Quando regressei a casa, reparei logo que a porta estava entreaberta. O primeiro pensamento que me ocorreu foi que alguém tinha entrado na minha casa. “Se calhar acharam que eu guardava aqui algum dinheiro ou objetos de valor”, pensei.
O meu nome é Amélia Fonseca e tenho sessenta e dois anos. Já faz cinco anos que vivo sozinha. O meu marido faleceu e os filhos, já crescidos, têm as suas próprias famílias e moram longe. Enquanto o frio não aperta, costumo ficar na minha casa de campo nos arredores de Coimbra. Quando chega o inverno, volto para o apartamento de dois quartos que tenho na cidade. Mas assim que chega a primavera e o tempo melhora, volto logo para o meu refúgio no campo.
Adoro a vida tranquila do campo. Recupero forças a respirar o ar puro, trato com gosto do meu jardim e do pequeno pomar. Não muito longe daqui há também um pinhal onde, no verão, se apanham cogumelos e amoras.
Aconteceu que tive de ir a Lisboa durante uma semana, a tratar de uns assuntos. Quando regressei, encontrei a porta da casa aberta. Imediatamente pensei que alguém tinha assaltado a casa. “Queriam encontrar dinheiro ou jóias”, pensei para comigo. Mas não havia sinais de arrombamento, e tudo estava no lugar certo. Só o que vi de estranho foi um prato em cima da mesa e eu nunca deixo loiça fora do lugar quando saio de casa, ainda para mais sabendo que só voltaria passados tantos dias.
Percebi então que alguém tinha estado a viver aqui durante a minha ausência. Isso deixou-me aborrecido. Quando entrei na sala, deparei-me com um rapazinho a dormir profundamente no meu sofá. Tudo fez sentido naquele instante.
O rapaz acordou, olhou para mim com ar ensonado, e nem sequer tentou fugir. Sentou-se e disse-me:
Peço desculpa por ter entrado assim sem pedir licença.
Vi logo que era um miúdo educado e tímido. De certa forma, despertou-me pena.
Há quanto tempo estás aqui em minha casa? perguntei.
Dois dias.
Tens fome? O que tens comido?
Trouxe uns pastéis. Ainda tenho um pouco, se quiser provar.
Estendeu-me um saco com os restos dos pastéis, que já estavam duros.
Como te chamas?
Vasco.
Eu sou Amélia Fonseca! Por que estás sozinho? Perderam-se de ti? Onde estão os teus pais?
A minha mãe deixava-me muitas vezes sozinho. Quando voltava a casa, vinha sempre maldisposta e descarregava em mim. Dizia-me que eu era um peso na vida dela e que, se não fosse por minha causa, era uma mulher feliz. Dois dias antes, voltou a gritar comigo e eu não aguentei mais, fugi de casa.
Se calhar ela anda à tua procura
Tenho a certeza que não. Já fugi outras vezes e, por vezes, estive dias sem aparecer e ela nem reparava na minha ausência. Sente-se mais leve sem mim. Quando voltava, nunca vi sinais de alegria ao regressar.
Vasco vivia com a mãe, uma mulher que, em vez de se preocupar com o filho, andava mais ocupada a sair com os seus namorados do que com outra coisa. Às vezes vivia na casa de conhecidos e o rapaz tinha de se desenrascar sozinho.
Tive pena do rapaz, mas sentia-me de mãos atadas. Já estou reformada, e nenhum serviço social me deixaria ficar com ele legalmente. Para ir para uma instituição, ele não queria sequer ouvir falar. Dei-lhe de comer e autorizei-o a pernoitar mais uma noite, porque aqui sempre era mais seguro do que com aquela mãe.
Não dormi nada durante a noite a pensar no destino daquele miúdo. Lembrei-me então de uma grande amiga minha, a Dona Teresa Souto, que trabalha na Segurança Social. No dia seguinte, telefonei-lhe logo a pedir conselho.
A Dona Teresa aceitou ajudar, mas avisou-me que tinha de ter alguma paciência. Três semanas depois, consegui finalmente adotar legalmente o Vasco. O rapaz ficou radiante e agradecido. Quando a mãe soube que alguém estava disposto a tomar conta dele, não colocou entraves e assinou os papéis para abdicar dos direitos parentais.
Agora vivemos os dois. Vasco conta a toda a gente que eu sou a avó dele. E sinto-me verdadeiramente abençoada por a vida me ter dado um neto.
O rapaz é muito esperto e curioso. Este outono entrou para o primeiro ano. Fico com orgulho ao ouvir os bons comentários da professora. Vasco rapidamente aprendeu a ler e a fazer contas sem dificuldade.







