LealdadeThe old dog waited by the gate every afternoon, his tail wagging gently even as the rain soaked his fur, for he knew his master would return.

Inês não percebeu de imediato quem se movia ao longo da estrada. A rapariga estacionou o carro e correu para a criatura que desesperadamente precisava de ajuda…

Ao aproximar-se, Inês quase chorou de compaixão. Diante dela, cambaleando, estava um gato exausto. Inês nem sequer conseguiu perceber de que cor era, pois o animal estava todo sujo de lama.

Mas o pior – o coitado não conseguia ver nem respirar direito. Na cabeça, tinha uma garrafa de plástico cortada.

— Quem te fez isto? — horrorizou-se ela, ao levantar cuidadosamente o pobrezinho.

Parecia não ter peso. O gato tentou debater-se com as últimas forças, mas não conseguiu, ficando inerte nos seus braços.

— Artur, estás no trabalho? Preciso da tua ajuda urgentemente. Espera! — gritou ela ao telefone e disparou para a clínica veterinária onde o amigo trabalhava.

Nas duas horas seguintes, Artur e os colegas lutaram pela vida do animal. Inês sentou-se silenciosamente no corredor, a escutar.

— Bom, o que posso dizer… O gato teve sorte por te ter encontrado. Mais um pouco e não conseguiríamos salvá-lo. Hoje fica aqui. Estou de serviço e cuido do teu protegido — sorriu o rapaz.

— Artur, obrigada. Se não fosses tu, nem sei… — começou Inês, desatando a chorar, encostada ao ombro do veterinário.

Artur acariciou-lhe a cabeça:

— Vai correr tudo bem, Inês, lembras-te da nossa infância? — piscou-lhe o olho, à sua melhor amiga.

Inês sorriu entre lágrimas. Conheciam-se há anos. Artur tantas vezes a ajudara. Desde pequena que Inês sabia – se o Artur estava por perto, tudo ficaria bem.

— Vai para casa. Senão a tua mãe volta a zangar-se — preocupou-se o rapaz.

Inês anuiu e dirigiu-se rapidamente para a saída. Artur seguiu-a com um olhar terno…

*****

Artur não se inquietava sem razão. Era vizinho de Inês e conhecia a família. Os pais da rapariga há muito que abusavam do álcool.

No ano anterior, o pai tinha falecido. A mãe de Inês estava inconsolável. Cada vez mais perdia a forma humana e descarregava na filha.

Artur sempre sentiu pena daquela rapariga simpática, de cabelos ruivos e sardas.

Era três anos mais velho que Inês e desde cedo a tomara sob a sua proteção. Defendia-a dos valentões e das raparigas que a gozavam. Inês aceitava a ajuda do Artur com gratidão.

Ao contrário dos pais, ela ambicionava uma vida melhor. Inês terminou o secundário com 18 valores. E sabia que teria de se esforçar ao máximo para entrar numa faculdade de prestígio.

Agora, Inês estava no terceiro ano de Línguas e Literaturas.

Artur sentia muito orgulho da amiga. Ele próprio acabara há pouco a Faculdade de Medicina Veterinária, adorava o trabalho, mas achava que dominar línguas estrangeiras era muito mais difícil.

Inês conseguia não só estudar, mas também trabalhar como entregadora de encomendas num carro usado que herdara do pai.

— Estou em casa! — gritou Inês da entrada.

Em resposta, ouviu-se um ronco compassado. Pela casa espalhava-se um cheiro intenso a álcool. A mãe dormia, com a perna pendurada no sofá. No chão, garrafas vazias.

A rapariga suspirou fundo, arrumou o lixo e foi para o quarto – preparar-se para as aulas.

A imagem do gato maltratado não lhe saía da cabeça. Como estaria ele? Pegou no telemóvel e escreveu ao Artur…

O pobre gato dormia, a estremecer inquieto. Parecia-lhe que os algozes ainda estavam perto. Gemia baixinho de dor e voltava a cair na escuridão.

— Vais safar-te, guerreiro! Pela Inês. Ela espera-te e deseja-te saúde — sussurrava Artur, sentado ao lado.

De manhã, o gato abriu os olhos e, ao ver uma pessoa perto, tentou fugir. Mas não conseguiu. Olhava para Artur cheio de terror. No seu olhar, a dor congelada.

— Calma, pequenino, não te faço mal — dizia Artur.

Mas o gato sabia que neste mundo não se podia confiar em ninguém. Quis sibilar, mas da garganta saiu um grasnido.

— Está tudo bem, bonitão — examinava-o o rapaz, com cuidado.

Durante toda a semana, o coitado ficou na clínica. Inês ia todos os dias ver o animal, que a princípio se assustava com as pessoas. Mas depois escolheu Inês e Artur, e começou a deixar-se aproximar com cautela.

— Então, decidiste levá-lo para casa? — perguntou Artur à rapariga.

