A nora apanhou a sogra na sua cozinha e…
Era já há muitos anos, na Lisboa antiga cheia de sol de primavera, que me lembro de Dona Emília, mãe do Artur, de pé no meio da nossa cozinha com o vaso de violeta nas mãos. A violeta era minha. Comprei-a numa das bancas da feira da Ladra, depois de muito escolher entre outras três, optei por aquela de folhas mais direitas e cor mais viva. Pousei-a no parapeito para apanhar o sol, regava-a aos domingos.
Dona Emília segurava o vaso como se fosse algo suspeito, olhava com ar crítico, pronta para decidir se ia ou não para o lixo.
Dona Emília, o que está a fazer? perguntei, saindo do quarto de camisola e calças de casa. A Marta, minha filha, acabara de adormecer depois do almoço, e eu esperava, em vão, pelo meu intervalo de silêncio e descanso. Em vez disso, ouvi sacos a serem remexidos, talheres a tilintar, passos.
Estou a arrumar isto, respondeu ela, sem me olhar. Voltaste a pôr a planta no sítio errado, Ana. Ali tira-me a luz.
Foi o lugar que escolhi, Dona Emília. Fica bem aí, é o que quero.
Pois, mas não devias. Está virada a nascente, violeta não gosta de sol direto da manhã, começa a murchar.
Ela está ótima. Veja só aqui os botões.
Ainda nova. Vai ver quando secar. Vou pô-la ali junto do frigorífico, tem ali uma prateleirinha.
Aproximei-me e peguei no vaso, calmamente, sem brusquidão, e voltei a pousá-lo no parapeito.
Por favor, Dona Emília, não desarrume as minhas coisas.
Fitou-me com aquele olhar de quem ouve uma regra absurda.
Ana, não estou a mexer nas tuas coisas, quero só ajudar.
Eu sei, mas esta é a minha cozinha. Eu decido.
A tua cozinha… arqueou as sobrancelhas e virou-se para a banca. Começou a limpar a torneira com energia, torcendo uma esponja. Fiquei a olhar-lhe as costas largas cobertas por uma camisola grossa e sentia essa mesma pergunta: Por que veio a senhora hoje, numa quarta, sem avisar, sem telefonema? Entrava com a chave, explicava-me tudo sobre os lugares das coisas como se o espaço lhe pertencesse por direito.
Não disse nada.
A Marta acorda a que horas? perguntou sem me olhar.
Se calhar daqui a uma hora e meia.
Arrumo isto entretanto, descansa tu.
Abri a boca, fechei-a. Disse apenas, seca:
Aqui está tudo arrumado.
Pois, noto. Só tinhas a torneira manchada.
Fui buscar um copo de água, bebi encostada à janela enquanto olhava a violeta. Um dos botões já se abria, violeta com contorno branco. A Marta gostava de lhe tocar e dizia Feleta, e eu corrigia Violeta. Ela ria, dizia de novo Feleta.
Deixei o copo e fui ao quarto. Não fechei a porta, não queria guerra, só queria que a sogra percebesse que ali havia uma família que queria viver à sua maneira. Mas Dona Emília não percebia, ou fazia por não perceber.
Passados vinte minutos, o aroma chegou do fogão caldo quente, cheiro a canja.
Fui à cozinha.
Lá estava a minha panela, fervendo no lume.
O que é isto? perguntei.
Fiz sopa, canja de galinha com massinhas. O Artur chega esfomeado, o frigorífico está vazio.
Tenho lá arroz e almôndegas.
Almôndegas de ontem. Deitei-as fora.
Parei.
Deitou as minhas almôndegas fora?
Eram de ontem, Ana, ainda se intoxicam aqui.
Elas estavam boas. Ia aquecê-las hoje. Foi comida que eu fiz.
Ó filha, são umas almôndegas baratas. Fiz-te sopa, é melhor.
Olhei a panela. O cheiro era bom, o caldo quase pronto. Isso era o pior: cheirava bem, apetecia, feito pelas mãos dela, mas na minha panela, na minha cozinha, sem se importar com o que eu tinha feito.
Obrigada, mas peço que não volte a deitar fora a minha comida.
Não foi por mal, só quero ajudar.
Eu sei. Mas por favor, não volte a fazer.
Ela mexeu a sopa, sem responder.
Sentei-me à mesa, observando Dona Emília, que limpara já tudo, com gestos práticos, mexendo-se à vontade no espaço, sabia ao que ia em todos os armários notava-se já tinha vindo quando eu não estava, quando ia à minha mãe ou dormia, ou passeava com a Marta. Entrava e fazia da nossa casa o que queria.
