Oi amiga, deixa eu te contar a história da Sofia e das suas sogras, que acabou virando um verdadeiro drama de família, cheio de visitas inesperadas e heranças inesperadas.
Quando a Sofia entrou no apartamento, a primeira coisa que viu foram os sapatos da sogra, Fátima Vitoriana, plantados bem no corredor da entrada. Já deu pra perceber que não ia ter descanso nenhum.
Fátima apareceu da cozinha com aquele ar de quem está pronta pra julgar tudo.
De novo vai ficar aqui com essa nora incompetente? perguntou, meio irritada. Casa, marido, filho tudo isso já tá uma bagunça. Ainda bem que eu cheguei, senão vocês ficariam com fome.
Sofia respondeu:
Fátima, o Miguel sabia que eu ia me atrasar hoje. Eu já fiz o jantar, ele só precisa esquentar. Ele se vira muito bem sem a sua ajuda.
Nos dez anos que Sofia está casada com o Miguel, ela já se acostumou a ter a sogra sempre insatisfeita, como se fosse um rádio que nunca para de tocar. No começo foi bem difícil. Fátima era a segunda sogra da Sofia. A primeira, Margarida, sempre foi delicada, nunca se intrometia na vida do filho, nem dava conselhos sem ser chamada. Sempre estava pronta a ajudar quando precisavam.
Sofia lembra que a primeira sogra ficava à noite com a neta de três meses, a Inês, quando a menina ainda confundia dia e noite. Margarida levava a neném para passear e dizia:
Não faz nada agora, dorme. O Miguel vai chegar e preparar a janta sozinho.
Quando a Inês fez cinco anos, o Miguel sofreu um acidente na fábrica e ficou viúvo. Margarida, que tinha perdido o único filho, não abandonou a nora nem o neto. Nos três primeiros meses depois da tragédia, eles moraram juntos, se apoiando.
Sofia até propôs que continuassem morando juntas, mas Margarida acabou mudando para o seu próprio apartamento.
Sofia, você tem só 28 anos. Ainda tem a vida inteira pela frente. Por que eu deveria ficar no seu teto?
Sofia se separou do Miguel três anos depois, mas nunca se afastou de Margarida. Os pais de Sofia moravam longe, então a primeira sogra virou quase uma segunda mãe. Já a segunda sogra, Fátima, não parava de achar que tinha o direito de mandar na casa da nora como se fosse dona da casa. Isso chocou a Sofia.
Depois da primeira visita de Fátima, Sofia pediu ao marido que explicasse à sogra que ela só vinha de visita, e que precisava combinar as visitas.
Fátima, com aquele tom de quem quer ajudar de coração, disse:
Eu só quero ajudar, de verdade.
Sofia retrucou:
Já não tenho mais 18 anos. Sempre fui independente, mesmo quando ainda morava com os pais. Depois de casar e viver sete anos com o Miguel, não preciso que me ensinem a cozinhar ou a limpar. Eu também sei dar lições.
Ela ainda brincou:
Quando eu chegar aí, Fátima, vou passar com o pano branco e fazer inspeção.
Enquanto isso, o Miguel sempre apoiou a esposa e, se a mãe confundisse as coisas, ele resolvia tudo com ela.
Sofia acabou ensinando a segunda sogra a não se meter no jeito que ela administra a casa e cria os filhos. Quando, um ano depois do segundo casamento, Sofia virou mãe de novo, desta vez de um menino, Fátima ainda insistia com as conselhos, mas agora sem muita força.
A sogra tinha uma amiga, Dona Leonor, que adorava contar a Fátima como educava a esposa do filho mais novo. Fátima também queria partilhar essas histórias, mas não tinha nada de especial pra mostrar. A única tira que ela tinha era reclamar o tempo todo com a Sofia porque ela ainda ajudava Margarida.
Era melhor se essa senhora fosse só um parente próximo! Quando a Inês era pequena, eu mandava ela passar o verão na casa da avó dizia Fátima. Mas agora a menina está na escola, e a Sofia ainda vai e vem pra lá. Já se passaram tantos anos! Ela aparece duas ou três vezes por semana, e ainda reclama.
