Para evitar a vergonha, ela aceitou viver com um homem corcunda… Mas quando ele sussurrou seu pedi…

Para evitar a vergonha, ela aceitou viver com um homem corcunda Mas quando ele lhe murmurou um pedido ao ouvido, ela ficou sem chão

Zé, és tu, meu filho?

Sou, mãe. Desculpa chegar tão tarde…

A voz da mãe, trémula de preocupação e cansaço, vinha do corredor escuro. Ela estava de bata velha, com uma lanterna na mão como se o esperasse desde sempre.

Zéquinha, meu coração, onde andaste até tão tarde? Já é noite cerrada, as estrelas brilham como olhos de gatos no beco

Mãe, estive com o Rodrigo a estudar. Os TPC, a preparação Perdi a noção das horas. Desculpa não ter avisado. Sei que andas cheia de insónias.

Ou será que foste ter com uma rapariga? apertou o olhar, desconfiada. Não andas apaixonado, pois não?

Ó mãe, que disparate! riu-se o Zé, tirando os sapatos. Eu não sou desses rapazes que as raparigas esperam à porta. Quem é que há-de querer um corcunda, de braços compridos e com a cabeça desgrenhada como um ninho de andorinhas?

Mas nos olhos da mãe passou uma dor. Ela nunca lhe dissera que via nele, não uma desgraça, mas o filho criado na pobreza, no frio e na solidão.

O Zé, de facto, estava longe de ser bonito. Mal atingia um metro e sessenta, sempre encurvado, os braços compridos quase a chegar aos joelhos. A cabeça grande, de cabelos encaracolados, qual dente-de-leão. Em miúdo, chamavam-lhe macaco, duende do bosque, coisa da natureza. Mas ele cresceu e tornou-se muito mais do que apenas um homem.

Viveram só os dois ele e a mãe, Dona Olívia, desde que chegaram daquele bairro pobre do Porto, quando o Zé tinha dez anos. Fugiram da cidade da vergonha e da miséria: o pai preso, a mãe abandonada. Eram só os dois, contra o mundo.

Esse Zé não dura, murmurava Dona Amália, a vizinha, olhando o rapaz franzino. Desaparece e ninguém se lembra

Mas o Zé ficou. Agarrou-se à vida como um sobreiro à rocha. Foi crescendo, sobrevivendo, trabalhando. E Dona Olívia mulher de coração de ferro e mãos marcadas pelas padarias do bairro fazia pão para toda a aldeia. Dez horas por dia, ano após ano, até que a capacidade física já não aguentava.

Quando ela deixou de se conseguir levantar, o Zé foi filho, filha, enfermeiro e cuidador. Limpava a casa, fazia a sopa, lia revistas antigas em voz alta. E quando ela partiu como o vento que se vai do campo ele ficou de punhos cerrados, calado. Já não lhe restavam lágrimas.

Mas as pessoas da aldeia não esqueceram. Os vizinhos trouxeram comida, deram roupa quente. E, inesperadamente, começaram a aparecer lá em casa.

Primeiro foram os rapazes, fascinados por rádios e aparelhos. O Zé trabalhava no posto de rádio da vila arranjava rádios, ajustava antenas, soldava fios. Uma habilidade de mãos douradas, embora desajeitadas.

Depois vieram as raparigas. Ao início, só para conversar, tomar chá com compota. Depois começaram a ficar mais tempo, a sorrir, a conversar mais.

Até que ele reparou: havia uma que nunca era a primeira a sair Madalena.

Não tens pressa? perguntou-lhe, já depois de todos se irem embora.

Não tenho para onde ir, respondeu ela, de olhos no chão. A madrasta não me pode ver em casa. Os três irmãos são brutos e maus. O meu pai bebe, e para eles eu sou um estorvo. Fico em casa de amigas, mas não posso ficar para sempre Aqui é calmo. Sinto-me em paz. Sinto que não estou sozinha.

O Zé olhou para ela e pela primeira vez sentiu que podia ser necessário a alguém.

Fica cá, disse apenas. O quarto da mãe está vazio. Podes tomar conta da casa. Eu não te peço nada. Nem palavras, nem olhares. Só fica.

As más-línguas não tardaram. Falava-se baixinho:

Já viste? A bela rapariga com o corcunda? Que graça

O tempo passou. Madalena arrumava a casa, fazia sopa, sorria. O Zé trabalhava, calado, cuidando dela.

Um dia, ela teve um filho, e o mundo virou do avesso.

A quem saiu o miúdo? perguntavam na aldeia. Com quem se parece?

E o menino, o Henrique, olhava para o Zé e dizia: Papai!

E o Zé, que nunca imaginou ser pai, sentiu algo a nascer-lhe no peito como um pequeno sol.

