– Nesse vestido pareces uma égua velha, palavra de honra! – declarou a sogra em voz alta, percorrendo com o olhar os convidados silenciosos. A resposta da nora, ah, ela não gostou nada!

A Inês passa o dedo pelo ecrã do telemóvel, a confirmar o saldo do cartão multibanco. O valor que aparece na aplicação faz com que ela feche os olhos e conte lentamente até dez.

– Rui! – chama ela para o marido, que se vira diante do espelho no corredor.

O Rui está a endireitar o colarinho da camisa nova.

– O que foi, Inês? – responde ele.

– Vais pagar o táxi para o restaurante com o teu cartão?

O homem deixa de puxar pela camisa e olha para a mulher com ar de culpa.

– Inês, não comeces. O que me resta são trocos. Ainda tenho de pagar o parque esta semana. Podes pedir tu o táxi?

A Inês bloqueia o ecrã.

Hoje o Rui faz quarenta anos. É uma idade séria. Há meio ano, o plano era festejar sem luxos, em casa, só os três: eles e o filho.

Estão a pagar um T2 comprado há dois anos. A prestação come quase todo o ordenado do Rui. A Inês suporta as contas, as compras, as atividades do miúdo e a roupa. O lugar de gestora que tem permite isso, mas não sobra quase dinheiro nenhum.

A confusão começa há um mês, quando a Dona Deolinda se intromete.

A sogra declara que os quarenta anos do único filho são um acontecimento à escala mundial. Não fica bem estarem sentados na cozinha como uns pobres. É preciso chamar a família, alugar uma sala num restaurante, mostrar a toda a gente que o Rui tinha dado certo na vida.

Quando o Rui tenta protestar, dizendo que não há dinheiro para restaurante, a Dona Deolinda responde apenas:

– A Inês ganha bem; vocês não vão ficar pobres por causa de uma festa.

E a Inês cede. É ela que escolhe um restaurante acolhedor, com boa cozinha; é ela que compõe a ementa; é ela que adianta o sinal.

– Vamos chamar um táxi – concorda a Inês, a vestir o casaco.

No restaurante, os empregados de mesa andam ocupados. A mesa para quinze convidados está carregada de entradas. A Inês traz de propósito um vestido solto, cor de areia, para se sentir confortável depois de um dia inteiro de correria no trabalho e de mais um dia de preparativos para a festa.

Os convidados começam a chegar perto das seis. A Dona Deolinda aparece por último, acompanhada pela irmã do Rui, a Benedita. A sogra caminha para a mesa como se fosse uma rainha.

– Parabéns ao aniversariante! – anuncia a Dona Deolinda em voz alta, ao entregar um saco de papel ao filho.

O Rui espreita lá para dentro e abre um sorriso.

– Oh, mãe, obrigado! O perfume de que eu gostava!

A Inês deita um olhar rápido ao nome. O preço daquele frasco equivale a um terço da prestação da casa.

– Para um filho querido, nada é demais – declara a sogra, entregando ao empregado que se aproxima o casaco novo com gola de pele.

Depois, o olhar da sogra cai na nora. O sorriso da Dona Deolinda apaga-se num instante.

– Inês, os meus parabéns – cumprimenta-a, secamente.

– Boa noite, Dona Deolinda – responde a Inês, sem alterar o tom.

A sogra percorre a sala com o olhar.

– Bem, o que hei de dizer… – começa, enquanto se senta no lugar à cabeceira que lhe indicam. – Está escuro aqui. E as toalhas de mesa são muito simples. Rui, eu não te falei daquele restaurante “A Quinta” no centro? Aquilo é que tem uns lustres!

– Mãe, esse tal “A Quinta” não cabe no nosso bolso – responde o Rui, em voz baixa.

– Oh, não se façam pobres! – corta a Benedita, a arranjar o cabelo. – A Inês ganha como uma diretora de empresa. Podiam, uma vez na vida, fazer uma festa à altura para o teu irmão.

A Inês sente a irritação a subir-lhe pela garganta, mas controla-se. Não é altura de arranjar discussões à frente dos convidados.

– Sirva-se, Dona Deolinda – diz a Inês, deslizando para a sogra um prato de peixes variados. – A cozinha aqui é excelente.

A sogra crava o garfo num pedaço de peixe com repugnância.

– Este salmão está pálido. Aposto que foi comprado barato no mercado.