Dona Emília, perguntei, com que frequência vem aqui?
De vez em quando. Quando é preciso.
É quando? O que é preciso?
Voltou-se para mim, o rosto aberto, quase magoado.
Ana, eu não sou estranha nisto. O Artur é meu filho.
Sim. E é esta a casa dele. É minha também.
Então? Não posso vir cá?
Pode. Se avisar e esperarmos por si.
A pausa arrastou-se, e eu já sabia que aquilo ia desenrolar-se num telefonema choroso para o Artur mais tarde.
Está bem, disse finalmente. Como quiseres.
A sopa ficou na panela. Saiu dali a uma hora, deixando um beijo à neta ainda a dormir. Levou as chaves consigo.
Ao fim do dia, o Artur entrou e sentiu logo o cheiro.
A mãe veio cá?
Veio.
Cheira bem.
Artur.
Pendura o casaco.
O quê?
Entrou sem avisar, deitou as minhas almôndegas fora, mexeu em tudo, andou por toda a casa.
Ana, queria só ajudar.
Eu sei, já disseste. Mas quero que lhe expliques: tem de avisar antes de vir.
Pegou num pedaço de pão, trincou.
Eu falo com ela.
Dizes sempre isso.
Falo outra vez.
Servi-lhe a canja. Provou.
Está bem feita, e percebeu logo que era má resposta.
Comi calada.
Dias depois, a sogra apareceu de novo. Agora sexta-feira, a seguir ao sono da Marta. Ia ao quarto dela quando ouvi a porta abrir-se a chave rodava.
Acordou, minha flor! O corredor encheu-se da voz da sogra. Vovó chegou!
Marta parou de chorar. Parava sempre com a avó. Não sabia se ficava contente ou não.
Dona Emília já pegava nela ao colo.
Olá, disse eu.
Olá, olá. Morri de saudades. Tu telefonaste?
Não. Estava mesmo aqui.
Eu sou silenciosa, não incomodo.
Fomo-nos para a cozinha. Fiz chá. Marta comia pão com manteiga do pacote que a avó trouxera.
Trouxe um bolo, disse ela. Do supermercado, é daqueles esponjosos. A Marta adora doces.
A minha filha não come bolo.
Porque não?
Só tem dois anos e pouco. Ainda não lhe dou doces assim. Já teve reação ao creme de chocolate.
Isso é ao creme. Isto só tem baunilha.
Dona Emília, por favor.
Ana, um bocadinho não faz mal. Sempre calma, o que era pior que se falasse alto. O meu filho comeu de tudo, nunca lhe fez mal.
A Marta é outra criança. Não lhe dê, por favor.
Pausa. Marta tentava ir à saca, a avó puxava-a de lado.
Pronto, acedeu ela. Sem bolo.
Obrigada.
Marta brincava no chão com a colher de pau, que Dona Emília tirara do fundo do armário. Olhei, mas calei. Era só uma colher limpa.
Como está o Artur no trabalho? quis saber a sogra.
Cansado.
Sempre foi assim, dá tudo, depois fica exausto. Precisava de férias. Não vão a lado nenhum no verão?
Ainda não sabemos.
Podia ficar com a Marta na casa da aldeia. Lá é fresco, ar puro.
Vou pensar nisso.
Considera julho.
Eu disse que ia pensar.
Olhou-me de frente. Sustentei o olhar. Voltou-se para a Marta.
Vem à vovó, boneca.
Pegou nela, cheirou-lhe o cabelo.
Minha menina.
Lavei as chávenas, olhei a violeta: segundo botão a abrir.
Quando saí ao telefone, deixou a Marta com o bolo escondido na mão, olhando para mim com orgulho mudo.
Dona Emília.
Um pedacinho só, Ana. Nem pediu, foi ela que foi buscar.
Vai se buscar tudo o que lhe põem à frente. É uma criança.
Retirei-lhe o bolo da mão delicadamente, troquei por maçã. Marta aceitou sem protesto.
Olhei para a sogra, calmamente:
Pedi que não lhe desse bolo.
Mas pediu, expliquei já.
Da próxima vez diga-lhe não. A senhora é adulta.
Dona Emília pôs-se de pé, buscou a mala.
Vou andando.
Está bem.
Estás zangada.
Não. Peço só que cumpra as minhas regras em nossa casa.
São as tuas regras… abotoou a mala. Entendi.
Saiu. Marta acenou: Tchau tchau e a avó respondeu: Tchau, flor. A porta fechou-se.
Deixei o bolo na saca para devolver.
