O Rapaz Que Nunca Deixou de Visitar a Mãe: Uma História Real de Amor, Perda e Esperança à Portuguesa

O Rapaz que Sempre Visitava a Mãe. Uma história estranha, sussurrada entre véus de sonho.

Quando Martim perdeu a mãe, tinha dez anos e Lisboa parecia mais enevoada do que nunca. A sua mãe fora, desde sempre, a sua companheira de conversa: mal o rapaz fechava a porta do apartamento rosa nas Avenidas Novas, as histórias jorravam como rios antigos, cruzando tardes de odores a chá e pão quente. Os baixos e altos da escola as notas, os ralhetes dos professores, os desentendimentos nas recreações tudo cabia no peito largo e doce da mãe, a dona Margarida. Com uma voz feita de mar e linho, ela sempre sabia o segredo certo para lhe aquietar a alma.

Mas nas últimas luas, Margarida definhara como as flores que se esquecem na prateleira, a doença roubando-lhe as cores. Em poucos meses, evaporou-se do mundo dos vivos, deixando Martim num desassossego de tanto vazio. O pai, João Pires, era mais ausência do que presença: trabalhava noites e dias para que houvesse sempre bacalhau e arroz sobre a mesa, mas a solidão colava-se aos ossos do rapaz como o frio do Tejo.

As semanas escorreram apáticas após o funeral. Um certo dia, o pai, com passos expectantes, voltou mais cedo, sonhando com tardes a dois. Encontrou sombras e silêncios. Martim não estava em lado nenhum. Vasculhou cada canto da casa, espreitou corredores como quem procura o passado. Saiu para a rua, onde os plátanos abanavam as folhas e duas vizinhas, sentadas no banco de azulejos, a ver o mundo passar, lhe disseram:

Boa tarde, senhor João. O Martim não está em casa? Olhe que ele, últimamente, chega da escola, fica pouco, depois sai logo. Só regressa quando a noite já assoma. Sempre sozinho.

Obrigado, minhas senhoras murmurou João, afogado em culpabilidade, remexendo nas moedas de euro no bolso. O peso dos salários, o medo de não conseguir ser pai e mãe. A angústia do desconhecido.

Caminhou, sem destino, pelas ruas onde as sombras escorriam das fachadas. Receava que Martim se deixasse engolir pelos perigos do bairro, que a tristeza o levasse para sítios de onde não se volta. Junto à mercearia do senhor Jorge, sob o barulho de papoilas no ar, uma voz clara rompeu o nevoeiro:

Olá, senhor João!

Olá, Leonor! Como estás? Viste por acaso o Martim?

Sim, senhor. Sei onde ele está Conta a miúda, com olhos de vidro puro. Um destes dias vi-o sozinho no recreio, chorava baixinho, sentado à beira do campo de futebol Disse-me que, agora, todos os dias depois das aulas vai ao cemitério, senta-se ao lado da sepultura da mãe, faz os trabalhos de casa ali. Diz que sem ela, a casa é só paredes e vento.

O senhor João engoliu as palavras, e as lágrimas saltaram, indisciplinadas, para os olhos. Ao som do adeus de Leonor, subiu lentamente a colina até o cemitério. Dez minutos bastaram: o rumor dos passos, a porta de ferro, o ar saturado de jasmim, como numa missa antiga.

Lá, recostado num banco de pedra, entre túmulos antigos cobertos de musgos, viu Martim, encostado ao jazigo da mãe, a murmurar para o mármore:

Hoje tirei um sete a ciências, mãe Podia ter sido mais, mas ontem só pensava em ti. Aqueles rapazes do oitavo riram-se de mim, disseram que sou fraco por não querer jogar futebol com eles. Se estivesses aqui, saberias o que dizer Sinto tanto a tua falta. Porquê tu, mãe? Porquê eu? Todos os outros têm mãe

As palavras diluíram-se em pranto. O pai aproximou-se, silencioso, e apertou o filho num abraço longo, em que ambos choraram como crianças perdidas no nevoeiro.

Eu sei, Martim. Também sinto a tua mãe todos os dias. A vida parece injusta, mas ainda nos temos um ao outro.

Com o tempo, pai e filho começaram a costurar de novo o quotidiano: menos horas extra, menos euros, mais cafés de tarde, idas à praia, tardes de gelado e gargalhadas no Teatro Nacional D. Maria II. Muitos dias findavam no cemitério, levando um ramo de margaridas à mãe. Gradualmente, a tristeza recuou, como a maré a devolver a areia.

Na embriaguez do sonho, descobriam ambos que o amor que restava, mesmo tingido de saudade, era ponte e farol. O cemitério deixou de ser só memória: tornou-se jardim suspenso, onde cresciam novas lembranças, tão surreais quanto doces.

A verdade ecoava, entre sombras e alvoradas por Alfama: a dor nunca desaparece, mas o abraço, a cumplicidade nas pequenas rotinas, a partilha do silêncio e da ternura tudo tece esperança. A vida empurra para diante, ainda que de olhos marejados, mas oferece-nos a dádiva rara de encontrar consolo nas mãos de quem ficou e de edificarmos, juntos, memórias novas, eternas à sua maneira, como o odor do mar que nunca parte de Lisboa.

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