronto, então vem pelo menos até à cozinha. Faço um chá.

Não vale a pena. O que está nas caixas?

Suspirou, como só fazem as pessoas cansadas dos caprichos dos outros.

Loiças, algumas panelas e tachos. Os copos de cristal enrolei em plástico bolha, não te preocupes. Os pratos ficam para os inquilinos.

Ouvi a frase inteira. Para os inquilinos. E aquilo caiu-me na alma, como uma pedra.

Que inquilinos? perguntei, numa voz seca.

Arranjei quem ficasse no apartamento respondeu, como quem dá uma boa notícia. Um casal jovem, com um miúdo de uns cinco anos. Ele trabalha na construção, ela está em casa com o filho. Gente séria, já falei com eles, entram na sexta-feira.

Sexta-feira? ecoei. Daqui a três dias?

Isso, três dias. Já tratei do adiantamento. Pagam logo primeiro e último mês.

Pousei a mala na cómoda junto à porta. Tirei o casaco, pendurei-o com esforço. Cada gesto custava, a cabeça continuava a rachar e, agora, as mãos gelavam, apesar de a casa estar quente.

Dona Amélia disse, por fim , falou disto com o Diogo?

Claro, filha. Até foi coisa combinada. Quando ele perdeu aquela comissão há três meses, lembrei eu própria: alugamos o apartamento, vocês ficam comigo, poupam algum. É sensato.

Não ficou decidido nada, balancei a cabeça. Eu disse que não concordava.

Disseste que ias pensar, corrigiu a sogra, suave.

Não. Disse que não concordava. O Diogo pediu para não criar problemas, fiquei calada. Isso não é dar razão.

Ela cruzou os braços. Reconhecia este gesto dela era quando a decisão já estava tomada e não tolerava oposição.

Leonor, és uma mulher inteligente. És contabilista, sabes contas. Vamos lá fazer as contas Quanto é que a vossa prestação do banco vos tira por mês?

Isso não é consigo.

Leonor

Não é. Assunto financeiro do nosso casamento não é da sua conta.

Ficou um silêncio denso. Da janela da cozinha ouvia-se o rumor dos carros lá em baixo, na Estrada de Benfica. O elétrico passava ao longe.

Tens direito à tua opinião, disse, quando já não conseguia esconder a frieza na voz. Mas a família não és só tu. É o Diogo também. E ele concorda.

Vou ligar-lhe.

Tirei o telemóvel.

***

O Diogo atendeu ao terceiro toque. Ao fundo, o ruído do maquinário da fábrica, vozes.

Leo, está tudo bem? Chegas cedo.

Diogo, a tua mãe está a empacotar o nosso apartamento. Já encontrou inquilinos, e disse que entram sexta-feira.

Intervalo breve. Dois compassos de silêncio.

Leonor, eu queria ser eu a dizer-te…

Sabias?

Ontem à noite ela ligou, disse que tinha uma solução. Pensei que falavam primeiro

Diogo. Encostei-me à parede fria do hall. Tu sabias, e não me disseste nada. Chego a casa, e está tudo em caixas. Percebes o que isto significa?

Leo, sei que estás chateada…

Vem para casa.

Tenho reunião às seis…

Diogo. Disse num tom calmo, firme Vem para casa. Agora.

Chegou pouco antes das seis. Eu estava na cozinha, chá já frio na chávena. A Dona Amélia mexia nas figuras de porcelana do móvel da sala aquelas que tinha trazido de Fátima para dar ambiente.

O Diogo era alto, cabelo claro, ultimamente com um ar de eterno culpado. Trabalhava como engenheiro numa fábrica de Sete Rios, apanhava o comboio e mudava duas vezes. Eu sabia do cansaço, mas hoje não havia descontos para ninguém.

Leo, começou, à porta da cozinha.

Senta-te.

Sentou-se. Pousei a chávena.

Explica-me como é que se toma uma decisão destas sobre a nossa casa sem me falar.

Não houve decisão… A minha mãe só sugeriu. Achei que conversavam

Conversámos. Está a empacotar panelas. Para ti isso é sugerir?

Não estás a perceber, estamos a

Explica.

Perdi a comissão há mês e meio. Desde então, todos os meses em saldo negativo. Prestação da casa, despesas, supermercado, empréstimo do carro. Está difícil, Leo.

Escutei. Sabia disso. Contávamos o dinheiro, claro. Mas não era o fim do mundo. O meu emprego no escritório de contabilidade Contas & Poupanças era estável, aguentávamos.

Sugeri cortar despesas. Adiar férias, cancelar o ginásio recordas?

