Lembro-me como se fosse ontem. Inês ouviu o uivo pela primeira vez num sábado, quando voltava do turno da noite. Um som longo, triste – arrepiou-lhe a espinha. Parou o carro junto de casa, escutou. O uivo vinha de algum lado do terreno.
Saiu do carro – e viu-o. Junto à vedação, onde crescia o velho limoeiro, estava um cão. Pequeno, acobreado, tão magro que as costelas se marcavam. Focinho virado ao céu, e uivava, uivava.
– Eh, tu! – gritou Inês. – Vai-te embora! Acordas a vizinhança toda!
O cão calou-se, baixou a cabeça. Olhou para ela – e naquele olhar havia qualquer coisa que fez Inês recuar sem querer.
– Anda, vai-te – disse Inês, cansada, com um gesto de mão. – Não tenho tempo para isto.
Deitou-se de madrugada, mas o uivo ainda lhe ecoava na cabeça.
– Ouviste o cão esta noite? – perguntou a sogra, Dona Maria, quando Inês entrou na cozinha. – Uivou a noite inteira, maldito! Até pensei que fosse o Tobias do vizinho, mas aqueles uivos anunciam desgraça.
– Não era o Tobias – respondeu Inês. – Era um cão vadio. Estava sentado junto à nossa vedação.
– Ora essa! – alarmou-se a sogra. – Temos de o pôr fora! É má sorte quando um cão estranho uiva à porta. Vou deitar sal no quintal, que o afaste.
Inês calou-se. Não acreditava nessas superstições. No entanto, a sua mãe, que Deus a tenha, dizia sempre: um cão não uiva à toa. Ou sente a morte, ou pressente a desgraça.
Ao anoitecer, o marido, João, chegou do trabalho furioso.
– Mais despedimentos – atirou a pasta para um canto. – Já é a terceira vez este ano! Daqui a pouco metade da fábrica vai para a rua.
– Talvez te safes – tentou acalmá-lo Inês. – És o melhor técnico que eles têm.
– Pois, o melhor – ironizou João. – Todos são os melhores. E os chefes que se lixam. Só querem papéis bonitos para encher o bolso deles.
Sentaram-se a jantar em silêncio, cada um perdido nos seus pensamentos. O pequeno Tiago, de seis anos, cabeceava sobre o prato – tinha corrido todo o dia no infantário. Dona Maria tricotava, de lábios apertados – sinal para não se falar.
De noite, o uivo voltou. Longo, lúgubre. Inês saltou da cama, foi à janela. O cão estava no mesmo sítio, junto ao limoeiro. João acordou, resmungou meio a dormir:
– Que raio de bicho! Tenho de o pôr na rua!
Saiu para o quintal em tronco nu e chinelos, aos berros, a agitar os braços. O cão afastou-se uns metros, sentou-se. João atirou-lhe uma pedra – falhou. Voltou para dentro, batendo com a porta que fez tinir os vidros.
– Amanhã ponho veneno – prometeu. – Já chega!
– João, não podes fazer isso – começou Inês.
– Posso, sim! – gritou ele. – Ainda hei-de aturar um cão a acordar a família toda?
Inês deitou-se, mas não conseguiu dormir. Ficou a olhar para o tecto. E uma ideia não a largava: e se a mãe tinha razão? E se aquele uivo era mesmo sinal de desgraça?
Pela manhã, foi até à vedação. O cão estava deitado debaixo do limoeiro, encolhido. Levantou a cabeça, olhou. Não fugia, não rosnava – apenas olhava.
– Que é que tu queres aqui? – perguntou Inês em voz baixa. – Tens dono? Casa?
O cão gemeu baixinho. Levantou-se, chegou-se à vedação. Começou a cavar com as patas. Inês inclinou-se para ver. Havia um buraco no chão – o cão tentava fazer uma passagem.
– Porque é que queres entrar? – murmurou Inês, confusa. – Que é que queres?
O cão parou de cavar, fitou-a.
– Pronto – suspirou Inês. – Espera aí.
Voltou com uma tigela de água e restos da sopa de ontem. Passou por baixo da vedação.
– Toma, come. Mas deixa de uivar, senão o João pega-te mesmo.
Passou-se uma semana. Todas as noites – uivo. João cada vez mais irritado, a sogra a carpir-se de maus agoiros. E Inês continuava a levar comida ao cão. Mas ele emagrecia a olhos vistos.
– Olha, Inês – disse a vizinha Rita, por cima do muro –, sabes de quem é aquele cão?
– Deve ser vadio.
– Vadio, qual vadio – riu-se Rita. – Ontem falei com a Dona Alice, a que mora duas casas abaixo. Ela diz que este cão era dos Pereiras. Lembras-te dos Pereiras?
Inês lembrou-se. Um casal idoso, sossegado, culto. Tinham-se mudado há muito. Venderam a casa a uma jovem família.
– E então?
