Muitas noras jovens sofrem às mãos das sogras e não têm a quem se queixar. Tudo se mistura como neblina estranha num sonho que não faz sentido.
Aproxima-se o primeiro aniversário do nosso casamento. A relação com a sogra, a dona Carminda, não se assenta, não tem raízes no chão mojado da Baixa lisboeta. É assim uma coisa meio desencontrada, como um elétrico fora de rumo numa noite de nevoeiro em Belém.
Pedi ao meu marido, o Joaquim, que me apresentasse a mãe dele antes do casamento, até porque ele já conhecia perfeitamente a minha, Dona Fátima. Mas ele foi sempre adiando: não havia tempo, ou a mãe estava ocupada a fazer arroz doce, ou era outra coisa qualquer. Diz-se: Terão tempo para se conhecerem. No fim, só nos encontrámos no dia do casamento, tudo envolto num cheiro a almofada de alfazema antiga. O encontro foi seco como pão duro: ao meu Bom dia! sorridente e sincero, ela respondeu-me pelos cantos da boca: Bom dia.
O Joaquim sempre dizia que a mãe era um amor, uma mulher tolerante, mais sábia que a chuva miudinha de novembro. Mas um dia, confessei que receava que ela se metesse na nossa vida. Já tinha ouvido muitos fados sobre esse tema! Mas o Joaquim asseverava sempre que a mãe nunca se intrometeria. Que não se atreveria a julgar a minha maneira de ser, nem faria sermões sobre casamentos nem filhos. Repetia que ele sempre escolheria por si a mulher a quem daria o nome.
Mas, uns dias depois do casamento, o Joaquim chegou do trabalho, sentou-se na cozinha a beber um chá de erva-príncipe e tinha uma cara pensativa, como quem escuta vozes no eléctrico 28.
Perguntei-lhe:
O que se passa contigo, Quim?
A resposta foi uma reviravolta surrealista:
Acho que a minha mãe não gosta muito de ti, Amália…
Pelos vistos, Carminda não gostava que eu não lavasse os ovos com vinagre antes de os usar. Que deixasse os pratos na pia porque me dava jeito. Que o esfregão ficasse encostado ao lava-loiça e não muito direito num pratinho. Que o caldo de galinha fosse feito logo de uma vez, sem tirar a primeira água, como ela sempre fez em Sesimbra. E mais coisas tão insólitas quanto um peixe de asas.
Fiquei atordoada, como quem sonha que está nua na praça do Comércio.
Perguntei ao Joaquim:
Mas por que é que ela não há de gostar de mim? Nós somos outra família, vivemos noutra casa, com outros talheres!
Ele respondeu, com olhos perdidos nas sombras do teto:
Mas eu sou o filho dela! Sempre vivi daquela maneira. Tens de fazer como se faz lá em casa.
Respondi, a tentar não me afogar num mar de azulejos:
Mas esta é a minha cozinha, não é o solar dos teus pais em Viseu! Posso viver à minha moda.
O Joaquim, porém, disse que agora tudo seria diferente. Teríamos de viver noutra ordem, acostumar-nos ao novo fado.
Após isto, passámos quatro meses sei lá como, meio felizes, meio a pairar num nevoeiro tímido. Quando via a sogra, ela sorria, perguntava com cortesia pelo nosso lar, pela participação do Joaquim nas tarefas. Quando arranjámos um cão, o Zé dos Ossos, em poucos dias metade do bairro já sabia que eu não cozia ossos para o animal. Que era um disparate alimentá-lo com ração. Que a pobre Carminda não aguentava aquela nora sem jeito nenhum. Descobri que era inútil completamente inútil.
Nem imaginava quão inútil era. Um dia contei ao Joaquim, pois fiquei a saber disto por uma vizinha, Maria das Dores, com quem me cruzei ao passear o cão ao nascer do sol. Não gostei nada de ouvir estas coisas vindas de quem não é da família. Pedi ao Joaquim que conversasse com a mãe dele, mas ele limitou-se a rir e a recomendar-me que esquecesse.
Agora, a sogra guarda ressentimentos como se fossem relíquias. Falo-lhe sempre com carinho, mas ela só me atira um Boa tarde frio, como vento do Atlântico.
O Joaquim acredita que eu não respeito a mãe. Que não aceito a ordem doméstica dela, que não quero amizade. Parece que à mãe dele… falta-lhe qualquer coisa. Talvez o Zé dos Ossos, o cão. De resto, os pais dele apareciam regularmente para tomar chá sem serem convidados, como personagens de um sonho estranho que entram e saem à vontade.
O mais estranho: vamos ter de morar algum tempo na casa deles. Dói-me imaginar como será. Não sei se vou aguentar. Tremo ao pensar no que acontecerá quando tivermos um filho. Se calhar todo o prédio saberá como lavo e alimento a criança. Tenho a sensação que a minha saída será voltar para casa dos meus pais. Não vejo a minha sogra deixar-me em paz naquele lugar estranho entre os lençóis de linho e os azulejos antigos.






