Sabes aquele tipo de dia em que sentes que o tempo está todo contado ao minuto? Pois a Inês estava mesmo assim. Sentada à secretária no escritório em Lisboa, ela alinhava papéis e digitalizava facturas tudo à portuguesa, entre orçamentos de clientes e listas de compras. O ambiente estava calmo, só se ouvia o tilintar de teclados e uns murmúrios vindos da sala ao lado. O sol furava as persianas e desenhava aquelas tiras claras por cima do tabuleiro de pastel de nata que a Inês ainda não tinha tocado.
De repente, o telemóvel vibra. Ela olha Mãe no ecrã. Estranhou, porque a mãe quase só ligava à noite, quando voltava do hospital e se sentava no sofá. Agora eram só três da tarde. Será que se passou algo?
Carregou no verde.
Inês, querida, podes vir cá a casa já? A voz da mãe vinha meio trémula, pouco normal nela. É mesmo importante!
A Inês ficou tensa, empurrou logo os papéis. O tom da mãe não deixava dúvidas.
O que é que se passa? Senteste mal?
Não, comigo está tudo bem apressou-se a acalmar. Mas temos de falar. Mesmo urgente.
Inês olhou para o monte de papelada da agência. O expediente ainda ia a meio, muito por fechar. Mas aquilo parecia mesmo grave, então nem argumentou.
Está bem, mãe, chego aí dentro de uma hora.
Vê se consegues vir mais depressa sussurrou, como se alguém estivesse a ouvir do outro lado. Sabes… tenho cá gente à espera
“Gente à espera?” Que raio seria aquilo? Inês começou logo a imaginar mil desgraças. Mas não valia a pena insistir pelo telefone, percebeu logo.
Meteu tudo depressa na mochila, pediu licença ao chefe, que felizmente era daqueles compreensivos o senhor Manuel só disse “Vai descansada, miúda”. No elevador, abriu logo a app do Bolt, pôs destino para Alvalade e lá foi ela. Ligou à mãe para saber se precisava de levar comida, algum medicamento, mas a mãe despachou logo só queria que ela fosse.
Na rua, quase corria. Esperou pouco tempo até o táxi chegar. O trânsito na Avenida dos Estados Unidos era o do costume, mas a viagem passou meia voada, porque a cabeça não parava. Será que a mãe foi despedida, discutiu com a minha tia Lurdes? Ou algum drama familiar vindo de Trás-os-Montes? Nada batia certo mas, mesmo assim, o coração ecoava.
Quando chegou ao prédio, e pagou ao taxista com uma nota de vinte euros (e um guarde o troco, senhor!), mal subiu, já a porta se escancarava antes dela conseguir meter a chave.
Finalmente! A mãe arrastou-a literalmente para dentro.
Na entrada, o cheiro a bolos de canela enchia o ar aqueles que a mãe só fazia em fins-de-semana de festa. Mas o nervosismo da mãe não combinava nada com celebração.
Inês, atenta, perguntou logo:
Mãe, afinal o que se passa?
E aí ficou boquiaberta. Na sala, à mesa muito bem posta, estava o João, o filho da dona Amélia, amiga da mãe. Desde miúda que a Inês chamava o Tanso ao rapaz, só porque era desajeitado, deixava cair tudo, tropeçava no tapete. Lá estava ele, com camisa engomada, sorriso meio torto. Ao lado dele, a dona Amélia quase a brilhar de felicidade.
Olá, Inês atirou o João, a tentar ganhar postura. Há que tempos
Sim, estava ótimo ficarmos sem nos ver durante mais um pouco ironizou ela, cruzando os braços. Mãe, chamasme de urgência para isto?
A mãe, a ajeitar guardanapos, fez de conta que aquele tom de Inês não era nada.
Filha, eu e a Amélia pensámos vocês cresceram juntos, agora já adultos, cada um com o seu emprego
E daí? cortou Inês, sem esconder o desconforto. Eu larguei a agência, deixei tudo por fazer, só porque vocês decidiram brincar aos casamenteiros?
