Querido diário,
Hoje vivi um dos dias mais absurdos da minha vida. Vim a correr a casa a meio do dia para buscar o cartão de cidadão, que me tinha esquecido. Hoje à noite, o Duarte e eu íamos fazer o último pagamento da franquia da nossa padaria. Era o sonho que alimentávamos há três anos, para o qual poupámos cada euro. Sem o cartão, o notário nem sequer aceitava os documentos.
Mas, em vez de uma casa vazia, encontrei vozes. Ele e uma mulher estavam fechados na cozinha, a discutir. Não deram pela minha entrada.
— Leva as tuas tralhas e põe-te a andar, antes que a Inês chegue. — Aquela voz feminina, seca e atrevida, fez-me parar no hall, ainda com os sapatos calçados.
A voz do Duarte soou estranhamente abafada:
— Espera, não te precipites. Combinámos uma coisa. Dá-me mais um pouco de tempo. Ela não sabe de nada.
— O tempo acabou, querido. Ou resolves a questão hoje, ou eu mesma lhe conto tudo. Estou farta de me esconder e de esperar que a tua santinha decida dividir o que é meu por direito.
Senti o sangue gelar. As pernas ficaram moles, o ar fugiu-me. De repente, todo o nosso projecto, a nossa vida a dois, tudo o que construímos tijolo a tijolo, desmoronou-se. O Duarte tinha outra mulher. E essa mulher exigia uma decisão, reivindicando os nossos bens.
Não tive coragem de ir discutir. O medo paralisava-me. Mas não podia deixar o cartão. Sem ele, a transação em que trabalhámos três anos caía por terra.
Estendi a mão, sem fazer ruído, e agarrei o cartão que estava em cima da cómoda. Depois abri a porta, saí para o patamar e desci as escadas aos saltos.
Na rua, tentei acalmar-me. O pânico transformou-se em raiva. Não ia fazer um escândalo sem preparação. Liguei à minha irmã Madalena.
— Madalena, podes falar? — disse, com a voz a tremer.
— Inês, o que se passa? Está-se mesmo a ver que não estás bem.
— Vou aí ter. Fica em casa, por favor.
Vinte minutos depois, estava eu na cozinha da minha irmã, a apertar uma caneca de chá já frio. Madalena ouviu tudo, abanando a cabeça.
— Que grande sem-vergonha! — exclamou. — E a cantar, a falar na padaria, no negócio de família. Entretanto, traz outra mulher para casa enquanto tu estás a trabalhar. Quem achas que é?
— Não sei. Não lhe vi a cara, mas a voz parecia-me vaga. Era convencida, atrevida. Falou em direitos sobre os bens. Madalena, achas que ele quer tirar-me a minha parte? Nós guardávamos o dinheiro todo na conta dele, para facilitar as transferências.
— Calma, sem pânico. Primeiro, tens de tirar o dinheiro da conta. Mas vamos pensar: no trabalho dele há mulheres?
— Só a contabilista. Espera… a Sónia, a prima dele, que foi para o Porto há três anos.
— A Sónia? Deixa-te disso. Que prima dizia “leva as tuas coisas e desaparece”? Isso é amante. Vamos ligar à Joana, que trabalha no banco; ela percebe destas coisas.
A Joana, nossa amiga de infância, ouviu tudo pelo altifalante e foi directa:
— Se a conta está em nome do Duarte, a Inês não mexe sem a assinatura dele. Mas há um pormenor: assinaram o contrato-promessa da franquia, com a assinatura dos dois. Se ele tentar levantar o dinheiro fora do negócio, os advogados da empresa podem processá-lo por incumprimento. Inês, fala já com o advogado deles. E, acima de tudo, descobre quem é a mulher.
Nesse instante, o telemóvel tocou. O nome do Duarte apareceu no ecrã. Respirei fundo e atendi.
— Inês, onde estás? Já cheguei ao notário, ele espera-nos dentro de meia hora. Conseguiste ir a casa buscar o cartão?
— Sim, Duarte, está aqui comigo. Já estou a chegar, encontramo-nos à porta.
— Perfeito, espero.
— Vai, — disse a Madalena, com ar severo. — Faz de conta que não sabes de nada. Assina os documentos. Se o dinheiro seguir para o negócio, a amante não o apanha tão cedo. Entretanto, nós descobrimos quem é.
No notário, o Duarte esperava-me com um ramo das minhas flores favoritas. Estava a sorrir, muito calmo, e isso irritou-me ainda mais. Como podia ele fingir tão bem? Assinei tudo. A franquia estava comprada, o primeiro passo para o nosso grande objectivo.
Mas não senti alegria. Só uma frieza calculista.
À noite, ele disse que tinha de ir à oficina por causa de uma urgência e saiu. Percebi que era a minha oportunidade. Sabia que ele tinha um portátil velho no box da garagem, com uma segunda conta na nuvem, onde guardava contactos de trabalho e arquivos pessoais.
Chamei um táxi e fui para a garagem. Desculpa: ir buscar os pneus de inverno para o carro da minha irmã; as chaves estavam no chaveiro de casa.
Dentro do box cheirava a óleo. Encontrei o portátil, liguei-o e fiquei parada. A aplicação de mensagens estava aberta na última conversa. A conversa era com uma “Beatriz M.”, mas eu reconheci logo a fotografia: Beatriz, a ex-mulher do Duarte, de quem ele se separara antes de me conhecer. Sempre fora uma mulher invejosa e cheia de mau feitio. Quando se separaram, ele deixou-lhe quase tudo para se ver livre dela. Mas a ganância dela não tinha limites.
