O que se passa com os homens de hoje em dia! Convidei um para minha casa, achei que ia resultar numa relação.

Por algum motivo que ainda não compreendo completamente, muitas mulheres em Portugal acham que, depois dos quarenta anos e com um ou dois divórcios às costas, está tudo acabado e mais vale desistir de procurar a felicidade. Eu próprio estou nessa situação. Casei-me duas vezes: da primeira, ainda muito nova, tive uma filha. A segunda vez foi já com trinta anos feitos. Nenhum dos casamentos durou mais de dois anos. Parecia que havia sempre algo que não batia certo nos homens.

É claro que, após o segundo divórcio, fui conhecendo outros homens, mas nunca ninguém ficou tempo suficiente para um compromisso sério. Hoje tenho quarenta e cinco anos e, apesar de tudo o que já vivi, continuo a acreditar que a felicidade é possível e que algures por aí deve andar a minha alma gémea. Para encurtar conversa, há coisa de um mês conheci um homem, por acaso, na rua. O Manuel tem quarenta e nove anos. Eu estava a passear no Jardim da Estrela, sempre impecavelmente vestida e cuidada como é apanágio meu e decidi entrar numa esplanada para beber um café.

O Manuel aproximou-se, meteu conversa e, embora não fosse bem o meu tipo, notei logo que era um homem asseado e com bons modos. Apresentámo-nos e ele ainda me ofereceu outro café. Naturalmente, fui direta ao assunto e perguntei-lhe se tinha mulher ou namorada. Respondeu de forma algo vaga, o que me levou a suspeitar que houvesse alguma coisa. Ainda assim, convidei-o a ir a minha casa. Aproveitei para lhe oferecer um chá e um bolo de laranja que eu própria tinha feito no dia anterior. Sim, podem achar-me maluca por ter levado um desconhecido a casa, mas vivi a vida toda em Lisboa e fui vista por vários vizinhos não senti motivo para receios. E o Manuel não me pareceu perigoso.

Entrámos, tirei-lhe o casaco no hall e, de repente, ele lança logo:

Ui, tens mesmo um apartamento espaçoso Mas olha que as paredes fazem lembrar os anos noventa!

Fingi não ligar. A última vez que fiz obras foi há dez anos, é verdade, mas a casa mantém-se agradável. Porquê gastar os meus euros com paredes e tetos, quando posso investir em mim? Será isto tão errado?

Servi-lhe o chá e prateleiras de bolo. Conversámos, bebemos e ele não tardou a voltar a queixar-se da casa. Decidi responder-lhe sem rodeios: E que importância tem onde moro? Porque não me convidas tu para ir a tua casa?. Como seria de esperar, calou-se de imediato. Não respondeu nem aludiu ao tema, despediu-se e prometeu telefonar dentro de uma semana.

Ora, durante uma semana nada: nem um toque, nem sequer uma mensagem. Até que, já tarde numa noite de sábado, recebo mensagem a perguntar se podia ir ver-me. Respondi-lhe que, se viesse, teria de me ajudar a renovar a sala; se vinha, que trouxesse as mãos preparadas para colar papel de parede. Subitamente, lembrou-se que afinal tinha um compromisso urgente e jurou que voltava a ligar para combinar noutra altura. Tenho quase a certeza de que o Manuel é casado e anda à procura de uma segunda vida ao lado de uma senhora endinheirada. Ora, não sou candidata a isso. No fundo, percebi que entre nós nunca poderia haver mais do que conversa de circunstância. E o mais importante, para mim, é saber que o destino guarda alguém para mim. Fiquei ainda com um conselho para todas as mulheres: se um homem não mexe uma palha por si, porque há de valer a pena insistir nele?

Hoje, fecho o diário com uma lição: nunca desistir de acreditar no amor depois dos quarenta. E não deixar que o medo da solidão nos leve a contentarmo-nos com menos do que merecemos.

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