À noite, o Artur disse: Ela só quer bem à Marta.
Eu sei.
Então qual é o problema?
O problema é que faz tudo sem perguntar. Não preciso lutar para decidir o que a minha filha come.
Ele calou-se. Depois:
Ela ajudou com a casa, Ana.
Pois era.
Cruzei os braços.
Lembro-me.
Sem ela, ainda estávamos a pagar renda.
Sei, Artur.
Por isso devias…
O quê? Aceitar tudo? Que apareça sem aviso, mande em tudo só porque ajudou?
Não respondeu.
Não é por aí. Ajudar não dá direito a mandar.
Levantou-se.
Eu falo com ela outra vez.
Já disseste isso duas vezes.
Vou falar, a sério, Ana. O que queres de mim?
Queria que ele percebesse sozinho. Mas não percebia. Ou não queria perceber.
Nada. Boa noite.
Fui espreitar a Marta.
Dormia aberta, bochechas na almofada. Virei-a devagar, sussurrou, não acordou. Fiquei a ouvi-la respirar.
Passou uma semana, depois outra.
No sábado a sogra telefonou:
Ana, queria ir no domingo. Pode ser?
Domingo estamos ocupados.
Ocupados? O Artur disse-me que estão em casa.
Estamos, mas temos planos. Talvez outra vez.
Pausa.
Comprei um brinquedo para a Marta. Queria levar.
Pode mandar com o Artur.
Outra pausa.
Ok. Já não magoada, só diferente. Está bem.
No domingo à noite o Artur mencionou:
A mãe ficou aborrecida.
Eu sei.
Disse que não a deixas vir.
Só não sem avisar.
Para ela é a mesma coisa.
Dobrei a roupa na cama.
De que lado estás, Artur?
Não é questão de lados. Quero paz.
Então decide-se quem manda: tu e eu, ou ela.
Sentou-se, olhou-me.
Nós.
Então explica, a sério. Sem rodeios. Dás-lhe as nossas chaves de volta, e ela só entra se avisar.
Levantou a cabeça.
As chaves?
Sim.
Isso magoa-a muito.
E a mim, os seus “ataques”, não magoam?
Não é igual.
Porquê?
Calada. Finalmente murmurou:
Porque é a mãe.
E eu sou mãe da Marta e tua mulher. Não digo que não venha. Mas que ligue. Que pergunte. Que respeite. Não é pedir muito.
Saiu. Fui lavar a loiça. Peguei na camisola da Marta para pregar um botão.
Passaram mais duas semanas. Dona Emília avisou que ia à festa de anos do sobrinho e queria vir no sábado. O Artur convidou-a sem me dizer.
No sábado, chegou com sacos pesados.
O Artur disse-me para vir, não foi?
Foi.
Trouxe batatas, cebolas, compotas, carne de porco, maçãs, farinha.
Vou fazer empadas, o Artur gosta.
Dona Emília, queria pedir-lhe que…
Tens rolo da massa? Esqueci o meu.
Tenho, mas…
Ótimo, vou já preparar.
Lavei as mãos, fui buscar a Marta.
Empadas ficaram realmente boas; Marta comeu uma inteira. Dona Emília radiante. Comi em silêncio, a pensar nas almôndegas, no bolo clandestino, e na violeta.
Ao sair, parou no corredor.
Ali ficava bem uma prateleira para sapatos.
Pensamos nisso, disse o Artur.
Vi umas de madeira no mercado, trago uma.
Não é preciso, faremos nós se quisermos, disse eu.
Olhou para mim. Depois para o Artur, calçou-se e saiu.
Porquê assim? disse ele.
Assim como?
Só queria ajudar.
Queria pôr prateleiras sem consultar.
Foi para a cozinha. Ouvi o barulho da empada.
Meados de abril, ainda frios. Saía para passear com Marta, voltava, fazia pequenas tarefas. Vida nossa, pequena. Num desses dias, com Marta a dormir, ouvi a chave rodar.
Pousei o livro.
Dona Emília entrou, triste mas decidida.
Ana, vim só trocar as cortinas. Trouxe umas novas.
Abriu o embrulho. Eram cortinas cor de areia.
Espere, Dona Emília.
O quê?
Não quero cortinas novas. Gosto das minhas.
São tão sem graça! Estas são bonitas, deram barato.
Dona Emília. Disse-lhe para ligar antes. Disse, ou não disse?
Disseste.
E voltou sem avisar.
Julguei que estavas.
Tem de avisar. E não quero cortinas outras.
Ficou um momento parada. Guardou as cortinas cuidadosamente.
