A Rapariga com uma Só Fotografia

A Rapariga com Uma Fotografia

Vi-a logo no primeiro dia.

Sentada na cama encostada à parede, olhava fixamente para algo pequeno nas mãos. Não se movia. Não virava a cabeça com o ruído sempre presente: discussões junto ao balcão da comida, tosse num canto, o rádio antigo na janela a debitar a meteorologia. Só ela parecia ausente, numa sala com trinta camas.

Poisando a caixa dos livros no chão, fui ter com a Rita.

Quem é? perguntei.

Rita não se voltou, ocupada a organizar os conjuntos de roupa de cama no carrinho, murmurando números. Tinha trinta e oito anos, coordenava o abrigo, já cansada de tudo antes do meio-dia.

É a Margarida. Está connosco há quatro meses. Não fala. Com ninguém.

Nem uma palavra?

Nada. Come, dorme, toma banho. E passa os dias assim, sentada, sempre com aquela coisa nas mãos. Pensei que fosse um santinho. Não é. É uma fotografia.

E documentos?

Não tem. Nem bilhete de identidade, nem cartão de saúde, nem de reforma. Tentámos ajudá-la a recuperar, recusou. Calada. Abanou a cabeça e virou-se.

Olhei para a Margarida. Segurava alguma coisa, do tamanho da palma da mão. Os cantos dobrados para dentro, manchas castanhas de água. Olhava como quem fica a encarar o escuro do vidro de um comboio, vendo apenas o próprio reflexo.

Tenho vinte e seis anos. Faço o curso de Serviço Social em horário pós-laboral. Venho ao Porto Quente três vezes por semana: abrigo temporário no terceiro andar de uma antiga residência em Chelas. Cheira a lixívia e papas. As janelas dão para o estacionamento do supermercado. À noite, a luz das letras amarelas impede o sono às mulheres das camas mais próximas. Aqui há pessoas sem morada. Quando alguém lhes pergunta onde vive?, o que respondem é silêncio.

Não venho cá por obrigação. Venho porque a minha avó, nos seus últimos três anos, viveu sozinha num T1 em Setúbal. Ligava-lhe ao domingo. Dez minutos, por vezes quinze. Achava que era suficiente. Pensava que ela se desembaraçava. Só no funeral, a vizinha Lourdes puxou-me para junto dela e disse: Todos os dias descia ao patamar. Esperava alguém. Eu ia quando podia. Mas não era a mesma coisa.

E prometi: nunca mais quero chegar tarde. Nunca. A ninguém.

Espalhei os livros na mesa da zona comum. Policiais, romances, dois volumes de poesia. João Tordo, Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso livros para serem lidos, não só decorativos. Deixei um à parte: Vozes do Outro Lado, de Afonso Caminha. Viera na caixa de um alfarrabista, com 2 escrito na primeira página. Nem vi quem era o autor. Pousei-o simplesmente ao lado dos outros.

Margarida não se aproximou da mesa. Nenhuma das restantes foi logo também ali os livros circulam às escondidas, só pegam neles quando ninguém vê. Ao fim da tarde, da pilha faltavam três. Vozes do Outro Lado continuava ali.

E no dia seguinte outra vez.

***

Passada uma semana, trouxe chá.

Não para o refeitório, nem para o balcão com os copos de plástico e o açúcar em saquetas. Fiz dois copos do termo que trouxe de casa chá de hortelã, como a minha avó e sentei-me ao lado da Margarida. Pousei um copo na mesinha.

Ela não me olhou.

Ficámos assim, em silêncio. Bebi o meu chá. A hortelã cheirava a verão. Dez minutos a pairar entre nós. Depois levantei-me e saí. O copo ficou cheio.

No dia seguinte, igual. Dois copos, silêncio, cheiro a hortelã. No terceiro dia, Margarida pegou no copo. Não agradeceu. Não acenou. Apenas segurou com as duas mãos e bebeu devagar, em pequenos golos. Como quem precisa mais do calor das mãos no copo do que do chá.

Reparei nas mãos dela. Dedos longos, juntas marcadas. Unhas curtas mas limpas, bem cortadas. Arranjava-as cuidadosamente, mesmo ali, naquele salão de trinta camas, quando a maior parte já desistiu de tudo menos de saber as horas da próxima refeição.

Rita avisara-me não tenhas esperança. Há quem nunca volte. Recolhem-se, e já não há regresso. Já vi muitos assim, disse-me, a ajeitar o lenço no cabelo. Daqui a seis meses avisamos a Segurança Social, ela irá para uma instituição permanente. Já não é connosco.

