Tinham passado dois anos desde aquela manhã enevoada em Lisboa, e agora voltava a cruzar o olhar com ela. Uma mulher linda caminhava à minha frente pelo Chiado, e o meu coração parou, estranho e súbito como tudo nos meus sonhos. Era a antiga Mafalda, a mulher por quem outrora todos os homens se viravam com fascínio.
Recordo que, depois do nosso casamento, deixei de reconhecer a minha mulher. Tornou-se uma daquelas mulheres de cabelo apanhado, sempre com ar de quem saltou da cama a correr e trazia t-shirts enormes, quase como sacos esquecidos pelo tempo. Já não a via com vestidos que celebrassem as curvas, nem com aquela lingerie elegante dos primeiros tempos.
Passou a andar pela casa de chinelos gastos, enfiada em camisolas largas, e parecia ignorar completamente a ideia de cuidar de si. Já não lhe via as unhas arranjadas na manicure, nem punha um pouco de batom, e o ginásio era agora uma lenda. O ventre ainda parecia marcado pela gravidez dos nossos gémeos, e a celulite desenhava mapas nas coxas achei até exageradamente estranho tudo isto, como num sonho bizarro em que a beleza se dissolve ao acordar.
Aos poucos, a mulher com quem partilhava o lar transformou-se num ser quase grotesco aos meus olhos. Inchava-lhe o corpo, ampliavam-se as camisolas. Quando lhe dizia que talvez fosse altura de espreitar melhor o espelho, ela revoltava-se e recusava falar.
Percebi um dia, sentado no elétrico 28, que tinha amado a Mafalda de antes do ouro na mão antes do casamento , e não encontrava agora identificação naquela Mulher Nova. A Mafalda antiga transbordava paixão, graça, beleza; os meus amigos invejavam o meu suposto golpe de sorte, questionando como consegui conquistá-la. Com tanta transformação, comecei a sentir apenas um desinteresse apagado, seguido sempre de uma tristeza teimosa. Faltava-lhe o brilho. A luz.
Lembro-me da última imagem dela antes da separação: vestia uma t-shirt cinzenta, manchada de leite, uns calções folgados de onde espreitava a pele irregular das pernas. O cabelo mal apanhado, revoltoso, insistia em escapar-lhe do gancho; o rosto, perpetuamente melancólico, marcado de olheiras profundas como a noite do Bairro Alto.
Nessa noite, confessei-lhe que não podia continuar ao seu lado, pois sentia apenas pena e vazio, nunca amor. A verdade caiu em mim como moedas de um euro no fundo de uma fonte. Passaram-se dois anos desde aquele sonho estranho, e reencontrei-a novamente, como numa esquina surreal de Alfama. Desta vez, era uma Mafalda mais bela que nunca, com um vestido solto, cabelo aos caracóis brilhante, levíssimo, como os antigos quadros de rainhas. Ela emagrecera, transformando-se da patinha feia numa rainha renascida. Foi ela que criou os nossos filhos, sozinha, forte algo só agora percebia, tarde de mais.
Nesse instante onírico, compreendi que Mafalda nunca teve tempo, nem forças, para cuidar de si própria. Entregou-se de corpo inteiro ao lar, ao bem-estar dos nossos filhos. Eu, sempre ausente, ignorava o quanto essa missão lhe roubava a energia. Só percebia o quanto cansava ficar duas horas sozinho com os gémeos, enquanto ela passava os dias a cuidar, limpar, cozinhar e a suportar o peso invisível de todas as tarefas. Num rodopio de obrigações, é natural que a manicure e o ginásio ficassem esquecidos. Devia eu ter percebido que o seu corpo precisava recuperar, não lhe devendo exigir exercícios quando mal se tinha levantado do pós-parto.
E nunca saíamos a lugar algum onde pudesse usar os seus colares reluzentes ou os vestidos bonitos. Em casa, usar tais coisas era estranho, quase desconfortável. Sinto-me pequena por nunca lhe dar oportunidade de ser ela, de exibir a sua beleza.
Apenas dois anos depois, mergulhado nesta névoa de sonho, consigo ver de fora a nossa história: ela carregou toda a família nos ombros, nunca se queixando. Recebia-me sempre com um sorriso morto-vivo, nunca me cobrou, nem me barrou a porta. Construiu o ninho a que voltava, e só tarde demais me apercebi disso. Faltou-me chegar junto dela, dar-lhe espaço para ela se encontrar consigo própria.
Perdoem-me a honestidade, mas fui tolo. Perdi uma joia sem perceber o valor. Fui cego pela minha razão mesquinha, sem me importar com a jornada dela ou com a dos nossos filhos. Destruí o que era essencial.
Agora, olho para ela e desejo tê-la de volta mas a vergonha e a culpa pesam como o nevoeiro sobre o Douro. Tentarei falar-lhe, reconstruir pontes, pelo menos para estar presente nos dias dos meus filhos pois já perdi dois anos da infância deles.
Hoje, Mafalda tem muitos pretendentes, mas não permite que ninguém se aproxime. Sinto que fui eu que lhe causei esta dor surda. E aqui fico, perdido neste sonho estranho e português, sem saber o que fazer com a minha culpa e remorso, entendendo enfim, tarde demais, o que significa perder tudo.







