NAVALHA
Lembro-me de quando o Manuel e a Leonor se conheceram num serão solidário, organizado no salão do Clube Galego, ali à margem do Tejo.
Naquela época, ambos tinham vidas perfeitas à vista de todos: Manuel, casado com Teresa, com duas filhas e uma reputação de arquitecto respeitado em Lisboa; Leonor, esposa de um investidor bem sucedido, doze anos de casamento rigoroso, feito de rotinas precisas como um relógio suíço.
Não foi paixão imediata.
Foi reconhecimento.
Era como se fossem feitos da mesma pólvora, guardada há anos num congelador.
Quando as nossas mãos se tocaram ao trocar o copo de vinho, percebi que tudo aquilo que construí casas, desenhos, a vida era afinal um castelo de cartas, recordaria Manuel, muito tempo depois.
A paixão não pede licença.
Começou com mensagens às três da manhã e tornou-se febre.
Encontravam-se em pensões baratas nos arredores de Lisboa, nos carros, em escritórios vazios ao final da tarde.
A traição tornou-se o ar que ambos respiravam.
A mentira era o único idioma que falavam com os seus.
Manuel olhava Teresa ao jantar e sentia-se um fantasma.
Ela comentava as notas das filhas na escola, mas ele só via o contorno da boca de Leonor.
Leonor deixou de dormir.
Tremia cada vez que o marido ligava, odiando-o pelo género de honestidade inculpável dele.
Aquele amor era como anestesia sem cirurgia: delírio no momento, mas a realidade cortava quando o efeito passava.
Um segredo nunca permanece: ali não só apareceu, explodiu.
Família de Manuel:
Uma foto esquecida no telemóvel.
O grito de Teresa, que ele nunca mais apagou da memória.
As filhas já não lhe olhavam nos olhos.
Manuel saiu de casa com uma mala, deixando atrás de si ruínas daquilo que sempre chamou de fortaleza.
Família de Leonor:
Ela confessou.
Não conseguiu continuar a simular.
O marido não gritou.
Pôs-lhe as coisas à porta e mudou a fechadura nessa mesma noite.
Um fim frio, calculado.
Conseguiram o que queriam: ficaram juntos.
Sem fugas, sem mentiras.
Mas perceberam que a sua paixão alimentava-se do interdito.
Quando caíram as paredes, foi-se o fogo.
Ficaram na solidão de um apartamento alugado, de onde perderam tudo: reputação, o carinho das filhas, o respeito dos amigos.
Amaram-se à navalha.
O corte atravessou as vidas antigas e, ao sair, deixou só corrente de ar.
Sentavam-se, quase sempre, na sala nua, rodeados de caixas por abrir, uma chávena a dividir e um cinzeiro cheio.
Lá fora, a chuva lavava o brilho da cidade que, no passado, lhes parecia cenário duma grande tragédia.
Manuel fitava Leonor.
Sem maquilhagem, sem luz dos restaurantes caros, era transparente, exausta.
Arrependes-te?
perguntou ela, sem virar o rosto.
O tom seco como papel antigo.
Manuel demorou a responder, ouvindo o zumbido do frigorífico.
Não sei como se chama isto, Leonor.
Não é pena.
É como se me tivessem amputado as pernas e dito para correr para onde quisesse.
A tua mulher telefonou?
Ela cruzou os braços.
Não.
O advogado ligou.
Disse que a Teresa não quer que eu vá ao aniversário da mais nova.
Ambiente traumatizante. A minha vida foi chamada de ambiente traumatizante, imagina.
Leonor sorriu amargo, aproximou-se e encostou a testa ao ombro dele.
Ontem o meu marido transferiu o que restava do meu dinheiro para uma conta independente.
Chamou-lhe indemnização de doze anos de fidelidade.
Nem sequer está zangado, Manuel.
Apagou-me, como se fosse uma errata no contrato.
Era isto que queríamos?
Manuel segurou-lhe o queixo, obrigando-a a olhar.
Queríamos um ao outro murmurou ela.
Mas não percebemos que este nós só existia entre as nossas velhas vidas.
Agora só temos isto.
É tão ténue, Manuel.
Não aguenta paredes.
Antigamente, a tua voz deixava-me sem ar ele tocou-lhe a face.
Agora ouço nela o pranto dos teus filhos.
Quando te olho, vejo o silêncio da tua casa vazia.
Caíram no mutismo.
A paixão que outrora tudo queimava agora mal aquecia.
Perfuraram suas vidas à navalha, deixando o vento frio da realidade a passar pelos buracos.
Não vamos aguentar isto, pois não?
disse ela baixinho.
Temos de aguentar respondeu Manuel, em voz de quem fala para o vazio.
Pagámos demasiado para admitir que não se planta jardim em cinzas.
Um ano depois, a vida era mais reabilitação do que triunfo do amor.
A paixão, outrora combustível, converteu-se em cinza uniforme do quotidiano.
Viviam juntos, naquele mesmo apartamento.
Agora havia cortinas, tapete e cheiro de sopa coisas feitas para esconder o vazio.
Manuel, no espelho, a arranjar a gravata.