Mas vi o que Rita ignorava. Ou não achava importante.

Margarida fazia a cama todas as manhãs. Meticulosa, cantos dobrados. O cobertor esticado sem uma dobra. O casaco, cinzento-escuro de bom tecido, com o bolso cosido à mão, pendurado sempre do mesmo modo, preciso. Os pontos no bolso eram regulares, todos iguais, milímetro a milímetro. Como quem sempre viveu da ordem. Da rotina. De saber onde estão as coisas. De rever cadernos, horários, de fazer listas.

Essa não é pessoa que desista.

No décimo dia, levei-lhe o livro. O tal Vozes do Outro Lado. Pousei na mesinha, junto ao chá de hortelã.

É bom disse. Li-o aos quinze anos.

Margarida olhou a capa. Vi pela primeira vez uma mudança no rosto. Não era sorriso. Nem a sombra de um. Só o músculo junto à boca tremeu e os dedos acercaram-se do livro, tocaram o nome na capa.

Levou o livro.

E nessa noite, ao sair, olhei para trás: Margarida estava deitada, a ler. A fotografia na almofada, junto à cabeça. Como se precisasse das duas coisas ao mesmo tempo: o passado ao lado, nas mãos uma história de alguém.

Saí à rua e senti-me mais quente do que lá dentro.

Passaram duas semanas.

Continuei a ir, sempre com chá. Sentava-me ao lado dela. Falava às vezes do tempo, dos livros que chegaram, de que na pastelaria do outro lado agora havia croissants de cereja. Pequenos nadas, seguros, sem tocar no íntimo. Margarida ouvia. Às vezes acenava. Uma vez virou ligeiramente a cabeça para mim, quando contei do gato que vive no pátio e pede comida na porta de serviço.

E então falou.

Foi a uma terça-feira, catorze de março. Lá fora, a chuva e o frio misturados, e o rádio a debitar o trânsito no Eixo Norte-Sul. Margarida terminou o chá, pousou o copo e disse:

Queres saber o que está na fotografia.

Não era pergunta. A voz funda, bem marcada, cada palavra clara, articulada com precisão. Tal como se fala a vinte anos de alunos, sabendo que lá no fundo, só te ouvem se não tropeçares nas sílabas.

Só se me quiser mostrar respondi.

Calou-se uns segundos, poucos. Depois tirou a fotografia do bolso do casaco o bolso cosido. Com delicadeza, como quem toca numa peça rara. Deu-ma.

Gasta, com manchas de água, cantos dobrados. Uma mulher junto a um quadro de escola, cercada de crianças. Usa uma blusa clara, cabelo apanhado, as mãos nos ombros de dois miúdos da fila da frente. Sorriso cheio, aberto de quem esqueceu a câmara ou não quer saber porque está feliz. E os miúdos também. Uns quinze, sexto ano. Um rapaz com o atacador desatado. Uma rapariga com o laço branco na trança.

Sou eu disse Margarida. Há vinte e dois anos.

Olhei para ela. E para a foto. A mulher na imagem teria quarenta anos. Confiança, luz. Costas direitas, mãos de quem ensina. À minha frente, Margarida mais de sessenta, casaco cinzento, ombros finos. Mas o olhar igual: firme, a ver e não só olhar.

Dei aulas de Português e Literatura vinte anos. Escola Secundária n.º 11, Setúbal.

Português e Literatura?

Sim. De oitenta e seis a dois mil e vinte. Trinta e quatro anos, se fores a contar. Depois a escola fechou. Reorganização disse o termo como quem cita um diagnóstico velho. Um ano depois, o Manel morreu. O meu marido. AVC. Sem reforma, perdi a casa.

Falava sem rodeios. Só os factos, como tópicos na ordem de trabalhos. Como quem lê o diagnóstico médico: sem parar, sem pausas, porque se parar entristece.

Vivi em casa de amigas. Um ano. Primeiro ex-colega, depois conhecida. Depois tornou-se incómodo. Para todos. E saí.

E a fotografia?

Margarida tirou-ma das mãos. Alisou os cantos devagar.

Para não esquecer quem fui. Para saber que ainda se pode regressar.

A garganta secou-me. Não de pena. De outra coisa do modo como o disse, tão simples, certo como um teorema.

Dona Margarida, disse, e as crianças na foto? Quem são?

Meus alunos. Sexto B, dois mil e quatro. Uns emigraram. Outros mudaram muito. Um rapaz agora escreve livros. Ouvi-o na Antena 1. Não recordo o apelido. Mas o timbre, sim.

A voz?

