Aos 54, durante quatro anos cozinhei, lavei e passei a ferro para o Igor. Mas uma noite com a mãe dele na minha cozinha mudou tudo.

Conhecemo-nos no centro de saúde, à espera da consulta. Eu tinha ido por causa da tensão arterial, ele aguardava os resultados das análises. Começámos a conversar. O Rui parecia um homem calmo, sem pressa.

O divórcio já ia em oito anos. O meu filho há muito que vivia por conta própria. As minhas amigas tinham a vida delas: umas com netos, outras com a horta, outras ainda em exames e hospitais sem fim. E de repente aparecera ali um homem a sério. Não bebia, não armava escândalos, não levantava a mão.

Na altura pensei: é um presente do destino.

É incrível como, por vezes, baixamos tanto a fasquia. Não bater já parece bom.

O Rui trabalhava num armazém. O ordenado era pequeno, mas, como ele gostava de repetir, «estável». Era a palavra preferida dele.

Estável era o cansaço.

Estável era a queixa das costas.

Estável era a impossibilidade de ajudar em casa.

E estável era a exigência de jantar prontinho às sete da tarde.

Quando se mudou para minha casa, trouxe dois sacos de viagem, um portátil velho e a mãe no telemóvel.

A mãe ligava todos os dias.

No princípio até me fazia graça.

Coitada, preocupava-se com o filho.

Depois percebi que aquele eterno:

— Já comeste?

— Não constipaste?

— A Margarida deve estar sempre a abrir as janelas, por isso é que ele tosse…

soava como se eu estivesse a matar o filho dela à fome e a deixá-lo ao vento.

No primeiro ano, tudo me pareceu suportável.

Eu cozinhava — ele comia.

Eu lavava a roupa — ele vestia.

Eu comprava mantimentos — ele lastimava:

— Tudo tão caro.

E dizia isto como se eu própria tivesse combinado os preços com os supermercados.

Uma vez por mês entregava-me dinheiro.

Cem euros.

Às vezes cento e cinquenta.

E fazia-o com um ar de quem acabara de pagar a hipoteca do prédio inteiro.

— Toma, para a casa. Nada de gastos extras.

E eu pagava as contas da água, da luz, do gás, comprava comida, produtos de limpeza, os medicamentos para as costas dele, meias, carne em promoção.

O pior é que ainda me sentia grata por aquele dinheiro.

Isso é o que mais me assusta hoje.

Depois do jantar, o Rui suspirava fundo.

— O arroz está seco. A minha mãe fazia-o soltinho e macio ao mesmo tempo.

Ainda hoje não percebo como é possível.

Deve ser uma magia especial que só as mães de filhos adultos conhecem.

Ou então:

— Pouco sal.

— Então tempera.

— Já estou sentado.

A pessoa já se instalara à mesa.

Logo, o mundo todo tinha de se adaptar.

Eu levantava-me.

Trazia o sal.

Depois o pão.

Depois o chá.

Depois o comando da televisão, que estava a meio metro dele.

— Margarida, tu estás mais perto.

Eu estava sempre mais perto.

Da cozinha.

Da casa de banho.

Do trabalho.

Até do outro mundo, provavelmente, estaria mais perto eu.

Aos poucos, comecei a cansar-me.

Não só fisicamente, embora também.

Chegava a casa depois do trabalho, tirava os sapatos e sonhava com cinco minutos de silêncio.

Apenas cinco.

Mas logo do quarto se ouvia:

— Chegaste tão tarde? Estou com fome.

Não:

— Estás cansada?

Não:

— Queres que ponha a chávena ao lume?

Só:

— Tenho fome.

A loiça era sempre eu que lavava.

O Rui tinha uma alergia especial — à pia.

Mal via pratos sujos, lembrava-se logo das dores nas costas.

— Eu ajudava, mas tu sabes…

Sim, eu sabia tudo.

Que comprimidos tomava de manhã.

Que fiambre preferia.

Que a mãe dele não podia comer cebola.

Que ele não podia com pesos, acordar cedo, deitar-se tarde, limpar a casa de banho nem levar o lixo sem que lho pedissem.

Mas o que eu gostava — ninguém nunca perguntou.

Um dia propus dividirmos as despesas a meias.

Ele estranhou:

— A meias como? Ganho menos que tu.

— Percebo.

— Então porque é que me estás a pressionar?

Eis.

Não pedi diamantes nem prendas caras.

Só sugeri pagarmos juntos as compras e as contas.

E tornei-me logo numa mulher que pressiona.