Envelheceu muito.
Tinha deixado o gabinete famoso; agora dava voltas para ganhar algum no pequeno escritório onde aceitavam que continuasse até o escândalo esfumar-se.
Leonor apareceu na cozinha de roupão.
Já não era a mulher fatal do serão.
Ficara mais silenciosa, sombra do que fora.
Vais chegar tarde?
perguntou, servindo café.
Sim, o empreendimento em Almada Manuel hesitou e prometi entregar a pensão de alimentos à Teresa em mão.
Ela deixou-me estar com a mais nova meia hora num café.
Leonor parou com o bule no ar.
Foi aquele instante que nunca abordaram, mas que estava sempre ali, como muro invisível.
Está bem respondeu somente.
Não digas nada da minha parte.
Quando Manuel voltou, a casa estava escura.
Só a TV sem som.
Leonor sentada no sofá, a olhar para Luzes de Lisboa.
Correu bem?
perguntou sem se virar.
Cresceu o tom de Manuel fraquejou.
Tem novos ganchos no cabelo.
Chamou-me pai, mas olhou como a um vizinho.
Educada, distante.
Sentou-se frente a Leonor.
Sabe o que me assusta?
Desejei voltar.
Não à Teresa, mas ao tempo em que era inteiro.
Antes de ser este homem que destruiu duas casas por
Não concluiu.
O por ti ficou suspenso, afiado e injusto.
Leonor levantou-se devagar, colocou as mãos nos ombros dele.
Não era um abraço de paixão, mas de sobreviventes ao desastre.
Já somos monumentos de nós próprios, Manuel sussurrou ela.
Não podemos separar-nos porque, se o fizermos, toda a dor traição, sofrimento dos filhos, vergonha será em vão.
Somos obrigados a ser felizes.
É o nosso exílio perpétuo.
Manuel cobriu-lhe a mão com a sua.
À navalha murmurou.
O corte saiu, mas a ferida não sarou.
Aprendemos só a continuar a andar.
No escuro do apartamento, ficavam juntos.
Não por amor, mas por medo de, ao soltarem as mãos, se desintegrarem sem caminho de regresso.
Passaram cinco anos.
O acaso trouxe-os a ambos ao foyer de um novo centro teatral, projecto que Manuel desenhara antes, mas outros terminaram.
Junto à janela panorâmica, com copos de vinho barato, pareciam um casal comum, algo cansado.
Então o elevador abriu.
E estavam ali
Teresa, ex-mulher de Manuel.
Não estava destroçada.
Pelo contrário, tinha uma confiança difícil de quebrar.
Ao lado, um homem robusto, calmo, segurava-lhe o cotovelo como se fosse o maior tesouro.
Ricardo, ex-marido de Leonor.
Seguia um pouco adiante, conversando com a filha mais nova de Manuel agora uma adolescente bonita, de traços firmes.
O mundo encolheu.
Quatro destinos pararam no mesmo ponto.
Manuel desviou primeiro o olhar.
Viu a filha, rindo com Ricardo.
O antigo rival, agora parte da sua família.
Um golpe surdo, mas definitivo.
Leonor empalideceu.
Fixava Ricardo, mais jovem do que há cinco anos.
Os seus olhos nada guardavam daquele tormento que ela deixara atrás.
Só esquecimento.
A humilhação maior de quem achou que a sua traição era fatal.
Eles não só sobreviveram sem nós pensou Leonor tornaram-se melhores.
Teresa reparou neles primeiro.
Não desviou o olhar.
Acenou levemente, como a gente acena a conhecidos remotos, de nome esquecido.
Não havia perdão, apenas indiferença.
Pai?
A filha viu Manuel.
A alegria deu lugar à educação distante.
Olá.
Olá, querida a voz de Manuel trémula.
Vieste?
Sim.
O Ricardo convidou-nos.
A mãe queria muito ver a estreia ela recuou, junto da mãe e Ricardo.
Perto da sua verdadeira família.
Ricardo olhou Leonor.
Um segundo.
Dois.
No olhar, nada da antiga paixão, só urbanidade.
Boa noite disse seco, e tocando o ombro de Teresa, completou: Vamos, está quase o sinal.
Passaram junto deles.
O perfume de Teresa caro, discreto ficou no ar, antes de ser abafado pelo cheiro de pó e maquilhagem.
Manuel e Leonor ficaram ali.
Estão felizes murmurou Leonor.
Sem nós.
Construíram algo verdadeiro nas ruínas.
Não, Leonor Manuel pousou o copo.
A mão tremia.
Nós é que ficámos nas ruínas.
Eles mudaram de obra.
Olhou para as suas mãos.
As mesmas que desenhavam edifícios emblemáticos, e com que destruiu a vida da mulher ao lado.
Perceberam o essencial: amor à navalha não foi início de uma nova vida.
Apenas uma cirurgia, eliminando-os das vidas de quem um dia amaram.
Os pacientes sararam e seguiram em frente.
Os cirurgiões ficaram, sozinhos, na sala de operações, sem saber o que fazer com as ferramentas.