Sim.

Bastava isso.

A mãe acha que não.

E tu?

Ele calou-se. Disse tudo sem dizer nada.

Diogo, sabes de quem é este apartamento?

Bem, legalmente é teu, mas somos família

Não é legalmente é teu. O meu pai deu-mo. Três meses antes do casamento. É meu. Por lei e em papel. Nem tu nem a tua mãe podem alugá-lo sem o meu consentimento escrito. Sabias que é crime?

Olhou de lado. Não, não tinha pensado nisso.

Não vais à polícia contra o teu marido

Não se trata disso, Diogo. Trata-se do que deixas que a tua mãe decida daquilo que não lhe pertence. E não dizes nada. Porquê?

Da sala vieram passos. Dona Amélia espreitou.

Diogo, chegas-te. Explica à Leonor que isto é sensato. Ela não percebe o risco.

Mãe, espera um pouco.

Esperar? Os inquilinos aguardam resposta. Gente séria, não ficam à espera. Se recusarmos, desaparecem.

Dona Amélia, falei a minha resposta é não. Não vou alugar o apartamento. Não nos mudamos para sua casa. É definitivo.

Olhou demoradamente para mim, depois virou-se para o filho.

Diogo, ouviste?

Mãe, talvez seja o melhor

Como é? Voz tensa.

Foram três dias a tratar disto, arranjei visita para amanhã. Achas justo deitar tudo a perder por causa dela?

Não por teimosia dela, Diogo murmurou. Leonor Explica à mãe.

Levantei-me. Levei a chávena à banca, virei-me.

Não vai haver visitas, disse. Se trouxer alguém, explico o motivo. Boa noite.

Fui para o quarto. Fechei a porta devagar, não bati.

***

A noite foi má. Ele entrou no quarto perto das onze. Deitámo-nos de costas voltadas, eu escutando a respiração dele, calma, fingida. Não dormi. Pensei.

O meu pai dizia: Nori, queres perceber bem o problema? Afasta-te primeiro. Visto de perto assusta sempre mais.

Morreu há quatro anos. Deixou-me aquele apartamento não como bem, mas como refúgio. Eu sempre senti isso. Sabia que era filha única, a minha mãe morava em Santarém, precisava de um porto seguro.

O meu porto estava em caixas.

Ou talvez não. As caixas existiam. Mas o refúgio era o que estava nos papéis, arquivados no móvel. Escritura, contrato doação, tudo certinho.

Sabia que amanhã a Dona Amélia traria mesmo os inquilinos. Ela não dizia nada em vão. Era a sua maior qualidade e fraqueza nunca desistia.

Eu sabia desistir. Mas só quando fazia sentido.

Naquele caso, não via sentido.

O Diogo mexeu-se do outro lado da cama. Não olhámos um para o outro. Dois desconhecidos em silêncio, com um ano de histórias, obras na casa de banho feitas juntos, a primeira árvore de Natal, duas chaves para uma porta.

Pensei, amar não é só nos bons dias. É uma escolha. Ele calava-se deitado ao meu lado. O que significava isso?

Não sabia.

Era isso que doía mais do que as caixas.

***

No dia seguinte, levantei-me às sete. O Diogo dormia. Fiz café, bebi-o à janela. Lá fora, chovia miudinho. Benfica em março tem destas cores tristes: as estradas húmidas, árvores baças no jardim do bairro.

A dor de cabeça passou. Ainda bem.

Abri o móvel, peguei na pasta azul. Pousa-la na mesa, verifiquei papéis escritura, contrato de doação, datas, meu nome certinho.

Guardei tudo no sítio de sempre.

Às dez tocou o telefone. Era a mãe, de Santarém.

Filha, como estás?

Bem, mãe.

Estás com voz estranha

Está tudo bem.

Pausa.

O Diogo ligou à noite. Contou-me do desacordo com a tua sogra.

Fechei os olhos.

Ligou-te?

Sim. Está aflito, diz que não sabe o que fazer.

Ele tem de escolher de que lado fica.

Ele não é mau rapaz, Nori. Viveu trinta anos com ela. Isso não muda do dia para a noite.

Eu sei.

Aguentas?

Aguento.

Se precisares, digo e eu vou.

Senti o nó na garganta. Tossi.

Não é preciso, mãe. Resolvo.

Lembra-te: a casa é tua. Isso não se discute.

Não esqueço.

Desliguei. O Diogo saiu do quarto às dez, encheu uma chávena de café, calado. Eu estava com um livro que não lia, junto à janela.

Leonor

Diz.

A mãe marcou com os inquilinos para as doze.

