Ela enterrou o marido, aguentou sozinha, levantou a quinta e depois, a vizinha abriu a boca.
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Agora diga-me, Dona Leonor, voltei-me para ela, diga na frente de todos, por que é que inventou coisas sobre mim? O que é que eu lhe fiz de mal? Por que me fez isto? O que ouvi como resposta mudou tudo.
Ela enterrou o marido, aguentou sozinha, criou a quinta e depois a vizinha abriu a boca.
Um boato. Só um. E já a senhora do minimercado olha para mim com pena, a enfermeira do centro de saúde aperta-me a mão: Aguenta-te, Rita. Toda a gente à volta parece saber alguma coisa, menos tu e nem sei do que se trata.
A Rita podia ter ficado calada. Mas ela foi ao centro da aldeia e perguntou de frente:
Por que me fazem isto?
O que ela ouviu mudou tudo.
***
Nesse dia, a terra cheirava de maneira intensa, inquietante, como antes de uma grande desgraça, ou então antes de uma grande mudança.
Levantei-me ainda era noite, porque as vacas não esperam. Tanto lhes faz como tens o coração, se carregas um peso, se tens alegria. O leite vem à hora certa, experimenta não estar lá para ordenhar, experimenta atrasar-te.
Ainda estava tudo molhado do orvalho, gotas prateadas sobre a erva, e eu pensei: a terra lava-se de novo, todos os dias começa outra vez, como se o ontem já não existisse. Às pessoas não é dada essa sorte.
As pessoas arrastam tudo com elas, como um burro carrega uma carroça e a maior parte são mágoas, mágoas e palavras não perdoadas, olhares de lado.
Há já quatro anos que vivo em São Martinho sozinha, tirando os animais.
O meu marido, Aníbal, foi-se de repente ataque cardíaco apanhou-o no campo, ao virar o feno. Encontraram-no ao fim da tarde, o sol já a desaparecer, a expressão serena na cara, como quem adormece cansado.
Talvez assim tenha sido melhor, não sofreu, não viu a vida a sair-lhe aos poucos.
Depois do Aníbal fiquei sozinha com a quinta: vinte vacas de leite, bezerros, os campos e a horta. Na altura muita gente dizia-me: Vende isso tudo, Rita, vai morar para Lisboa com a tua filha, para quê ficar aqui a apodrecer? Mas eu não conseguia.
Não era só teimosia (embora seja teimosa). Era porque, aqui, o Aníbal ainda está em cada tábua, cada pedra, cada linha no terreno. Aqui ficou a nossa vida em comum, tantos anos juntos, como é que vou abandonar isto? E cá continuo.
Levanto-me às quatro, deito-me às dez, as costas doem, já nem sinto as mãos com tanta água fria mas estou viva. Viva e contente por cada vitela que nasce, cada balde de leite, cada manhã a subir pela ribeira.
Sobre Dona Leonor, minha vizinha, não me apetecia pensar.
Vivia três casas abaixo, numa vivenda antiga, já do tempo da outra senhora, viúva havia muito, sempre a cuidar do filho, João. Ele já vai para os trinta todos na aldeia ainda o tratam por o João da Leonor.
Rapaz porreiro, trabalhador, mas com ar infeliz. Casou, mas a mulher aguentou pouco: Não resisto a esta vida no campo, Rita, fico doida. Foi-se embora, ele não insistiu.
Dona Leonor não sabia viver sem mexericos.
Desfolhava a vida de toda a freguesia, só descansava quando já tivesse falado de todos era assim que se sentia importante. Eu nunca liguei, problemas não me faltavam. Mas no último mês as coisas mudaram.
Começou por pouco. Fui comprar pão ao minimercado, e a Benedita, da caixa, olhou para mim como se eu já estivesse com um pé na cova.
Perguntei-lhe:
Oh Benedita, que foi esse olhar?
Nada, Dona Rita, nada, disse a fugir com os olhos.
Depois a enfermeira do centro de saúde, Ana Paula, apertou-me a mão e disse:
Aguente-se, Rita, estamos todos consigo.
Fiquei pasmada. Apoiar-me porquê? O que se passa?
Acontece que Dona Leonor tinha espalhado pela aldeia que eu andava a misturar água e cal ao leite, para fingir que era mais gordo.
E que o meu queijo, que vendo no mercado de Santarém, também era aldrabado, quase podre, com rótulos trocados.
De início achei que era só conversa de comadres, mas isto era sério. Não era só mentira era meter no lixo todo o trabalho de uma vida, com uma palavra má.
Passei uma semana sem dormir. Sempre a pensar: porquê? O que é que eu lhe fiz? Nunca discutimos muito, cumprimentávamo-nos, ela esteve no funeral do Aníbal, até chorou.
A certo ponto, a indignação invadiu-me. Daquela que nos dá força. Um dia, acordei e pensei: Não! Não me vão pisar por uma língua venenosa. Não trabalhei tantos anos em vão.
No sábado, houve reunião na freguesia para falar da estrada para o concelho. Meio mundo lá estava, quase toda a aldeia, e Dona Leonor logo na primeira fila, feita importante.
Quando já iam a acabar a ordem de trabalhos, levantei-me. As pernas tremiam, a voz rouca de nervosismo.
Gente boa disse eu, todos se viraram para mim deixem-me só dizer uma coisa.
O presidente da junta, o Sr. Manuel, assentiu. Comecei a falar baralhada, mas depois já mais firme. Contei o que andava a ouvir.
