Matilde nunca conseguia engolir os dias em que os possíveis adotantes apareciam no lar de crianças! Em sete anos a viver ali, nunca foi a escolhida. Antes, quando era mesmo pequenina, ficava ansiosa por esses dias. Olhava, encantada, para as senhoras e senhores bem vestidos, como se fossem mágicos prontos a levá-la para um castelo qualquer! Já sonhava com a nova mãe a dar-lhe um beijinho antes de dormir e o novo pai a levá-la às cavalitas. E então teria finalmente o seu próprio quarto. E não precisava mais de aturar o chato do Vítor, sempre pronto a puxar-lhe as tranças e a chamá-la de Pardalita.
Matilde nem sabia bem o que era isso de “Pardalita”, mas soava-lhe a ofensa séria. E lá vinha o Vítor:
Pardalita! Pardalita!
Ela tinha cinco anos quando ficou órfã num acidente de carro. Durante muito tempo não percebeu por que razão a mãe e o pai nunca vinham. E porquê é que a tinham deixado ali.
Com o tempo, entendeu que já não estavam cá. As imagens deles evaporaram-se aos poucos. As vozes, os cheiros, a casa onde viveram juntos tudo desbotou.
Matilde queria tanto ser escolhida um dia! Mas o milagre nunca chegou, e ela começou a perceber que seria sempre aquela que ficava. Era que a Matilde não era propriamente uma beldade. Adotavam, claro, as meninas giras, cabelo arranjado, sorrisos dignos de postal.
O Vítor continuava a importuná-la, mas agora ao menos Matilde sabia que pardalita era mesmo uma ave.
Nesse dia, voltaram os candidatos à adoção. Vestiram as miúdas todas, laços nas fitas, cabelos impecáveis. Matilde, cheia de si, cortou o cabelo curtinho, estilo rapaz. Já não queria mesmo ser escolhida. Decidiu que daí em diante seria ela a escolher, na vida e no resto!
Quando viram a Matilde de cabelo à rapaz, as educadoras ficaram boquiabertas, e o Vítor, claro, atirou-lhe logo:
Pardalita!
Matilde fazia doze nesse ano. Vítor era três anos mais velho.
Mais uma vez, ninguém a escolheu. Fazia de conta que era pelos cabelos e pelo ar de trovoada nos olhos.
Três anos depois, lá foi o Vítor o seu grande antagonista embora. Despediu-se de todos, e depois aproximou-se da Matilde:
Então adeusinho, Pardalita!
Adeus, adeus respondeu ela, altiva.
Aguenta firme! Falta pouco agora. Três aninhos e levo-te comigo! atirou ele, decidido.
Pois sim e quem te disse que és tu que eu vou escolher? Ó cabecinha de vento! respondeu ela, despeitada.
O Vítor ficou a olhá-la com um daqueles olhares meio estranhos, e foi-se embora sem nunca olhar para trás.
Quando chegou a sua vez, Matilde saiu finalmente do lar, respirou fundo aquele ar de liberdade e sentiu-se quase adulta. Já não era o patinho feio, mas sim uma espécie de cisne imponente: cabelo bonito até à cintura, olhos verdes enormes, corpo elegante. Rumou para o apartamento dos pais. E, de repente, ouviu uma voz:
Olá, Pardalita!
Virou-se era o Vítor.
O que estás aqui a fazer? perguntou, desconfiada.
Prometi que te vinha buscar. Ora cá estou! Vítor aproximou-se.
Mas eu já te disse: agora sou eu quem escolhe! disse-lhe com ar decidido. Vítor, mais alto e robusto, olhou para ela de cima:
Então escolhe-me lá, Matilde!
Talvez, vou pensar nisso e disparou rumo ao novo lar.
Vítor seguia-a até à porta do prédio. Esperou que entrasse, e lá foi à vida dele. Mas, desde esse dia, todas as noites aparecia por baixo da janela dela. Lá ficava, no banco, a olhar para as luzes do apartamento até Matilde apagar o candeeiro.
O verão deu lugar ao outono, depois chegou o inverno. E o Vítor continuava a ir todos os dias. Um dia, Matilde decidiu sentar-se ao lado dele:
Não te sentes farto disto? Não deves ter frio?
Nada disso. Aguento bem. Só te peço uma coisa: escolhe-me, por favor! pediu ele, com aquele olhar terno e comprido.
Matilde saltou, aflita, e correu para dentro. Espreitou detrás da cortina, a vê-lo olhar para as janelas.
Chegava o fim do ano. No dia 31 de dezembro, Matilde corria para casa depois do trabalho, ainda tinha de preparar a mesa, vestir o vestido novo o ano novo aí à porta! E o Vítor não estava cá fora. O coração deu-lhe um baque… Será que lhe tinha acontecido alguma coisa?
Uma hora depois, com todo o rebuliço preparado e uma taça de espumante na mão, lá foi ela espreitar nada do Vítor. O peito apertava, carregado de más suspeitas. Sentiu-se disparatada, burra mesmo: “E agora?! Procuro-o onde? Nem o número dele sei, nem morada, nada! Que cabeça a minha!”
Nisto, algo brilhou lá fora!
“Já começaram os foguetes”, pensou, e chegou-se à janela para ver o fogo de artifício.
No meio da neve, enormes letras de fogo desenhavam-se:
ESCOLHE-ME, MATILDE!!!
E lá estava o Vítor, no banco, a acenar-lhe, todo contente.