Pronto disse. És a dona.
Disse dona como se dissesse teimosa, ou ingrata.
Sou, disse eu.
Saiu sem chá, pela primeira vez.
Mais tarde, Artur:
A mãe ligou. Disse que foste rude.
Não fui rude. Só pedi que respeite o que já falámos.
Queria ajudar.
Artur, acreditas mesmo que porque alguém quer ajudar pode fazer tudo num espaço que não é seu?
Calou-se.
Se sim, temos problemas muito mais fundos. Quero que fiques do meu lado. Sou tua mulher.
Ele segurou a minha mão. Prometeu vou falar com ela.
Já disseste cinco vezes.
Ergueu-se e saiu. Fui à cozinha, arrumei. Pus a violeta junto à luz, três botões agora floridos.
Final de abril. Dia de anos do Artur trinta.
Preparei tudo: bolo de mel com creme de natas e leite condensado, receitas portuguesas antigas. Amigos de Artur, a irmã Mariana, claro, Dona Emília.
Chegou primeiro, ligou antes, finalmente. Foi à cozinha ver tudo.
Fizeste bem a mesa! Peixe assado?
Sim, corvina.
Ele gosta mais de dourada.
Trouxe corvina.
Pronto. Endireitou um garfo. Fizeste tu o bolo?
Fiz, bolo de mel.
O Artur gosta mais do de bolacha.
Não me disse.
Mas eu sei.
Continuei a pôr pão, em silêncio.
Vieram os convidados, animação, a Marta corria contente, todos lhe davam bolachas, eu vigiava.
O Artur feliz, a rir-se, entre mim e a mãe, sem perceber que cabia a ele lidar com isto.
Na mesa, Dona Emília de frente comigo.
Quando trouxe o bolo, já cortado, ela disse virada para a esposa do amigo:
Bolo de mel, foi a Ana que fez.
Parece delicioso, respondeu a outra.
Bolo de mel não agradou a todos, é pesado.
Alguém provou. Está ótimo, disseram.
Mas ouvi.
Fui arrumar loiça, respirei fundo, voltei.
Quase ao final, com a Marta cheia de sono, levei-a ao quarto. A sogra levantou-se logo.
Eu deito-a.
Deito eu, Dona Emília.
Estás cansada, deixa.
Deito eu, Dona Emília.
Parou, escutando, a festa à volta.
Sempre assim, Ana. Quero ajudar e tu recusas sempre. Isso magoa.
Virei-me, a Marta já a meio dormir.
Eu deito a minha filha, Dona Emília. Não é mágoa. É direito meu.
Deitei a Marta.
Voltei à sala, os convidados preparavam-se para sair. Dona Emília na cozinha a encher um tupperware.
Que está a fazer?
Levo restos, senão estragam.
Não estragam. Comemos amanhã.
É muita comida.
Levo eu depois, Dona Emília.
Mas eu…
Deixe.
Olhou-me com atenção diferente.
O que se passa contigo?
Nada. Peço que deixe.
Ela pousou o recipiente.
Ana, não sou tua inimiga.
Eu sei.
Gosto do Artur, adoro a Marta.
Sei. Mas é a minha família. Precisamos de espaço.
Espaço? Como assim?
Falo disto: entrou sem avisar, fez o que quis, deitou fora a minha comida, trocou coisas, trouxe cortinas sem pedir, deu bolo à Marta quando pedi que não desse, e à frente de todos disse que o meu bolo era errado para o Artur. Isso é demais.
Ela ficou calada.
Não sou sua inimiga, mas precisam de regras.
Estás a correr-me daqui?
Peço que respeite a nossa casa.
Eu respeito.
Não respeita. Por favor, despeça-se dos convidados e vá. Amanhã quero falar com o Artur.
Ela atou a mala, olhou-me demoradamente.
Está bem.
Na sala, despediu-se do Artur, beijou-lhe a cara, riu, despediu-se dos outros, olhou para o quarto da Marta (silêncio), vestiu-se e foi embora.
O Artur, depois, cansado, esfregou a testa.
Preciso de falar.
Sentei-me, servi chá.
Quero que peças as chaves à tua mãe.
Parou.
As chaves?
Da nossa casa. Quero que as peças de volta.
Silêncio.
Ana, é…
Vais dizer que ela se magoa. Que ajudou na compra. Podemos fazer um pequeno empréstimo e devolver a parte dela. Então deixa de haver desculpa para ela aparecer sem avisar.
Estamos a pagar o crédito da casa! Porquê outro?
Para nunca mais ouvires ajudei-vos como desculpa para tudo.