Tinha voz única. Calmo, quase nunca falava, mas lia poesia e a sala toda parava. Até o Mário, que estava sempre a fazer barulho, ficava quieto. E agora, ouvi-o no rádio. Ia no autocarro, reconheci-o.

Guardou a fotografia. Passou os dedos pelo remendo do bolso, aquele gesto automático, para se certificar que ainda está lá.

Era um miúdo reservado. O pai saiu cedo, a mãe dobrou turnos na fábrica de bolos. Ficava depois das aulas na classe. Fingindo ler História. Queria apenas evitar a casa vazia. E eu deixava. Punha-lhe uma maçã na secretária. Conversávamos. Sobre os livros, as personagens, sobre o porquê de Raskolnikov ir ter com Sonia. Fazia sempre a mesma pergunta: Dona Margarida, e se o herói não volta? E então? E eu dizia: O verdadeiro herói volta sempre. Mesmo que demore.

Caiu no silêncio. Olhava a parede, mas era, na verdade, para a sala de aula de outros tempos.

Fiquei sem dizer nada. Às vezes, o silêncio é tudo.

***

À noite, sentei-me na pastelaria a sair do abrigo. Pequena, cinco mesas, aroma de café moído e canela. Portátil aberto, latte frio ao lado. Comecei a procurar.

Escola Secundária n.º 11, Setúbal. Antigos alunos.

Nada. Fechou em 2020, o edifício virou Centro Jovem. Nada de site. Página no Facebook morta desde 2021. Entrei num arquivo da internet, procurei o endereço antigo, encontrei a página Alumni. Três nomes. Doutorado, gerente de fábrica, e António Caminha, escritor.

Procurei: António Caminha escritor.

Fiquei sem respirar.

António Caminha. Trinta e quatro anos. Três romances. Prémio Literário Grande Livro. Primeira obra Vozes do Outro Lado, 2015.

Vozes do Outro Lado.

O tal livro que dei a Margarida.

O livro que li aos quinze.

Caí na cadeira. A empregada perguntou se estava tudo bem. Acenei que sim. Mas não estava.

Lembrava-me do livro como se fosse ontem. A história de um rapaz sozinho numa cidade pequena. De uma professora que via nele o que outros ignoravam. Sobre como uma palavra dita a tempo mantém alguém inteiro. Não salva magia, apenas impede que se quebre.

Li-a aos quinze, no sofá da minha avó em Setúbal, chovia na rua, cheirava a maçã cozida, e eu com a cabeça numa almofada de linho. Pensei: quero ser assim. Ouvir as pessoas. Estar presente quando é preciso. Não depois, não ao telefone, não dez minutos.

Foi por esse livro que escolhi Serviço Social. Não pelas aulas, nem pelos manuais. Pela história do rapaz e da professora que deixava uma maçã.

Abri uma entrevista do António Caminha, de há dois anos, numa revista literária. Falava da escola, de Setúbal, do pó de giz, cadeiras a ranger depois da última aula. E dela.

A minha professora de Literatura. Dona Margarida. Foi a única que viu em mim o que nem eu via. Escrevi o primeiro livro a pensar nela. No que fazia diariamente ficava, ouvia. Não porque tinha de ficar. Porque se importava.

Fui ao site da editora buscar a versão digital do Vozes do Outro Lado edição especial dos dez anos. Primeira página, a dedicatória, que nunca lia com quinze anos.

A.M.C. à professora que me ouviu.

A.M.C. Margarida de Almeida Castro.

Olhei para o écran. O latte frio. A pastelaria fechava em meia hora.

A mulher que fez o escritor. Que inspirou o livro que me trouxe a esta profissão. Dorme agora num beliche do Porto Quente. Não tem BI. Nem reforma. Nada, além duma foto num bolso remendado.

Peguei no telemóvel e fui ao site da editora de Caminha. Contactos para propostas. Um email.

Escrevi:

Boa tarde. Sou a Inês, voluntária num abrigo de sem-abrigo em Lisboa. Esta mensagem é para António Caminha. Sei a quem dedicou Vozes do Outro Lado. Margarida de Almeida Castro está viva. Ela está aqui. Tem guardada a fotografia da sua turma, sexto B, 2004. E lembra-se do miúdo que lia poesia depois das aulas para não ir para casa.

Anexei foto da fotografia tirei com o telemóvel durante o dia, depois da conversa. Desfocada mas nítida o suficiente para os rostos.

Enviei.

Fechei o portátil. Juntei as coisas. Saí. Lá fora, vento, cheiro a terra molhada. Na paragem, de mãos a tremer, só percebi ao procurar o passe no bolso.