– Então que eles tinham um filho. Chamava-se Rui, salvo erro. Morreu há um ano. Atropelado por um bêbado.
Inês sentiu um arrepio.
– E?
– Dizem que este cão era do filho. Depois do funeral, fugiu de casa. Andaram à procura dele um mês, nunca o encontraram. Agora, vê-lo, voltou. Mas a casa já não é deles. Estão outros lá. E ele uiva. Tem saudades do dono.
– Histórias da avó – desdenhou Inês, mas o coração apertou-se.
Ao jantar, contou a história. João bufou:
– Tretas. Os cães não se lembram de nada durante tanto tempo.
– Lembram-se – interveio de repente Dona Maria. – Lembram-se, sim. Na minha aldeia, uma vizinha tinha um cão que esperou o filho da guerra quatro anos. Todos os dias ia para a estrada. Quando ele morreu, uivou uma semana e depois morreu à porta de casa.
Fez-se silêncio. Tiago olhou assustado para a avó.
– Mãe, o nosso cão também vai morrer? – perguntou o menino.
– Não é nosso – resmungou João. – E chega de falar nisso!
De noite, Inês não aguentou. Quando o uivo recomeçou, vestiu o roupão e saiu. Chegou à vedação. O cão estava sentado, focinho ao alto. Uivava como se lhe arrancassem a alma.
– Que é que queres? – sussurrou Inês. – Que queres de nós?!
O cão calou-se. Virou a cabeça para a casa dos Pereiras. Ou melhor, para a casa que outrora fora deles. Gemeu, como se chamasse alguém.
– O teu dono já não está – disse Inês. – Percebes? Já não está. Há muito tempo.
Estendeu a mão, acariciou a cabeça do cão. Ele não se afastou. Fechou os olhos.
Ficaram assim. Uma mulher e um cão. Debaixo do céu estrelado, no silêncio da noite.
– Vem – disse Inês. – Vem para casa. Ele não volta. Mas podes ficar connosco. Queres?
O cão abriu os olhos. Olhou-a longamente, a estudá-la. Como se decidisse se podia confiar.
– Vem – repetiu Inês. – Prometo que não te faremos mal.
Levantou-se, voltou para dentro. O cão levantou-se atrás dela. Andava devagar, cansado. Inês olhou para trás – ele vinha.
Inês abriu o portão.
– Entra.
O cão parou à entrada. Depois deu um passo. Outro. Atravessou a soleira.
Naquela noite, não se ouviu uivo nenhum.
De manhã, João desceu à cozinha e ficou paralisado. No velho tapete junto ao fogão, dormia o cão acobreado. Inês cozia as papas.
– Trouxeste essa vira-lata para dentro de casa?! – explodiu o marido.
– Cala-te! – sib lou Inês. – Vais acordar o Tiago.
– Eu disse – nada de cães em casa!
– E eu digo – fica – respondeu Inês, calma. – Ponto final.
João olhou para a mulher de olhos arregalados. Ela nunca lhe tinha respondido assim. Nunca.
– Inês, tu…
– Já decidi, João. O cão fica. Se não gostas, a porta é ali.
Silêncio. O cão ergueu a cabeça, olhou para eles. Tranquilo, sem medo.
– Raios te partam – João fez um gesto de desistência. – Faz o que quiseres!
Bateu a porta e saiu para o trabalho. Dona Maria, que assistira a tudo do corredor, abanou a cabeça:
– Ai, Inês, quebraste o homem por causa de um cão.
– Não é um cão, mãe – respondeu Inês baixinho. – Não é um cão.
Chamaram-lhe Ruivo, pela cor do pelo. O Tiago foi o primeiro a fazer amizade. Descobriram que o cão sabia comandos, apanhava a bola, não ladrava à toa. Educado.
O Ruivo adaptou-se rapidamente. Dormia na entrada, comia pouco, pedia para sair. Um cão perfeito. Mas havia qualquer coisa nele. Como se esperasse por algo. Muitas vezes, à noite, levantava-se, ia à porta, farejava.
Duas semanas depois, aconteceu.
João chegou do trabalho mais negro que uma trovoada.
– Pronto – disse, sentando-se à mesa. – Despediram-me. A partir de amanhã, estou livre.
Inês gelou.
– Como assim?
– Assim mesmo! Redução de pessoal. Metade dos técnicos foi para a rua. Eu estou no lote.
– Mas tu és…
– O quê?! – explodiu João. – O melhor técnico? O especialista experiente? Eles que se lixam! Querem é putos a quem pagam migalhas!
Bateu com o punho na mesa. O Tiago encolheu-se, agarrou-se a Inês. O Ruivo, que dormia num canto, levantou a cabeça.
– O que vamos fazer? – sussurrou Inês. – Com o meu ordenado não chegamos.
– Exactamente! – João levantou-se, começou a andar de um lado para o outro. – Temos o crédito da casa, o carro a cair de podre, o miúdo para sustentar. E eu sem trabalho, sem futuro!
