Boa mulher.
Boa mulher, sabes? O que seria de nós sem ela?
E tu só lhe dás mil e setecentos euros por mês, António.
Ó Rosa, a casa está em nome dela, não está?
António levanta-se da cama e caminha devagar até à outra divisão. À luz suave do candeeiro de mesa-de-cabeceira, deita um olhar cansado à sua mulher.
Ajoelha-se junto dela, escuta o ritmo da respiração. Parece que está tudo bem.
Levanta-se e, apoiando-se ao móvel, vai até à cozinha. Abre um iogurte líquido, depois passa pela casa de banho. Volta para o seu quarto.
Deita-se. Não consegue dormir.
Eu e a Rosa, já com noventa anos Quanto tempo de vida? Não tarda vamos ter de prestar contas lá em cima, e ninguém por perto.
As filhas, a Manuela partiu cedo, nem aos sessenta chegou.
O Rui também já não está cá. Sempre foi um descontraído Só a neta, Mariana, está, mas já vive em França há vinte anos. Nem se lembra dos avós. Já deverá ter filhos crescidos pela certa…
Adormece sem dar por isso.
Acorda com um toque de mão:
António, tudo bem? sussurra uma voz fraca.
Abre os olhos. A mulher inclina-se sobre ele.
Rosa?
Estava a ver se te mexias Parecias tão quieto!
Ainda cá estou! Dorme, mulher!
Ouve-se o arrastar de chinelos. Um clique do interruptor na cozinha.
Rosa Maria bebe um pouco de água, vai à casa de banho e segue para o seu quarto. Deita-se:
Um dia acordo e ele já cá não está. O que faço eu? Ou talvez seja eu a primeira…
O António até já tratou dos nossos funerais. Nunca pensei que fosse possível preparar tal coisa com antecedência Por outro lado, ainda bem. Quem trataria disso por nós?
A neta esqueceu-se de nós. Só a vizinha Inês entra cá. Tem a chave de casa. O avô dá-lhe sempre cem euros da pensão. Ela faz-nos as compras, trata do que precisamos. Para quê guardar dinheiro? Nem do quarto andar já podemos descer.
António abre os olhos. O sol espreita pela janela. Vai até à varanda e vê a copa verde do jacarandá. Um sorriso surge-lhe no rosto:
Olha, sobrevivemos até ao verão!
Vai ver a mulher. Ela está sentada na cama, pensativa.
Rosita, já chega de estar assim Vem cá, quero mostrar-te uma coisa.
Ai, não tenho forças queixa-se ela, levantando-se devagar. O que inventaste desta vez?
Vem, anda lá comigo!
Ampara-a até à varanda.
Olha, o jacarandá já está todo verde! E tu a dizeres que não víamos mais um verão. Vês, cá estamos!
É verdade e o sol está tão bom.
Sentam-se num banco de varanda.
Lembras-te quando te convidei para ir ao cinema comigo, ainda na escola? Naquele dia também o jacarandá estava assim verdinho.
Nunca se esquece, pois não? Já lá vão quantos anos?
Mais de setenta Setenta e cinco.
Ficam ali sentados, a recordar a juventude. Há tanta coisa que se esquece com a idade, até o que fizemos ontem, mas nunca os tempos da juventude.
Ai, já estamos aqui há uma eternidade! a mulher levanta-se devagar. Ainda nem tomámos o pequeno-almoço!
Rosa, faz aquele teu chá bom! Já estou farto desta água aromática.
Não podemos
Pelo menos fraco, e adoça com uma colherzinha de açúcar.
António bebe o chá fraco, molhando nele um pequeno pão com queijo, e recorda quando, em novo, o pequeno-almoço era chá forte e doce, acompanhado de broas ou panquecas.
Entra a vizinha. Sorri-lhes, calorosamente:
Então, como vai isso por aqui?
Como querem que vá com dois velhotes de noventa? responde António, brincando.
Se ainda brincas é porque tudo está bem. O que precisam hoje?
Inês, traz-nos carne, pode ser? pede o velho.