Não digo assim.
Dizes, sempre.
Foi até à janela.
A minha mãe sempre fez tudo sozinha. Depois do meu pai, ficou com tudo. Habituou-se a controlar tudo.
Eu entendo.
Não é por mal.
Também sei. Não peço que deixes de gostar dela. Mas tens de estabelecer limites.
Vai magoar-se com as chaves.
Talvez. Mas ou respeita ou não tem chave.
Hoje pediste-lhe para sair.
Pedi-lhe para ir, sim. Ela ficou triste.
Eu também fiquei. Várias vezes. Quando deitou a minha comida fora. Quando deu bolo à Marta. Quando desvalorizou o meu bolo. Já não quero repetir. Quero que tu fales com ela a sério.
Demorou. Disse finalmente:
Vai dizer que somos ingratos.
Se calhar.
Que a deixei por tua causa.
Talvez.
Vai custar-me.
Eu sei.
Queres mesmo o empréstimo?
Quero uma casa realmente nossa. Enquanto ela tiver chave, nunca será.
Dá-me uns dias.
Está bem.
Falo com ela.
Está bem.
Três dias passaram. Nada. Ao quarto dia, à noite:
Falei com ela.
Olhei-o.
E?
Custou muito, chorou.
Eu sei.
Disse que não gostamos dela.
Diz sempre isso.
Expliquei-lhe das chaves, que só podia vir se avisasse, que não mudasse nada sem permissão e que a Marta não comia coisas proibidas.
Aceitou?
Não logo. Disse que era só influência tua. Mas expliquei que fomos os dois.
Suspirei.
Obrigada.
Pede mais uma semana para entregar as chaves. Quer ganhar coragem.
Não é resposta.
Uma semana. Se não entregar, vou buscá-las. Pode ser?
Pode.
Pensou ainda no empréstimo.
Falo com o conhecido no banco. Vamos ver.
Combinado.
O silêncio era comum, caseiro. A Marta murmurava no quarto, entre cubos e brinquedos.
Fui espreitar, ela construía uma torre.
Torre, disse-lhe.
Torre, respondeu, pondo mais um cubo.
A torre vacilou mas ficou firme.
Uma semana depois, Dona Emília telefonou: ia passar no sábado, podia ser? Disse que sim.
Trouxe um saquinho: oferta de livro de figuras para a Marta. Entregou-lhe.
É sobre bichos, ela gosta de bichos.
Obrigada.
Vovó! gritou Marta a correr.
Dona Emília abraçou-a, e olhou-me com algo que já não era mágoa. Outra coisa.
Tomámos chá, falámos da meteorologia e do jardim da aldeia.
No final, tirou da bolsa as chaves, separou uma e pôs sobre a mesa.
Como combinado.
O Artur guardou-a no bolso.
Obrigado, mãe.
De nada. Digam quando quiserem que apareça. Combina-se.
Claro, quando quiseres, disse ele.
Ficou mais sóbria, menos calorosa.
Percebo que têm a vossa vida.
És sempre bem-vinda, disse o Artur.
Olhou para ele, para mim.
Sei, respondeu.
Talvez fosse verdade. Talvez não. Já não pensei nisso.
Saiu às cinco e meia. Marta acenou-lhe pela janela, ela retribuiu da rua.
O Artur fechou a persiana.
Pronto.
Pronto.
Marta foi brincar com o livro. Ficámos junto à janela.
Demorou a ligar. Deve-lhe ter custado.
Sei.
Não tens pena?
Pensei bem.
Não.
Eu também não.
Ficou a olhar lá para baixo: a Dona Emília, com a sua camisola mostarda, ia ao fundo da rua.
Aquela cómoda precisa ser mudada, disse de repente.
Qual?
No hall. Ela pôs-na naquele canto, tu queixaste-te.
Lembraste?
Lembro.
Agora?
Porque não.
Fomos ao hall. A cómoda estava encostada, desalinhada. Noutra posição, abria melhor.
O Artur pegou de um lado, eu do outro.
Um, dois, disse ele.
Empurrámos. Ficou como antes. A gaveta corria fácil.
Assim, disse.
Assim mesmo.
Marta apareceu, livro na mão.
Mamã, olha a raposa.
A raposa, espertalhona.
Espertalhona, murmurou e desapareceu.
Fui à cozinha. Enchi um copo de água. Olhei o parapeito.
A violeta estava no mesmo lugar. Os três botões abertos este mês brilhavam: cor viva, contorno branco puro, folhas fortes. O quarto botão já inchava, verde escuro, folha direita. Não tinha murchado.