– É truta levemente salgada, do chefe de cozinha – explica a Inês, calma.

O banquete ganha ritmo. Os convidados comem, bebem, fazem brindes. Elogiam o Rui: que grande profissional, que excelente homem de família, que sorte teve na vida.

A Dona Deolinda não fecha a boca a noite toda. Conta histórias da infância do Rui, gaba os sucessos imaginários do filho no trabalho e não menciona a Inês uma única vez.

Para a sogra, a nora é uma espécie de empregada de serviço, cuja função é servir o sumo a tempo e não se fazer notar.

Quando chega o prato quente, o ambiente na mesa está em brasa.

A Inês está exausta. Levanta-se para pedir aos empregados de mesa que tragam o chá e, ao voltar para o lugar, ouve a voz alta da sogra.

– Que figura que fazes, Inês!

Os garfos deixam de tilintar. Os convidados colam os olhos aos pratos, a fingir que estão muito entretidos com as saladas.

A Inês para a meio do caminho até à cadeira.

– Como disse? – pergunta.

– Nesse vestido, pareces uma égua velha, palavra de honra! – declara a Dona Deolinda, passando o olhar pelos convidados mudos.

O Rui fica coberto de manchas vermelhas.

– Mãe, para. O vestido está bem – arrisca ele.

– Rui, tu já perdeste o bom gosto – retruca a mãe, ajeitando o colarinho da blusa de seda nova. – Eu quero é o teu bem. Querida, tens trinta e oito anos e vestes-te como uma velha na horta. Sem cintura, sem modelo. É um mau gosto completo!

A Benedita sorri com malícia, tapando a boca com o guardanapo.

A Inês aproxima-se lentamente da mesa. Durante a noite inteira, a sogra torce o nariz: umas vezes as entradas são simples demais, outras o restaurante é barato, outras a mulher do filho não é suficientemente bonita.

– Pois eu gosto – responde a Inês, olhando diretamente para a sogra. – É confortável.

– Confortável! – bufa a Dona Deolinda. – A mulher tem de enfeitar o marido. Tem de ser o cartão de visita dele.

Ela endireita os ombros.

– Olha para mim. Já me reformei e continuo a manter o nível. Porque é preciso respeitarmo-nos, e não vestir o primeiro saco de batatas que aparece na feira.

Os convidados trocam olhares constrangidos. O próprio tio do Rui crava os olhos no copo, a fingir que estuda as bolhas da água mineral.

– Inês, senta-te, não te exaltes – sussurra o marido, puxando-a pelo braço.

Percebe-se. O Rui sempre preferiu ficar na sombra enquanto as mulheres resolvem as diferenças. De preferência, que a Inês se cale e ature.

Mas hoje a Inês não está para se calar. Está farta de carregar a hipoteca às costas, de pagar os caprichos da sogra e de ouvir humilhações públicas com o seu próprio dinheiro.

– Dona Deolinda – diz a Inês, apoiando as mãos no canto da mesa. – De onde vem a sua blusa?

– O que é que a minha blusa tem? – a sogra fica baralhada.

– Tem muita coisa – responde a nora, sem se perturbar. – A blusa é italiana. Seda natural. E os sapatos de pele com que está calçada. E o casaco novo que está no cabide, com gola de pele. São boas coisas, não?

– São – admite a Dona Deolinda, desconfiada. – Sei escolher roupas de qualidade.

– Escolher, sabe. E pagar?

Alguém tosse nervosamente. O Rui fica vermelho e tenta levantar-se.

– Inês, chega – diz ele entre dentes.

– Não, Rui, ainda não é suficiente – responde a Inês, fazendo-o parar com um gesto. – Já que falamos de aparência e de respeito próprio, vamos ser sinceros.

Ela levanta a voz, de modo a que todos à mesa a oiçam.

– Essa blusa italiana, os sapatos e o casaco elegante foram comprados no mês passado, Dona Deolinda, com quinhentos euros que lhe transferi do meu prémio trimestral. Porque, cito: “não tinha roupa para ir ao centro de saúde, tinha vergonha de aparecer diante dos médicos”.

O batom carregado nos lábios da Dona Deolinda parece de repente ridículo. Ela percorre os convidados com o olhar à procura de apoio, mas os familiares ficam de repente muito interessados na carne que esfria.