Três dias sem resposta.

Revisei o email sempre. Nada. Talvez foi para spam. Talvez a editora não passa mensagens pessoais. Talvez ele achou que era engano ou fraude.

Ia ao abrigo, bebia chá com Margarida. Agora conversava mais. Não tudo, só da escola. Falava dos alunos sem nomes, só histórias. Uma menina escrevia poemas e escondia-os na mesa. Eu lia e punha um rebuçado junto. Para ela saber que alguém leu e gostou. Um ano depois leu um poema na festa. As mãos tremiam, mas conseguiu. Ou: Um rapaz andava sempre à pancada, sem razão. Os professores já tinham desistido. Dei-lhe o Principezinho. Nunca mais pegou nas mãos. Depois de um mês veio e disse: Professora, o Principezinho também era sozinho, não era?

Falava dos alunos como quem ainda os tem ao lado. Como se fosse ontem, não há vinte anos.

E pensava: como se esquece alguém que assim nunca esquece de nós?

No quarto dia chegou resposta.

Estava na camioneta, senti o telemóvel vibrar. Email. Não da editora dele. Pessoal. António Caminha. Três linhas:

Inês, recebi a sua mensagem. Estou a caminho. Diga quando posso visitar. Procurei a Dona Margarida quatro anos. Diziam-me que a escola fechou, que ela saiu. Ninguém atendia chamadas. O endereço estava errado. Não consegui mais. Obrigado por me encontrar.

Quatro anos. Precisou de quatro anos. E não encontrou. Porque nessa altura, Margarida já ia de casa em casa, depois em parte nenhuma.

Li e respondi a dar o endereço e a hora do abrigo.

Faltava o mais difícil. Dizer-lhe.

***

Cheguei nessa sexta-feira de manhã. Margarida estava sentada na cama, como sempre. Fotografia nas mãos. Casaco na cadeira. Lá fora, o primeiro sol de primavera, riscos dourados no chão de linóleo. Alguém tinha ligado o rádio ao fundo, uma canção sobre flores brancas.

Sentei-me ao lado. Pus o chá. Ela pegou no copo.

Dona Margarida, tenho algo a dizer-lhe.

Olhou para mim. Esperava.

Encontrei o seu aluno. O que escreve livros. António Caminha. Escreveu o Vozes do Outro Lado o que leu. Quer vir. Ver a senhora.

Ela não se mexeu. O copo ficou a meio caminho dos lábios. Uns segundos eternos. O rádio também se calou, acabando a canção aqui.

Depois, um murmúrio:

Não.

Dona Margarida, espere.

Não quero que me veja assim. Aqui. Neste sítio. Neste casaco. Não quero.

Baixou a cabeça. E vi, pela primeira vez em todas as semanas, as mãos a tremer. Os dedos brancos. O copo quase caía. Agarrei a tempo.

Tinha vinte e seis anos e fiquei sem palavras. Diante de quem ensinou tantos a escolher as certas e eu incapaz de uma.

Lembrei-me então:

Disse-me: Para não esquecer, ainda se pode regressar.

Margarida ergueu a cabeça.

Disse. Não eu. A senhora. Todos os dias olha para a fotografia porque acredita nisso: que é possível voltar. E agora ele vem. Não se esqueceu de si, Dona Margarida. Procurou-a quatro anos. Verificou contactos, moradas, nunca desistiu.

Olhou-me. Vi a costura interior aquele ponto apertado, que mantinha cada dia, a desfazer-se.

Quatro anos? repetiu.

Quatro.

Voltou à fotografia. Passou o dedo pelo rosto do segundo menino da fila magro, cabelo escuro, mais baixo que os outros.

É o António. Ficava sempre à janela, a olhar o céu. Chamava-o ao quadro e lia com tanta vida que até eu esquecia de respirar.

Dobrou a fotografia e guardou-a. Disse:

Está bem.

António veio no sábado.

Aguardei à porta. Saiu do táxi alto, casaco escuro, pele dourada de quem trabalha ao ar livre. Aproximou-se, com um saco de papel. Dentro, quadrado e achatado.

Inês? perguntou.

Sim.

Obrigado disse, difícil de falar. Não era nervoso. Era uma culpa antiga, acumulada quatro anos.

Levei-o pelo salão. Margarida junto à cama, de pé. Casaco pelos ombros, fotografia no bolso. Costas direitas, igual à imagem de há vinte e dois anos. Preparada como para uma aula.

António parou a três passos. Ficou imóvel.

Dona Margarida?

Ela fez que sim.