Ontem ouvi-te.

Não queres receber só para ver? Talvez te agradem

Virei-me.

Diogo, estás a pedir-me que alugue a minha casa a quem nunca vi, e ainda por cima sem ter tido palavra?

Só queria tentar a mãe esforçou-se.

Ouves-te, Diogo? A mãe esforçou-se. Não foste tu, não fomos nós. É dela, é decisão dela?

Pousou o café, esfregou a testa.

Não sei como sair disto sem a magoar.

E magoar-me a mim pode ser?

Não respondeu.

Voltei ao livro, sem o conseguir ler.

***

Chegaram por volta das doze e meia.

Ouvi o toque. Depois a voz forte da Dona Amélia, tom de dona da casa. E o som do elevador.

O Diogo estava à janela; eu, sentada no sofá. A pasta azul arrumada no móvel.

A campainha tocou de novo.

Diogo avançou, hesitando.

Fica, pedi, calma.

Ele ficou. Olhou-me, meio aliviado, meio envergonhado.

Outro toque.

Levantei-me, fui à porta.

Dona Amélia trajava o tal casaco de cerimónia, cinzento, botão forrado. Atrás, um casal jovens, uns trinta anos, ela de anoraque encarnado, ele de blusão de ganga. Ao lado, um menino de uns cinco, gorro com orelhas de urso. Olhou-me sério, sem sorrir.

Leonor! entrou Dona Amélia sem esperar convite. Apresento-vos o Rui e a Carla. Gente de bem. Ele trabalha nas obras, ela cuida do Martim.

Olá disse Carla, envergonhada. Desculpe, não avisámos

Não, sem problema. Entram.

Recuei, deixei-os passar. Martim olhava-me fixamente.

O Diogo está?

Está na sala.

Ótimo. Rui, venha daí ver o apartamento: sala ampla, cozinha com forno novo, metro perto

A sogra guiou o grupo falando dos tectos e das tomadas. Eu fui atrás.

Na sala, Diogo ao pé da janela. Desviou o olhar de mim.

Ora vejam, indicava Dona Amélia. Quarto principal espaçoso, cozinha funcional. Tudo ainda praticamente novo. E a renda são mil e cem euros ao mês…

Desculpe.

O tom saiu-me calmo. Abri o móvel, peguei a pasta azul.

Todos olharam.

Rui, Carla, antes de decidirem quero mostrar-vos algo.

Tirei dois papéis. Cheguei-me a eles.

Isto é a certidão da conservatória. Vejam o nome do proprietário.

Carla leu.

Leonor Gabriela Nogueira Martins.

O meu nome de solteira. Mais, mostrei o segundo , o contrato de doação feito pelo meu pai. Eu sou a única proprietária. Diogo não está nos papéis. Dona Amélia não tem qualquer vínculo legal a esta casa.

Carla entregou ao marido, confusa.

Leonor, estás a dar cabo de tudo

Rui, para alugar é preciso a assinatura do proprietário. Eu não assinei nem consenti. Se entrarem, é ilegal. Aviso.

O casal ficou calado. Martim sussurrou qualquer coisa à mãe.

Não sabíamos. Disseram-nos que a dona estava de acordo

Sou eu. E não estou.

Pausa longa.

Então Compreendido. Desculpe o incómodo.

Devolveu os papéis. Guardei-os.

Esperem! É um mal-entendido. Amélia insistiu.

Mãe Diogo falou, finalmente olhando-a , é melhor deixarem.

O quê?

Eles vão-se embora. Esta casa é da Leonor. Devia ter dito logo.

Silêncio de veludo.

Carla pegou no Martim, Rui acenou com a cabeça. Saíram.

Ficámos os três na sala.

***

Dona Amélia encarou o filho, tempo demais. Eu esperava.

Diogo, sabes o que acabaste de fazer?

Sei, mãe.

Ficaste do lado dela contra mim?

Fiquei do lado da verdade.

Verdade? arrastou a palavra com desdém.

Sim, mãe, verdade. Neste caso, sim.

Eu só te quis dar tudo, sozinha, a vida toda!

Eu sei.

Sabes! Mas sabes o esforço que fiz? Tudo para te ajudar, para nunca vos faltar…

Mas não pode ser deste modo Diogo respirou fundo. Não se entra numa casa sem perguntar à dona. Não se mexe nas coisas, não se arranja contratos às escondidas. Também a culpa é minha.

A sogra, devagar, vestiu o casaco um botão de cada vez. Pegou na mala.

Vais arrepender-te disse, sem raiva, como quem afirma.

Pode ser respondeu Diogo. Mas isto é que está certo.