Isso são mentiras! O meu leite é analisado todas as semanas no laboratório do concelho, vejam os relatórios.
O meu queijo está à venda em três lojas, nunca houve uma reclamação!
Depois virei-me para a Leonor:
Agora diga aqui, Dona Leonor, na frente de todos: por que falou mal de mim? O que lhe fiz? O que lhe devo?
Ela ficou ali, a cara mudava de cor, vermelha, branca, manchada.
Eu eu só disse disseram-me balbuciou.
Quem lhe disse? Diga quem foi, diga o nome! não lhe dei tréguas.
Silêncio. Até se ouvia moscas nas janelas. Toda a gente a olhar para ela.
Pronto, pronto as pessoas falam
Estava perdida mas de repente explodiu:
Então, estão todos a olhar para mim?! Eu sou a culpada porque o marido dela morreu e ela anda com um namorado?!
Fiquei de boca aberta.
Qual namorado?! Estou sozinha, de onde tirou isso?
Não será o teu João o tal namorado? ouvi lá do fundo, era a senhora Amélia, sábia de tudo.
O João só a vai ajudar nos campos agora namorado é ajudar na quinta?
O João levantou-se. Estava no canto, nem o tinha visto. Alto, largo de ombros, a cara encarnada, as mãos cerradas.
Mãe disse baixo mãe, o que foste fazer?
A Leonor estendeu-lhe os braços:
João, filho, eu só queria proteger-te, ela quer apanhar-te, esta
Cala-te! gritou ele, tão alto que toda a gente se assustou. Chega, ouves? Tens noção do que acabaste de fazer? Chamaste-a mentirosa! Uma pessoa honesta! Trabalha de sol a sol, sozinha, sem homem na casa, e tu sujas-lhe o nome!
Olhou para mim, e vi no olhar dele algo novo.
Dona Rita continuou, voz baixa peço-lhe desculpa pela minha mãe. Ela não faz por mal. Fez por ciúmes, por tontice. Tem medo que eu a deixe, que vá para si. E eu
Pausou, passou a mão pela cara.
E eu, verdade seja dita, gosto de si há muitos anos. Desde que veio viver aqui com o senhor Aníbal, deus o tenha. Eu era rapaz, tinha catorze, a senhora vinte e cinco.
Olhava para si e pensava: era esta mulher que eu queria um dia. Depois casei com a Rosa, porque achava que aquilo ia passar, mas não passou. A Rosa sentiu, foi por isso que se foi.
O salão ficou um silêncio. Leonor sentou-se, parecia dez anos mais velha.
E quando o senhor Aníbal morreu, fui lá mais vezes ajudar. Não só por pena, embora também. Mas porque me sinto bem ao seu lado é o meu lugar.
Calei-me não sabia o que dizer. Só ouvia o coração aos pinotes, os olhos a arder.
João, sou onze anos mais velha que tu.
Sei disse ele. E então?
E então nada interveio a dona Amélia, a velhinha. O meu marido era oito anos mais novo e passámos quarenta e tal anos juntinhos, que se lixe a idade! O que importa é a pessoa.
O burburinho instalou-se, uns riam, outros balançavam a cabeça, outros davam palmadinhas no João. A Leonor estava cabisbaixa, sozinha. Ninguém se chegou a ela.
De repente, tive pena.
Não no primeiro instante, mas depois. No fundo, percebi. Era só medo medo de ficar sozinha, medo de perder o filho, a única âncora que lhe restava.
Fez mal, sim, muito mal mas não era maldade pura, era falta de saber amar sem prender até ao sufoco, sem querer o outro só para si.
Aproximei-me dela, agachei-me ao lado.
Dona Leonor disse baixinho não tenha medo. Ninguém lhe vai tirar o filho. Ele gosta de si, é a mãe. Só
Só não fale assim das pessoas. Não vale a pena inventar. Isso é como envenenar a terra: se semear mentira, só pode colher desgosto.
Ela olhou-me, os olhos vermelhos, tristes.
Desculpe-me, Rita sussurrou. Fui parva.
Assenti. Perdoei? Nem sei. Só com o tempo uma ferida dessas sara, ou não sara.
Saímos do salão juntos, eu e o João. Ele calado. O sol já ia baixo, o céu rosa claro, como pétalas de rosa brava.
João disse eu, é mesmo a sério o que disseste?
Claro respondeu. Nunca faria figura dessas se não fosse sério.
Parei, olhei para ele. Homem bom. Caloroso, seguro, faz-me lembrar o lume numa noite fria.
Então anda, há vacas para ordenhar. Vais dar-me uma ajuda?
Sorriso largo, claro, de menino.
Vou sim.
E lá fomos. A terra debaixo dos pés cheirava forte, a erva fresca, a poejo, a vida que cresce aqui. Nessa amargura também há uma doçura, talvez esperança.
Ou talvez seja só a vida, que teima em continuar, sempre mais forte do que todo o veneno, toda a mágoa, toda a escuridão dos homens.
O João pegou-me na mão. Grande, calejada, quente. Não me desviei; antes apertei ainda mais. Pode ser o destino
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Hoje aprendi: quem planta verdade, colhe confiança, e mesmo numa aldeia pequena, o silêncio só faz germinar o que fica por dizer. Vale sempre mais falar de frente, com verdade e nunca semear veneno na terra dos outros.