Aproximou-se.

É mesmo a senhora. Reconheci a voz, quando disse está bem. Dizia está bem quando eu dominava o texto. Breve. E sorria de lado.

Margarida ficou a vê-lo. O queixo tremeu uma vez.

Cresceu, António.

Cresci. Escrevi um livro. Sobre si. Vozes do Outro Lado é sobre a professora que me ouviu, quando eu nem falava.

Tirou do saco um volume de capa dura, edição especial. Abriu na primeira página.

A.M.C. à professora que me ouviu.

É para si. Sempre foi.

Margarida pegou no livro. Espetou-o contra o peito. Fechou os olhos.

Afastei-me para junto da porta. Não era altura minha. Era deles.

Ficaram juntos muito tempo, sentados lado a lado. Falaram mais de uma hora. Não ouvi ao longe ligaram de novo o rádio. Mas vi Margarida a rir. O riso tapava-o com a mão, de quem perdeu o hábito. António ria também. Depois ficaram só calados e ele apoiou a mão no bolso cosido, onde estava a fotografia.

Chamou-me:

Inês, venha cá.

Aproximei-me.

Diz que foi a menina que lhe deu o meu livro antes sequer de saber quem eu era.

Sim disse. Estava numa caixa, veio parar cá por acaso.

E leu-a aos quinze?

Li.

Olhou para mim. Olhos escuros, onde vi algo sem nome. Não era surpresa. Nem alegria. Uma coisa maior.

Percebe o que aconteceu?

Percebo disse. Margarida ensinou-o. Ele escreveu o livro. Eu li-o, tornei-me voluntária. Encontrei Margarida.

Um círculo.

António levantou-se.

Dona Margarida, não vou deixá-la ficar aqui. Quero ajudar. Trato dos documentos, da casa, se quiser do trabalho.

Não preciso de caridade, disse ela, firme, à professora de sempre.

Não é caridade. É dever. Deu-me uma profissão. Uma voz. Deixava-me maçãs, não fugia. Eu tenho casa, prémio, três livros. A senhora está aqui. Não aceito. Quero corrigir.

Ela ficou calada. Não desviou o olhar.

Não em um dia. Nem em uma semana. O tempo que for preciso. Papéis, quarto, tempo. Não desapareço. Uma vez perdi o seu número, nunca mais a perdi.

Fitou-o. O olhar da fotografia sério, justo.

Está bem, disse. E sorriu. Só de um lado, como ele descreveu.

***

Passou-se um mês.

Subi ao segundo andar dum prédio velho, em Chelas. Dez minutos do Porto Quente. Casa partilhada, três quartos, corredor com uma bicicleta encostada, cheiro a cebola frita da cozinha comum. Margarida vivia no quarto do fundo, janela para o pátio.

A porta estava aberta.

O quarto simples cama, mesa, estante pequena. Arrumado. No parapeito três livros empilhados. No cabide junto à porta, o casaco cinzento. O bolso cosido. Vazio.

A fotografia estava na mesa de cabeceira. Finalmente numa moldura. Madeira clara, simples. Sob o vidro, já não era só recordação à escondida. Era presente. Parte de si, que já não tinha de ocultar.

Margarida lia à janela. Ao ver-me, sorriu.

Chá? ofereceu.

Sim, disse.

Foi fazer. Batiam à porta da cozinha: Bom dia, Dona Manuela! O bule está livre? Falava com quem a rodeia, voz grave, articulada mas mais leve. Como se alguém tivesse finalmente tirado o peso de cada sílaba.

Olhei a fotografia. Professora no quadro, meninos à volta. O tal rapaz magro, segundo da fila, que virou escritor. A professora que ficou sem casa. E recuperou.

António cumpriu. Papéis tratados em três semanas contratou advogado. BI, número de utente, cartão de reforma. O quarto arranjou-o a Rita tinha contactos na Junta de Freguesia. António pagou os primeiros seis meses. E Margarida já candidatou à vaga de bibliotecária na Biblioteca Municipal da Praça de Espanha a Rita ajudou com as referências.

Trouxe-me dois copos de chá de hortelã. Como antes, mas papel trocado. Antes eu levava-lhe, agora ela servia-me.

Obrigada, disse.

Pelo chá?

Pela ideia. Que ainda se pode voltar.

Margarida sentou-se. Agora, numa blusa clara, colarinho miúdo, como na fotografia.

Sabes disse , voltar não é ir atrás. Não é a escola. Nem Setúbal. Nem 2004. Voltar é reencontrar quem és. Pensei que a foto era sobre o passado. Era do futuro. Aquilo que ficou inteiro, mesmo quando tudo à volta caiu.

