Dei o meu apartamento à minha filha e ao genro. Agora durmo num catre na cozinha: como me tornei uma estranha na própria casa, depois de uma vida inteira dedicada à família.

Diário,
Hoje, deitada no velho catre portátil no canto da cozinha, dei por mim a ouvir as gargalhadas da Benedita e do Jorge na sala. A televisão aos berros, copos a tilintar lá devem ter aberto outra garrafa de vinho do Douro, imaginei. E eu ali, entre tachos, panelas e o cheiro persistente do caldo da véspera.

Dei por mim a recear mexer-me demasiado. O catre range a cada movimento. Achei melhor não fazer barulho, para não virem dizer que estou a estorvar. Já faço por não me cruzar com eles: acordo cedo, saio de casa e só volto tarde. À noite, a sala pertence-lhes. Mas para chegar à cozinha, obrigatoriamente tenho de atravessar esse território proibido. A situação é sempre acanhada.

Tenho sessenta e quatro anos. Dediquei a vida a ensinar, era professora primária numa escola em Almada. Criei a Benedita sozinha o pai dela foi embora quando ela era miúda. Este apartamento veio-me parar às mãos ainda no tempo do Estado Novo, e depois da revolução consegui ficar com ele em meu nome. Dois quartos, num bairro tranquilo, perto da estação de metro, um verdadeiro lar. Aqui vivi tudo.

Quando Benedita casou com o Jorge, andavam aflitos. Alugar em Lisboa? Caríssimo, só trinta metros quadrados, vizinhos barulhentos. E ela queixava-se: Não é casa para criar um filho, mãe”. Na altura, achei que devia intervir.

Ofereci-lhes o apartamento.
Não deixei em testamento. Não foi a título provisório. Fiz uma escritura, tudo certo. Assinei o contrato com fé no sangue. Acreditei que seríamos uma família, que ia ajudar e estar perto deles, perto dos netos que sonhava ter.

Nos primeiros tempos correu bem. Jantávamos juntos, falávamos do dia, quase uma casa cheia. Depois, sem me aperceber, senti que algo mudou.

Um dia, avisaram-me: precisavam do meu quarto. Iam montar um escritório, porque agora trabalhavam de casa. E eu, temporariamente sublinharam bem o temporariamente , ficava na cozinha.

Esse temporariamente dura há quatro meses.
Falei, insisti que me doía as costas, que ali é húmido, que já não sou nova, que estava a ser difícil. A resposta resume-se sempre à mesma frase: Tem um bocadinho de paciência, mãe.

Esse bocadinho estendeu-se. O meu antigo quarto virou zona nobre: móveis modernos, computador topo de gama, cadeira ergonómica. Enquanto isso, eu à noite rezo que o catre não estale cada vez que mudo de posição.

É ingrato como me começo a sentir redundante. Não estou em minha casa, estou na casa dos outros. A mesma casa onde toda a minha vida se desenrolou.

Até que, certa noite, ouvi conversa no corredor. Não deram pela minha presença. Falavam de mim: que atrapalho, que não era suposto viverem eternamente comigo. Mencionaram partilhar despesas, pensaram numa instituição de idosos. Ali entendi tudo.

Criei uma filha. Dei-lhe tudo. E agora era o elemento a mais.
Saí de casa sem destino, andei pelas ruas de Lisboa, o frio a entranhar-se-me nos ossos. Até que regressar foi inevitável. Não disse uma palavra, deitei-me no meu catre.

No dia seguinte, precisei de conversar. A sério.
Disse-lhes que não pedia muito: um quarto, uma cama, um espaço onde não fosse visita a atrapalhar-lhes a vida. Queria viver como pessoa, sem constrangimentos.

Lembrei que lhes dei o lar que nunca tive, à filha e ao genro, e que não foi para acabar a dormir entre o fogão e o frigorífico.

E, pela primeira vez, senti que me escutaram.
Não mudou tudo num dia. Houve silêncios, algum frio no ar. Mas devolveram-me o meu quarto. O catre desapareceu. Voltei a dormir numa cama de verdade. As minhas dores de costas acalmaram.

Aprendi uma lição.
Ajudar os filhos é amor.
Dar-se por inteiro, é anular-se.
Não se deve oferecer a vida toda, nem mesmo àqueles que mais amamos. Porque quem fica sem nada, rapidamente passa a ser o excedente.
E tu, diário, o que pensas? Deve um pai ou mãe sacrificar tudo pelos filhos, ou há um limite para onde começa a perder-se a própria dignidade?

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Dei o meu apartamento à minha filha e ao genro. Agora durmo num catre na cozinha: como me tornei uma estranha na própria casa, depois de uma vida inteira dedicada à família.
И кучето няма да яде твоите кюфтета,” се засмя съпругът ми, докато изхвърляше храната. Сега той яде в приют за бездомни, който аз спонсорирам.