O médico disse que não podiam
Frango pode.
Está bem, compro. Faço-vos uma canja!
A vizinha arruma a loiça da mesa, lava tudo e sai.
Rosa, vamos apanhar sol na varanda? propõe António. Sempre aquece os ossos.
Vamos, sim!
Inês, a vizinha, regressa e entra pela varanda:
Já tinham saudades do sol, ao que vejo!
Aqui é que se está bem, Inês! sorri Rosa Maria.
Vou trazer já o vosso creme de arroz. Depois trato da sopa para o almoço.
Boa mulher diz-lhe António, olhando-a ao longe. O que fazíamos nós sem ela?
E tu só lhe dás mil e setecentos euros por mês.
Rosa, a casa está em nome dela, sabias?
Mas ela nem sabe disso.
Ficam na varanda até ao almoço. Almoçam canja de galinha, com pedaços de legumes e batata desfeita.
Fazia sempre assim para a Manuela e o Rui, quando eram pequenos recorda Rosa Maria.
E agora, velhos, temos estranhos a cozinhar para nós suspira António.
Se calhar, António, esse era o nosso destino. Quando formos, vai tudo voltar ao mesmo, ninguém vai dar por isso.
Chega, Rosa. Vamos descansar um bocadinho!
António, bem dizem: Velhos e meninos, todos iguais. Temos a sopa, o soninho depois do almoço e até o lanche.
António dormita um pouco, mas não pega no sono. O tempo está estranho Vai à cozinha. Sobre a mesa, dois copos de sumo preparados pela Inês.
Agarra neles com cuidado e leva-os à mulher, que está sentada na cama, olhando pela janela.
O que tens, Rosita? sorri ele. Bebe um pouco de sumo!
Ela prova.
Também não dormes, pois não?
Deve ser do tempo.
Desde manhã, sinto-me assim pressinto pouco me resta. Vê lá enterra-me como deve ser, António.
Rosa, que disparate! Como vou eu viver sem ti?
Alguém tem de ir primeiro.
Pronto, chega disso! Vamos apanhar ar na varanda!
Ficam ali até ao entardecer. Inês traz-lhes queijo fresco. Jantam e sentam-se a ver televisão. Sempre o faziam antes de dormir. Os filmes novos já não os seguem bem, por isso preferem os velhos programas de humor ou desenhos animados.
Hoje só viram um desenho animado. Rosa Maria levanta-se:
Vou deitar-me. Estou cansada.
Eu também vou.
Deixa-me olhar bem para ti! pede ela de repente.
Para quê?
Só quero olhar.
Ficam ali os dois, lembrando-se dos dias em que tudo estava por acontecer.
Anda, levo-te até à tua cama.
Rosa Maria apanha no braço do marido e lá vão, devagar.
Ele cobre-a com o lençol e volta ao seu quarto.
Sente um peso no peito como há muito não sentia. Não consegue adormecer.
Acha que nem dormiu, mas o relógio já marca duas da manhã. Levanta-se e vai ao quarto da mulher.
Ela está de olhos abertos.
Rosa!
Agarra-lhe a mão.
Rosa, ouves-me? Rosa!
De repente, sente-se ele próprio aflito, sem ar. Vai ao seu quarto buscar os papéis preparados, deixa-os na mesa.
Volta ao lado da mulher. Olha-a demoradamente. Depois, deita-se ao pé dela e fecha os olhos.
Vê a sua Rosa, jovem e bonita, como há setenta e cinco anos. Ela caminha em direção a uma luz distante. Ele corre atrás dela, dá-lhe a mão.
De manhã, Inês entra no quarto. Estão juntos, lado a lado. Sorridentes, finalmente em paz.
Inês pega imediatamente no telefone e chama o INEM.
O médico examina-os, surpreendido:
Foram juntos Devem ter-se amado mesmo muito
Levam-nos dali. Inês senta-se cansada à mesa e repara então nos papéis e no testamento em seu nome.
Baixa a cabeça sobre os braços e chora
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