Olhou para a fotografia, depois para mim. Agora vê pessoas, não só recordações. Voltou.

Acabei o chá. Levantei-me.

Venho quinta-feira disse.

Vem. Eu cá estou.

Estas duas palavras Eu cá estou. Para quem não teve morada meses, isto é tudo.

Saí. Abril, o ar cheirava a terra e a erva nova os arbustos do pátio já tinham folhas pequenas, frescas, de verde intenso. Caminhei, pensava: aos quinze, li um livro e decidi: quero estar perto, quando faz mesmo falta.

Agora estou. Aqui. Perto.

A fotografia está na mesa. Não no bolso. Não nas mãos. Na moldura, à mostra. E a mulher nela sorri, larga, aberta, de quem sente conforto.

Tal e qual como Margarida, há pouco, ao servir-me chá.

É possível regressar. Ela provou.

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A Rapariga com uma Só Fotografia
As circunstâncias não surgem sozinhas. São criadas por pessoas. Você criou as condições para abandonar um ser vivo na rua. E agora quer mudar tudo, quando lhe convém. Oleg voltava do trabalho para casa. Era uma típica noite de inverno portuguesa, quando tudo parece coberto por um véu de monotonia. Passou em frente ao supermercado do bairro e viu um cão sentado à porta. Vira-lata. Pêlo ruivo, desgrenhado. Olhar perdido, como o de uma criança que se perdeu. — Que fazes aqui? — resmungou Oleg, mas parou. O cão ergueu a cabeça e olhou. Não pedia nada. Só olhava. “Deve estar à espera dos donos”, pensou Oleg, e seguiu caminho. Mas no dia seguinte — a mesma cena. E no outro também. O cão parecia ter-se tornado parte daquele lugar. Oleg começou a reparar: as pessoas passavam, alguns deixavam um pedaço de pão, outros uma salsicha. — Então, por que estás aqui? — perguntou um dia, ajoelhando-se ao lado do animal. — E os teus donos? O cão aproxima-se, com cautela, e encosta o focinho à perna de Oleg. Oleg ficou imóvel. Há quanto tempo não fazia uma festa a alguém? Desde o divórcio tinham-se passado três anos. O apartamento vazio. Só trabalho, televisão, frigorífico. — Lada, querida, — sussurrou, sem saber de onde veio o nome. No dia seguinte levou-lhe salsichas. Passada uma semana, publicou um anúncio na internet: «Cão encontrado. Procuram-se donos». Ninguém respondeu. Um mês depois, Oleg regressava de um turno longo — era engenheiro, por vezes ficava de serviço toda a noite. E viu uma multidão junto ao supermercado. — O que aconteceu? — perguntou à vizinha. — Atropelaram o cão. Aquela que estava aqui há um mês. Coração apertado. — Onde está? — Levaram-na à clínica veterinária na Avenida Sophia de Mello Breyner Andrade. Pedem uma fortuna… Quem vai querer tratar uma sem-abrigo? Oleg não disse nada. Virou-se e foi a correr. Na clínica, a veterinária abanou a cabeça: — Fraturas, hemorragia interna. O tratamento será caro. E não garantimos que sobreviva. — Trate, — disse Oleg. — Pago o que for preciso. Quando Lada teve alta, levou-a para casa. E, pela primeira vez em três anos, o apartamento de Oleg encheu-se de vida. A vida mudou. Radicalmente. Oleg já não acordava com o despertador, mas com o toque suave do focinho da Lada, como se dissesse: “Chegou a hora, dono.” E ele levantava-se. Com um sorriso. Antes, a manhã começava com café e notícias. Agora — com um passeio no Parque das Nações. — Vá, menina, vamos apanhar ar fresco? — dizia, e Lada abanava a cauda, feliz. Na clínica trataram da documentação. Passaporte, vacinas. Ela estava oficialmente registada como sua cadela. Oleg até fotografou todos os documentos para garantir. Colegas estranhavam: – Oleg, parece que rejuveneceste! Estás tão animado. E era verdade — sentia-se finalmente útil e necessário. Lada provou ser inteligente. Muito inteligente. Entendia tudo ao mínimo gesto. Se ele demorava a chegar do trabalho, encontrava-o à porta com um olhar que dizia “Preocupei-me”. À noite, passeavam pelo parque. Longamente. Oleg contava-lhe sobre o trabalho, sobre a