Preocupava-se com a reação da mãe de Inês ao novo membro da família. Inês acenou com segurança, apertando o gato contra si…

Para surpresa, a mulher recebeu o animal com calma. Apenas perguntou, com voz rouca:

— Espero que não seja eu a ter de lhe dar de comer?

Inês sorriu com ironia. A Teresa gastava toda a reforma em bebida. O gato e a filha não entravam nos seus planos.

— Mãe, eu própria lhe darei de comer — suspirou a rapariga.

— Resposta de adulta. Muito bem — disse a mãe, satisfeita.

E, como se acordasse, perguntou:

— E como se chama?

Inês olhou para o gato cinzento-alaranjado e respondeu:

— Lince.

— Realmente, parece um lince — riu-se Teresa.

Assim, passaram a viver com o gato. Inês sentia mais alegria ao voltar para casa, pois sabia que a esperavam…

Lince não confiava em Teresa. A mulher assustava-o com a voz rouca e os movimentos bruscos. E o cheiro a álcool irritava o gato.

Por isso, tentava não ser visto pela dona quando Inês não estava.

— É tão selvagem, nada carinhoso — queixava-se a mãe, descontente.

Inês encolhia os ombros e evitava discussões.

Quando Artur vinha visitá-la, Lince aproximava-se com cuidado. Depois esfregava-se nas pernas. Lembrava-se bem do rapaz e agradecia-lhe o salvamento.

Artur contou a Inês que Lince tinha cerca de quatro anos. Mas o gato já sofrera muito. Faltavam-lhe alguns dentes, tinha problemas numa pata e no coração.

— Esforço excessivo, como por exemplo um voo de avião, é perigoso para a saúde dele — disse Artur.

— Ah, e nós que íamos de férias para o estrangeiro com o Lince — riu-se a rapariga, sabendo muito bem que nenhum voo era possível…

Assim passaram dois anos.

Inês terminava a licenciatura e sonhava com a carreira de tradutora. Um dia, entregou um pacote de documentos no escritório de uma grande empresa.

A secretária recebeu a encomenda. Inês já se preparava para sair, quando um homem saiu de um gabinete, aflito:

— Já não sei o que fazer! As negociações são dentro de uma hora e não há um tradutor decente! — suspirou ele.

Inês olhou para o homem bonito. Ele também reparou nela.

— Você, por acaso, é tradutora? — perguntou.

A secretária abriu a boca, mas Inês antecipou-se:

— Sim, sou. Falo inglês e chinês — respondeu com energia.

De soslaio, viu os olhos da secretária arregalados como pires. Mas decidiu arriscar…

Assim, Inês Santos acabou o curso e foi contratada como assistente pessoal de Miguel Valente.

Miguel era um homem encantador de trinta e cinco anos. Passados dois meses, a relação deixou de ser apenas profissional. Inês gostava da atenção dele. Miguel cortejava-a com requinte, dava-lhe prendas originais.

— Não te reconheço, amiga. Desde que arranjaste trabalho, mudaste — dizia Artur a Inês.

A rapariga sorria enigmática. Não queria partilhar a sua felicidade com ninguém…

— Devias dizer-lhe. Há quanto tempo andas a suspirar por ela? — insistia o melhor amigo de Artur, o Nuno.

— Talvez tenhas razão. Mas tenho medo que ela não corresponda. E estragaria a nossa amizade — confessou o rapaz.

— Isto não é amizade, é tortura. Já nem tens cara — suspirou Nuno, sombrio.

Artur sabia que o amigo tinha razão…

Era o aniversário do Artur, e Inês, como sempre, foi a primeira a dar os parabéns. Bateu à porta. Artur já a esperava.

— Artur, muitos parabéns! — disse Inês, entrando.

— Tantos anos, e nada muda — sorriu a mãe do Artur, a observá-los.

Inês, como sempre, fizera o bolo preferido do amigo. Estavam sentados na cozinha a beber chá.

— Estás hoje misterioso, Artur. O que se passa? — perguntou Inês, primeiro.

— Inês, sabes que há muito que te queria dizer… — começou Artur. Mas Inês interrompeu-o:

— Olha, também tenho uma conversa séria contigo.

O rapaz ficou imóvel. No coração, uma centelha de esperança.

— Então fala tu primeiro — sugeriu ele.

Inês sorriu:

— Arranjei trabalho. Isso já sabes. E também… apaixonei-me! — exclamou, olhando Artur nos olhos.

Ele até se perturbou por um momento:

— Finalmente, Inês. Fico tão feliz, porque eu também te… — não acabou a frase, pois ela interrompeu novamente:

— E ele é tão atencioso… É mais velho, mas isso não importa, certo?

Artur pensou. A diferença entre eles era de apenas três anos e não o incomodava. O rapaz acenou e continuou a ouvir, suspenso.

