Querido diário,
Não os convides! Entendes? De jeito nenhum!
Mas é o teu aniversário. Trinta e cinco anos data importante.
Tanto me importa. Não quero vêlos.
António, já chega! Já passaram dez anos.
E ainda faltam dez, depois vinte. Eles são agora coisa do passado.
Inês sentou-se ao meu lado, apertoume a mão, quente e tensa, como sempre quando o assunto volta aos meus pais.
O João ligou. Perguntou se podia vir.
Rui sim, só ele, sem mais ninguém.
Disse que a mãe estava a chorar, que queria verme.
Deixa chorar. Onde estava ela quando me expulsaram de casa? Quando passei noites na casa dos amigos, um de cada vez?
Essa história já a conheço de cor. Na segunda época da universidade, sessão difícil, quase fui excluído. O meu pai, um coronel reformado com princípios de ferro, dizia: Desonra a família sai de casa. E eu fui embora, para o nada.
Mas fizeste o teu caminho. Terminaste outro curso, arranjaste trabalho.
Eu mesmo! Sem eles! E ainda o Rui comprou casa, carro o nosso amiguinho!
Não te zangues com o irmão. Ele não tem culpa.
Não estou zangado, mas não quero encontrar os pais nem à porta.
Inês suspirou. Conversa vã, como sempre. À noite, enquanto lavava a louça, pensei na minha mãe, que não via há três anos antes da sua última respiração. A minha raiva vinha da sua última birra, das punições injustas, dos humilhações. Fugi para outra cidade, mudei de número.
Depois a tia ligou: a mãe tinha falecido hepatite, única no quarto do hospital. Ainda hoje, de noite, ouvi a voz da minha mãe:
Inês, perdoame, e ela deixava o telefone cair.
Em que estás a pensar? António abraçoume por trás.
Na minha mãe.
Ainda te magoas?
Não consigo largar. Deveria ter vindo, ao menos para dizer adeus.
Ela abusou de ti, Inês! Gastou a tua bolsa de estudos.
Mas ela estava doente. A paixão por bebidas é doença, não?
E então? É desculpa?
Não. Mas eu poderia perdoar. Agora é tarde.
António me girou ao peito.
Não te martirizes. Fizeste o que podias. Salvastete.
Mas perdi a alma.
Bobeira. Tens a alma mais luminosa que conheço.
Beijoume na têmpora e eu aninheime nos seus braços. Ele não sabia como viver com culpa. Decidimos celebrar o aniversário em casa. Convidamos quinze pessoas amigos íntimos, colegas, o João com a esposa.
De manhã, Inês agitavase na cozinha: saladas, pratos quentes, um bolo encomendado. Eu ajudava a cortar legumes e a pôr a mesa.
O Rui vem só ele? perguntei entre as tarefas.
Prometeu.
Ótimo.
Por volta das dez horas, os convidados começaram a chegar. O João apareceu às sete e meia, seguido de dois outros que se espremeram pela porta.
O meu pai, grisalho, rígido como um bastão, trajava um fato austero. A mãe, pequena, de vestido floral, trazia uma caixa nas mãos. Eu fiquei imóvel, segurando uma garrafa.
O que isto significa? perguntei.
António, filho a mãe avançou um passo.
Eu não vos convidei.
Viemos por nós mesmos respondeu o pai, com dureza. Temos direito!
Não têm nenhum direito! João, que diabos?
Irmão, não te irrites. São os pais!
Eu não me importo! Saiam!
Os convidados ficaram parados, copos e pratos ao meio do ar. Instalouse um silêncio constrangedor.
António, não é preciso Inês tocoume a mão.
Não! explodi. Dez anos não me conheceram! Ignoraram o meu casamento! Não reconhecem o meu neto! E agora aparecem?
Queríamos felicitaro a mãe estendeu a caixa. Feliz aniversário.
Guardem as felicitações não preciso de nada vosso!
António, chega! bradou o pai. Comportate como homem!
Como me ensinaste? Expulsar quem vacilou?
Desonraste a família!
Eu era só um estudante! Um estudante que não passou a sessão!
Por causa de festas e garotas!
E daí? Isso justifica me expulsar?
A mãe chorou, o pai corou.
Demoslhe uma lição!
Quebroume a vida! Se não fosse a Inês, os amigos onde estaria?
Não exageres! Sobrevivi!
Sobrevivi sem vocês! E ainda vou viver!
O João tentou intervir.
Calma, por favor. Os convidados
Vão embora! gritei, virandome para a porta. Fora! Ambos!
O pai, ainda mais irritado, proclamou:
Agora sei que fiz a escolha certa. Todo o nosso patrimônio vai para o João. Até ao último cêntimo! E tu, nada. Um vazio!
Não me importo com o vosso dinheiro!
Veremos como cantas quando já não estivermos aqui.
Vai à rua!
Os pais foram embora, a mãe soluçando, o pai a marchar com passos pesados. O João correu atrás, dizendo algo, tentando convencer. O silêncio tomou conta da sala.
Peço desculpa, queridos disse António aos convidados. Discutimos questões familiares.