vida. Engraçado? Talvez. Mas ela parecia ouvir com interesse, atento, por vezes dava um gemido baixo, como resposta. — Sabes, Lada, antigamente achava que era mais fácil sozinho. Ninguém incomoda, ninguém exige nada. No fundo, só tinha medo de voltar a amar alguém. Os vizinhos habituaram-se aos dois. Dona Vera, do rés-do-chão, guardava sempre um ossinho. — Cão bonito, — dizia ela. — Vê-se que é estimada. Passou um mês. Mais outro. Oleg até pensou em criar uma página nas redes sociais para publicar fotos da Lada. Ela era fotogénica — o pêlo ruivo brilhava ao sol como ouro. Mas então aconteceu o inesperado. Passeio normal no parque. Lada cheirava os arbustos, Oleg sentado num banco, ao telemóvel. — Diana! Diana! Oleg ergueu a cabeça. Aproximava-se uma mulher, cerca de trinta e cinco anos, fato de treino caro, loira, maquilhada. Lada ficou alerta. E encolheu as orelhas. — Desculpe, — disse Oleg. — Enganou-se. Esta é minha cadela. A mulher pôs as mãos na cintura. — Como assim sua? Não sou cega, sei que é a minha Diana! Perdi-a há meio ano! — O quê? — Exatamente! Fugiu à porta de casa, procurei-a por todo o lado! E você roubou-a! O chão pareceu fugir debaixo de Oleg. — Espere. Como se perdeu? Eu recolhi-a ao pé do supermercado. Esteve lá um mês, abandonada! — E porquê? — a mulher aproximou-se. — Porque se perdeu! Adorava-a! Eu e o meu marido comprámos-a de propósito, foi caríssima! — Caríssima? — Oleg olhou para Lada. — É um rafeiro… — É mestiça! Fui muito cara! Oleg levantou-se. Lada encostou-se às suas pernas. — Muito bem. Se é sua, mostre os documentos. — Que documentos? — Passaporte de vacinação. Certificados. Qualquer coisa. A mulher hesitou: — Estão em casa! Mas não tem importância! Eu reconheço-a! Diana, vem cá! Lada nem se mexeu. — Diana! Aqui, agora! A cadela só se encolheu mais junto de Oleg. — Está a ver? — disse ele, baixinho. — Não a reconhece. — Só está ressentida por eu a ter perdido! — insistiu a mulher. — Mas é minha! E exijo que ma devolva! — Eu tenho documentos, — respondeu Oleg com calma. — Ficha da clínica, onde a tratei depois de ter sido atropelada. Passaporte em meu nome. Talões da ração. Dos brinquedos. — Não quero saber dos seus papéis! Isto é roubo! Passantes começaram a olhar. — Sabe que mais? — Oleg pegou no telemóvel. — Vamos resolver legalmente. Chamo a polícia. — Chame! — bufou a mulher. — Tenho testemunhas! — Quem? — Os vizinhos viram quando ela fugiu! Oleg ligou. O coração batia forte. E se ela estiver certa? E se Lada fugiu mesmo dela? Mas então porque ficou tanto tempo no supermercado? Porque não voltou para casa? E mais: porque agora treme junto dele, escondendo-se? — Alô? Polícia? Preciso de ajuda… A mulher sorriu, rancorosa: — Vai ver. A justiça será feita. Devolva-me a cadela! E Lada não saía do lado de Oleg. Foi então que Oleg compreendeu — ia lutar por ela. Até ao fim. Porque nesses meses Lada tornou-se não só um cão. Tornou-se família. O agente de polícia chegou meia hora depois. Sargento Rodrigues — homem calmo e atento. Oleg conhecia-o da administração do condomínio. — Contem o que aconteceu, — pediu, abrindo o bloco de notas. A mulher falou primeiro. Ansiosa, confusa: — É minha cadela! Diana! Comprámo-la por dez mil euros! Há meio ano fugiu, procurei-a por todo o lado! E este senhor roubou-a! — Não roubei, recolhi-a, — contrapôs serenamente Oleg. — Junto ao supermercado. Esteve ali um mês a passar fome. — Por quê? Porque se perdeu! Rodrigues olhou para Lada. Ela continuava junto a Oleg. — Algum documento? — Eu tenho, — Oleg tirou a pasta. Por sorte, ainda a tinha na mochila do último veterinário. — Ficha da clínica, da vez que foi atropelada. Passaporte. Vacinas todas em dia. O agente analisou os papéis. — E a senhora? Tem documentos? — Estão em casa! Mas não interessa! Eu digo-lhe: é minha Diana! — Quer explicar em detalhe como a perdeu? — perguntou