– Pedi ao meu filho! – atira a sogra, desafiadora.

– Não foi o filho que lho deu – corta a Inês. – Porque o ordenado do seu Rui chega exatamente para a prestação da casa, a gasolina e os almoços de negócios.

A Benedita tenta intrometer-se:

– Inês, para que é que andas a contar o dinheiro dos outros? Já não tens juízo nenhum?

– Estou a contar o meu dinheiro, Benedita – responde a Inês. – E este banquete em que vocês estão sentados, a criticar o restaurante e o meu aspeto, está pago ao cêntimo com o meu dinheiro.

Na sala instala-se um silêncio pesado, cortado apenas pelo tilintar da loiça nas mesas ao lado.

– E aquele perfume caro que ofereceu hoje ao seu filho foi comprado com o dinheiro que lhe dei para os dentes na semana passada – acrescenta a Inês, olhando a sogra nos olhos.

A Dona Deolinda ganha manchas vermelhas.

– Como te atreves… – murmura ela.

– Pois é – diz a Inês, endireitando-se. – Posso andar até com um saco de batatas. Porque esse saco fui eu que o comprei com o meu trabalho!

Puxa para si o copo de sumo.

– Quando aprender a vestir-se com a sua reforma, logo falamos dos meus modelitos! Bom apetite!

A Inês senta-se com calma.

A Dona Deolinda fica sem ar. Está à espera que o filho defenda a mãe, que ralhe com a mulher atrevida. Mas o Rui está ali sentado, de cabeça baixa, a espetar o garfo num pedaço de batata assada.

Não há outro remédio. A sogra amarrota o guardanapo de pano, atira-o para a mesa e levanta-se de repente.

– Nunca mais ponho os pés na vossa casa! – exclama, sem se dirigir a ninguém.

Dá meia-volta e sai em passos largos. A Benedita, depois de lançar à Inês um olhar fulminante, também se levanta e corre atrás da mãe.

O resto da noite passa num ambiente pesado. Os convidados acabam rapidamente a comida, bebem um chá, despedem-se com amabilidade e vão-se embora.

A Inês e o Rui voltam para casa em silêncio.

Passa uma semana. A vida segue. A Dona Deolinda, para mostrar que está ofendida, não telefona. O Rui anda uns dias com ar envergonhado, tenta acusar a mulher de ter sido seca demais, mas não encontra argumentos.

No sábado de manhã, a Inês está a fazer café quando chega uma mensagem ao telemóvel do marido. O Rui, sentado à mesa, olha para o ecrã e hesita.

– Inês – começa ele, num tom conciliador. – É a minha mãe. O frigorífico avariou-se. O técnico diz que o arranjo vai ficar caro.

A Inês bebe um gole de café da caneca.

– Que chateação – responde ela, sem expressão.

– É preciso ajudar – o Rui coça a nuca. – Transferes-lhe uns cento e vinte euros? Eu devolvo-te no próximo ordenado.

– Não, Rui, não transfiro.

– Como assim? Ela vai perder as compras todas!

– É isso mesmo – a Inês olha para o marido. – A tua mãe deixou bem claro que eu sou uma mulher sem bom gosto e que não me respeito. Então, a minha decisão é seguir o sábio conselho dela.

Aproxima-se do fogão e apaga o lume.

– Ontem marquei no cabeleireiro um corte e uma pintura. E no fim de semana vou ao centro comercial comprar vestidos novos. Vou manter o nível!

O Rui pisca os olhos, perdido.

– E o frigorífico?

– O frigorífico, meu amor, agora é contigo – sorri a Inês. – Arranja um trabalho extra, pede um adiantamento. Tu és família, sangue do teu sangue. Tenho a certeza de que vais dar conta.

Pega na caneca e vai para a sala, deixando o marido sozinho com os seus pensamentos e com o frigorífico avariado da Dona Deolinda.

Quem semeia ventos, colhe tempestades.

E vocês, o que fariam nesta situação? Deixem os vossos gostos nos comentários!

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

fourteen − five =

– Nesse vestido pareces uma égua velha, palavra de honra! – declarou a sogra em voz alta, percorrendo com o olhar os convidados silenciosos. A resposta da nora, ah, ela não gostou nada!
«Кажете на дъщеря ми, че си отивам»: Една жена избира дом за стари хора, за да не бъде повече в тежест