Lisboa, a cidade que conhece o seu juiz
Em Lisboa, no coração da capital, todos conhecem a bancada judicial do juiz Francisco Costa. É o local onde as pessoas sorriem, choram e depositam a sua confiança na justiça. Numa segundafeira, entra na sala de audiências uma jovem mulher acompanhada do seu labrador dourado com uma colete azul. Chamase Lurdes Almeida e segura na mão uma bengala branca. É totalmente cega.
Em frente ao juiz repousam seis multas de estacionamento. Todas datam da semana passada por estacionamento em lugares reservados a pessoas com mobilidade reduzida. Lurdes explica calmamente: «Nunca conduzi um carro. A polícia viume sair de um serviço de ridesharing com o meu cãoguia e presumiu que eu fosse a motorista». O juiz Costa franze a testa. «Quer dizer que uma mulher cega, acompanhada do seu cãoguia, recebeu multa por estacionar?»
Lurdes concorda com a cabeça. «Um policial disse que eu me movia com demasiada confiança para ser cega, que o meu cão era apenas um adereço». A sala fica em silêncio. O juiz convoca imediatamente o representante da Comissão para as Pessoas com Deficiência Visual, que confirma que Lurdes é cega desde o nascimento e que o seu cão, Toby, está certificado como cãoguia.
A pedido do juiz, Lurdes demonstra como Toby a auxilia. «Toby, acha a porta», ordena. O cão guiaa com segurança até a saída e depois devolvea ao juiz. A plateia aplaude. «Ele são os meus olhos», declara.
O juiz chama o policial João Martins, que havia emitido três das multas. «Não me pareceu cega», afirma. «Não usava óculos escuros, levava um telemóvel». O juiz responde: «Quando alguém lhe diz que tem uma incapacidade, não lhe cabe decidir se parece «suficientemente incapacitado». Isso é preconceito».
Seguese uma investigação: no último ano, foram emitidas 247 multas a pessoas com deficiência em Lisboa, das quais 89 a cegos. O juiz Costa determina: «Hoje isto termina».
Todas as seis multas são anuladas. A câmara municipal de Lisboa pede desculpas publicamente a Lurdes. O policial Martins tem de frequentar um curso de sensibilização para deficiências e enviar uma carta de desculpas pessoal. «Não preciso de compaixão», afirma Lurdes. «Preciso de compreensão».
O seu caso impulsiona uma reforma: nenhuma multa pode ser aplicada a quem não apresente licença de condução, formação obrigatória sobre deficiências para agentes da polícia e um novo procedimento de recurso. Seis meses depois, o número de multas injustas cai 94%.
Os meios de comunicação dão destaque ao «cão que mudou a câmara». Toby recebe o prémio Service Dog Excellence Award e Lurdes cria a ONG Visão Sem Estereótipos, que forma policiais e sensibiliza a população.
Num TED Talk, Lurdes pronuncia uma frase que fica gravada:
«Se me viram a caminhar confiante e pensaram que não podia ser cega, não é a minha limitação é a vossa.»
Hoje, na secretária do juiz Costa, está emoldurada a cópia de uma das suas multas, com a inscrição:
«Anulado porque o preconceito é mais obstáculo que a própria deficiência.»
Lurdes continua a viver em Lisboa, casada com o seu fiel Toby. Quando a reconhecem na rua, sorri e diz:
«O mundo não precisava que eu visse. Precisava apenas de abrir os olhos».






