A cunhada chegou com a mala “para uns dias”. Mas as férias à minha custa acabaram antes de ela desfazer as malas.

— Rui, põe a mala com cuidado, que lá dentro tenho um creme de luxo, se partires o frasco nunca mais te livras disso! — a voz da cunhada rasgou a calma do nosso hall de entrada com a segurança de quem volta a casa depois de uma ausência.

Deixei de lado a tesoura de costura. Cortar seda ao viés é coisa fina, que não tolera pressa, e a pressa acabara de bater a porta da rua com estrondo, invadindo o corredor juntamente com duas malas enormes.

À entrada estava a Júlia. Trinta e nove anos, zero dias de contribuições nos últimos cinco e o eterno papel de «musa incompreendida». Atrás dela, o meu marido trocava o peso de um pé para o outro, a esconder os olhos.

— Beatriz, ela é minha irmã, — resmungou o Rui com ar culpado, a agarrar a pega da mala. — Está a passar um mau bocado. Precisa de um sítio onde se encostar.

— Fico cá um tempinho, até ele vir pedir desculpa de rastos, — anunciou a Júlia, a descalçar os sapatos mesmo no meio da passagem. — Rui, leva as malas para o quarto, aquele com varanda. Preciso de ar puro para as minhas meditações.

Ela passou em direção à cozinha sem sequer me olhar. Eu, com um sorriso leve, observei aquele desfile de absurdo. Como costureira há vinte anos, sei bem: quando o tecido é podre, por mais que se alinhave, a costura vai ceder. A família do meu marido confundia a minha educação com falta de espinha.

Na cozinha, a porta do frigorífico bateu.

— Beatriz! — ouviu-se lá de dentro. — Porque é que não tens leite de amêndoa? Preciso para o meu batido. E esta prateleira vou esvaziá-la, vai ficar aqui os meus géis de detox. O teu chouriço pus entretanto na varanda, está-me a estragar a aura.

Entrei devagar na cozinha. O meu chouriço fumado estava mesmo na janela, abandonado.

— Júlia, — disse com calma, a colocar o chouriço no lugar. — A aura estraga-se é com a ociosidade. E a prateleira não vais esvaziar, porque lá estão os meus alimentos, comprados com o meu dinheiro. O leite de amêndoa vende-se no supermercado ao lado.

A cunhada levou as mãos ao peito, num gesto teatral.

— Rui! Ouviste como ela me recebe? Eu venho de alma aberta, ferida pela traição do meu marido, e ela atira-me com um chouriço à cara!

O Rui meteu-se entre nós, atrapalhado:

— Beatriz, deixa-a mudar as coisas. Ela está a passar por um momento difícil.

— Difícil é carregar a mala, Rui. Viver cá vai ser facílimo para ela, — eu sorri o mais doce que consegui. — Se, claro, aceitar as regras do nosso modesto pensionato.

A Júlia bufou, a mostrar com todo o seu ar que falava comigo por pura caridade.

Ao final da tarde, a sogra ligou. A dona Helena ligava sempre em alta-voz, para que a sua voz de benfeitora soasse mais imponente. Adorava ser generosa e nobre, mas sempre à custa dos outros.

— Beatriz, minha querida, — cantou o telefone. — Tu tens de mostrar sabedoria feminina. Rodeia a Júlia de cuidados. É nosso dever sagrado de família. Ela precisa de recuperar energias, dá-lhe pequenos-almoços, deixa-a dormir à vontade. Eu levava-a eu, mas a minha tensão sobe com barulho, tu percebes.

— Percebo, dona Helena, — respondi com ar pacífico. — Trate-se bem. A Júlia cá não se perde.

No dia seguinte, sábado, levantei-me cedo. Fiz pastéis de requeijão, passei um bom café. O aroma espalhou-se pela casa, e em breve apareceu a Júlia na cozinha, enrolada na minha manta de caxemira preferida.

— Ah, pequeno-almoço! — esticou a mão para o prato. — E os pastéis? Sem leite condensado de coco?