A dona Amélia, sem se conseguir conter, logo lhe fez publicidade ao filho:
O João está um excelente rapaz! Já tem emprego fixo, casa própria, não dá trabalho nenhum
Só queríamos que conversassem, ficassem amigos murmurou a mãe.
Inês sentiuse a ferver. Mais uma vez aquela pressão para lhe arranjar namorado de jeito, como se ela própria não soubesse o que queria da vida. Suspirou fundo, tentando manter a educação.
Mãe, agradeço tudo, mas quero decidir com quem falo ou não.
O João ficou corado, todo encolhido, mas tentou salvar a cena:
Não leves a mal. Só queria conversar, relembrar os velhos tempos. És uma miúda bonita e tudo… Quem sabe, até podia haver alguma coisa entre nós
João, nunca gostei de ti assim. Desculpa, mas nunca foi clara. Para mim só dava amizade e já era.
O rapaz fez menção de insistir, mas percebeu logo que seria inútil.
Podíamos pelo menos tentar? Eu gostava mesmo de ti…
Isso não se força respondeu ela suavemente. És ótima pessoa, mas não se inventam sentimentos só porque dá jeito às mães.
Percebendo que ali não havia volta a dar, Inês agarrou a mala, preparou-se para sair.
Acho melhor ir andando. Desculpem, mas prefiro ir sendo sincera do que fazer de conta que isto resulta.
Inês! a mãe ainda se chegou para tentar travá-la, mas ela foi delicada e firme:
Falamos depois, mãe. Deixa-me trabalhar à minha vontade e saiu, sem pressa para ouvir desculpas.
Na rua, com o ar fresco da tarde lisboeta, Inês respirou fundo, sentindo-se a desfazer do peso do ridículo. Porque é que as mães insistem em pegar na nossa vida amorosa, como se fosse delas? Acham que só porque um rapaz tem um bom emprego e uma casa jeitosa, é logo candidato a marido.
Ainda irritada, Inês atravessou o pequeno jardim do bairro, por entre mães com carrinhos de bebé e casais de velhotes sentados ao sol a conversar. O chão estava molhado da chuva da manhã e, sem dar por isso, ela sorria: a vida à sua volta seguia como sempre.
Depois, o telemóvel vibrou de novo. Era a mãe.
Inês, porque é que fugiste assim? Perguntou, um pouco magoada. Só queríamos o teu bem!
Mãe, não vou casar com o João só porque vocês se conhecem há vinte anos! respondeu Inês, sem levantar o tom. Isto da amizade das mães não pode ser critério para juntar duas pessoas.
Não era casar, filha! Só para conversares com um rapaz decente. Ele não bebe, trabalha, tudo direitinho!
Eu não digo o contrário, mas não é para mim. Não faz sentido forçar explicou, parando junto ao banco do jardim. Não enganes o coração, mãe.
Mas és tão sozinha suspirou a mãe. Não sei o que esperas da vida
Não estou à espera. Só quero que aconteça quando fizer sentido para mim disse, olhando para as crianças a disputar um barco de papel. Chega de tentarem decidir o que é melhor para mim como se tivesse dez anos.
A mãe fez silêncio. Só se ouvia o bulício ao fundo. Finalmente, já resignada, falou baixinho:
Pronto, desculpa. Só quero que sejas feliz. Tenho medo que fiques sozinha quando já não cá estiver.
Eu entendo, mãe. E adoro-te por isso. Mas já chega de surpresas destas, está bem? Hoje assusteime mesmo.
Prometo disse ela, aliviada. E olha, quando aparecer alguém especial mesmo, promete que és tu a contar-me primeiro?
Claro, mãe. Agora tenho mesmo de ir. Beijinho!
Beijinho, filha.
Inês guardou o telefone e ficou a admirar o céu, que começava a abrir, mostrando azul limpo entre nuvens. Ouviu o riso de miúdas do outro lado da rua, o correr de um cão com o dono a fazer jogging. Tudo parecia simples outra vez, cada um no seu caminho já bastava de dramas.