Ensinou o Henrique a arranjar tomadas, a pescar no rio, a soletrar palavras. Madalena, vendo-os, dizia:

Deviam casar-te, Zé. Não és feito para a solidão.

És como uma irmã para mim respondia ele. Primeiro hás de ter a tua felicidade, com um homem bom. Depois logo se vê

Esse homem apareceu. Um rapaz novo, de uma aldeia vizinha. Trabalhador, honesto.

Fizeram o casamento. Madalena partiu.

Até que um dia, na estrada, o Zé encontrou-a:

Pedi-te um favor… Deixa o Henrique comigo.

O quê? estranhou ela. Para quê?…

Eu sei, Madalena. Quando se é mãe tudo muda. Mas o Henrique… não é teu de sangue. Vais esquecê-lo. Quanto a mim eu não consigo.

Não te vou dar o meu filho!

Não te peço que o tires de ti respondeu o Zé em voz baixa. Vem visitá-lo quando quiseres. Só deixa-o morar aqui.

Madalena hesitou. Chamou o filho:

Henrique! Vem cá! Com quem queres viver comigo ou com o pai?

O menino correu, de olhos a brilhar:

Não pode ser como antes? Os dois juntos?

Não, meu amor suspirou Madalena.

Então fico com o papá! gritou Henrique. Mas tu, mãe, vem visitar sempre!

Foi assim que ficou.

Henrique ficou. E o Zé, pela primeira vez, foi realmente pai.

Até que, um dia, Madalena voltou:

Vamos para Lisboa. Vou levar o Henrique.

O miúdo chorou, abraçado ao Zé:

Não vou! Só fico com o papá!

Zé murmurou Madalena, de olhos no chão. Ele não é teu

Eu sei, respondeu o Zé. Sempre soube.

Vou sempre fugir para aqui! gritava Henrique, já sem lágrimas.

Fugiu, sim. Uma, outra vez.

Levaram-no mas ele voltava.

No fim, Madalena desistiu.

Que seja disse. Ele fez a sua escolha.

Uma nova história começou.

A vizinha Mariana perdeu o marido um bêbado, violento, mau. Não tiveram filhos talvez porque não havia amor naquela casa.

O Zé começou a ir buscar leite. Depois, consertava o portão, tapava buracos no telhado. Finalmente, ia só para conversar, tomar chá.

A amizade cresceu. Devagar. Com cautela. De pessoas maduras.

Madalena escrevia cartas. Contava que Henrique já tinha uma irmãzinha Filipa.

Traz a menina, escreveu o Zé. Família é para estar junta.

Um ano depois, chegaram.

Henrique não largava a irmã. Pegava-lhe ao colo, cantava-lhe, ensinava-a a andar.

Filho, pedia Madalena. Vem viver connosco. Na cidade há escola, teatro, futuro

Não, abanava a cabeça, Henrique. Não largo o papá. E já tenho a Mariana por mãe.

Depois, veio a escola.

Quando os colegas se gabavam de pais camionistas, engenheiros, militares, Henrique nunca se envergonhou.

O meu pai? dizia cheio de orgulho. Ele arranja tudo, percebe do mundo. Salvou-me a vida. O meu pai é um herói.

Os anos passaram.

Numa noite de inverno, Mariana e o Zé estavam junto à lareira com Henrique.

Vamos ter um bebé anunciou Mariana. Um mesmo pequenino.

E e não me mandam embora? sussurrou Henrique.

Estás louco? exclamou Mariana, abraçando-o. Tu és como um filho para mim. Sempre sonhei ter alguém como tu!

Meu rapaz, disse o Zé ao lume. Como foste pensar nisso? Tu és o meu mundo.

Meses depois, nasceu o Manel.

Henrique pegava-lhe como se fosse a coisa mais preciosa do universo.

Agora tenho uma irmã, sussurrava. E um irmão. E o papá. E a Mariana.

Madalena insistia, mas Henrique respondia sempre:

Já cheguei a casa. Estou onde pertenço.

Foram passando os anos. O povo deixou de comentar que Henrique não era do sangue deles. Já ninguém cochichava.

Quando Henrique, homem feito, foi ele mesmo pai, contava aos filhos e netos a história do melhor pai do mundo:

Nunca foi um galã, dizia. Mas tinha mais amor do que toda a gente que conheci.

E em cada aniversário, a família juntava-se toda: filhos de Mariana, filhos de Madalena, netos, bisnetos.

Bebiam chá, riam, lembravam.

O nosso pai foi o melhor! diziam, erguendo as chávenas. Que haja mais pais assim!

E, sempre, alguém apontava o dedo ao céu às estrelas, à memória de quem, contra todas as dificuldades, soube ser verdadeiramente pai.

O único.

Porque família não é o sangue é o amor com que cuidamos uns dos outros.

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Моята свекърва дойде на новодомското ни парти – а аз я изгоних!