Calei-me, pus-lhe à frente uma chávena de café preto e deslizei uma folha de papel escrita em letra miúda.

— O que é isto? — A Júlia pegou no papel com dois dedos do seu manicuro perfeito, enojada.

— É o orçamento, Júlia.

A cunhada pestanejou, as pestanas postiças a bater.

— Uma mulher moderna deve respeitar os seus limites e viver no fluxo, não andar a contar cêntimos! — começou o seu discurso preferido. — Eu alimento-me de energia do cosmo, o material são vibrações baixas que bloqueiam os chakras!

— Os teus chakras bloquearam-se quando te despediste da logística há quatro anos para te «procurares a ti mesma», — contra-ataquei com calma, a beber um gole de café. — A energia do cosmo, infelizmente, não paga as contas da luz. E já agora, água e eletricidade são por contador.

— És uma mercenária sem espiritualidade, uma simples costureira! Só queres é coser os teus trapos! — guinchou a Júlia, a ficar vermelha.

Ergueu-se da cadeira, as narinas a fumegar de indignação, como um cão de raça a quem ofereceram uma bolacha em vez de foie gras.

Eu nem pisquei.

O Rui, acordado com o barulho, espreitou para a cozinha.

— Beatriz, o que é isso? De renda? Ela veio visitar!

— Um convidado, Rui, — virei-me para o meu marido. — É quem chega com um bolo, bebe um chá, elogia a dona da casa e vai dormir a sua própria cama. Quem chega com duas malas de roupa de Inverno em meados de Maio, ocupa um quarto só seu e exige leite de amêndoa — isso é um inquilino.

A Júlia respirou fundo, pronta para nova histeria.

— Sou família! Tenho direito! O meu irmão também vive aqui!

— Vive, Júlia, — concordei calmamente. — Mas isso não faz da minha casa um hotel de família. Ora, voltemos ao orçamento. Ponto um – renda do quarto. Ponto dois – alimentação dos meus produtos. Ponto três – água e luz. E ponto quatro – limpeza. Se não quiseres pagar a empregada, aqui está a escala de tarefas: hoje limpas a sanita e o fogão.

— Como te atreves?! — a cunhada sufocou. — Rui! A tua mulher está a pôr-me na rua!

O Rui olhou da minha cara serena para a cara vermelha e torcida da irmã.

— Júlia, — disse o marido, com uma firmeza inesperada. — A Beatriz tem razão. Não vieste para um hotel. Se queres viver cá, respeita a dona da casa e as regras.

Foi uma facada pelas costas que a cunhada não esperava. Assenti com aprovação e acrescentei o argumento final:

— E se tu, Rui, por pena, decidires pagar a estadia da tua irmã do teu bolso, descontamos esse valor do orçamento para o teu carro novo. Matemática simples.

O Rui, para quem o carro novo era o sonho dos últimos três anos, cruzou os braços resoluto, mostrando que não tencionava financiar os caprichos da irmã.

Ficando sem o apoio do irmão, sem pensão gratuita nem criada na minha pessoa, a Júlia agarrou no telemóvel e ligou à mãe.

— Mãe! Eles estão a gozar comigo! Obrigam-me a limpar sanitas! Vou para aí!

Do auscultador ouviu-se o cacarejar apressado da dona Helena:

— Ai, Júlia, filha, é que começaram as obras no corredor! Cheira a tinta, vou ter alergias! Tu aguenta-te lá com a Beatriz, sê boazinha! — e a chamada desligou-se de repente.

A Júlia ficou no meio da cozinha, a apertar o telemóvel apagado. O ar pomposo esvaziou-se, deixando a nu a verdade simples e crua: uma mulher adulta, habituada a viver à custa dos outros, descobrira de repente que o pescoço estava ensaboado.

Quarenta minutos depois, as malas rolaram pelo corredor, as rodas a chiar de raiva. E a Júlia, segundo se soube à noite, arranjou onde ficar. Numa amiga. Mas já sem leite de amêndoa, sem manta própria e sem criada de graça.

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