– Hás-de encontrar alguma coisa – tentou consolá-lo Inês, embora soubesse que na vila era difícil.
– Encontrar! Tenho quarenta e cinco anos, quem me quer?
Os dias seguintes foram um pesadelo. João bebia. Não muito, mas muitas vezes. Irritava-se por tudo. Brigava com a mãe, gritava com o Tiago. Inês ia para o trabalho como quem vai para a forca – voltava a casa e encontrara novo escândalo.
O Ruivo, entretanto, começou a ter comportamentos estranhos. Seguia João por toda a parte. Olhava-o sem parar. Quando o homem bebia, deitava-se a seus pés, gania baixinho.
– Tira-me esse bicho da frente! – rosnava João. – Não posso vê-lo!
Mas o Ruivo não desistia.
Numa quinta-feira, Inês atrasou-se no trabalho. Inventário, o patrão obrigou-a a ficar. Chegou a casa perto das onze. A casa escura, o quintal silencioso. Estranho – o João via sempre televisão até tarde.
Abriu a porta – e viu.
João estava estendido no chão da entrada, inconsciente. Ao lado, uma garrafa vazia. E sobre ele, o Ruivo – ladrava, arranhava com a pata, puxava-lhe a manga.
– João! – Inês atirou-se para junto do marido.
Apalpou-lhe o pulso – fraco, mas existia. Respiração superficial. Cheirava a álcool de tal modo que custava a respirar.
– Mãe! – gritou Inês. – Mãe, chama o 112!
Dona Maria apareceu, deu um grito.
– Meu Deus, o que lhe aconteceu?!
– Não sei! Chama a ambulância, depressa!
O Ruivo não se afastava de João. Gania, lambia-lhe o rosto. Inês percebeu de repente – se não fosse o cão, ela podia ter encontrado o marido demasiado tarde. Intoxicação alcoólica, disseram depois os médicos. Mais um pouco e não o salvavam.
João passou três dias no hospital. Voltou a casa mais magro, mais velho.
– Desculpa – disse a Inês, quando ficaram a sós. – Não sei o que me deu.
– Cala-te – pôs-lhe ela a mão no ombro. – O importante é que está tudo bem.
– Foi o cão que me salvou, não foi? – João olhou para o Ruivo, deitado junto à porta. – Lembro-me vagamente – ele ladrava, não me deixava adormecer. Tentei afastá-lo, mas ele arranhava, uivava.
Inês assentiu, sem conseguir falar.
– É estranho – continuou João. – Como se ele soubesse. Como se não me deixasse apagar.
– Talvez soubesse mesmo.
João ficou em silêncio, depois chamou:
– Ruivo, anda cá.
O cão aproximou-se devagar. João estendeu a mão, acariciou-lhe a cabeça.
O Ruivo lambeu-lhe a mão. E nos olhos do cão, alguma coisa mudou.
Passaram-se seis meses.
João arranjou trabalho – não tão bom como antes, mas estável. Deixou de beber. Tornou-se mais calmo com a família. O Ruivo passou a ser membro de pleno direito – a Dona Maria dava-lhe petiscos, e até o João o levava a passear à noite.
Inês estava à janela, a ver o marido e o cão regressarem do passeio. João contava qualquer coisa ao Ruivo, que o escutava atento.
– Mãe, de onde é que o Ruivo veio? – perguntou o Tiago um dia.
– Não sei, filho – respondeu Inês, sincera. – Apareceu. Quando estávamos mal, apareceu.
– E ajudou-nos?
– Ajudou.
– Deve ser um feiticeiro bom – decidiu o menino. – Disfarçado de cão.
Inês sorriu. Talvez o Tiago tivesse razão. Quem sabe.
Naquela noite, sonhou. Um rapaz novo estava à beira de uma estrada, a acariciar um cão acobreado.
O cão gania, esfregava-se nas pernas do dono.
– Vai – disse o rapaz. – Não te preocupes comigo.
E dissipou-se no nevoeiro da manhã.
Inês acordou em lágrimas. Levantou-se, foi até à entrada. O Ruivo dormia no seu tapete. Respirando calmo, tranquilo.
O cão abriu um olho, olhou para ela. E tornou a adormecer.
De manhã, enquanto todos tomavam o pequeno-almoço, o Tiago exclamou:
– Mãe, o Ruivo está a sorrir! Olha!
E era verdade. O focinho do cão parecia satisfeito. Como se tivesse cumprido o seu destino.
Inês aproximou-se, ajoelhou-se, abraçou-o. O cão pôs-lhe a cabeça no colo.
– Nós amamos-te – segredou Inês.
O Ruivo suspirou baixinho. E fechou os olhos, confiante, aconchegado.
Algures muito longe, para além deste mundo, um rapaz novo estava à beira de um rio de luz e sorria. O seu amigo encontrara um novo lar. E um novo amor. E, por isso, tudo estava certo. Tudo como devia ser.