Naquela mesma noite, ligou à mãe.

Pôs o altifalante de propósito.

Depois de ouvir a história, a dona Amélia disse friamente:

— Margarida, quer fazer do meu filho um inquilino?

Eu estava ao fogão, a mexer a massa.

Apeteceu-me responder:

«Os inquilinos ao menos pagam o quarto.»

Mas calei-me.

Por enquanto.

Mais tarde, o Rui arranjou um novo emprego.

O ordenado subiu.

Mas apareceram camisas diárias.

Brancas.

Azuis.

Às riscas.

E todas precisavam de ser passadas a ferro.

Nas primeiras semanas, fiz isso depois do trabalho.

Depois do jantar.

Depois de arrumar a cozinha.

Estava à tábua de engomar, enquanto na sala o televisão ligado e o Rui estendido no sofá.

— A manga está mal passada.

— Rui, já estou nisto há uma hora.

— Mas não é para mim, é para o trabalho.

No dia seguinte, sem avisar, apareceu a dona Amélia.

Trouxe para o filho um prato de massa à bolonhesa e pô-lo em cima da mesa como quem diz:

«Isto sim, é comida a sério.»

E eu nesse momento estava a cortar uma salada.

Depois chegou aquela quinta-feira.

A pior de todas.

Cheguei a casa quase às nove da noite.

No saco, maçãs e um iogurte — para mim.

Abro a porta e vejo a dona Amélia na minha cozinha.

Com o meu roupão.

Aquele roupão azul, macio, com um bolso onde eu costumava pôr os óculos.

Ao lado, cinco camisas amarrotadas e o ferro de engomar.

O Rui saiu do quarto.

— Precisamos de falar duma coisa.

Eu descalçava as botas devagar.

Porque, se o fizesse depressa, uma delas podia muito bem voar para a cabeça de alguém.

Mas sou uma mulher educada.

Às vezes, isso atrapalha muito a vida.

— Amanhã tenho de estar no escritório às oito — disse o Rui. — Não tenho tempo para passar a ferro.

— Então passa agora.

— Estou cansado.

Olhei para o sofá.

Para o prato com migalhas.

Para a mãe dele no meu roupão.

Para o ferro.

E então ele disse, com toda a calma:

— Se não consegues à noite, levanta-te às cinco da manhã e passa as camisas. É obrigação da mulher.

E de repente vi o quadro todo de fora.

Uma mulher de cinquenta e quatro anos está no seu próprio apartamento depois de um dia de trabalho duro.

À sua frente, um homem que mora ali praticamente de graça e come à custa dela.

E ao lado, a mãe dele, envergando o seu roupão, a explicar o que deve ser uma verdadeira mulher.

Fui para o quarto em silêncio.

Tirei do armário os dois sacos com que ele aparecera quatro anos antes.

Coloquei-os no corredor.

E disse calmamente:

— Arruma as tuas coisas.

Ele estava convencido de que eu ia chorar.

Que ia ter medo.

Sinceramente, eu também pensava que sim.

Durante quatro anos uma pessoa enraíza-se na tua vida.

Mesmo que pareça uma erva daninha, arrancá-la dói sempre.

Mas fiquei calada.

Depois não foi fácil.

A mão estendia-se automaticamente para pôr o segundo prato na mesa.

No supermercado, pegava no queijo favorito dele e depois devolvia-o à prateleira.

O mais difícil não foi ter saudades dele, foi deixar de me culpar.

Quem é que me quer, a mim, com os meus frascos na varanda, o hábito de ver séries debaixo da manta e os cinquenta e muitos anos?

Mas um dia cheguei a casa, acendi a luz e percebi:

Eu preciso de mim mesma.

Batido?

Talvez.

Mas foi nesse momento que compreendi.

Não como dona de casa.

Não como empregada.

Não como um anexo de um homem.

Apenas como Margarida.

Um mês depois, o Rui voltou.

Com três rosas meio murchas.

Provavelmente, estavam tão cansadas como nós os dois.

Abri a porta, mas não tirei o fecho de segurança.

— Margarida, sinto a tua falta.

— Não quero voltar atrás — respondi com calma.

— Nunca mais?

— Nunca mais.

Ele ainda ficou um bocado no patamar.

Depois foi-se embora sem dizer nada.

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Aos 54, durante quatro anos cozinhei, lavei e passei a ferro para o Igor. Mas uma noite com a mãe dele na minha cozinha mudou tudo.
– Luís, não quero magoar-te ou ferir-te, querido… – Não sou simpático contigo!