Ana corria para casa. Já era quase dez da noite e ela mal podia esperar para chegar ao apartamento, jantar e se jogar na camaMas, ao abrir a porta, encontrou uma surpresa inesperada que mudaria sua noite.

Inês corria para casa. O relógio marcava quase dez da noite e ela sentia o impulso urgente de chegar ao apartamento, jantar algo quente e despencar na cama. O dia tinha sido exaustivo. O marido já estava em casa, o jantar pronto, o filho alimentado.

Inês trabalhava numa pequena cabeleireira no Bairro da Graça e hoje era a que ficava de plantão. Ao fechar as portas, limpou a sua cadeira, ativou o alarme e trancou a porta então, ficou um instante ali, como que presa num quadro.

O caminho passava por uma praça diminuta, um recanto onde de dia sentavamse as senhoras da associação de bairro e à noite, embora vazia, as lâmpadas lançavam luz dourada, afastando qualquer sombra.

Mas nesta noite, um dos bancos não estava deserto. Dois pequeninos estavam abraçados: um menino de nove ou dez anos, chamado Tiago, e uma menina que parecia ter no máximo cinco, chamada Violeta. Inês diminuiu o passo e aproximouse.

O que fazem aqui sozinhos, tão tarde? Vamos para casa!

Tiago fitoua, acariciou a cabeça de Violeta e a envolveu ainda mais forte.

Não temos para onde ir. O padrasto expulsounos.

E a mãe?

Está com ele. Bêbada.

Inês não hesitou.

Levemse, venham comigo. Amanhã resolvemos tudo.

As crianças ergueramse lentamente. Inês segurou a mão de Violeta e, com outra mão, ofereceulhe o braço ao Tiago. Levouos até o seu apartamento, explicou tudo ao marido e ao filho de doze anos, João, que, conhecendo o coração generoso da mãe, não fez perguntas; apontoulhe o banheiro, sentouos à mesa. Os pequenos, famintos, comeram tudo o que lhe foi oferecido, timidamente porém com apetite.

Depois, Inês bateu à porta da vizinha, dona Marta, cuja filha frequentava a primeira classe. Pediu um agasalho para Violeta. As famílias da rua tinham sempre alguma roupa guardada depois dos filhos, e logo a pilha de peças cresceu.

Inês deu um banho quente à menina, vestiua com roupa limpa. Tiago se lavou sozinho e encontrou também uma muda de roupas entre os pertences antigos do filho de Marta. Deitaramse juntos no sofá da sala; Violeta não saía do lado do irmão, e ele mantinhaa sempre nos braços.

Alimentados e cansados, as crianças adormeceram rapidamente na cama recémarrumada. Inês mandou João para o quarto e, ela e o marido, ficaram longamente a sussurrar na cozinha, tentando imaginar o que fazer a seguir.

Na manhã seguinte, levantouse cedo, acompanhou o marido ao trabalho e ainda tinha a sua segunda ronda. As crianças despertaram, comeram, recolheram as roupas lavadas e secas numa sacola e seguiramse a caminho de casa.

Acompanharama até um prédio que ficava ao virar da esquina. O apartamento no terceiro andar estava entreaberto. As crianças entraram e ficaram paradas no corredor, como estátuas de cera.

Inês parou ao lado delas. Sentiu uma vontade imensa de olhar nos olhos da mulher que ali vivia e perguntar-lhe o que pensava durante a noite inteira, enquanto os filhos ficavam à porta, perdidos no silêncio.

Do quarto saiu uma mulher jovem, porém extremamente emagrecida, com um grande sinal de nascença sob o olho esquerdo. Olhouos indiferente e disse: Ah Chegaram E quem é esta?

É a tia Inês. Dormimos aqui explicou Tiago.

Ah Está bem murmurou a mulher, como se nada tivesse mudado, e voltou ao seu quarto. Inês ficou perplexa. Era a mãe deles?

De repente, a mulher voltou e dirigiuse a Inês: Venha para a cozinha, vamos conversar.

Inês seguiua. Para surpresa, embora a casa fosse modesta, tudo reluzia de limpeza. A louça brilhava, o chão estava reluzente, as roupas alinhadas nos armários. Até o seu avental, velho e com botões faltando, estava impecável. Sentese, ordenou a mulher, apontando para uma cadeira.