Comecei a percorrer a conversa e tudo mudou.
“Prometeste que me davas a minha parte da casa assim que começasses o negócio! Estou-me a cagar para a tua Inês. Se não transferires hoje os cem mil euros, amanhã apresento uma acção de divisão de bens. O prazo ainda não passou. O meu advogado disse que conseguimos bloquear as vossas contas. A vossa loja fecha antes de abrir.”
O Duarte respondera: “Beatriz, tem vergonha. Dei-te o carro e todas as poupanças. A casa comprámo-la juntos, mas tu não puseste lá um tostão. Ajudei-te enquanto pude. Agora cada cêntimo conta para mim e para a Inês. Deixa-me abrir a padaria, daqui a seis meses começo a pagar-te os cem mil euros.”
“Não, hoje! Ou vou fazer um escândalo no trabalho dela. Leva as tuas tralhas da garagem e desaparece da minha vida, mas devolve o meu dinheiro!” — era a última mensagem da Beatriz.
Li duas vezes. A realidade virou-se do avesso. Não havia amante. Havia uma chantagem suja e descarada da ex-mulher, que descobrira a compra e decidira aproveitar-se da ignorância legal do Duarte. E ele, parvo e orgulhoso, tentara proteger-me, resolver tudo sozinho, escondendo de mim a ameaça financeira. Por isso andava a encontrar-se com ela em nossa casa, para lhe entregar os documentos antigos da casa e provar que tinha razão.
Fechei o portátil. A tensão dissolveu-se. Mas fiquei decidida. A Beatriz agia por inveja, por não suportar ver a nossa vida e o nosso sucesso. Não ia deixar que ela destruísse a nossa família.
Liguei à Madalena:
— Madalena, esquece a amante. É pior. A ex-mulher apareceu e está a chantagear o Duarte por causa dos bens.
— A Beatriz? Essa sanguessuga? — exclamou. — Então, Inês, o marido da minha amiga é um óptimo advogado de direito civil. Tiraste fotografias à conversa? Vai para casa, vamos dar-lhe uma lição.
Dois dias depois, fui eu que marquei encontro com a Beatriz num café nos arredores da cidade. O Duarte não sabia de nada. Quando ela entrou, toda a rebolada e com um sorriso de gozo, eu não me mexi.
— Olha, a dona da casa resolveu aparecer. — disse, a sentar-se. — Então, o Duarte abriu o bico?
— O Duarte não tem nada a ver com isto. — pousei uma pasta cheia de papéis na mesa. — Isto é a impressão da tua conversa com o meu marido. Crime de extorsão. E isto é a cópia da nossa convenção antenupcial e a certidão do registo predial.
A casa de que falas foi comprada pelo Duarte antes do casamento, com o dinheiro da venda do estúdio que ele tinha. Tu nem sequer estás lá inscrita. O meu advogado verificou tudo. Nenhum tribunal deste país bloqueia os bens pessoais dele. Não vais receber nada. Estavas a blefar, na esperança de que ele se assustasse com a padaria e te desse o dinheiro da nossa família.
A cara da Beatriz mudou num instante.
— Pensas que és esperta? — sibilou. — Vou tornar a vossa vida num inferno.
— Não vais. Se voltares a falar com o meu marido, se lhe escreveres uma única mensagem, se apareceres perto da nossa padaria, esta queixa vai directa para o Ministério Público. Legalmente, tu não és ninguém. E sais da nossa vida agora. Para sempre.
A Beatriz agarrou na mala, levantou-se e quase correu para fora do café. Percebeu que tinha perdido.
À noite, preparei um jantar de festa. Quando o Duarte chegou cansado, abracei-o e pus a pasta em cima da mesa.
— Inês… o que é isto? — olhou para os papéis, surpreendido. — Onde arranjaste isto?
— Sei tudo, Duarte. Da Beatriz e das ameaças. Ouvi a conversa quando vim buscar o cartão. A princípio pensei o pior, mas depois a Madalena e a Joana ajudaram-me a perceber. O assunto está resolvido. Ela não nos chateia mais. O advogado da Madalena verificou tudo, as exigências dela não têm fundamento.
O Duarte ficou em silêncio, com a cara nas mãos. Quando a levantou, os olhos estavam cheios de gratidão e alívio.
— Perdoa-me. Fui um idiota. Queria resolver tudo sozinho, não te envolver. Tinha medo que te assustasses, ou que pensasses que andava a esconder-te coisas.
— Somos uma família, Duarte. — sorri, sentando-me ao lado dele. — De agora em diante, resolvemos tudo juntos. Sem segredos.
Duas semanas depois, abrimos a padaria. Eu estava na caixa, o Duarte arrumava os pães na montra, a Madalena e a Joana ajudavam atrás do balcão e recebiam os primeiros clientes. Ao fim do dia, toda a padaria tinha sido vendida. Sentei-me a contar o dinheiro. O Duarte aproximou-se por trás, pôs as mãos nos meus ombros e perguntou:
— Então, patroa, já estamos com lucro?
Contei as notas, guardei-as na caixa e sorri:
— Estamos, Duarte. Dá para pagar a renda do próximo mês e ainda sobra. Manda mensagem à Madalena, que venha jantar a nossa casa. Vamos celebrar o primeiro dia de trabalho.