Nos dias seguintes, Inês esforçou-se para não pensar mais naquela cena. O trabalho na agência estava a exigir tudo. Todos na equipa andavam numa correria planos, reuniões com clientes, orçamentos, com a Inês sempre das primeiras a chegar e das últimas a sair. Os serões resumiam-se a chegar a casa, tomar banho e adormecer a ver uma série.
Mas claro, à noite, no silêncio, lembrava-se daquele embaraço. Não era culpa dela aliás, sabia que tinha feito bem, mas apetecia-lhe que a mãe entendesse de uma vez. Enfim, as mães querem sempre controlar tudo…
Na sexta-feira, a colega Mariana mandou-lhe mensagem: Faz anos o Bruno, vai haver jantar e animação passa lá! Gente gira, música, só boa vibe! Inês ficou a hesitar podia ir ver Netflix em silêncio, ou… viver um bocadinho. Bora, respondeu.
O jantar foi num restaurante fixe em Campo de Ourique. Pé direito alto, luzes quentes, cheiro a café e croissants que acabaram de sair. O ambiente estava ótimo pessoal animado, gente de várias áreas.
O Bruno, sempre todo risonho, acercou-se dela logo que entrou.
Inês! Pensei que já não vinhas!
Tinha de abrir exceção hoje, parabéns!
Apresentou-lhe logo uns amigos, sentou-a junto ao André colega da Mariana, diziam eles. Ele abriu logo a conversa com naturalidade.
És tu a Inês? Conheço-te de vista da reunião com a Globalsoft.
Sim, sou eu! ela respondeu. Estás em que departamento?
Analytics. Fui eu que fiz projeções para o vosso projeto. Lembraste daquele excel interminável?
Ela não sabia que ele estava tão por dentro, mas isso até foi engraçado.
A conversa fluiu tão naturalmente que Inês deu por si a rir mais do que andava a rir há semanas. O André contou-lhe sobre viagens, sobre cenas caricatas em sítios improváveis, de pessoas que conheceu. Ela começou a sentir aquele friozinho bom da empatia sem esforço.
O restaurante foi enchendo e veio o barulho típico, por isso o André sugeriu:
Querias ir até lá fora respirar um bocadinho? Aqui dentro já nem dá para ouvir nada.
No friozinho da noite de Lisboa, com o céu limpo e as luzes da cidade ao fundo, ficaram a conversar encostados a uma balaustrada perto do Marquês. O André falou-lhe do que mais gostava: viajar, perder-se em cidades desertas, experimentos na cozinha. Falou-lhe da aventura na Madeira, da comida caseira, das paisagens tiradas de um postal.
Ela confessou que adorava ir à praia, sentir o sal na pele, mas tinha pouco tempo estava sempre agarrada ao trabalho. E ele, sem hesitações:
Alinhamo-nos numa escapadinha para o ano? Como amigos, claro! Depois logo se vê
Inês não esperava tal à-vontade, mas riu-se, leve.
Assim de repente mas gosto da tua sinceridade.
Se gostares, podemos só tomar um café amanhã. Para começar devagarinho.
Acho boa ideia aceitou, com mais um sorriso.
Quando voltou a casa, ainda a pensar naquela noite diferente, o telefone tocou a mãe, outra vez. Mas agora respondeu logo, sem hesitações:
Olá mãe! Está tudo bem. Olha, fui ao jantar de anos duma colega e conheci um rapaz. Fixe, simpático, sem dramas.
Sério? Fala-me dele!
É inteligente, engraçado, parece ter mundo. E, para variar, não vive agarrado à saia da mãe
A mãe desatou a rir, soava mesmo aliviada:
Que bom, filha! Afinal sempre te desenrascas.
Sempre, mãe. Podes confiar em mim.
Confio, filha. Amo-te.
E eu a ti, mãe.
Inês ficou a olhar para Lisboa à noite, luzinhas perdidas na linha do horizonte, a cidade a respirar no seu tempo. De repente sentia mesmo que, independentemente do que viesse aí, estava no caminho certo. Não era preciso calendário para as grandes mudanças a vida resolve-se sempre, mesmo quando as mães querem organizar tudo pelo relógio.