Inês sentouse. A mulher sentouse à frente, fitoua com o olho levemente inibido e perguntou: Tem filhos?

Sim, um filho, tem doze anos respondeu Inês.

Ouça Se algo acontecer comigo, não abandone os meus filhos, tá bem? Eles não têm culpa de nada.

Você pretende deixálos? a surpresa tremulou na voz de Inês.

Não suporto mais. Tentei parar inúmeras vezes Mas não consigo. E ele apontouse para o quarto de onde vinha um ronco pesado. Fui à polícia. Ele fica alguns dias, depois volta e bate ainda pior. Não suporto mais beber; bebo todos os dias. Ele joga as crianças na porta; não são seus.

Onde está o pai?

Afundou no rio quando Violeta tinha um ano. Desde então, vivo só.

Não trabalha?

Lavava o chão num supermercado. Fui despedida na semana passada por faltas frequentes.

E aquele homem?

Faz bicos quando pode. Assim sobrevivemos

Ficou um longo silêncio, então a mulher voltou a falar: Se algo acontecer, por favor, não os deixe. Você tem um coração bom. Se não puder ficar, leveos ao abrigo, combinado?

Inês levantouse. A sua mente recusavase a aceitar aquilo. Tudo parecia um sonho estranho, envolto em névoa. As crianças saíram para despedirse, abraçarama com força, e as lágrimas brotaram nos olhos de Inês. Secouas rapidamente com a manga e disse a Tiago que sabia onde a mãe estava.

Saiu de casa e, na rua, as lágrimas desceram como granizo, fazendo os transeuntes virarse para olhar. Naquela mesma noite contou tudo ao marido. Ele não fez perguntas, apenas assegurou que, de qualquer forma, não deixariam as crianças. João, ao ouvir a conversa dos pais, aproximouse e abraçouos a ambos. Assim ficaram na cozinha, em silêncio, abraçados.

Três dias depois, Tiago chegou apressado, assustado, e contou que a mãe desaparecera e o padrasto fora detido pela polícia. Violeta estava na casa da vizinha, mas naquele mesmo dia seria levada ao abrigo. Falou rápido e correu de volta para a irmã. Na mesma tarde, as crianças foram realmente encaminhadas ao centro de acolhimento.

No dia seguinte, encontraram a mãe das crianças no Tejo, vítima de morte violenta. Talvez soubesse o seu fim e, por isso, tivesse implorado a Inês por ajuda.

Inês e o marido começaram a percorrer os serviços sociais para obter a tutela das crianças. Não foram encontrados parentes para Tiago e Violeta; após longas averiguações e graças ao relato de Inês da conversa com a mãe, concederamlhe a guarda.

Inês deixou o salão de cabeleireiro. Violeta ficou extremamente assustada, confiando apenas no irmão e permanecendo ao seu lado o tempo todo. Até quando uma colher caía da mesa, ela olhava para o marido de Inês com medo, como se aguardasse punição.

Foi preciso muito esforço para ganhar a confiança dela. Tiago, mais velho, percebeu rápido que naquela família não haveria dor nem medo.

Com o tempo, a menina começou a abrirse. Aproximouse de Inês, brincou com João, sorriu e conversou, ainda que ainda guardasse um resquício de receio pelos homens de casa. O medo dos homens era profundo, enraizado.

Mas o marido de Inês tratavaa com ternura e cautela. Sempre sonhara ter uma filha, mas a saúde de Inês impedia novas gestações. Então chegou o dia em que, ao regressar de uma viagem de três dias, ele encontrou Inês e Violeta na porta. Aproximouse, estendeu as mãos para a menina.

Violeta, delicada, abraçouo pelo pescoço. Ele a ergueu nos braços e ambos adentraram a cozinha. Ao ver Violeta sorrir, chegaramse os filhos, depois Inês. Todos se abraçaram, permaneceram ali, quietos, mas com o calor a pulsar nos corações.

Naquela casa, finalmente, tudo ficará bem.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

2 × two =

Ana corria para casa. Já era quase dez da noite e ela mal podia esperar para chegar ao apartamento, jantar e se jogar na camaMas, ao abrir a porta, encontrou uma surpresa inesperada que mudaria sua noite.
ПЕТ НЕОБХОДИМИ СТЪПКИ ЗА УТРЕ