Rodrigues. — Bem, estava a passear… soltou-se da trela e fugiu. Procurei, preguei anúncios. — Onde passeou? — No parque. Aqui perto. — E mora onde? — Na Avenida Sophia de Mello Breyner Andrade. Oleg sorriu, estupefato: — Desculpe. Isso é a dois quilómetros do supermercado onde a encontrei. Como foi lá parar? — Perdeu-se, suponho! — Os cães costumam saber o caminho de casa. A mulher corou: — O que é que você sabe de cães?! — Sei, — disse Oleg baixinho, — que um cão estimado não fica um mês abandonado no mesmo lugar. Procura quem gosta realmente dele. — Uma pergunta, — interrompeu Rodrigues. — Procurou a cadela, pregou anúncios. Contactou a polícia? — À polícia? Não pensei… — Meio ano? Perde uma cadela de dez mil euros e não contacta a polícia? — Achei que voltaria. O agente franziu o cenho: — Por favor, os seus documentos. — Quais documentos? — Bilhete de identidade. E morada. A mulher procurou nervosa na mala. — Aqui está. Rodrigues conferiu: — Está realmente na Avenida Sophia de Mello Breyner Andrade. Prédio quinze. Qual o apartamento? — Vinte e três. — E quando perdeu a cadela? — Meio ano atrás, por volta disso. — Data exata? — Vinte de janeiro ou vinte e um. Oleg pegou no telemóvel: — Eu recolhi-a a vinte e três de janeiro. E já estava ali quase um mês. Isto quer dizer que a cadela “deve ter-se perdido” antes disso. — Talvez tenha falhado as datas! — começou a mulher a balbuciar. E de repente quebrou: — Pronto! Fique com ela! Mas eu… eu gostava dela! Silêncio. — Como pôde? — perguntou Oleg. — O meu marido disse — vamos mudar de casa, não aceitam animais. Não consegui vendê-la — era só uma rafeira. Deixei-a à porta do supermercado, pensei que alguém a levaria. Oleg sentiu-se despedaçado. — Abandonou-a? — Só deixei. Não abandonei! Pensei que a recolhiam. — E agora quer levá-la? A mulher chorou: — Estou sozinha. Senti falta dela. Gostava dela! Oleg encarou-a, incrédulo. — Gostava? — repetiu. — Não se abandona quem se ama. Rodrigues fechou o bloco: — Está tudo claro. Oficialmente, a cadela pertence ao cidadão… — conferiu o bilhete de Oleg, — Voronenko. Ele tratou, registou, alimentou. Do ponto de vista legal, ela é dele. A mulher chorou: — Mas quero-a de volta! — Agora é tarde, — respondeu o agente. — Abandonou, abandonou. Oleg sentou-se ao lado de Lada, abraçou-a: — Pronto, menina. Está tudo bem. — Posso ao menos fazer-lhe uma festa? — pediu a mulher. — Só uma vez? Oleg olhou para Lada. Ela encolheu as orelhas, aninhou-se nele. — Vê? Ela tem medo de si. — Não fiz por mal. As circunstâncias assim o ditaram. — Sabe, — Oleg levantou-se. — As circunstâncias não surgem sozinhas. São criadas por pessoas. Você criou as condições para abandonar um ser vivo na rua. E agora quer mudar tudo, quando lhe convém. A mulher chorou: — Eu entendo. Sinto-me tão sozinha. — E ela? Como foi esperar um mês por si? Silêncio. — Diana, — chamou ela, pela última vez. A cadela nem se mexeu. A mulher virou costas, saiu apressadamente. Sem olhar para trás. Rodrigues deu uma palmada no ombro de Oleg: — Foi a escolha certa. Nota-se que ela gosta de si. — Obrigado. — Eu próprio sou criador de cães. Sei bem o que é. Quando o agente foi embora, Oleg ficou a sós com Lada. — Pronto, — disse ele, afagando-a. — Ninguém mais nos separa. Prometo. Lada ergueu o olhar. E Oleg viu algo que não era gratidão, mas amor sem limites. Amor — Vamos para casa? Ela ladrava, feliz, caminhando ao seu lado. Pelo caminho, Oleg pensava: afinal aquela mulher tinha razão numa coisa. As circunstâncias podem mudar. Pode perder-se trabalho, casa, dinheiro. Mas há coisas que não se podem perder: responsabilidade, amor, compaixão. Em casa, Lada deitou-se na sua manta favorita. Oleg preparou chá, sentou-se ao lado. — Sabes, Lada, — disse ele pensativo. — Talvez tenha sido o melhor. Agora sabemos que precisamos um do outro. Lada suspirou de contentamento.