Mariazinha chorava junto ao túmulo da sua querida amiga Leonor. Já faziam quarenta dias desde o funeral, e nem uma flor adornava a campa… Devagar, dirigiu-se para casa. De repente, foi abordada por um senhor.
Quer uma boleia? perguntou ele gentilmente. A paragem de autocarro ainda fica longe. Venha, não me custa nada. Tem aqui alguém especial?
A minha amiga… respondeu Mariazinha, com a voz embargada.
Eu enterrei aqui a minha mãe… confidenciou ele. Para onde deseja ir?
Pode deixar-me na paragem, por favor disse Mariazinha.
Não se preocupe, posso levar-lhe até casa, estou com o dia livre insistiu o homem.
Ele acompanhou-a até ao prédio onde vivia. No caminho, Mariazinha partilhou um pouco da sua vida Dois dias depois, Paulo já a esperava junto ao portão do prédio, com um convite inesperado.
Desde o jardim de infância que Mariazinha e Leonor eram inseparáveis.
À medida que cresciam, gostavam de se vestir igual e trocavam roupas uma com a outra.
Durante toda a escola a amizade manteve-se forte, e até entraram na universidade na mesma cidade. Mariazinha para Medicina, Leonor para Educação.
Encontravam-se frequentemente, partilhavam confidências, inclusive os primeiros amores.
Mariazinha apaixonou-se por um rapaz da aldeia, enquanto Leonor perdeu o coração por um citadino.
Leonor casou-se depressa, parecia recear perder o namorado.
Passado um ano, nasceu a pequena filha de Leonor. Mas os sogros não aceitavam aquela nora, não a consideravam à altura.
Várias vezes, Mariazinha ficava com a menina para que o jovem casal pudesse passear. No fundo, também lhe apetecia sair, mas prometera tomar conta da criança.
Numa dessas noites, eles não regressaram Só de manhã Mariazinha soube que tinham tido um acidente de carro e morrido.
No funeral, recorda-se mal tinha a menina ao colo Para onde iria agora aquela criança?
Os avós paternos nunca aceitaram a nora, e após perderem o filho, rejeitaram também a neta: Não é sangue nosso.
A mãe de Leonor estava sozinha, já tinha outros três filhos pequenos, não podia assumir mais uma criança.
Restava apenas o lar de crianças. E a menina acabara de fazer um ano.
Mariazinha sentia um amor profundo pela menina. Viu os primeiros passos, ouviu as primeiras palavras tudo aconteceu sob o seu olhar.
Já trabalhava, alugava um quarto a uma idosa solitária.
Mas quem lhe entregaria a guarda da criança? Era solteira, sem família, apesar de ser responsável.
A menina, a pequena Irina, foi enviada para adoção não havia alternativa. Era saudável, iria encontrar pais depressa.
Mariazinha sofria muito.
Miguel, tenho um pedido a fazer-te disse ela ao namorado. E se casássemos? Assim talvez me deixassem ficar com a menina
Estás doida? exclamou ele Não quero essa responsabilidade!
Deixa-me adotar a menina, depois divorciamo-nos. Só preciso de ajuda para isto.
Esquece, não vou enterrar-me em documentos por tua causa! És esquisita, nem me deixas aproximar-me e queres casar? Procura outro parvo!
Mariazinha chorava de novo junto ao túmulo de Leonor. Quarenta dias, nem uma flor Já no túmulo do marido de Leonor havia abundância de flores.
Leonor, prometo-te: a tua campa também estará sempre bonita. Só me ajuda, minha amiga
Saindo do cemitério, foi novamente abordada pelo senhor.
Precisa de boleia? A paragem é longe. Venha, está tudo bem. Tem aqui alguém especial? Mas desculpe, não precisa responder
Uma amiga
A minha mãe está aqui. Tem algum destino?
Pode deixar-me na paragem, por favor. Não quero incomodar.
Está a chover, não há problema. Hoje não tenho ninguém a minha mãe já partiu, a minha mulher foi-se embora Está a chorar? Passou-se algo grave? Eu vi-a no funeral, eram um rapaz e uma rapariga, certo? Quarenta dias
Sim
Coincidência, a minha mãe também faz hoje quarenta dias Tem problemas?
No caminho, Mariazinha contou-lhe tudo.
Pronto, chegámos. Obrigado pela boleia, e por me ouvir.
Dois dias depois, Paulo apareceu à porta dela, decidido.
E, no dia combinado, Mariazinha apareceu.
Mariazinha, estive a pensar. Quero ajudar-vos. Estou livre, posso casar contigo já!
Ela ficou boquiaberta.
Não tem medo?
Não. Porquê?
O meu namorado fugiu só por eu lhe pedir ajuda para salvar a menina.
Eu ajudo. Só preciso que me diga onde vai viver com a criança.
Se a senhora que me aluga o quarto não me mandar embora, fico. Senão vou procurar outra casa.
Não faz sentido. Vem viver comigo. Amanhã tratamos dos papéis, já não temos tempo a perder. A minha casa é grande, há espaço suficiente.
Tem casa?!
Claro, a minha mãe sempre quis casa com jardim, não gostava de apartamento.
Também nunca me habituei. Eu e Leonor viemos do interior
Foi tudo rápido. Casaram discretamente e adotaram oficialmente a menina. Paulo levou Mariazinha e Irina para morar com ele.
Obrigada. A partir daqui, faço tudo sozinha.
Sozinha? Claro mas sempre que precisar, estou aqui. A casa é vossa, não vos vou incomodar.
Talvez fosse melhor alugarmos um apartamento, ficávamos só nós.
A minha mulher não vai viver sozinha, isso nunca!
Paulo nunca foi invasivo, mas estava sempre presente para ajudar. Mariazinha tentava fazer tudo por si, cozinhava inclusive para ele, limpava, tomava conta de Irina. Apaixonou-se, mas receava admitir.
Mãe, porquê que gostas de mim?
Porque és minha filha, minha querida.
Mariazinha era grata a Paulo. Ele cuidava delas como se fossem suas. Tratava Irina como verdadeiro pai.
Para Paulo, Mariazinha era a mulher ideal, só que o casamento deles não era real
Refletiu, e decidiu mudar isso. Numa noite, pediu Mariazinha em casamento de verdade. Irina já tinha três anos.
Mas já estamos casados
Quero ser uma família verdadeira, não só de papel.
Também quero
E assim se tornaram numa família de facto, não só no papel!
Agora, têm duas datas de casamento, com dois anos de diferença.
Irina ganhou um irmão e uma irmã.
Esta história começou há muito tempo. Hoje, todos os filhos são adultos. Irina sabe onde estão enterrados os seus pais biológicos.
Agora, as campas de ambos estão sempre cuidadas. Paulo e Maria são, para ela, os pais mais verdadeiros.
Irina já tem uma neta. E Maria e Paulo, uma bisneta. Uma grande família portuguesa, feliz e unida.