No último ano, a Sofia passou mais tempo com a primeira sogra. Fátima chamava Margarida de velha, mesmo ela só ser sete anos mais velha. A doença acabou, e Margarida ficou bem fraca. Sofia a visitava tanto no hospital quanto em casa.
Você está gastando o dinheiro da família com estranhos? reclamou Fátima.
Sofia, tentando acalmar:
Não se preocupe, Fátima. Quando a Margarida ficou doente, vendeu a casa de campo, então tem dinheiro pra se cuidar, não vai precisar pedir emprestado a ninguém.
Quando a saúde de Margarida piorou, Sofia contratou uma cuidadora e pediu licença do trabalho pra passar meio dia com ela enquanto o marido estava no escritório e o filho na escola. Mesmo assim, a situação só atrasou a partida de Margarida, que acabou falecendo depois de um tempo.
Foi aí que Fátima se interessou pela herança da primeira sogra.
Ela vendeu a casa, mas ainda tem dinheiro guardado. A pensão dela também não é nada mal.
E o apartamento de dois quartos vai ficar pra quem? conjecturou Fátima, mas Sofia ainda não tinha respondido, com medo do que o filho diria.
Ela perguntou ao filho, que respondeu:
O testamento está em nome da neta, Inês. É a sua neta de sangue.
Fátima ficou surpresa:
E eu aqui a correr atrás de tudo isso à toa? exclamou.
Sofia, firme, respondeu:
Eu já sabia que a Margarida deixaria tudo pra Inês. Levei-a ao notário há um ano.
Fátima, ainda intrigada:
Por que você ficou lá, se sabia que nada iria mudar pra você? questionou. Deixa a Inês cuidar dela.
Sofia tentou explicar, mas temia que a sogra não entendesse.
No fim, a herança foi formalizada: Inês recebeu todos os documentos do apartamento e a parte da venda. Decidiram que, enquanto a menina estudasse e morasse na residência universitária, o apartamento seria alugado e o dinheiro enviado para a conta dela. Quando Inês terminasse a universidade, ela decidiria se volta para a cidade natal ou fica na capital. Nesse caso, venderia o apartamento e compraria outro.
Ao saber que o imóvel seria alugado, Fátima sugeriu:
Por que deixar gente de fora? Elas podem estragar tudo. Deixa a minha filha, a Cátia, viver lá.
Cátia, a filha de 35 anos de Fátima, ainda morava com a mãe. Era bonita, de boa forma, tinha faculdade, trabalhava, e de vez em quando se enroscava em romances, mas nunca chegava a casamento. Fátima estava sempre preocupada com a filha.
Por que a Cátia não tem sorte? A Sofia, viúva com filho, conseguiu enrolar o meu Miguel! pensava a sogra.
Ela acreditava que, se a filha tivesse seu próprio apartamento, poderia se casar.
Não importa que esse apartamento ainda seja da Inês refletia. Em três ou quatro anos pode acontecer de a Inês encontrar um marido com imóvel, e então a gente pode convencer a filha a ceder o apartamento à Cátia. Mas por enquanto, fica quieta.
Quando a Inês recusou deixar a Cátia morar no apartamento, Fátima ficou decepcionada.
Ela não vai pagar como os outros inquilinos dizia a Inês. Eu pretendo pegar um crédito imobiliário no futuro. Talvez me mude para a capital depois da universidade. Então o dinheiro vai acumular.
Fátima ainda criticou:
Você é demais, Inês. Só pensa em você. Se a Cátia tivesse um apartamento, poderia até casar nos próximos três anos.
Miguel tentou intervir:
Mãe, se a sua casa tem três quartos, venda um, compra um de um quarto e dá para a Cátia.
Fátima, irritada:
Esse apartamento é meu! Não tem parte de vocês! Por que eu teria que me apertar na velhice? Eu moro aqui há toda a minha vida e não pretendo me mudar.
Sofia, cansada, retrucou:
Vocês duas só pensam em si mesmas. Por que não sacrificam um pouquinho do seu próprio imóvel pra ajudar a filha?
Assim, Cátia ficou com a mãe, e Inês alugou o apartamento enquanto estudava, depois vendeu e comprou outro no centro da região. Ela até foi à capital por uma semana, como dizem, onde não há ninguém, tudo parece mais bonito.
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