— Percebes, é a minha oportunidade para uma vida feliz. O Miguel parte para Londres daqui a dois meses e quer que eu vá com ele.

Mas não posso levar o Lince. Tu próprio disseste que ele tem o coração fraco. E o Miguel é alérgico a animais — disse ela.

Artur ficou atónito. Sentiu como se um rolo compressor lhe tivesse passado por cima:

— Espera, que Miguel? O que tem a alergia e o Lince a ver? — perguntou baixinho.

— Artur, estás a ouvir-me? O Miguel é o meu chefe e noivo. Vamos para Londres. Sempre sonhei em viver e trabalhar no estrangeiro. É uma grande experiência!

Mas não podemos levar o Lince. Não sei o que fazer. Deixá-lo com a minha mãe não é opção, nem dá-lo a alguém… O Lince não se aproxima de ninguém, tu sabes — suspirou Inês.

Artur ficou calado.

“Que parvo que fui!” — passou-lhe pela cabeça. Esforçou-se por se controlar e sorriu despreocupado:

— Bom, Inês, que notícias! Não te preocupes, amiga. Vai correr tudo bem, prometo! Fico eu com o Lince. Ele conhece-me. O importante é que sejas feliz — disse ele, alegre.

Inês olhou nos olhos de Artur. Estavam tristes, apagados, embora minutos antes brilhassem de felicidade.

— O que me querias dizer? — perguntou ela, hesitante.

— Ah, não é nada. Umas mudanças no trabalho — fez Artur um gesto de mão…

Durante dois meses, Inês preparou a viagem.

Estranhamente, quanto mais próxima a partida, mais o coração lhe pesava:

“Devo ter medo de deixar a minha mãe sozinha…” — pensava Inês. Mas no fundo sabia que não era a principal razão da sua tristeza.

Diante dos olhos, o olhar melancólico de Artur. Como viveria sem ele? Eram melhores amigos há tantos anos.

Ultimamente, Inês até começara a sentir que a amizade se tornara algo mais…

“Chega! Vou viver com o Miguel em Londres. E estou a pensar no Artur” — afastou os pensamentos inquietantes.

Lince trepou-lhe para o colo com cuidado. Sentia que algo se passava com a dona. Por isso, tentava acalmá-la, a ronronar suavemente.

— Lince, meu amor. Como vou viver sem ti? — sussurrava Inês.

Lembrava-se da recente conversa com Miguel, que deixara claro que o gato não tinha lugar na vida deles:

— Inês, não posso passar a vida a tomar comprimidos por causa de um animal. Por mais querido que seja — dissera ele.

E aquelas palavras soaram como uma sentença…

— Então, Inês, chegou a hora da despedida! — disse Artur, animado. Segurava o Lince nos braços.

— Artur, liga, por favor, não te esqueças — sussurrou a rapariga entre lágrimas.

— Não desanimes, senão o Lince fica nervoso. Desculpa não irmos ao aeroporto — sorriu Artur.

Estavam no patamar das escadas. O rapaz deixou o Lince entrar e abraçou Inês.

“Não a deixes ir… Não a deixes!” — pulsava-lhe nas têmporas.

— Tenho de ir — disse Inês, beijando-lhe a face.

— Nunca me esquecerei. Nunca — murmurou Artur, afrouxando os braços…

Ela estava no balcão do check-in, a perceber que naquele momento se decidia o seu destino.

— Então, porque estás tão triste? — animou-a Miguel.

Ela esforçou-se por sorrir.

“Nunca me esquecerei… Nunca…” — ecoavam as palavras de Artur nas suas têmporas…

Inês olhava pela janela o edifício do aeroporto a afastar-se.

— Veio de algum lado? — perguntou o taxista.

— Não, simplesmente fiquei — respondeu Inês, com lágrimas de felicidade.

— Acontece… Acho que fez a escolha certa — comentou o motorista, filosófico.

Lince estava sentado, triste.

— Vai correr tudo bem, Lince! — animava Artur.

Alguém bateu à porta com insistência. O rapaz abriu e ficou paralisado…

— Naquela noite do teu aniversário, querias dizer-me alguma coisa, mas eu interrompi — disse Inês.

Artur sorriu:

— O que fazes aqui? — perguntou ele.

— Artur, responde: o que querias dizer? — repetiu Inês.

Mas o rapaz ficou calado, a olhar para ela. Depois aproximou-se e abraçou a rapariga.

Ela acariciou o Lince, que se roçava nos seus pés, e sussurrou:

— Amo-te, e não consigo viver sem ti e sem o Lince…

— Era exatamente isso que te queria dizer, minha querida — respondeu Artur.

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LealdadeThe old dog waited by the gate every afternoon, his tail wagging gently even as the rain soaked his fur, for he knew his master would return.
Алина, осиновила 2 момчета, а след това Бог ѝ изпрати дъщеря!