Ela saiu, porta com estrondo.

Ficámos em silêncio.

***

Na sala ele junto à janela, eu ao aparador. A pasta azul de novo no sítio. Uma caixa já selada estava ao canto, outras duas no hall.

Lá fora continuava a chuviscar.

Pousei a pasta, fui sentar-me. Ele aproximou-se, sentou ao meu lado, com algum espaço ainda.

Leonor

Espera.

Ficámos calados. Eu a olhar para a prateleira meio torta com os livros. Ele, para as mãos.

Deviam ter dito não logo ontem. Eu devia

Porquê não disseste?

Demorou.

Não sei recusar à minha mãe. Nunca. Se contrariei, ela calava-se, olhava como se eu a tivesse traído. Desde criança. Mais fácil ceder.

Eu percebo. Mas não és uma criança, Diogo.

Eu sei. E hoje Não sei se fez bem. Quer dizer, sei. Mas é a minha mãe.

Vai continuar a sê-lo.

Mas agora vai ficar chateada.

Provavelmente.

E vai doer.

Vai. Não te vou mentir.

E agora?

Não sei. Temos de conversar. Sobre dinheiro, sobre como lidar com isto. Mais tarde.

E quanto à mãe?

É outro assunto.

Estás zangada?

Pensei mesmo. Não por educação, mas para perceber.

Estou cansada. Zangada estive de manhã. Agora só cansada.

Leonor, eu

Fizeste o que devias. Hoje. Mas só hoje, percebe?

Ele percebeu.

Percebo.

Pronto.

Olhei para os livros na estante torta, para a moldura branca com a nossa foto. Para a caixa de loiça no canto.

Desempacotamos isto?

Vamos. Desempacotamos.

***

Fomos tirando as coisas das caixas, cada qual na sua parte. Eu pousei as panelas na prateleira, ele, com mão cuidadosa, tirou os copos da embalagem.

A casa já só cheirava levemente ao perfume da sogra. O Tabu teimava em não sair. Abri a janela entrou um ar frio, húmido de março.

O Martim, de gorro com orelhas de urso, devia já ir no autocarro, a ver passar Lisboa pela janela, sem suspeitar das vidas que cruzou.

Pensei no que a mãe dissera: Ele viveu trinta anos com ela. Não muda em pouco tempo. Verdade. Não muda. Mas hoje, Diogo disse não. Pela primeira vez. Não é garantia de facilidade, nem que agora é simples.

Mas foi um começo.

Arrumei a última panela, dobrei jornal, levei ao lixo.

Faço café? perguntou Diogo.

Faz.

Foi para a cozinha. Peguei a moldura branca. Olhei a fotografia estávamos ambos um pouco atrapalhados, eu com o vestido a fugir do tom, ele já sem gravata e ambos a sorrir, sinceramente.

Passou um ano.

Pus a foto de volta.

Na cozinha, cheiro bom de café acabado.

Fui até lá. Serviu-me uma caneca, serviu-se. Sentou-se à minha frente.

Lá fora, chovia.

Bebemos café em silêncio. Era um silêncio pesado, mas cheio: havia muito por dizer, e sentia-o como se sente o frio nas mãos.

Por agora, não precisava de palavras.

Agora precisava de café. Da janela aberta. Da estante torta de livros na sala ao lado.

E da pasta azul, bem guardada.

***

Queria acreditar que o pior passara. Era bonito pensar assim. Mas, tendo trabalhado cinco anos numa contabilidade, sei que o saldo nunca bate logo à primeira. É preciso arrumar papéis, refazer contas, cuidar dos detalhes.

Na família será igual.

Dona Amélia irá telefonar. Um dia destes. Quem é como ela nunca vai embora de vez fica a ver se vão atrás.

Diogo sentir-se-á dividido. É verdade, vejo-o.

O dinheiro, a comissão perdida, a prestação da casa tudo isso ficou.

Conversas por ter, difíceis, que ainda não sabemos ter. Mas talvez o dia de hoje tenha feito diferença.

Não sei.

O Diogo pousou a chávena.

Leonor

Sim?

Ainda bem que não te foste embora. Mesmo quando disse disparates. Ficaste, e fizeste o que era certo.

Olhei-o.

Não saberia fazer de outra forma. Esta é a minha casa.

Ele assentiu.

Nossa, corrigiu.

Fiquei um pouco em silêncio.

Sim disse, por fim. Nossa.

Lá fora, parava de chover. O céu sobre Benfica clareava só um bocadinho.

Peguei a caneca. O café já frio, mas bebi até ao fim.

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