Tudo bem, acontece alguém tentou aliviar o ambiente.
Mas a festa ficou arruinada. Os convidados dispersaramse rapidamente, restando apenas o João, pálido e abatido.
Por que os trouxeste? perguntei, cansado.
Pensei que se reconciliariam. A mãe pediu.
Ela pode pedir quanto quiser. Para mim, é indiferença.
Irmão, não é justo. Já são velhos.
E daí? Velhice é indulgência?
O pai falou sério sobre herança. Não te deixará nada.
Ainda bem. Não preciso das suas ajudas!
O João saiu. Inês recolheu a mesa em silêncio. Eu sentei no sofá, o rosto encostado nas mãos.
Fiz a coisa certa?
Não sei. Mas entendote.
Nem sequer pediram desculpa. Vieram como se nada tivesse acontecido.
O orgulho impede.
E o meu orgulho? Poderia ter sido esmagado?
Inês sentouse ao meu lado e abraçoume.
Não pode. Mas às vezes às vezes é melhor perdoar antes que seja tarde demais.
Como está a tua mãe?
Está bem.
Essa é outra história, Inês. A tua mãe estava doente. A minha apenas pessoas duras.
Talvez. Ou talvez simplesmente não saibam amar de outra forma.
Três anos depois, numa manhã comum, eu preparavame para ir trabalhar quando o telefone tocou. Era o João.
Irmão, o pai está no hospital. AVC.
Algo quebrou dentro de mim.
A sério?
Os médicos dizem pode não sobreviver.
Entendo.
Vais?
Não sei.
António, ele é o teu pai. Faz o que for preciso.
Desliguei o telefone. Inês me observou, curiosa.
O pai está à beira da morte.
Vai.
Por quê? Ele não me quer.
E tu? Queres que ele vá embora assim?
Fiquei mudo, lembrandome da infância: o pai a ensinarme a andar de bicicleta, pescarias no lago, a primeira mochila enorme na escola, a mão forte do meu pai. Quando tudo se rompeu? Quando o pai, antes protetor, tornouse tirano?
Vai, insistiu Inês. Depois será tarde.
No hospital, cheirava a medicamentos. A mãe, ainda magra, sentava no corredor, perdida. Quando viume, agarrouse a mim.
António! Chegaste!
Abraçoume, mas eu estava como uma estátua, sem respostas.
Como está o pai?
Mal. Os médicos não dão esperança.
Posso entrar?
Está inconsciente, mas dizem que ainda ouve.
Entrei no quarto. O pai, em macas, tubos, gotas, monitores. Não era o coronel temível, mas um avô frágil. Sentei ao seu lado, segureilhe a mão fria como pluma.
Pai, sou eu. António.
Silêncio. Só o bip dos monitores.
Eu tenho que dizer. Estive zangado, guardado rancor por muito tempo. Por te ter expulsado, por não me teres ouvido, por preferires o Rui ao invés de mim.
A sua mão tremeu.
Mas sabes que perdoote. Ouçote agora. Perdoarte.
Os olhos do pai abriramse lentamente, turvos, mas reconheceramme.
Pai?
Ele quase sussurrou. Eu me inclinei.
Por perdoa
Uma palavra quase inaudível, mas eu escutei.
Eu perdoote, pai. Está bem.
Ele fechou os olhos outra vez, mas o rosto estava sereno. Permaneci ali, falandolhe da vida, do trabalho, da família, do neto que nunca chegou a conhecer.
Naquela noite, o pai partiu silenciosamente, como um sonho que se dissolve. A mãe disse que ele esperava esperava o perdão.
Depois do funeral, Inês e eu sentámonos em casa, a beber chá em silêncio.
Como te sentes? perguntou ela.
Estranho. Pensava que ia me libertar, mas dentro há um vazio.
Fizeste bem em vir.
Sabes, ele disse perdoo. A primeira vez na vida.
O orgulho desmoronou perante o mundo.
Eu também.
Inês ergueuse, olhoume nos olhos.
António, perdoate a ti próprio. Pela tua mãe. Ela nunca teria querido que te castigasses.
Como sabes?
Porque os pais amam os filhos, mesmo que de forma torta, ferida, mas ainda assim amam. E perdoam.
Inês chorou. Eu abraceia, apertandoa contra mim.
Ambos somos tolos. Guardámos mágoas, mastigámosas. Mas deveríamos simplesmente perdoar.
Agora sabemos.
Mas já é tarde para eles. Mas ainda estamos vivos. Podemos viver sem esse peso.
Lá fora, caía a primeira neve do inverno, pura e branca, como o perdão, como uma nova página.
Fico a pensar no meu pai e no que poderíamos ter feito antes. O tempo perdido em agressões. Mas, ao menos, consegui dizer as palavras. E isso já é muito.
**Lição:** a soberba nos cega, mas o perdão nos liberta. Aprendi que não devemos esperar o fim dos nossos pais para reconciliarnos; o amor, mesmo que imperfeito, merece ser reconhecido antes que seja tarde.







