AQUELE MARÇO
Março não é apenas um mês, mas sim uma prova anual de resistência mental.
Especialmente quando o amor que se vive é tão imprevisível quanto o clima lá fora: ora primavera, ora apocalipse, ora parece que alguém derramou tinta cinzenta por toda Lisboa.
O início do namoro do Olegário e da Mafalda deu-se em março, e isso explica tudo.
Enquanto outros casais se encontravam sob os perfumados plátanos da Avenida da Liberdade, estes dois cruzaram-se quando Olegário, sem querer, espirrou uma poça nos jeans brancos de Mafalda, e ela, em vez de fazer drama, retribuiu lançando-lhe um pedaço de neve que parecia esconder um calhau.
Foi amor ao primeiro ricochete.
Março, nesta cidade, é aquela fase em que o romantismo só se aventura nas ruas com galochas de borracha.
Vamos dar uma volta?
sussurrava Olegário ao telefone, com ternura.
E eu, tenho barco acaso?
respondia Mafalda, sempre com razão.
Levo-te às cavalitas.
No fim, os encontros deles pareciam treinos de forças especiais em zonas pantanosas.
Olegário, heroicamente, carregava Mafalda nos braços por lagos de lama, enquanto ela segurava sobre ele um guarda-chuva descontrolado que ameaçava voar para o Porto com os sonhos de pés secos.
Sabes, Olegário filosofava, com o pé direito a chafurdar, é aí que está a profundidade dos sentimentos.
Somos como dois patos do Jardim da Estrela.
Os patos partiram para o sul em outubro, Olegário.
Nós somos dois pinguins distraídos que perderam o caminho até à Antártida.
O amor estranho deles aparecia nos pequenos gestos.
O verdadeiro sentimento em março não é um anel escondido numa taça de champanhe (onde, de certeza, flutuaria um cubo de gelo), mas sim a última pastilha de paracetamol, dividida a meio.
Para ti declarou Olegário, entregando-lhe metade do comprimido.
Sai do coração.
Porquê está cheia de pelos do gato?
Tempero.
Para reforçar o sistema imunitário.
Mafalda olhava para ele com um gorro idiota de pompom, nariz vermelho e olhos que brilhavam com febre e percebia: era isso.
Era o código do universo a falhar, juntando dois seres capazes de rir com febre (coisa que, para homens, equivale quase à morte).
O momento mais romântico veio no fim do mês.
Finalmente apareceu sol e mostrou tudo o que o inverno escondia debaixo do gelo.
A cidade parecia cenário de um filme sobre a revolta dos funcionários da Câmara Municipal.
Estavam na Ponte 25 de Abril.
O vento soprava com trinta quilómetros por hora, tentando arrancar o casaco de Olegário.
Mafalda começou ele, tentando superar o ruído da primavera , queria dizer És para mim como a primeira campainha!
Pálida e teimas em nascer no meio do lixo?
Mafalda ajustou o cachecol, já enrolado três vezes na cabeça.
Olegário hesitou.
Não.
Forte.
Mesmo depois deste março caótico, continuas comigo.
Até depois de eu ter deixado o teu telemóvel cair num monte de neve que afinal era só lama.
Mafalda encarou-o, espirrou (em simultâneo com o eléctrico que passava) e riu.
Vá, príncipe-campainha, volta comigo para casa.
Comprei um quilo de limões e pesquisei receita de vinho quente.
Se sobrevivermos a este domingo, declaro o nosso amor património nacional.
Caminharam pela rua, contornando blocos de gelo nos passeios.
Era um amor profundo.
Bem profundo até ao joelho, precisamente a altura da água no nosso prédio.
Mas tudo lhes parecia igual.
Porque em aquele março o importante não eram os sapatos limpos, mas de quem se segurava a mão, mesmo a escorregar rumo ao inevitável abril
Mais um ano passou.
Novo aquele março.
Lisboa voltou a parecer cenário de um filme Mundo Aquático, mas feito com orçamento de três euros.
Olegário e Mafalda estavam diante da enorme poça que ocupava todo o pátio do prédio.
Os vizinhos colavam-se aos muros, tentando fingir que o gelo era chão, enquanto um velhote olhava para o céu, esperando, se não um helicóptero, pelo menos um pombo com ramo de oliveira.
Olegário Mafalda olhou para os seus ténis brancos novinhos, comprados num momento de otimismo injustificado , somos adultos.
Temos casa para pagar, trabalho, relatórios para entregar.
Não podemos simplesmente
Podemos interrompeu Olegário, tirando detrás das costas, como um mágico, dois pares de galochas amarelas com patinhos felizes estampados.
Comprei ontem.
O teu tamanho.
Mafalda suspirou.
Era aquele amor profundo, quando o parceiro não só sabe o tamanho do teu pé, mas também o grau de tua predisposição para a loucura.
Cinco minutos depois, estavam no meio da poça.
A água saltava alegre, o sol reflectia nos pedaços de lama, e os transeuntes olhavam como se tivessem escapado de uma instituição, boa mas muito reservada.
Sabes, Mafalda pulou, lançando um jacto de água sobre o vizinho de chapéu de peles , é o melhor começo de primavera!
Código Patinho Amarelo respondeu Olegário com solenidade.
O universo tentou afogar-nos na tristeza, mas temos calcanhares à prova dágua.
Ali estavam, no meio daquele caos primaveril ridículos, encharcados, mas totalmente em sintonia.
Era um amor estranho, entendido só por quem sabe encontrar o fundo onde todos só veem lama.
Olegário abraçou-a, e nesse instante o sol bateu tão forte que das suas roupas começou a sair vapor.
Estamos a arder observou Mafalda.
Não sorriu Olegário.
Só estamos finalmente aquecidos à temperatura certa.
Naquele março, aprenderam o essencial: se a vida te enche de poças, compra as galochas mais coloridas e aprende a dançar nelas
E assim percebi: o verdadeiro amor não teme a lama, nem a chuva, nem os equívocos do tempo.
Na vida, o que conta é estar ao lado de quem sabe transformar desastres em risadas e lama em primavera.






